CLSSICOS CONTEMPORNEOS
A casa da Rssia

JOHN LE CARR  pseudnimo de David J. M. Cornwell. Nasceu em Poole, Inglaterra, em 1931. Estudou nas universidades de Berna e Oxford e foi professor em Eton. Em finais dos anos quarenta foi membro dos servios secretos britnicos destacado na ustria. De 1961 a 1964 foi funcionrio do Foreign Office. O seu primeiro romance, Chamada para a Morte, foi publicado em 1961; mas  com O Espio que Saiu do Frio que alcana fama internacional. Entre as suas obras destacam-se Uma Pequena Cidade da Alemanha, Um Espio Perfeito, A Gente de Smiley ou A Rapariga do Tambor. Tambm muitas obras de Le Carr deram origem a sries de televiso ou a filmes, como  o caso de A Casa da Rssia.

Traduo de Jos Vieira de Lima
John Le Carr
A casa da Rssia
PLANETA

CLSSICOS CONTEMPORNeOS
Ttulo original: The Russia House Traduo: Jos Vieira de Lima  1989 by Da@id Cornwell
Publicaes Dom Quixote, Lda.. Lisboa T) Editora Planeta De Agostini, S. A., Lisboa. 1999, para a presente edio Edio especial para Placresa. S.A.
Todos os direitos reservados Terceira edio: Julho de 2000 ISsN: 972-747-412-8 Depsito Legal: 13.5.176/99 Impresso e encadernao: Cayfosa-Quebecor; Santa Perptua de Mogoda (Barcelona) Impresso em Espanha - Printed in Spain

Para Bob Gottlieb, grande assistente editorial
e amigo paciente.

"Penso, efectivamente, que as pessoas desejam tanto a paz que um destes dias os governos tero de mudar de rumo
e de lhes dar essa paz." DWIGHT D. EiSENHOWER
"Temos de pensar como heris para
nos comportarmos como seres humanos minimamente decentes."
MAY SARTON

PREFCIO
Os agradecimentos nos romances arriscam-se a ser to maadores como os crditos no cinema. No entanto, comove-me forosamente a presteza com que pessoas habitualmente to ocupadas me oferecem o seu tempo e o seu saber para me ajudarem a levar a cabo uma empresa to frvola como a minha. Por isso, no posso deixar de aproveitar esta oportunidade para lhes agradecer.
Lembro com especial gratido a ajuda de Strobe Talbott, ilustre jornalista de Washington, sovietlogo e autor de vrias obras sobre defesa nuclear. Se h erros neste livro, no so decerto da sua responsabilidade, e muitos mais haveria sem a sua colaborao. O professor Lawrence Freedman, autor de vrias obras modelares sobre a guerra moderna, honrou-me tambm com a sua assistncia, mas o meu simplismo no  obviamente culpa sua.
Frank Geritty, durante muitos anos agente do Federal Bureau of Investgation, iniciou-me nos mistrios do detector de mentiras, agora tristemente denominado polgrafo, e se as minhas personagens no valorizam tanto quanto ele os poderes dessa mquina, so elas que merecem a censura do leitor, e no o meu precioso colaborador.
Devo ainda uma retractao a John Roberts e  sua equipa da Associao Gr-Bretanha-URSS,  qual ele preside. Foi John Roberts que me acompanhou na minha primeira visita  URSS, abrindo-me todas as portas que, de outro modo, se teriam mantido fechadas. Mas ele nada sabia - nem me fez qualquer inqurito nesse sentido -
acerca dos meus negros intentos. Da sua equipa, seja-me permitido mencionar em particular Anne Vaughan.
Os meus anfitries soviticos da Unio de Escritores revelaram idntica discrio e uma largueza de esprito que no deixou de me surpreender. Qualquer pessoa que visite a Unio Sovitica nestes

anos extraordinrios e que tenha o privilgio de manter as conversas que eu pude manter, ter forosamente de regressar com um dura- douro amor pelo seu povo e com um sentimento de respeito perante a grandiosidade dos problemas com que se confronta. Espero que os meus amigos soviticos vejam reflectido nesta efabulao algum do calor que senti na sua companhia, e um pouco da esperana que partilhmos no sentido de um futuro mais so e mais amistoso.
O jazz  um grande unificador e no me faltou o apoio de amigos quando se me deparou o saxofone de Barley. Wally Fawkes, o celebrado autor de banda desenhada e msico de jazz, emprestou-me o seu ouvido de msico, e John Calley, o seu conhecimento perfeito tanto de letras como de msicas. Se tais homens pudessem um dia governar este mundo, arriscava-me a que acabassem todos os conflitos que me tm inspirado.
JOHN LE CARR
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Numa movimentada rua de Moscovo, a menos de duzentos metros da estao de Leninegrado, no ltimo piso de um hotel de arquitectura to arrebicada quanto medonha, mandado construir por Estaline no estilo que os moscovitas denominam de Imprio durante a Peste, a primeira feira audio do British Council para o ensino do Ingls e a divulgao da cultura britnica aproximava-se do seu penoso fim. Eram cinco e meia da tarde, e fazia um tempo de Vero instvel. Depois de uma srie de violentos aguaceiros durante todo o dia, um sol enganador reluzia nos charcos e fazia fumegar os passeios. Quanto aos transeuntes, os mais jovens usavam jeans e tnis, mas os mais velhos aconchegavam-se ainda nos seus abafos.
O salo que o British Council tinha alugado no era caro mas tambm no era apropriado para o efeito. Tive oportunidade de ver esse salo, no h muito tempo, numa misso inteiramente diferente. Subi nas pontas dos ps a grande escadaria vazia e, com um passaporte diplomtico no bolso, deixei-me ficar no meio do salo, naquela obscuridade eterna que envolve todos os velhos sales de baile quando neles cai o adormecimento. Com os seus rotundos pilares castanhos e os espelhos dourados, mais parecia um salo de um navio prestes a naufragar e no propriamente o local ideal para lanar uma grande iniciativa. No tecto, russos ameaadores, com bons proletrios, erguiam punhos fechados junto a Lenine. O seu vigor contrastava dramaticamente com as prateleiras verdes j lascadas, cheias de cassetes, que ocupavam as paredes de uma ponta  outra, com ttulos to diversos como Wnnie-the-Pooh e Advanced Computer English n Three Hours. As cabinas de som, revestidas a serapilheira, de fabrico local e sem muitas das qualidades que seriam desejveis, tinham a tristeza de cadeiras de praia num dia de chuva. Os stands dos exibi-
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dores, aglomerados sob uma vasta galeria, pareciam to blasfemos como lojas de apostas num tabernculo.
Apesar de tudo decorrera ali uma feira, ainda que de duvidosa qualidade. Os visitantes tinham acorrido, como  habitual entre os moscovitas, desde que tenham os documentos e o estatuto susceptveis de satisfazerem os rapazes de bluses de cabedal e olhar duro que os esperam  porta. Acorrem porque  de bom tom. Por curiosidade. Porque querem falar com ocidentais. Porque  um acontecimento. E agora, na quinta e ltima noite da feira, a grande festa de despedida de exibidores e convidados comeava a ficar animada. Uma mo cheia de membros pouco importantes da nomenclatura da burocracia cultural sovitica agrupava-se sob o candelabro, as mulheres com os seus penteados em forma de colmeia e vestidos com flores estampadas, os homens apertados em fatos reluzentes de produo francesa, o que significava acesso s lojas de roupas especiais. Apenas os anfitries britnicos, em tons tristemente cinzentos, cumpriam a monotonia de austeridade socialista. O tumulto cresceu quando uma brigada de governantas com aventais comeou a distribuir sanduches de salame em forma de anel e vinho branco quente. Um diplomata britnico de alto nvel, que no era propriamente o embaixador, distribua cumprimentos efusivos e dizia estar encantado.
Entre toda aquela gente, apenas Niki Landau se tinha afastado das celebraes. Curvado sobre a sua mesa no stand vazio, somava as suas ltimas encomendas e verificava as cpias dos recibos e as despesas, porque uma das suas mximas era s procurar a diverso depois de concludo o trabalho.
Pelo canto do olho, via uma mulher sovitica que deliberadamente ignorava - uma mulher que, naquele momento, no passava para ele uma mancha azul e ansiosa. Sarilhos, pensava ele enquanto trabalhava. A evitar.
O ambiente de festa @no se tinha propagado a Landau, no obstante o seu temperamento festivo. Uma das razes era que nutria uma averso indestrutvel por todo e qualquer funcionrio britnico, sentimento que vinha dos tempos em que o seu pai fora obrigado a regressar  Polnia. Quanto aos britnicos em geral, disse-mo mais tarde, no tinha nada a apontar-lhes. Era um deles por adopo e exibia a reverncia formal dos convertidos. Mas os lambe-botas do Foreign Office eram outra coisa. E quanto mais se davam ares superiores, olhando-o do alto com uma cara enjoada e um sorriso afectado, tanto mais ele os odiava, tanto mais ele pensava no pai. Por outro lado, se pudesse dispor de si prprio, nunca teria participado na feira. Ter-se-ia antes refugiado em Brighton, com uma namorada especialmente simptica, chamada Lydia, que conhecera recentemente, num pequeno hotel privado no menos simptico, ideal para levar namoradas.
" prefervel prepararmo-nos para a feira do livro de Moscovo em Setembro", tinha dito Landau aos seus clientes na sede da empresa,
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na passagem secundria ocidental. "No sei se ests a ver, Bernard, os russos gostam de livros, mas uma feira audio vai assust-los, eles ainda no esto preparados para isso. Com a feira do livro,  dinheiro em caixa. Com a feira audio,  morte certa."
Mas os clientes de Landau eram jovens e ricos e no acreditavam na morte. "Meu, rapaz", disse Bernard, abeirando-se dele e pondo-lhe uma mo no ombro, coisa de que Landau no gostava, "no mundo de hoje, temos de exibir bem a bandeira. Somos patriotas, Niki, percebes? Como tu s.  por isso que somos uma companhia internacional. Hoje, com a glasnost, a Unio Sovitica  o Evereste do comrcio audiovisual. E tu, Niki, tu vais levar-nos ao topo. Porque se no o fizeres, encontraremos quem o faa. Algum mais jovem, certo, Niki? Algum com a energia e a classe necessrias."
Energia ainda Landau tinha. Mas a classe, como ele era o primeiro a confessar, a classe, era melhor no falar disso. O que ele era, era um pndego, e gostava de o ser. Era um polaco pndego, enrgico e baixinho, e tinha orgulho em ser assim. Era o bom do Niki, o camaradinha malcriado das vendas para o Leste, capaz, como ele gostava de se vangloriar, de vender fotografias porcas a um convento georgiano ou tnico capilar a uma bola de bilhar romena. Ele era Landau, o atleta de quarto raqutico, que usava saltos mais altos que o normal para dar ao seu corpo eslavo a escala inglesa que tanto admirava, e que vestia fatos caros e  moda que no o deixavam passar despercebido. Quando o bom do Niki acabou de montar o seu stand, os seus colegas de negcios garantiram aos nossos annimos inquiridores que se podia ouvir o tinido do sino no seu carrinho de vendedor ambulante polaco.
E Landau, esperto como era, partilhava a piada com eles, jogava o jogo deles. "Pois , pessoal, eu sou o polaco em que vocs no tocariam nem com uma barcaa"', declarava ele orgulhosamente depois de pedir mais uma rodada. Era o processo que Landau utilizava para que os outros rissem com ele em vez de se rirem dele. E ento, era de esperar que, para demonstrar o que acabava de dizer, Landau sacasse de um pente do bolso de cima do casaco e se baixasse quase como se fosse ajoelhar, aps o que, com a ajuda de um quadro pendurado na parede ou uma outra qualquer superfcie polida, domaria o seu cabelo muito preto, preparativo essencial para uma conquista fresca, usando as duas mos pequeninas para dar  cena um ar bem viril. "Mas quem  aquela jovem acabada de chegar que eu estou a
' No original, "l'm the Pole you wouldn't touch with a barge": trata-se d um triplo trocadilho absolutamente intraduzvel. Em primeiro lugar, h um jogo de palavras com a expresso "you wouidn't touch with a barge pole" ("Vocs no querem nada comigo". "Vocs; no me
suportam", etc.). Barge pole  o varejo usado para fazer mover as barcaas, mas - segundo trocadilho - "Pole", com maiscula, significa "Polaco". Finalmente, e neste caso  importante, "pole", em calo, significa tambm "pnis", especialmente se em ereco. A observao de Landim aponta portanto para duas zonas de sentido: o tratamento que lhe  infligido pelos colegas de profisso e a sua presumivelmente fogosa sexualidade. (N. do T.)
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ver ali naquele canto?", perguntava ele na sua muito pouco ortodoxa mistura de polaco de gueto com cokney do East End. "Ol, querida! To sozinha... No me diga que vai passar a noite toda a sofrer sozinha?" E uma em cada cinco vezes, Landau tinha sucesso, o que, para a sua contabilidade, constitua uma boa mdia. O que era preciso era manter a iniciativa.
Mas nessa noite Landau no pensava em sucessos, nem to pouco em iniciativas. O que ele estava a pensar  que de novo suara as estopinhas toda a semana para ganhar uma ninharia - ou, como ele mo disse mais explicitamente, para ganhar um beijo de puta. E pensava ainda que todas as feiras, fossem elas feiras do livro ou feiras audio ou quaisquer outras feiras, lhe estavam a consumir mais energias do que ele gostava de admitir,. tal e qual como acontecia com todas as mulheres. E em troca desse dispndio de energias pouco recebia. No dia seguinte regressaria a Londres, mas se pudesse apanharia naquele momento o avio. E se aquela ave russa toda de azul no desistisse de se insinuar no horizonte da sua ateno, no preciso momento em que ele tentava fechar as contas e em que se preparava para pr o sorriso festivo e para se juntar quela to exultante multido, era muito provvel que lhe dissesse uma certa palavra da lngua russa que ambos lamentariam toda a vida.
Que ela era russa, no havia dvida. S uma russa andaria com uma saca de plstico dependurada no brao, pronta para a compra ocasional que  a alegria da sua vida quotidiana, ainda que na maior parte dos casos no usassem sacas de plstico, mas de corda. S uma russa seria capaz de se mostrar to intrometida, ao ponto de poder verificar a aritmtica de um homem. E s uma russa prefaciaria a sua interrupo com um daqueles grunhidos insuportveis que, num homem, lhe faziam lembrar o pai apertando os atacadores dos sapatos e que, numa mulher, Harry, ah, numa mulher, fazem-nos logo pensar em cama.
"Desculpe, sim... o senhor trabalha para a firma Abercrombie & Blair?", perguntou ela.
"No  aqui, minha querida", retorquiu Landau sem sequer erguer a cabea. Ela fizera a pergunta em ingls, portanto ele respondera em ingls, como alis sempre fazia.
"O senhor  Mr. Barley?" "Barley, no, minha querida, Landau." "Mas este  o stand de Mr. Barley." "No  nada o stand do Barley. Este  o meu stand. Abercrombie & Barley  ao lado." Ainda de cabea baixa, Landau apontou com o lpis para a esquerda, para o stand vazio do outro lado do tabique, onde um cartaz pintado a verde e dourado anunciava a antiga casa editora de Abercombrie & Blair, NorfoIk Street, Strand.
"Mas esse stand est vazio. No est l ningum", objectou a mulher. "Ontem tambm estava vazio."
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"Correcto. Correctssimo", retorquiu Landau, num tom capaz de acabar com qualquer conversa. Ento, debruou-se ainda mais sobre o seu livro de contas, aguardando que a mancha azul desistisse e desaparecesse. Sabia que estava a ser mal-educado, mas quanto mais ela persistisse mais lhe apetecia ser grosseiro.
"Mas onde  que est Scott Blair? Onde  que est o homem a quem chamam Barley? Tenho de falar com ele.  muito urgente."
Nesse momento Landau odiava-a j com uma ferocidade perfeitamente cega.
"Mr. Scott Blair", disse ele erguendo de chofre a cabea e olhando-a bem de frente, "Mr. Scott Blair, Barley para os ntimos, est awo]', minha senhora, o que significa ausente sem permisso. A companhia dele reservou um stand - disso no h dvida. E Mr. Scott Blair  director, presidente, governador-geral e, pelo que sei, ditador vitalcio dessa companhia. No entanto, no ocupou o seu stand." Nesse momento, reparando que toda a ateno dela estava concentrada nas suas palavras, Landau comeou a perder a embalagem inicial. "Oia, minha querida, no sei se percebeu, mas acontece que eu trabalho aqui e no para Mr. Barley Scott Blair, por muito que goste dele. "
Dito isto, parou, j que as preocupaes cavalheirescas tinham abafado a sua ira momentnea. A mulher estava a tremer. No s lhe tremiam as mos que seguravam a saca castanha, mas tambm o pescoo, e a gola de renda antiga que encimava o seu vestido impecavelmente azul, que Landau via tremer contra uma pele que j estava mais branca do que a renda. No entanto, a boca e os maxilares permaneciam impassveis, numa atitude de firmeza, e a expresso dela subjugava-o.
"Por favor, preciso de toda a sua simpatia e ajuda", disse ela, como se no houvesse outra hiptese.
Acontece que Landau se orgulhava de conhecer as mulheres. Gabava-se disso, como de outras coisas, at cansar quem o ouvia, mas a verdade  que o seu orgulho tinha algum fundamento. "As mulheres, as mulheres so o meu hobby, Harry, passarei toda a vida a estud-las, elas so a paixo que me consome", confidenciou-me ele um dia, e a convico na sua voz era to solene como o juramento de um mao. No sabia j quantas mulheres tinha possudo, mas era com grande satisfao que dizia que o total j ia nas centenas e que nenhuma delas tinha motivos para lamentar a experincia. "Jogo com toda * franqueza e escolho acertadamente", garantiu-me ele, batendo com * indicador numa das narinas. "Nada de punhos cortados, nem casamentos desfeitos, nem palavras azedas depois de tudo acabado." Se isto era ou no verdade, ningum o poderia saber, eu includo, mas do que no havia dvida era que os instintos que o tinham guiado nas
1 A wol ou A. W. O. L. iniciais correspondentes a "absent without leave". (N. do T.)

suas aventuras o ajudavam agora a traar rapidamente o retrato daquela mulher.
Era uma mulher sria. Inteligente. Determinada. Estava assustada, apesar de nos seus olhos escuros haver uma chispa de gnio. E possua ainda essa rara qualidade a que Landau, no seu estilo floreado, gostava de chamar a Classe Que S A Natureza Pode Dar. Por outras palavras, aquela mulher, para alm de brilhante, era forte. E como nos momentos de crise os nossos pensamentos no seguem uma progresso lgica, mas antes nos invadem desordenadamente em ondas, de intuio e experincia, Landau apercebeu-se de todas aquelas caractersticas ao mesmo tempo e estava a matutar nelas quando a mulher lhe dirigiu de novo a palavra.
"Um amigo meu, sovitico, escreveu uma importante obra literria, muito criativa", disse ela, depois de respirar fundo. " um romance. Um grande romance. A sua mensagem  importante para toda a humanidade."
A mulher calou-se repentinamente. Landau apressou-se a manter o fio da conversa. "Um romance", disse. E depois, sem que nunca tivesse percebido bem porqu, perguntou-lhe: "E qual  o ttulo, minha querida?"
Concluiu nesse momento que a fora que ela tinha lhe vinha das suas convices e no de uma falsa coragem ou de qualquer insanidade.
"Ento qual  a mensagem, j que no tem ttulo?" "Tem a ver com aces em vez de palavras. Rejeita o gradualismo da perestroika. Pede aco e contesta todas as falsas mudanas."
"Lindo", disse Landau, impressionado. Ela falava como a minha me, Harry: o queixo espetado e bem na nossa cara.
"Apesar da glasnost e do suposto liberalismo das novas directivas, o romance do meu amigo no pode ainda ser publicado na Unio Sovitica", prosseguiu ela, "Mr. Scott Blair comprometeu-se a public-lo com discrio."
"Minha senhora", disse Landau num tom amvel, agora de rosto quase colado ao dela. "Se o romance do seu amigo for publicado pela grande Editora Abercombrie & Blair, pode ter a certeza de que o segredo ser total."
Landau disse isto em parte porque no podia resistir a uma piada sobre a Editora, mas tambm porque os seus instintos lhe diziam que era melhor dar um tom informal  conversa e torn-la menos notada aos olhos de quem quer que fosse. Tivesse ou no percebido a piada, a verdade  que a mulher tambm sorriu, um sorriso breve e quente de auto-encorajamento, que era como que uma vitria sobre os seus medos.
"Ento, Mr. Landau, se o senhor ama a paz, por favor leve este manuscrito consigo para Inglaterra e d-o logo que chegue a Mr. Scott Blair. Apenas a ele. Confio inteiramente em si."
O que aconteceu a seguir foi muito rpido, unia transaco de es-
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quina, de vendedor interessado para comprador interessado. A primeira coisa que Landau fez foi olhar para trs dela, para l do ombro dela. Sabia por experincia prpria que, quando os russos queriam fazer das suas, havia sempre gente por perto. Mas a verdade  que o seu canto estava vazio, a rea sob a galeria onde se encontravam os stands estava s escuras e a festa atingia agora o auge da animao. Os trs rapazes de bluses de couro que se encontravam  porta falavam entre si com um ar enfastiado.
Completado o seu exame, Landau leu o nome da rapariga no crachat de plstico que trazia na lapela, coisa que normalmente teria feito antes, caso aqueles olhos castanhos-escuros o no tivessem distrado. Yekaterina Orlova, leu ele. E por baixo da palavra "Outubro", em ingls e russo, o nome de uma das mais pequenas casas editoras estatais, especializada na traduo de livros soviticos para exportao, sobretudo para outros pases socialistas, o que, receio bem, a condenara a uma certa mediocridade.
De seguida, disse-lhe o que ela devia fazer, ou talvez j lho estivesse a dizer no momento em que leu o seu nome. Landau era um rapaz de rua, habituado a todo o tipo de truques. A mulher podia ser a coragem em pessoa e pelo ar dela talvez o fosse. Mas no tinha hbitos de conspiradora. Por isso no hesitou em proteg-la. E ao faz-lo, falou-lhe como falaria com qualquer mulher que precisasse de conselhos bsicos sobre o que haveria de fazer para ir ter com ele ao quarto do hotel ou sobre o que haveria de dizer ao maridinho quando voltasse a casa.
"Tem-no consigo, no tem, minha querida?", perguntou, espreitando o contedo da saca e sorrindo como um amigo.
"Tenho." "Est a dentro, no ?" "Est. "
"Ento passe-me a saca corri um ar normal", disse Landau, continuando a falar enquanto ela lhe passava a saca. "Isso. Agora d-me um beijinho russo, de amigos. Gnero formal. Isso. O que voc me trouxe foi um presente de despedida oficial na ltima noite da feira, no sei se est a ver. Um presente que contribuir para estreitar as relaes anglo-soviticas e que me vai fazer levar um excesso de peso no avio, a menos que o atire para um caixote do lixo do aeroporto. Uma transaco perfeitamente normal. Hoje j devo ter recebido meia dzia de presentes como o seu."
Parte deste discurso disse-o Landau agachado e de costas para ela. Tinha j aberto a saca e retirado num instante o embrulho de papel castanho e estava agora a guard-lo com a maior habilidade na sua pasta, uma daquelas pastas que mais parecem arquivos domsticos, com um grande aproveitamento do espao, com compartimentos que se abrem em leque.
"Casada, Katya?"
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Teve o silncio por resposta. Talvez ela no tivesse ouvido. Ou ento estava muito ocupada a observ-lo.
"Foi o seu marido que escreveu o romance?", perguntou Landau pouco intimidado com o silncio dela.
" perigoso para si", murmurou ela. "Tem de acreditar no que est a fazer. Assim, tudo se torna claro."
Como se no tivesse ouvido o aviso, Landau seleccionou, de uma pilha de amostras que tinha guardado para distribuir nessa noite, uma embalagem de quatro cassetes com a leitura de A Midsummer Night's Dream especialmente encomendada  Royal Shakespeare Company, que com grande aparato colocou sobre a secretria, escrevendo depois na embalagem de plstico com uma caneta de feltro, "Do Niki para a Katya, Paz", para alm da data. Seguidamente, colocou as cassetes na saca com toda a cerimnia, fechou-a e meteu-lha entre as mos, porque a mulher estava a ficar plida e ele tinha medo que desmaiasse ou ficasse demasiado perturbada. S ento  que Landau a tranquilizou como ela parecia desejar, enquanto continuava a segurar-lhe na mo, que, segundo ele, estava fria, mas era uma bela mo.
"Todos ns temos de passar por riscos de vez em quando, no , minha querida?", disse Landau, num tom despreocupado. "No quer vir dar um pouco de brilho  festa?"
"No." "E que tal um restaurante simptico?" "No convm. "
"Quer que a acompanhe at  porta?" "Tanto faz. "
"Acho que  melhor pormos um sorriso, minha querida", disse ele, ainda em ingls, enquanto avanava com ela pelo salo, cavaqueando como o vendedor eficiente que de repente voltara a ser.
Ao chegar ao patamar, cumprimentou-a. "Ento vemo-nos na feira do livro? Em Setembro. E obrigado pelo aviso, hem? No me vou esquecer. Mesmo assim o que importa  que fechmos negcio.
O que  sempre bom. Certo?"
Na mo dele, a mulher pareceu encontrar um pouco mais de coragem, j que voltou a sorrir e o seu sorriso, apesar de desmaiado, era um sorriso grato, e quase irresistivelmente afectuoso.
"O meu amigo fez um gesto importante", explicou ela, afastando uma mecha de cabelo mais rebelde. " preciso que Mr. Barley tenha conscincia disso."
"Eu digo-lhe. No se preocupe", retorquiu Landau garbosamente. Ele daria tudo para que a mulher lhe sorrisse uma vez mais, mas a verdade  que ela j no estava interessada na sua pessoa. Ps-se a procurar na mala um carto, pormenor de que at esse momento -
Landau sabia-o - no se tinha lembrado. "ORLOVA, Yekaterina Borisovna", dizia o carto, em cirlico de um lado e em romano do outro, de novo com a palavra "Outubro" nos dois alfabetos. Deu-lhe o
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carto e desceu com firmeza a pomposa escadaria, a cabea erguida e uma mo no largo corrimo de mrmore, a outra segurando a saca. Os rapazes de bluses de couro observaram-na at chegar ao hafl. E Landau, enquanto metia o carto no bolso de cima do casaco, ao lado da outra meia dzia que tinha coleccionado nas ltimas duas horas, esperou que ela desaparecesse e depois piscou-lhes o olho. E os rapazes, depois de conveniente reflexo, retriburam a piscadela, j que tambm fazia parte da nova abertura dar o devido valor a um bom par de ancas russas. At um estrangeiro tinha o direito de as apreciar.
Nos cinquenta minutos de folia que lhes restavam, Niki Landau entregou-se de alma e corao  festa. Cantou e danou para uma bibliotecria escocesa de cara de pau e prolas ao pescoo. Recitou uma divertida anedota poltica sobre Mrs. Thatcher para um casal de apagados ouvintes da Agncia Editorial do Estado, a VAAP, at que subitamente eles desataram  gargalhada. Cortejou trs senhoras das Publicaes Progresso e, numa srie de geis deslocaes at  sua pasta, presenteou cada uma com uma recordao da sua estada, j que Landau era de seu natural amigo de dar e lembrava-se sempre de nomes e promessas, tal como de muitas outras coisas, com o desembarao de uma mente despreocupada. Porm, durante todo esse tempo, no deixou de vigiar' discretamente a pasta e, ainda antes de os convidados terem sado, j ele a segurava com a mo que tinha disponvel, enquanto fazia as suas despedidas. E no autocarro privado que levaria os vendedores de volta para o hotel, sentou-se com a pasta sobre os joelhos, enquanto se integrava num harmnico coro que entoava canes de rugby, dirigido, como de costume, por Spikey Morgan.
"Ateno s senhoras", avisou Landau e, levantando-se, ordenou silncio nas passagens que considerava mais grosseiras. Mas mesmo no papel de grande maestro, no deixou de segurar firmemente na pasta.
No hall do hotel deambulavam os habituais grupos de chulos e dealeis de droga e de moeda, mais os seus guardas do KGB. Mas Landau no viu no comportamento daqueles homens nada de preocupante; de facto, no se mostravam nem demasiado atentos, nem demasiado desinteressados. O velho soldado mutilado que guardava o corredor dos elevadores, pediu-lhe como de costume o passe do hotel. Landau, que j lhe tinha oferecido uma centena de Mariboros, perguntou-lhe em russo, num tom acusatrio, por que motivo no tinha ido dar uma volta com a namorada naquela noite. O homem desatou num riso estridente e bateu-lhe no ombro em sinal de camaradagem.
"Se aquilo era uma armadilha para me incriminarem, ento teriam de ser rpidos, pois caso contrrio arriscavam-se a perder a presa", disse-me ele, pondo-se na posio do caador, que no era evidentemente a sua. " que, Harry, quando montamos uma armadilha, temos de agir rapidamente, enquanto as provas se encontram com a vtima", explicou ele, como se tivesse andado toda a vida a montar armadilhas s pessoas.
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"Ento no Bar do Nacional, s nove", disse-lhe Spikey Morgan, num jeito entediado, ao chegarem ao quarto andar.
"Pode ser que sim, pode ser que no, Spikey", respondeu Landau. "Para dizer a verdade, no me sinto muito bem."
"Graas a Deus", retorquiu Spikey, com um bocejo, aps o que se arrastou at ao seu corredor escuro. A porteira do piso, metida no seu cubculo, seguiu-o atentamente com os seus olhos de bruxa.
Ao chegar  porta do seu quarto, Landau preparou-se para o pior.  agora, pensou. Este  o melhor momento para me apanharem a mim e ao manuscrito. Porm, ao entrar, verificou que o quarto estava vazio e que no havia nele sinal de qualquer perturbao. Sentiu-se um idiota por causa das suas suspeitas. Ainda estou vivo, pensou, e ps a pasta em cima da cama.
Depois, fechou as cortinas, pouco maiores que lenos, tanto quanto era possvel fech-las, ou seja, at meio, e pendurou o intil "Do Not Disturb" na porta, fechando-a de seguida  chave. Esvaziou os bolsos do fato, incluindo o bolso onde tinha armazenado os ltimos cartes de negcios, tirou o casaco e a gravata, as braadeiras de metal e, finalmente, a camisa. Do frigorfico tirou uma garrafa de vodka-limo, deitou uma coisa de nada num copo e bebeu um pequeno gole. Landau, ao que me disse, no era propriamente um amigo da bebida, mas, sempre que ia a Moscovo, gostava de acabar o dia com um Copito de vodka-limo. Levou o copo para a casa de banho e, durante uns bons dez minutos, deixou-se ficar em frente do espelho, examinando ansiosamente as razes do cabelo,  procura de algum vestgio de brancos, retocando os locais em perigo com a ajuda de um novo produto que fazia maravilhas. Satisfeito com o seu trabalho, enrolou a cabea com um elaborado turbante feito com uma toalha,  maneira de uma touca de banho, e tomou um duche, enquanto cantava "I am the very model of a modern major-general", nada mal por sinal. Depois, esfregou-se com uma toalha, o mais vigorosamente possvel para estimular o tnus muscular, e ps um roupo de banho descaradamente florido. Finalmente, e ainda a cantar, voltou para o quarto.
E fez todas essas coisas em parte porque as fazia sempre e precisava da familiaridade apaziguadora das suas prprias rotinas, mas tambm porque se sentiu orgulhoso de ter, por uma vez, mandado s urtigas todas as precaues, por no ter encontrado vinte e cinco razes plausveis para nada fazer, o que, nessa poca, no seria de espantar.
Ela era uma senhora, ela tinha medo, ela precisava de ajuda, Harry. Alguma vez tinha negado alguma coisa a uma senhora? E se estava enganado acerca dela, ento no havia dvida que tinha feito um papel de idiota chapado e que o melhor era recolher a escova dos dentes e apresentar-se imediatamente  porta do Lubyanka para ir fazer um estudo dos magnficos graffiti dos russos, durante cinco anos, e sem qualquer possibilidade de escolha. Porque Landau preferiria fazer vinte vezes o papel de idiota chapado a negar o seu au-
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xlio quela mulher sem qualquer razo. E enquanto dizia isto para si mesmo, obviamente em silncio, j que o medo dos microfones
* impediria de proferir tais afirmaes em voz alta, Landau tirou
* embrulho da pasta e, com um certo acanhamento lanou-se ao trabalho. Comeou a desapertar o cordel, em vez de o cortar, tal como aprendera com a sua santa me, cuja fotografia repousava agora, fielmente, na carteira dele. Tm ambas o mesmo brilho, descobriu com prazer, enquanto, pacientemente, ia desfazendo o n.  a pele eslava. So os olhos eslavos, o sorriso. Duas belas raparigas eslavas. A nica diferena era que Katya no tinha acabado os seus dias em Treblinka.
O n l acabou por ceder. Landau enrolou o cordel e p-lo em cima da cama.  assim mesmo, querida, tenho de saber o que isto contm, explicou ele a uma Yekaterina Borisovna s presente na sua cabea. No me quero intrometer, alis o intrometido no sou eu, mas se tiver de fazer alguma fita na alfndega,  melhor saber de antemo por que a fao, sempre ajuda.
Delicadamente, para no o rasgar, usando as duas mos, Landau retirou o papel castanho. No se imaginava heri nenhum. Ainda no, pelo menos. Aquilo que era perigoso para uma beleza de Moscovo podia no ser perigoso para ele. Era verdade que tinha tido uma juventude difcil. O East End no tinha sido propriamente uma cura de repouso para um imigrante polaco de dez anos de idade, e Landau tinha tido o seu quinho de lbios rachados, narizes partidos, socos dados e levados, e fome. Mas se lhe perguntassem, agora ou em qualquer momento nos ltimos trinta anos, qual era a sua definio de heri, teria respondido, que um heri era o primeiro a fugir pela porta das traseiras, quando comeassem a gritar por voluntrios.
Havia uma coisa que ele sabia, enquanto examinava o contedo do embrulho de papel castanho: estava com o vcio. Porque  que estava com o vcio, era um coisa que poderia investigar mais tarde, quando no tivesse nada de melhor para fazer. Mas se fosse preciso fazer um trabalho arriscado naquela noite, ento Niki Landau seria o homem indicado. Porque quando o Niki est com o vcio, Harry, no h ningum que o bata, como todas as raparigas sabem.
A primeira coisa que viu foi o envelope. Reparou que por baixo dele havia trs cadernos e que o envelope e os cadernos estavam atados com um elstico grosso, um daqueles elsticos que ele guardava sempre, mas para os quais nunca achava um uso. Mas foi o envelope que mais lhe chamou a ateno, porque a letra era a dela uma caligrafia perfeita que confirmava a imagem de pureza que tinha daquela mulher. Um envelope castanho, quadrado, sujo de cola, e dirigido a "Mr. Bartholomew Scott Blair - Pessoal - Urgente."
Landau retirou o envelope e examinou-o  luz, mas era opaco e
e no revelava qualquer sombra. Explorou-o com o indicador e o polegar. Dentro, uma folha de papel fino, duas no mximo. Mr. Scott Blair comprometeu-se a public-lo com discro, lembrou-se nesse
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momento. Mr. Landau, se o senhor ama a paz... d-o logo que chegue a Mr. Scott Blair. Apenas a ele... Confio inteiramente em si. Ela tambm confia em mim, pensou ele. Virou o envelope. Nas costas no havia nada escrito.
E como Landau se recusava a ler o correio pessoal fosse de quem fosse e um envelope castanho fechado nada mais podia revelar-lhe, decidiu abrir de novo a pasta, espreitou para o compartimento dos artigos de papelaria, tirou dele um dos seus vulgares envelopes de papel manilha, com as palavras "Do escritrio de Mr. Nicholas P. Landau" esteticamente gravadas na parte de trs. Ento, introduziu o envelope castanho no de pape! manilha, fechou este ltimo, rabiscou nele o nome "Barley" e arquivou-o no compartimento denominado "Social", o qual continha coisas to singulares como cartes de visita que estranhos o tinham obrigado a aceitar e notas sobre extravagantes encomendas que se tinha comprometido a satisfazer -
como a daquela Editora que precisava de cargas para a sua Parker ou a do funcionrio do Ministrio da Cultura que queria uma T-shirt
com o Snoopy para o seu sobrinho, ou ainda a daquela mulher da "Outubro", que por mero acaso ia a passar no preciso momento em
que ele fechava a loja.
Landau meteu um envelope no outro porque, com a manha de comerciante que nele era instintiva, ou mesmo totalmente inata, sabia que a primeira coisa a fazer era manter o envelope o mais afastado possvel dos cadernos. Se os cadernos implicassem sarilhos, seria bom que nenhum pormenor os relacionasse com a carta. E vice-versa. Landau tinha toda a razo. Os nossos mais versteis e eruditos professores, tingidos em todos os oceanos do folclore do nosso Servio, no teriam feito de outro modo.
S ento pegou nos trs cadernos e tirou o elstico que os prendia, mantendo os ouvidos alerta para qualquer som de passos no corredor. Trs cadernos russos e sujos, foi o que pensou ao seleccionar e examinar o de cima. Com uma capa de carto grosseiramente ilustrada, a lombada de um pano j esfiapada. Duzentas e vinte e quatro pginas de m qualidade, em formato de quarto, de um pautado esbatido, concluiu Landau, recorrendo s recordaes da poca em que revendera artigos de papelaria, preo sovitico  volta dos vinte ~ks,  venda em qualquer bom retalhista do ramo, desde que a **remessa  tenha chegado e o comprador se meta na bicha certa no dia certo.
Finalmente, abriu o caderno e examinou a primeira pgina. 
 doida, pensou, repelindo o seu desgosto.
Est nas mos de um louco. Pobrezinha.
Rabiscos sem qualquer  significado, feitos por um luntico com uma caneta de aparo fino, a tinta-da-china, a uma velocidade louca, furiosamente angulosos. Nas margens, obliquamente e longitudinalmente, rabiscos cortando diagonalmente rabiscos como a letra de um mdico atacado de desordem mental. Tudo isto repetidamente martela-

do com pontos de exclamao e sublinhados idiotas. Rabiscos em cirlico, rabiscos em ingls. "O Criador cria os criadores", lia-se, em ingls. "Ser. No ser. Contra-ser. " E a seguir, uma estpida exploso de francs, acerca da guerra da loucura e da loucura da guerra, que terminava com um emaranhado de arame farpado. Muitssimo obrigado, pensou, e passou uma pgina, depois outra, ambas to cheias daquela caligrafia demente que quase no se via o papel. "Depois de termos passado setenta anos a destruir o poder popular, no podemos esperar que de sbito esse poder se imponha e nos salve", leu ento. Uma citao? Um pensamento surgido a meio da noite? No tinha qualquer possibilidade de o saber. Referncias a escritores, russos, latinos, europeus. Coisas sobre Nietzsche, Kafka e outros de quem nunca tinha ouvido falar, quando mais lido. De novo a guerra, desta feita em ingls: "Os velhos declaram-na, os jovens travam-na, mas hoje os bebs e os velhos tambm a travam". Virou mais uma pgina e deparou-se-lhe nada mais nada menos que uma mancha redonda, castanha. Chegou o caderno ao nariz e cheirou. lcool, pensou com desprezo. Fede que nem uma fbrica de cerveja. No admira que o tipo seja amigo do Barley Blair. Depois, duas pginas consagradas a uma srie de proclamaes histricas.
- O NOSSO MAIOR PROGRESSO EST NO NOSSO ATRASO!
- A PARALISIA SOVITICA  A MAIS PROGRESSIVA DO MUNDO!
- O NOSSO ATRASO  O NOSSO MAIOR SEGREDO MILITAR!
- SE NO CONHECEMOS AS NOSSAS Prprias Intenes E AS NOSSAS Prprias CAPACIDADES, COMO PODEREMOS CONHECER AS VOSSAS?
- O VERDADEIRO INIMIGO  A NOSSA Prpria INCOMPETNCIA!
E na pgina seguinte, um poema, esmeradamente copiado sabe-se l de onde:
No caminho ele avana e logo recua. E o povo continua sem saber Se a serpente que ia por esse caminho Ia para sul ou voltava para trs. Landau ergueu-se de um salto e, furioso, correu para a janela, que dava para um quintal triste, cheio de lixo por recolher.
"Um exuberante artista da palavra, Harry. Foi o que eu pensei que ele era. Um gnio de cabelos compridos, cheio de droga, um gnio unicamente preocupado com a sua pessoa, e ela, ela fez o que todas fazem, ficou eternamente rendida aos encantos dele."
Felizmente para ela que no havia lista telefnica de Moscovo, pois caso contrrio Landau ter-lhe-ia telefonado para lhe dizer que raio de homem lhe tinha cabido em sorte.
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Para atiar a sua raiva, pegou no segundo caderno, molhou a ponta do indicador e comeou a folhe-lo com o maior desprezo. Foi assim que chegou aos desenhos. Ento, por um momento, ficou como que estonteado de surpresa, como se estivesse a ver um filme e de repente o ecr ficasse branco, enquanto se amaldioava por ser um eslavozinho impetuoso e no um ingls frio e calmo. Sentou-se de novo na cama, mas suavemente, como se l estivesse algum a descansar, algum que ele tivesse magoado com uma condenao prematura.
Porque se Landau desprezava aquilo que amide passava por literatura, j em questes tcnicas o seu prazer era ilimitado. Mesmo no entendendo nada de nada, era muito capaz de se deleitar a olhar para uma boa pgina de matemtica durante um dia inteiro. E mal olhou para aquelas pginas do caderno, apercebeu-se, tal como lhe acontecera quando vira Katya, que tinha  sua frente algo com qualidade.  certo que no eram desenhos feitos a rgua e esquadro. Apenas esboos sem grande preciso, o que s abonava a seu favor. Eram desenhos feitos sem instrumentos por algum capaz de pensar com um lpis. Tangentes, parbolas, cones. E entre os desenhos, descries metdicas, corno as que os arquitectos e os engenheiros costumam fazer, palavras como "ponto de mira" e "alcance cativo" e "inclinao" e gravidade e trajectria - "algumas em ingls, Harry, outras em russo."
Embora Harry no seja o meu verdadeiro nome. No entanto, quando comeou a comparar a caligrafia extremamente bela do segundo caderno com a selva desconexa do primeiro, descobriu, para sua grande surpresa, que havia entre elas similaridades indesmentveis. Da a sensao de que tinha  sua frente uma espcie de dirio esquizofrnico, em que um dos cadernos era escrito pelo Dr. Jekyll e o outro por Mr. Hyde.
Espreitou para o terceiro caderno, que se revelou to ordenado e consistente como o segundo, embora organizado como uma espcie de tbua logartmica, com datas e nmeros e frmulas, e a palavra "erro" frequentemente repetida, muitas vezes sublinhada ou acompanhada por um ponto de exclamao. Ento, de, repente, a sua ateno fixou-se numa pgina. No conseguia desviar os olhos daquilo que estava a ler. A obscuridade confortvel do jargo tcnico tinha acabado da forma mais estrondosa, bem como as divagaes filosficas e os desenhos devidamente anotados. Aquelas palavras destacavam-se com uma clareza impressionante.
"Os estrategos americanos podem dormir sem sobressaltos. Os seus pesadelos no se tornaro realidade. O cavaleiro sovitico est a morrer dentro da sua armadura. Como vocs, britnicos, tambm ele  um poder secundrio. Pode iniciar uma guerra, mas no pode continu-la, nem pode ganh-la. Acreditem no que vos digo. "
Landau no avanou mais na sua pesquisa. Um sentimento de respeito , misturado com um forte instinto de autopreservao, advertiu-o de que j tinha vasculhado o suficiente. Pegou no elstico, jun-
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tou os trs cadernos e prendeu-os de novo.  isso, pensou. No mexo em mais nada e limito-me a cumprir o meu dever. Ou seja, levo o manuscrito para o meu pas de adopo e entrego-o logo que chegue a Bartholomew, alis Barley, Scott Blair.
Barley Blair, quem havia de dizer, pensou, atnito, enquanto abria o roupeiro e tirava a grande mala de alumnio onde guardava as suas amostras. Quem havia de dizer. Quantas vezes nos interrogmos sobre se no haveria um espio entre ns. Agora j sabemos quem .
Landau garantiu-me que naquele momento a sua calma era total.
O ingls vencera uma vez mais o polaco. "Se o Barley era capaz, ento tambm eu seria, Harry, foi o que disse a mim mesmo". E foi tambm isso o que me disse quando, por um breve perodo, me escolheu como seu confessor.  uma coisa que me acontece por vezes, escolherem-me como confessor. As pessoas apercebem-se do meu eu oculto e abrem-se como se falassem com o meu eu real.
Landau ps a mala em cima da cama, abriu-a e tirou dois conjuntos que os funcionrios soviticos tinham banido da sua exposio -
uma histria pictrica do sculo XX, com comentrios falados, arbitrariamente considerados anti-soviticos, um manual do corpo humano com fotografias exemplificativas e uma cassete com exerccios de ginstica de manuteno, que os mesmos funcionrios consideraram pornogrficos, depois de uma demorada apreciao das jovens deusas que, com os seus fatos de ginstica, mostravam ao leitor as posies correctas.
O outro conjunto, o de histria, era de muito boa qualidade, e funcionava como um desdobrvel, contendo uma srie de bolsos interiores para cassetes, textos paralelos, cartes com esclarecimentos sobre o vocabulrio e notas para estudantes. Depois de esvaziar os bolsos, Landau tentou meter os cadernos em cada um deles, mas verificou que nenhum era suficientemente largo. Decidiu transformar dois bolsos num s. Tirou uma tesoura de unhas do seu ncessaire e lanou-se ao trabalho com mos seguras: tinha de arrancar cuidadosamente os agrafos da divisria entre os dois bolsos.
Barley Biair, pensou de novo, enquanto atacava um agrafo com a ponta da tesoura. Devia ter adivinhado que era ele o espio, nem que fosse pelo facto de ele ser o que menos suspeitas levantava. Mr. Bartholomew Scott Blair, derradeiro sobrevivente da Abercombrie & Blair - um espio. O primeiro agrafo cedeu. Extraiu-o vagarosamente. Barley Blair, o tal que seria incapaz de vender feno a um cavalo rico para salvar a me moribunda no dia do seu aniversrio, como ns costumvamos dizer, era afinal o nosso espio. Comeou a puxar pelo segundo agrafo. Barley Blair, que s se tinha tornado notado uma vez, na feira do livro de Belgrado, j l iam dois anos, por ter conseguido embebedar o Spikey Morgan com vodka puro, sem que este se desse conta, e que depois tocara saxofone tenor com o grupo local, e que tocara to bem que at a polcia aplaudira. Es-
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pio. Um senhor espio. Pois bem, aqui vai uma carta da tua dama, como diz aquela cano infantil.
Landau pegou nos cadernos e tentou met-los no espao que tinha arranjado. Nada feito. Teria de abrir um terceiro bolso.
O tipo a fingir que estava bbado, pensou Landau, ainda a propsito de Barley. A fingir de parvo e afinal os parvos ramos ns. Queimando os ltimos dinheiros da famlia, a velha firma, nas suas mos, foi-se afundando cada vez mais. Cada vez mais. S que, v l saber-se como, acabava sempre por convencer um daqueles muito vigilantes bancos da City a salv-lo mesmo mesmo no derradeiro instante. Ali, e ele a jogar xadrez, apesar da bebedeira? Essa podia ter sido uma pista, se Landau lhe tivesse dado a devida ateno. Como  que um homem, que se embebeda at dizer chega, consegue bater toda a gente? S h uma hiptese, Harry, sejamos francos - s um espio devidamente treinado aguentaria como ele aguentou.
Os trs bolsos tinham-se transformado j num s, os cadernos encaixavam mais ou menos bem l dentro. "Notas do estudante", lia-se ainda por cima do novo bolso.
Landau imaginou-se de repente a falar com o jovem e inquisitivo funcionrio da alfndega do aeroporto de Sheremetyevo. "Notas, no sei se est a perceber, so notas de estudante.  por isso que h aqui um bolso para notas. E essas notas que voc est a ver agora so o trabalho de um estudante que est a fazer este curso.  por isso que esto a, meu rapaz, percebe? So notas exemplificativas. E esses desenhos, tm a ver com ... "
Com padres socioeconmicos, sim,  isso mesmo, filho. Com tendncias demogrficas. Com estatsticas vitais, que  uma coisa que vocs, russos, poucas vezes vem, no ? Olhe, est a ver este aqui?  um livro sobre o corpo humano.
Um tal discurso podia ou no salv-lo: tudo dependia da perspiccia do funcionrio, do que eles sabiam ou no sabiam, e do que nesse dia sentiam em relao s respectivas mulheres.
Mas Landau tinha ainda uma longa noite  sua frente. E se o assaltassem de madrugada? Arrombavam-lhe a porta com toda a certeza, apontavam-lhe as pistolas, gritavam. "Muito bem, Landau, passa para c os cadernos!" - nesse feliz momento, o conjunto sobre histria de nada lhe valeria. "Cadernos? Cadernos? Ali, aquela droga que uma russa luntica me impingiu esta noite na feira? Ali, devem estar ali no cesto dos papis, se a criada no o despejou, o que me espantaria."
Landau preparou meticulosamente a cena para esta contingncia. Retirou os cadernos do bolso do conjunto de histria, colocou-os artisticamente no cesto dos papis, como se os tivesse atirado para l com a raiva que sentira ao examin-los pela primeira vez. Para lhes fazer companhia, atirou tambm para o cesto os seus excedentes de literatura e brochuras de propaganda, bem como umas prendas perfeitamente inteis que tinha recebido: o magro volume de mais um poeta russo, um mata-borro com as costas em estanho. O retoque
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final foi dado por um par de meias sem qualquer remendo, coisa que s um ocidental rico  capaz de deitar fora.
Este exemplo de engenho em bruto voltou a maravilhar-me, como alis nos aconteceu mais tarde a todos ns.
Nessa noite, Landau no saiu, disse no  diverso. Suportou o aprisionamento familiar do seu quarto naquele hotel de Moscovo. Da sua janela acompanhou a passagem do demorado crepsculo at  escurido da noite, viu as tnues luzes da cidade brilhando relutantemente. Fez ch na sua pequena chaleira de viagem e comeu duas tabletes de chocolate com frutas das suas raes combate. Demorou-se deleitado na evocao da mais gratificante das suas conquistas. As outras, dedicou um sorriso pesaroso. Preparou-se corajosamente para enfrentar a tristeza e a solido e invocou a sua infncia difcil para o ajudar. Vasculhou na sua carteira, na pasta, nos bolsos, e tirou tudo o que fosse especialmente privado, tudo o que no desejaria ter de pr em cima de uma mesa vazia, e cuja existncia teria de explicar detalhadamente caso fosse detido na alfndega - uma carta apimentada que uma namorada lhe tinha enviado anos antes e que ainda era capaz de lhe reavivar os apetites, ela era membro de um certo clube de vdeo pelo correio e que ele pertencia. O seu primeiro instinto foi "queimar tudo aquilo, como nos filmes", mas no o fez porque logo se lembrou dos detectores de fumo no tecto, embora tivesse a certeza de que os detectores no funcionavam.
Fez a coisa doutro modo. Reduziu tudo aquilo a papelinhos, meteu-os num saco de papel e atirou o saco para o meio do lixo que havia no quintal. Depois, deitou-se na cama e assistiu calmamente  passagem da noite. Por vezes sentiu-se com coragem, outras vezes sentiu tanto medo que teve de cerrar os punhos at cravar as unhas para se refrear. A certa altura ligou a televiso,  espera de ver jovens e atraentes ginastas, de que tanto gostava. Mas em vez das ginastas, apanhou precisamente com o Imperador, dizendo pela ensima vez , sua prole confusa que a velha ordem estava to nua quanto o rei. E quando Spikey Morgan, na melhor das hipteses j meio bbado, lhe telefonou do bar do Nacional, Landau no o deixou desligar porque queria companhia. At que, do outro lado da linha, o bom do Spikey adormeceu.
Uma nica vez, quando se sentiu mais atemorizado, lhe ocorreu dirigir-se  embaixada britnica e pedir a assistncia da mala diplomtica. Esta fraqueza momentnea irritou-o. "O qu? Eu pedir ajuda queles lambe-botas?", perguntou a si mesmo com desprezo. "Eu pedir ajuda queles que mandaram o meu pai para a Polnia? Nem pensar. A eles, Harry, nem um postal da Torre Eiffel eu lhes confiava. "
Alm disso, no fora isso que ela lhe pedira. Chegada a manh, vestiu-se para a sua prpria execuo, com o seu melhor fato, com a fotografia da me por dentro da camisa.
E  assim que eu continuo a ver Niki Landau, sempre que folheio o seu processo, ou quando o recebo para aquilo a que chamamos
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o balano semestral, que  o momento em que ele gosta de reviver a sua hora de glria, antes de assinar mais uma declarao prevista na lei dos segredos de Estado. Vejo-o sair garbosamente do hotel com a mala metlica na mo, sem fazer a mnima ideia do que leva consigo, mas decidido a arriscar a sua corajosa cabea por causa do que lhe pediram que fizesse.
No me atrevo a imaginar como ele me v, se  que alguma vez pensa em mim. Hannah, que eu amei mas tra, no teria a mnima dvida. "V-te como um desses inmeros ingleses com muita esperana no rosto e nenhuma no corao", diria ela, rebentando de raiva. Temo de facto que actualmente ela diga tudo o que lhe vem  cabea. Hannah perdeu j muita da sua antiga pacincia.
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O governo em peso concordou que um caso daqueles no se devia repetir. Os ministros, doutrinados sobre o assunto, ficaram furiosos. Formaram uma comisso de inqurito assustadoramente secreta para descobrir o que tinha funcionado mal, ouvir testemunhas, apurar responsveis, descortinar escndalos, apontar culpas, isolar lacunas, prevenir recorrncias, nomear-me presidente e elaborar um relatrio. As concluses a que a nossa comisso chegou, se  que chegou a algumas, continuam a ser o maior segredo de todo este caso, em particular para aqueles que dela fizeram parte.  que, como todos ns sabemos, a funo de tais comisses consiste em dizer umas quantas coisas com a maior gravidade at a tempestade amainar, aps o que os seus membros desaparecem completamente de cena. Com os sorrisos amarelos da praxe, a comisso cumpriu devida e desanimadamente essa funo, deixando unicamente atrs de si uma carranca assustadoramente secreta, um documento de trabalho provisrio, sem qualquer significado, e uma quantidade de anexos secretos nos arquivos do Tesouro.
Para usar a linguagem menos comedida de Ned e dos seus colegas da Casa da Rssia, tudo comeou com uma algazarra monumental, entre as cinco e as oito e trinta da tarde de um domingo quente, quando um tal Nikolas P. Landau, caixeiro viajante e contribuinte
com os impostos em dia, apesar de origem polaca, sem qualquer cadastro fosse a que nvel fosse, se apresentou s portas de nada mais nada menos do que quatro ministrios, pedindo uma entrevista urgente com um funcionrio da Seco de Espionagem Britnica, como ele lhe chamava, para em troca ser ridicularizado, posto na rua e, numa das vezes, fisicamente maltratado. Embora no possamos saber com toda a certeza se os dois porteiros do Ministrio da Defesa
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chegaram ao ponto de o agarrar pelos colarinhos e pelo rabo das calas, pondo-o assim no olho da rua, como Landau afirmava, ou se se limitaram a acompanh-lo at  porta, para usarmos as palavras deles.
Mas por que razo - perguntou gravemente a nossa comisso -
por que razo se sentiram os dois porteiros na obrigao de o acompanharem  porta?
. Landau recusou-se a mostrar o que tinha dentro da pasta. Sim, ele props-nos que ficssemos com a pasta enquanto esperava, desde que ficasse ele com a chave. Mas o regulamento no o permite. E depois ps-se a chocalhar a pasta, a bater nela, a jog-la de uma mo para a outra como se fosse uma bola, aparentemente para nos mostrar que no havia l dentro nada de perigoso. Mas os regulamentos mesmo assim impediam-nos de ficar com a pasta. E quando tentmos, sem qualquer violncia, libert-lo da dita pasta, esse senhor -
de facto, nos testemunhos dos porteiros, Landau passara a ser tratado por senhor, embora um tanto tardiamente - resistiu aos nossos esforos e comeou a gritar em altos berros, com um sotaque estrangeiro, provocando distrbios.
Mas que gritou ele?, perguntmos, angustiados com a ideia de que algum ter gritado em Whitehall, num domingo.
Bom, logo que conseguimos que sasse, ele, excitado como estava, ps-se a gritar que a pasta continha papis altamente secretos. Papis que lhe tinham sido confiados por uma russa, em Moscovo.
Um polacozinho turbulento,  o que ele , podiam muito bem ter acrescentado os porteiros. Aparecer naquele estado numa tarde de crcket, precisamente quando ns estvamos a ver o jogo dos Pakistanis contra o Botham, na sala do fundo.
Mesmo no Foreign Office, essa sala de visitas gelada da hospitalidade britnica, onde Landau, j desesperado, se apresentou em ltimo recurso e com a maior relutncia, s a golpes de elaboradas splicas e de honestssimas lgrimas eslavas lhe foi possvel fazer chegar a sua voz ao purssimo ouvido do ilustre Palmer Wellow, autor de uma profunda monografia sobre Liszt.
E se Landau no tivesse usado uma nova tctica, talvez as lgrimas eslavas de nada tivessem servido.  que, desta vez, ps a pasta aberta em cima do balco, para que o porteiro, jovem mas cptico, iasse a sua cabea abrilhantinada at ao vidro  prova de bala recentemente instalado, e inspeccionasse o contedo com olhos indolentes e o sobrolho franzido, para concluir que naquela pasta no havia bombas, mas apenas uns cadernos velhos e sujos e um envelope castanho. @ "Volte na segunda-feira s dez para as cinco", disse o porteiro atravs do altifalante elctrico novinho em folha, como se estivesse a dizer ~ o nome de uma estao dos caminhos-de-ferro galesa, aps o que mergulhou de novo na escurido no seu cubculo.
porto estava entreaberto. Landau olhou para o jovem e para dele, para o grande Prtico construdo cem anos antes para ame-
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drontar os prncipes rebeldes da ndia. Quando o porteiro deu por isso, j Landau tinha pegado na pasta e, vencendo todas as muralhas aparentemente impenetrveis, erguidas precisamente para prevenirem avanos to impetuosos quanto o seu, desatou numa corrida desenfreada - "at parecia um raio de uma gazela", para citar o porteiro -, atravessando o ptio inexpugnvel e subindo a escadaria que conduzia ao enorme hafl. E estava com sorte. Palmer Wellow, por muitos defeitos que tivesse, pertencia  faco conciliadora do Foreign Office. E era Palmer quem estava de servio naquele domingo.
"Ol ... ", murmurou Palmer, descendo as escadas e examinando aquele homem completamente em desalinho, ofegante entre dois robustos guardas. "Voc est uma desgraa... O meu nome  Wellow. Sou escriturrio efectivo do Foreign Office." Levou o punho esquerdo ao ombro como se detestasse ces. Mas estendeu a mo direita para saudar Landau.
"Eu no quero um escriturrio", disse Landau. "Quero, um alto funcionrio, seno nada feito."
"Mas um escriturrio j  um funcionrio bastante alto", garantiu-lhe, modestamente, Palmer. "Espero que uma questo de palavras no o desencoraje."
Era da maior justia referir - como fez a nossa comisso - que a actuao de Palmer Wellow, at ento, tinha sido perfeita. Apesar dos seus gracejos, mostrara-se eficiente. No houve na sua cortesia nada de errado. Conduziu Landau a um gabinete e, o mais atencioso possvel, convidou-o a sentar-se. Pediu um ch para ele, com acar por causa do choque, e ofereceu-lhe uma bolacha digestiva. Com uma caneta especialmente cara que lhe tinha sido dada por um amigo, tomou nota do nome e da morada de Landau, bem como dos nomes das companhias para as quais trabalhava. Anotou ainda o nmero do passaporte britnico de Landau, e a data e o local de nascimento, 1930, em Varsvia. Insistiu, com uma sinceridade que desarmaria qualquer um, que nada sabia de assuntos de espionagem, mas que se comprometia a entregar o material de Landau s "pessoas competentes" que, sem a mnima dvida, o analisariam com a devida ateno. E como Landau. voltou a insistir, improvisou um documento em que acusava a recepo dos cadernos e do envelope numa folha azul do Foreign Office, assinou-o e pediu ao porteiro que carimbasse a data e a hora. Disse ainda a Landau que se as autoridades quisessem discutir algo mais com ele, decerto o contactariam, possivelmente pelo telefone.
S ento Landau empurrou hesitantemente a pasta suja e coada para o outro lado da secretria. Foi com infindo pesar que seguiu a mo lnguida de Palmer abrindo a pasta.
"Porque no d isto muito simplesmente a Mr. Scott Blair?", perguntou Palmer, depois de ter reparado no nome escrito no envelope.
"Mas, por amor de Deus, eu tentei!", explodiu Landau, exaspera-
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do. "J lhe disse. Telefonei para todo o lado. Fartei-me de telefonar para todo o lado e nada. No est em casa, no est a trabalhar, no est no clube dele, no est em stio nenhum", protestou Landau, descuidando a sua gramtica inglesa', de to desesperado que estava. "Mal cheguei ao aeroporto tentei apanh-lo. Bem sei que  sbado."
"Mas  domingo", objectou Palmer com um sorriso condescendente.
"Mas ontem era sbado, no era? Tentei a firma dele. Respondeu-me um uivo electrnico. Procurei na lista telefnica. H um em Hammersmith. No tem as iniciais dele mas chama-se Scott Blair. Respondeu-me uma mulher furiosa que me mandou para o inferno. H um vendedor que eu conheo, o Archie Parr, que faz o West Country1 para o Scott Blair. Perguntei ao Archie: 'Archie, por amor de Deus, diz-me uma coisa, preciso de encontrar o Barley com muita urgncia, onde  que ele anda?'" "Ele anda fugido, Niki. Fez mais uma das suas asneiras. H semanas que no aparece na loja." Tento as Informaes. Londres, os Home Counties'. Nenhum Bartholomew na lista. Tambm no admira, se ele  um ... "
"Se ele  um qu?", perguntou Palmer, intrigado. "Bom, repare, ele desapareceu, no desapareceu? E no  a primeira vez que desaparece. Deve haver razes para o seu desaparecimento. Razes que voc no conhece porque no as pode conhecer. Pode haver vidas em perigo. E no s a dele. Isto  extremamente urgente. E extremamente secreto. Portanto d seguimento a isto. Por favor. "
Nessa mesma noite, como no havia nada de especial na frente mundial, exceptuando uma crise medonha no Golfo e um escndalo miservel na televiso a propsito de soldados e dinheiro de Washington, Palmer decidiu ir a uma festa muito razovel, em Montpelier Square, uma festa dada por um grupo de Cambridge, do seu ano - todos bacharis como ele, mas divertidos. Chegou tambm aos ouvidos da nossa comisso um relato dessa festa.
"A propsito, algum de vocs ouviu falar de um tal Scott Blair?", perguntou-lhes Wellow a uma hora j tardia;  que, de repente, ao tocar alguns compassos de Chopin, lembrara-se de Landau. "No havia um Scott Blair no nosso ano?", perguntou de novo, pois a primeira pergunta fora abafada pelo barulho.
"Estava uns anos  nossa frente. No Trinity College", respondeu uma voz j tocada do outro lado da sala. "Estudava Histria. Maluco por jazz. Queria viver do saxofone. O velho dele no foi nisso. Barley Blair. Bbado que nem um cacho todo o dia."
Nesse momento Palmer Wellow tocou um acorde atroador que reduziu a um silncio total o desvario que ia pela sala. "Ouve l, por
Landau diz "He's not at anywhere", em vez de "He's nowhere", (N. do T) Oeste de Inglaterra. Condados  volta de Londres.
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acaso o Barley Biair no se ter tomado um sacana dum espio?",
arriscou.
"O pai? J morreu."
"O filho, burro. O Barley." Como algum que sasse de trs de um cortinado, o seu informador emergiu daquela multido de homens jovens e menos jovens e abeirou-se dele, de copo na mo. Para sua grande satisfao, Palmer reconheceu um dos seus muito caros companheiros de quarto do Trinity College, de h cem anos antes.
"Na verdade, no sei se o Barley  ou no um sacana de um espio", disse o camarada de Palmer, com uma aspereza que nele era habitual, enquanto o tumulto do fundo retomava o estrpito inicial. "O que ele  certamente  um fracasso, se  que fracasso qualifica algum."
Com a sua curiosidade ainda mais aguada, Palmer regressou s suas espaosas instalaes do Foreign Office, e aos cadernos e ao envelope de Landau, que havia confiado ao porteiro por uma questo de segurana. E foi a partir desse momento que as suas aces, para usar os termos do nosso documento de trabalho provisrio, comearam a seguir um rumo infeliz. Ou, para usar os termos mais rudes de Ned e dos seus colegas da Casa da Rssia, naquele momento, se vivssemos num pas civilizado, P. Wellow teria sido dependurado pelos polegares num ponto alto da cidade e a deixado em paz, para que pudesse reflectir acerca dos seus feitos.
 que o que Palmer fez a seguir foi divertir-se com os cadernos. Durante duas noites e um dia e meio. Porque os achou muito, mas mesmo muito, divertidos. No abriu o envelope amarelecido - que agora rezava, na letra de Landau, "extremamente confidencial,  ateno de Mr. B. Scott Blair ou de um alto funcionrio da Espionagem" - porque, tal como Landau, tambm ele era de uma escola que reprovava que se lesse a correspondncia alheia. Fosse como fosse, o envelope estava bem colado e Palmer no era homem para se desenvencilhar de um obstculo fsico. Mas aquele caderno - com todos os seus estranhos aforismos e citaes, a sua inquebrantvel averso a polticos e militares, as suas mltiplas e certeiras referncias a Pushkin, o renascentista puro, e a Kleist, o suicida puro aquele caderno deixara-o fascinado.
Sentiu muito pouca pressa e nenhuma responsabilidade. Era um diplomata e no um Amigo, nome por que eram conhecidos os espies. E na sua zoologia, Amigos eram gente sem as capacidades intelectuais para serem aquilo que ele, Palmer, era. Naturalmente sentia uma sincera indignao pelo facto de o ortodoxo Foreign Office, a que pertencia, se parecer cada vez mais com uma organizao de cobertura s infames actividades dos Amigos.  que Palmer era tambm um homem de uma erudio impressionante, ainda que de um tipo pouco sistemtico. Tinha estudado rabe na Universidade e obtivera um Muito Bom em Histria Moderna. Nos tempos livres estudara Russo e Snscrito. Sabia de tudo, excepto de matem-
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ticas e de senso comum, o que explica o facto de ter ignorado as medonhas pginas com frmulas algbricas, equaes e diagramas, que constituam os outros dois cadernos, e que, em contraste com as divagaes filosficas, tinham uma aparncia fastidiosamente disciplinada. O que explica tambm - embora a comisso tenha dificuldade em aceitar tal explicao - que Palmer tenha ignorado os regulamentos dos escriturrios efectivos relativamente a Defectores e Ofertas de Informaes Secretas, solicitadas ou no, resolvendo actuar por conta prpria.
"Ele faz as associaes mais fantsticas acerca de tudo, Tig", disse Palmer a um colega muito mais velho do Departamento de Investigao na tera-feira, depois de decidir que era finalmente tempo de partilhar a sua descoberta. "Tens de o ler."
"Mas como  que sabemos que  um "ele", Palms?" Palmer sentia que s podia ser um homem a escrever aquilo, Tig. Era uma questo de vibraes.
O colega de Palmer deu uma olhadela para o primeiro caderno, depois outra para o segundo, at que se deteve a examinar o terceiro. Depois, regressou aos desenhos do segundo caderno. Finalmente, o seu lado profissional apercebeu-se de que estava perante uma emergncia.
"Se fosse a ti, Palms, entregava-lhes isto o mais depressa possvel", disse. Porm, depois de pensar bem, Tig pegou nos cadernos e correu a entreg-los, depois de ter telefonado a Ned pela linha verde, pedindo-lhe que esperasse por ele.
Dois dias depois era a confuso total. s quatro horas da manh de quarta-feira, as luzes do ltimo piso do quartel-general de Ned, uma pequena fortaleza com paredes de tijolo conhecida como a Casa da Rssia, continuavam bem acesas. Terminava a essa hora a primeira de uma srie de reunies particularmente confusas daquele que, mais tarde, se viria a chamar o grupo da Ave Azul. Cinco horas passadas, e depois de ter participado em mais duas reunies no quartel-general dos Servios, um bloco muito alto e novinho em folha junto ao Tamisa, Ned regressava  sua secretria, agora rodeado por vertiginosas pilhas de pastas, como se as raparigas dos Arquivos tivessem decidido erigir uma barricada de rua.
" possvel que os caminhos do Senhor sejam insondveis", ter dito Ned a Brock, o seu assistente ruivo, numa pausa do expediente, "mas muito mais insondvel  o modo como Ele escolhe estes fulanos. "
Fulano, em linguagem coloquial,  um ser humano, e um ser humano, em ingls sensato,  um espio. Estaria Ned a referir-se a Landau, quando falou em "fulanos"? A Katya? Ao annimo autor dos cadernos? Ou estaria j atento aos traos vagos e fluidos desse grande espio britnico chamado Bartholornew Scott Blair? Brock no sabia, nem procurou saber. Nascera em Glasgow, mas era de
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ascendncia lituana e os conceitos abstractos irritavam-no profundamente.
Quanto a mim, s uma semana depois  que Ned decidiu, com alguma relutncia, que era tempo de convocar o velho Palfrey. Desde que me lembro que sou o velho Palfrey. At hoje no consegui entender o que ter acontecido aos meus nomes de baptismo. "Onde  que est o nosso velho Palfrey?", dizem eles. "Onde  que anda o nosso leo das leis? Chamem o nosso velho ilusionista das leis! O melhor . passarmos isto para o Palfrey!"
A minha apresentao  coisa rpida. No so precisos grandes rodeios, longas descries. Horatio Benedict de Palfrey so os meus nomes, mas o leitor pode desde j esquecer os dois primeiros, e, quanto ao "de", nunca ningum reparou nele. Nos Servios sou o Harry. Por isso, e como sou uma criatura obediente, acontece-me muitas vezes ser Harry para mim mesmo. Sozinho  noite no meu exguo apartamento de celibatrio, sinto-me deveras inclinado a chamar Harry a mim mesmo, enquanto preparo uma costeleta. Conselheiro legal dos ilegais,  o que eu sou, e em tempos idos scio mais novo da extinta casa Mackie, Mackie & de Palfrey, Advogados e Notrios, em Chancery Lane. Mas isso foi h vinte anos. H vinte anos que sou o vosso mais humilde criado secreto, pronto, em qualquer altura, a manipular os pratos da balana da mesma deusa cega que o meu corao jovem aprendeu a venerar.
Um palafrmI, ao que me dizem, no era cavalo de batalha nem cavalo de caa, mas sim um cavalo de sela prprio para a montaria de senhoras. Bom, s uma senhora, e que senhora, conseguiu montar este Palfrey, mas de tanto o montar quase o matava. Chamava-se Hannah. E foi por causa de Hannah que eu corri  procura de abrigo na cidadela secreta, onde no h lugar para a paixo, onde as paredes so to grossas, que deixei de ouvi-Ia batendo os punhos ou implorando em lgrimas que a deixasse enfrentar o escndalo que tanto aterrorizava um advogado no limiar de uma carreira respeitvel.
Esperana no meu rosto e nada no meu corao, disse ela. Uma mulher mais sensata talvez tivesse guardado tais observaes para si mesma, foi sempre o que eu pensei. Por vezes a verdade no passa de uma mscara para a auto-indulgncia. "Porque insistes se eu sou um caso desesperado?", protestava eu. "Se o paciente est morto, porque tentas reanim-lo?"
Porque ela era uma mulher, parecia ser a resposta. Porque ela acreditava na redeno das almas masculinas. Porque eu no tinha pago o suficiente pelas minhas imperfeies.
Agora j paguei, acreditem.  por causa de Hannah que continuo a percorrer os corredores
' No original, palfrey, como o apelido do narrador. (N. do T.)
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secretos, chamando dever  minha cobardia e sacrifcio  minha fraqueza.
 por causa de Hannah que me sento aqui at altas horas da noite, no meu gabinete cinzento de um escritrio que diz ASSISTNCIA LEGAL, na porta, com pastas dos arquivos e gravaes e filmes empilhados  minha volta, como o caso de Jarndyce v. Jarndyce antes da fita cor-de-rosa que o atou e deu por encerrado, enquanto esboo a reabilitao oficial da operao a que chammos Ave Azul e do seu protagonista, Bartholornew, alis Barley, Scott Blair.
 tambm por causa de Harmah que, mesmo enquanto escrevinha a justificao, este velho Palfrey arruma por vezes a caneta, ergue a cabea e sonha.
O retorno de Niki Landau s cores britnicas, se  que alguma vez as tinha verdadeiramente abandonado, deu-se exactamente quarenta e oito horas depois de os cadernos carem na secretria de Ned. Desde a sua miservel passagem por Whitehall que Landau sofria de raiva e mortificao. No tinha ido trabalhar, e tinha mesmo deixado de se preocupar com o seu apartamentozinho de Golders Green, que normalmente polia e alindava como se se tratasse do farol da sua vida. Nem mesmo Lydia conseguira furt-lo aos braos da melancolia. Eu prprio tinha obtido  pressa a autorizao do Ministrio do Interior para pr sob escuta o seu telefone. Quando ela telefonou, ouvimo-lo a dissuadi-Ia de lhe aparecer em casa. E quando ela fez uma trgica apario  porta do prdio, dizem os nossos observadores que ele a deixou ficar apenas o tempo de um ch, mandando-a depois embora.
"No sei o que  que te fiz, mas seja o que for, lamento", ouviram-na dizer tristemente, quando se despediu.
Tinha ela acabado de sair quando Ned ligou. Mais tarde, Landau perguntar-se-ia, com uma boa dose de sagacidade, se teria mesmo sido uma coincidncia.
"Niki Landau?", perguntou Ned com voz de poucos amigos. "Parece que sim", retorquiu Landau, endireitando-se. "Chamo-me Ned. Parece que temos um amigo comum. No vale a pena mencionar nomes. Voc fez o favor de lhe entregar uma carta h dias. Alis, de uma forma inesperada. E um embrulho tambm."
Landau gostou imediatamente daquela voz. Eficiente e imperiosa. A voz de um funcionrio como deve ser, Harry, no de um cnico.
"Bom, de facto entreguei", disse Landau, mas Ned j estava de novo a falar.
"No me parece que tenhamos de entrar em grandes pormenores ao telefone, mas acho que precisamos de ter uma longa conversa e que precisamos de o conhecer. Rapidamente. Quando  que pode ser?"
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"Quando quiser", disse Landau. E fez um esforo para no acrescentar "sir".
"Em minha opinio, o j  sempre melhor. O que  que acha?" "Acho que me sinto muito melhor, Ned", disse Landau com um toque de ironia na voz.
"Vou mandar-lhe um carro. No demora nada, por isso fique onde est e espere que a campainha toque.  um Rover verde, matrcula B. O condutor chama-se Sam. Se quiser tranquilizar-se, pea-lhe que lhe mostre o carto. Se isso no chegar, telefone para o nmero que est no carto. No vai haver problema, pois no?"
"O nosso amigo est bem, no est?", perguntou Landau, incapaz de resistir  pergunta, mas Ned j tinha desligado.
A campainha repicou uns minutos depois. Deixaram o carro  espera  esquina, pensou Landau enquanto descia as escadas, flutuando como num sonho.  isso. Estou nas mos de profissionais. A casa ficava na zona chique de Belgravia, uma casa com um alpendre recentemente restaurado. A sua fachada, recentemente pintada de branco, resplandecia como um blsamo ao sol do fim da tarde. Um palcio excelente, um santurio para os poderes secretos que regem as nossas vidas. Uma chapa polida de lato no vo circunscrito por pilares anunciava DEPARTAMENTO DAS RELAOES INTERNACIONAIS. A porta j estava aberta quando Landau ia a meio da escadaria. E quando o porteiro, vestido de uniforme, fechou a porta atrs de si, Landau viu um homem elegante e desempenado, com quarenta e poucos anos, avanar na sua direco atravs dos raios de sol, primeiro uma silhueta agradvel, depois os traos distintamente atraentes e saudveis, finalmente o cumprimento: leal mas discreto, como uma saudao naval.
"Muito bem, Niki. Venha." As vozes agradveis nem sempre pertencem a rostos agradveis, mas esse no era o caso de Ned. Enquanto o seguia at ao estdio oval, Landau sentiu que lhe poderia dizer fosse o que fosse que Ned estaria sempre do seu lado. De facto, Landau viu em Ned toda uma srie de coisas que lhe agradaram de imediato, e que constituam os talentos mgicos de Ned para atrair os seu semelhante: um encanto estudado, uma aparncia contidamente agradvel, o poder de comandar serenamente e o "venha". Landau intuiu tambm o poliglota, porque tambm o era. Bastava-lhe atirar uma palavra ou uma frase em russo e logo Ned a entenderia e, com um sorriso, responder-lhe-ia com uma frase tambm em russo. Ele era dos nossos, Harry. Ele era o homem certo para confiarmos um segredo, e no aqueles lambe-botas do Foreign Office.
S quando comeou a falar  que Landau se apercebeu do desespero que sentira por no poder dispor de um confidente. Abriu a boca e nunca mais parou. Tudo o que podia fazer era ouvir-se a si mesmo, e o que ouvia deixava-o espantado, porque no estava a falar apenas de Katya e dos cadernos, e das razes que o tinham levado a
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ficar com eles, e do modo como os tinha escondido, mas de toda a sua vida, das suas confuses por ser eslavo, do seu amor pela Rssia, apesar de tudo, do facto de se sentir suspenso entre duas culturas. E no entanto Ned no conduzia a conversa, nem to pouco o interrogava. Ned era um ouvinte nato. Quase no se mexeu, a no ser para tirar algumas esmeradas notas em pequenos cartes, e se interrompeu, foi apenas para esclarecer um ou outro pormenor mais estranho
- por exemplo, o facto de Landau ter passado pelos controlos do aeroporto de Sheremetyevo sem o mnimo problema, j que nem ele, nem bagagem, tinham sido revistados.
"Mas todo o grupo recebeu esse tratamento ou foi apenas voc?" "Todo o grupo. Os guardas acenaram-nos e ns passmos." "No sentiu que o trataram de uma maneira especial?" "Em que aspecto?" "No ficou com a impresso de que lhe reservaram um tratamento diferente? De que o trataram melhor do que os outros, por exemplo?"
"Ns passmos pelos controlos como um bando de ovelhas. Um rebanho", corrigiu Landau. "Mostrmos os nossos vistos e pronto."
"Reparou se outros grupos passaram com a mesma facilidade?" "Os russos pareciam no estar minimanente preocupados. Talvez por ser um sbado de Vero. Ou ento foi por causa da glasnost. Escolheram uns quantos para revistarem e deixaram os outros passar. Para dizer a verdade, senti-me um idiota. No precisava de tomar as
precaues que tomei."
"No foi nada idiota, bem pelo contrrio. Portou-se maravilhosamente", disse Ned, enquanto escrevia, sem qualquer ar de superioridade. "E no avio, lembra-se de quem ficou ao seu lado?"
"Spikey Morgan." "Mais ningum?" "No. Eu fiquei  janela." "Qual era o nmero do seu lugar?" Landau sabia muito bem qual era o nmero, j que o escolhia sem-
pre que era possvel.
"Falaram muito durante o voo?" "De facto falmos imenso." "Sobre qu?" "Mulheres, basicamente. Quando toca a falar de mulheres, o Spikey  como uma bicicleta sem traves a descer numa ravina."
Ned soltou um riso satisfeito. "E falou dos cadernos ao Spikey? Ficaria mais aliviado. Nas suas circunstncias, falar do caso a algum teria sido perfeitamente natural."
"Nem pensar, Ned. No o diria a ningum. No o disse, nem direi. E contei-lhe a si o que se passou porque o Barley Blair anda desaparecido e voc  um funcionrio do Governo."
"E o que me diz de Lydia?" Aquela ofensa  sua dignidade sufocou por momentos a admirao
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que sentia por Ned, bem como a sua surpresa perante um to grande conhecimento da sua vida ntima.
"As minhas mulheres, Ned, pouco sabem de mim.  mesmo possvel que pensem que sabem mais do que realmente sabem", retorquiu. "Mas no conhecem os meus segredos porque eu no permito."
Ned continuou a escrever. E, por uma razo qualquer, o movi- mento ordenado da caneta e a sugesto de que podia ter sido indiscreto, convenceram-no a correr o risco de avanar um pouco mais, porque j tinha reparado que, sempre que falava de Barley, uma espcie de arrepio gelado percorria o rosto descontraidamente tranquilo de Ned.
"E o Barley, est mesmo bem? No teve nenhum acidente?" Ned pareceu no o ouvir. Pegou noutro carto e continuou a escrever.
"Suponho que o Barley teria recorrido  Embaixada, no?", disse Landau. "Sendo um profissional como ele . Se quer que lhe diga, o xadrez  que o trai. Em minha opinio, no devia jogar xadrez. Pelo menos em pblico."
Ento e s ento Ned ergueu a cabea. E Landau viu uma expresso dura e fria no seu rosto que era mais assustadora que as suas palavras. "Niki, ns nunca mencionamos nomes como esse", disse Ned muito calmamente. "Nem mesmo entre ns. Voc no sabia, por isso no fez nada de mal. Mas no repita, por favor. "
Depois, apercebendo-se talvez do efeito que as suas palavras tinham tido em Landau, Ned levantou-se, tirou uma garrafa e dois copos de um aparador de pau-cetim e encheu-os de sherry. "Sim, ele est bem", disse.
E assim beberam o sherry, num brinde silencioso a Barley, cujo nome Landau tinha j jurado dez vezes nunca mais voltar a pronunciar.
"No queremos que v a Gdansk na prxima semana", disse Ned. "Arranjmos um atestado mdico e uma compensao para si. Voc est doente. Suspeita-se de lcera. E entretanto, se no se importa, afaste-se do trabalho."
"Farei o que mandar", disse Landau. Mas antes de se ir embora, assinou uma declarao prevista pela lei dos segredos de Estado, sob o olhar afvel de Ned. Era um documento tortuoso, redigido em termos legais, calculado para impressionar o signatrio e mais ningum. Mas a prpria lei no abona a favor dos autores.
Depois disso, Ned desligou os microfones e as cmaras de vdeo ocultas que o dcimo segundo andar tinha insistido em pr, porque achava conveniente.
E quanto ao resto, Ned fez tudo sozinho. Como chefe da Casa da Rssia, tinha esse direito. Os homens que comandam querem-se solitrios. No chamou sequer o velho Palfrey para lhe dizer que parasse. Ainda era cedo.
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Se antes dessa tarde Landau se sentira ignorado, o resto do dia seguinte, pelo contrrio, viu-se rodeado de atenes. No dia seguinte, manh cedo, Ned telefonou-lhe, pedindo-lhe com a cortesia habitual que se apresentasse numa determinada morada em Pimlico. Era um bloco de apartamentos dos anos trinta, com janelas com uma armao de ao pintada de verde e uma entrada que mais parecia ser a de um cinema. Na presena de dois homens que no apresentou, Ned fez com Landau uma reviso sumria da sua histria, aps o que o atirou aos lobos.
O primeiro a falar era um homem distrado, que parecia flutuar nas nuvens, com umas mas do rosto to cor-de-rosa e uns olhos to lmpidos que a sua cara no deixava de invocar a de um beb. Trazia um casaco de linho que condizia com o cabelo esparso, tambm cor de linho. A sua voz flutuava tambm. "Disse um vestido azul, no foi? O meu nome  Walter", acrescentou, como se tal revelao o surpreendesse a ele mesmo.
"Disse, sim, sir." "Tem a certeza?", disse ele num tom esganiado, meneando a cabea. Os seus olhos, sob uma testa que parecia seda, examinavam Lanclau com uma ponta de suspeita.
"Certeza absoluta, sir. Um vestido azul com uma saca castanha a tiracolo. A maior parte das sacas so de corda. A dela era de plstico e castanha." "Bom", disse eu com os meus botes, "hoje no  o melhor dia, Niki, mas se por acaso te passou pela cabea que a havias de engatar, o que no me admira nada, ento era boa ideia se lhe levasses uma bela malinha de mo azul, sempre fazia conjunto        * " " assim que me lembro dela", continuou Landau. " essa a imagem que tenho na cabea, sir."
Apesar de ter j ouvido vrias vezes esta gravao, soa-me sempre estranho que Lanclau tratasse Walter por "sir", j que a Ned chamava muito simplesmente Ned. No entanto, este pormenor de tratamento era menos um sinal de respeito do que o resultado de um certo melindre que Walter inspirava no seu interlocutor. No fim de contas, Landau era um mulherengo e Walter o seu perfeito oposto.
"E o cabelo era preto?", cantou Walter, como se ter cabelo preto fosse uma raridade pouco crvel.
"Preto, sr. Preto e sedoso. Quase asa de corvo. No tenho a mnina dvida. "
"No seria pintado?" "Disso percebo eu, sir", retorquiu Landau, tocando na sua prpria cabea. No era para admirar tal gesto, j que Lanclau estava disPosto a confidenciar-lhes tudo, mesmo o segredo da sua eterna juventude.
"Disse ainda que ela era de Leninegrado. Porqu?"
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"O porte, sir. - que nela eu vi classe, vi uma russa de Roma.  como eu a vejo. Uma mulher de Petersburg."
"Mas porque  que no achou que ela era, por exemplo, armnia? Ou georgiana? Ou judia?"
Landau reflectiu um pouco sobre a ltima sugesto, mas acabou por rejeit-la. "Repare, eu prprio sou judeu. No digo que isso no seja evidente, mas interiormente o facto de ser judeu pouco me diz."
Um silncio que podia t-lo embaraado, pareceu encoraj-lo a continuar. "Para ser franco, acho que isso de ser judeu  uma coisa requentada. Se  isso que uma pessoa quer ser, tudo bem, no vejo qualquer problema. Mas quem no precisa desse rtulo, por que carga de gua h-de andar com ele? Quanto a mim, considero-me primeiro que tudo britnico, depois polaco e tudo o mais vem a seguir. No me interessa que haja muita gente que prefira inverter essa ordem. O problema  deles."
"Muito bem dito!", gritou Walter excitado, aplaudindo e soltando um risinho nervoso. "Isso realmente resume muito bem a questo. Mas... voc disse que o ingls dela era muito bom.  verdade?"
"Melhor que bom, sir. Clssico. Uma lio para todos ns." "Como se ela fosse professora de ingls, conforme voc disse." "Fiquei com essa impresso", disse Landau, " uma professora, talvez universitria. Sentia-se nela o saber, a erudio, o intelecto, a fora. "
"Talvez pudesser ser intrprete." "Os bons intrpretes apagam-se a si mesmos, pelo menos  o que eu acho, sir. Pelo contrrio, esta mulher impunha-se."
"Muito bem, parece-me uma boa resposta", disse Walter, mirando num relance os seus punhos cor-de-rosa. "E usava um anel de casada. Uma deciso acertada."
"Ah, sim, sem dvida. Um anel de noivado e um anel de casamento. Foi a primeira coisa em que reparei depois de tudo o mais em que  costume reparar-se. E na Rssia no  como em Inglaterra, tem de se olhar para a mo direita porque  na mo direita que elas usam os anis de casamento. Na Rssia, as solteiras so uma praga e o divrcio alastra. Dem-me um maridinho como deve ser e umas quantas criancinhas  espera delas em casa todos os dias. Ento pode ser que me deixe tentar."
"A propsito disso. Voc acha que ela tinha filhos, no acha?" "Estou convencido disso, sr." "Ora, ora, no pode estar assim to convencido", disse Walter num tom irritado, com um sbito trejeito dubitativo na boca. "No me diga que  bruxo!"
"As ancas, sir. As ancas, a sua dignidade mesmo quando estava assustada. Ela no era uma Juno, no era uma sllfide. Era uma me. "
"E a altura?", guinchou Walter num descante, enquanto as suas sobrancelhas calvas se arregalavam alarmadas. "Poder dar-nos uma
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ideia da altura dela? Compare-a consigo. Quando estava a falar com ela, olhava para cima ou para baixo?"
"Uma altura acima do normal. J tinha dito." "Nesse caso, mais alta que voc?" "Sim. " "Um metro e sessenta e cinco? Um metro e setenta?" "Um metro e setenta  mais provvel", disse Landau pouco  vontade.
"E a idade? No deu uma resposta muito clara, ontem." "Se tem mais de trinta e cinco, no parece. Tem uma pele admirvel, um aspecto fino, uma mulher distinta na sua plenitude, sobretudo espiritual, sip>, respondeu Landau com um arreganho de derrota, porque, para alm de achar Walter perfeitamente inspido, cultivava ainda uma fraqueza, que era polaca, por tudo o que era invulgar.
" domingo. Imagine que ela  inglesa. V-a na missa?" "No duvido que ela j examinou esse problema maduramente", disse Landau, para sua grande surpresa, antes de ter tempo para pensar numa resposta. "Pode ter concludo que no h Deus nenhum. Ou que existe uni Deus. Mas, ao contrrio do que acontece com a maior parte de ns, ela no se permitiria iludir a questo. Enfrentou-a, tomou uma deciso e decerto agiu em conformidade."
De sbito, todos os singulares processos usados por Walter para o interrogar se transformaram num sorriso longo e mole. "Ah, voc  mesmo bom", declarou, num tom invejoso. "Agora diga-me uma coisa, voc tem alguns conhecimentos de cincia?", acrescentou com uma voz que de novo planava nas nuvens.
"Alguns, tenho. Mas da cincia da cozinha. Tenho aprendido umas coisas aqui e ali. "
"E de Fsica?" "No passei do nvel W, sir. Em tempos vendi os livros do curso. Mesmo assim, tenho a impresso de que se fizesse agora o exame, se passasse era mesmo  justa. O problema  que no me permitiram que eu melhorasse, podemos pr a questo nestes termos."
"Que significa telemetria?" "Nunca ouvi falar disso." "Nem em ingls, nem em russo?" "Em lngua nenhuma, sir- Telemetria  coisa que nunca vi." "E ECP?" "O qu?" "Erro circular provvel. Francamente, ele fartou-se de escrever sobre isso nestes estranhos cadernos que voc nos trouxe. No me diga
1 O mais baixo dos dois nveis de classificao do exame de acesso  universidade na Gr-Bretanha. (N. do T.)
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que o ECP no lhe chamou a ateno. "
"No reparei. Passei por cima." "At parar naquele ponto em que o cavaleiro sovitico morre dentro da armadura. A no passou por cima. Porqu?"
"Eu no parei deliberadamente nesse ponto. Aconteceu-me parar a."
"Est bem, aconteceu-lhe. E a partir da fez a sua apreciao, certo? A sua apreciao sobre o que o autor nos queria dizer. Que apreciao?"
"Creio que o autor dos cadernos se referia  incompetncia. Os russos no so nada bons nessas coisas, so fraquitos."
"Fraquitos em qu?" "Nos msseis. Cometem erros. "
"Que tipo de erros?" "Todo o tipo de erros. Erros magntcos. Erros de direco, se  que isso existe. No sei. Vocs  que sabem dessas coisas, no ?"
Mas o enfado com que Landau se defendia servia apenas para acender as suas virtudes como testemunha. Porque se queria brilhar e no conseguia, o seu fracasso tranquilizava-os, como o comprovava o gesto areo de Walter, em sinal de alvio.
"Bom, o que eu penso  que ele se saiu muito bem", disse Walter como se Landau no estivesse presente, erguendo de novo as mos, desta vez num gesto teatral de concluso. "Ele diz-nos aquilo de que se lembra. No inventa coisas para melhorar a histria. Voc no faria uma coisa dessas, pois no, Niki?", acrescentou, ansioso, descruzando as pernas como se as virilhas lhe picassem.
"No, sir, pode ficar tranquilo." "Espero que no, quer dizer, mais tarde ou mais cedo acabaramos por descobrir. Nesse caso, l se ia todo o brilho das suas declaraes."
"No, sir. Tudo aconteceu como eu disse. No acrescentei, nem tirei. "
"Estou certo disso", disse Walter para os colegas, num tom perfeitamente confiante, enquanto se reclinava de novo na cadeira. "A coisa mais difcil no nosso trabalho ou em qualquer outro trabalho,  dizer "eu acredito." O Niki  to puro como uma fonte, o que  uma coisa to rara como as galinhas terem dentes. Se houvesse muitos como ele, ningum precisaria de ns."
"Apresento-lhe o Johnny", disse Ned, no seu papel de ajudante-de-campo.
Johnny tinha um cabelo ondulado grisalho e uns maxilares largos euma pasta cheia de telegramas que pareciam oficiais. Com o seu relgio com corrente de ouro e o seu fato cor de carvo feito por medida, talvez correspondessse  imagem que as criadas de bar estrangeiras fazem dos ingleses. Mas no era essa a imagem que Landau fazia dos seus compatriotas adoptados.
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"Niki, primeiro que tudo, paP, ns temos de lhe agradecer", disse Johnny, com a sua entoao lenta da costa leste americana. Ns, os principais beneficirios, sugeria o seu tom generoso. Ns, os principais accionistas da firma. Receio bem que o Johnny seja assim mesmo. Um bom funcionrio, mas incapaz de refrear a sua supremacia amenicana. Por vezes penso que a diferena entre os espies americanos e os nossos consiste nisso mesmo. Os americanos, com o seu desfrute sem limites de poder e dinheiro, alardeiam a sua ventura. Falta-lhes o instinto de simulao, que nos britnicos  to natural.
De qualquer modo, Landau ps-se em posio de combate num abrir e fechar de olhos.
"Importa-se que lhe faa umas perguntas?", disse Johnny. "Se o Ned est de acordo ... ", retorquiu Landau. "Claro que estou", disse Ned. "Bom, ento vamos fazer de conta que estamos na feira, naquela noite. Okay, pal?"
"Bem, Johnny, no foi bem  noite, foi mais ao fim da tarde." "Voc acompanha a tal mulher, a tal Yekaterina Orlova, at ao patamar. Que  onde esto os guardas. E despede-se dela."
"Ela d-me o brao." "Ela d-lhe o brao. Ok. Bestial. Em frente dos guardas. Voc v-a descer as escadas. Mas tambm a v sair para a rua, pal?"
Nunca tinha ouvido o Johnny tratar ningum por "pa]". Conclu que estava a tentar espicaar Landau, segundo um processo que os tipos da Agncia' aprendem com os psiclogos da casa.
"Correcto", atirou Landau. "Mas viu-a mesmo sair para a rua? Pare um pouco e pense", sugeriu, com a falsa franqueza do advogado.
"Para a rua e para fora da minha vida. "
Johnny esperou at ter a certeza de que toda a gente percebia que ele estava  espera, e Landau percebeu-o melhor do que ningum. "Niki, pal, pusemos gente no cimo dessas escadas nas ltimas vinte e quatro horas. Desse patamar ningum v a rua."
O rosto de Landau ficou de sbito vermelho. No por uma questo de embarao, mas sim porque estava a ficar seriamente zangado. "Vi-a descer as escadas. Vi-a atravessar o hall em direco  rua. Ela no voltou para trs. Portanto, a menos que algum tenha mudado a rua nas ltimas vinte e quatro horas, o que, nos tempos de Estaline, teria sido perfeitamente possvel ... "
"Vamos continuar, sim?", disse Ned. "Viu algum ir atrs dela?", perguntou Johnny, irritando ainda mais Landau.
' "Pal" designa um amigo prximo, um camarada; neste caso, o seu valor visaria uma maior aproximao entre os dois interlocutores. Tal como no caso de "sir", a traduo, por exemplo por "amigo", revelar-se-ia redutora, pelo que se manteve o termo original. (N. do T.) 'C. 1. A, Central Intelligence Agency. (N. do T.)
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"Nas escadas ou quando ela saiu para a rua?" "Nas escadas e quando ela saiu." "No, no vi. No a vi sair para a rua, voc acabou de me dizer que no vi. Sendo assim, porque  que no responde voc que eu fao as perguntas?"
Enquanto Johnny se recostava indolentemente na cadeira, Ned interveio. "Niki, h aqui coisas que tm de ser examinadas com muito cuidado. H muita coisa em jogo e o Johnny tem ordens a cumprir. "
"Eu tambm estou em jogo", disse Landau. " a minha palavra que est em causa e no gosto de ser ridicularizado por um americano que nem sequer  britnico."
Johnny tinha regressado  pasta. "Niki,  capaz de descrever as disposies de segurana utilizadas na feira, tal e qual como voc as viu?"
Landali. respirou tensamente. "Bom", disse, e reatou er seu discurso. "Tnhamos aqueles dois polcias jovens, de uniforme, que andavam s voltas de um lado para o outro no hall do hotel. So os tipos que tm as listas com os nomes de todos os russos que entram e saem, o que  normal. Depois, l em cima, no salo, tnhamos os trastes. So os tipos  paisana. Os vadios,  como lhes chamam, os toptuny", acrescentou, para que Johnny se pudesse ilustrar. "Ao fim de uns dias, reconhecemos os toptuny  lgua. No compram, no roubam nada dos expositores, no pedem brindes e um deles tem sempre cabelo cor de manteiga, no me perguntem porqu. Ns tivemos trs tipos desses, sempre os mesmos toda a semana. Foram eles que a viram descer as escadas."
"Eram s esses, pal?" "Que eu saiba, eram, mas estou  espera que me corrijam." "No se deu conta de duas mulheres de idade indeterminada, de cabelo grisalho, que iam todos os dias  feira, chegavam cedo, iam-se embora tarde, tambm no compravam, no entravam em negociaes com nenhum dos exibidores, no pareciam ter nenhum interesse legtimo pela feira?"
"Ou me engano muito ou est a falar da Gert e da Daisy." "De quem?" "Eram duas velhas do Conselho das Bibliotecas. Vinham por causa da cerveja. O seu principal prazer era sacar brochuras dos stands e mendigar folhetos grtis. Baptizmo-las de Gert e Daisy, que era o nome dum programa de rdio muito popular nos anos da guerra e depois."
"No lhe ocorreu que essas senhoras pudessem exercer tambm uma funo de vigilnca?"
A poderosa mo de Ned estava j a postos para refrear Landau, mas era demasiado tarde.
' "Gert and Daisy" eram duas artistas de music-hail, Doris e Elsie Waters, de facto extremamente populares. O seu nome foi dado, durante a Segunda Guerra, a duas vias sujeitas aos bombardeamentos alemes na rea de Green Mil, na Turtsia. (N. do T.)
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"Johmiy", disse Landau,a ferver. "Estamos em Moscovo, certo? Moscovo, Rssia, pal. Se eu parasse para pensar quem  que estava a vigiar quem, ento no saa da cama de manh e no voltava  mesma cama  noite. Que eu saiba at os pssaros das rvores esto sob escuta."
No entanto, Johnny voltava aos seus telegramas. "Segundo as suas declaraes, Yaketarina Borisovna Orlova disse-lhe que o stand vizinho da Abercombrie & Blair tinha estado vazio no dia anterior, correcto?"
"Foi isso mesmo que eu disse." "Mas no a viu no dia anterior, pois no?" "No. "
"E no entanto voc diz que uma mulher bonita no lhe passa despercebida."
"Digo e espero continuar a dizer." "No acha que era natural que tivesse dado por ela nesse dia?" "s vezes, falha-me uma ou outra", confessou Landau, enrubescendo de novo. "Se estou de costas, por exemplo, se estou debruado sobre uma secretria ou se vou  casa de banho,  muito possvel que a minha ateno se disperse por um momento."
Mas a calma de Johnny comeava a impor-se. "Voc tem parentes na Polnia, no tem, Mr. Landau?" Era evidente que o tratamento por "pa]" j no era necessrio. Ao ouvir a gravao, apercebi-me desse pormenor.
"Tenho." "No tem uma irm mais velha altamente colocada na administrao polaca?"
"A minha irm trabalha no Ministrio da Sade polaco,  inspectora dos hospitais. No est altamente colocada e j passou a idade da reforma."
"Voc alguma vez foi, directa ou indirectamente, alvo consentidorl de presses ou chantagem de agncias de espionagem do bloco comunista ou de terceiros actuando por conta delas?"
Landau virou-se para Ned. "Um alvo qu? Receio bem que o meu ingls no chegue para o entender."
"Um alvo consciente", disse Ned com um sorriso de aviso. "A par, ciente de que era alvo das presses ou da chantagem."
"No, nunca fui alvo de nada." "Nas suas viagens aos pases do bloco de Leste, alguma vez foi ntimo de mulheres desses pases?"
"Fui para a cama com algumas. Mas ntimo nunca fui. "
Como um adolescente malandro, Walter soltou um risinho chiado, erguendo incontroladamente os ombros e tapando com a mo os seus horrveis dentes. Mas Johnny avanava obstinadamente: "Mr. Landau,
' No original, "witting", de uso raro, o que explica o espanto, ainda que forado, de Landau. Ned usa termos mais comuns: "conscious", "aware", "knowing",
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anteriormente a este caso, alguma vez teve contactos com agncias de espionagem de qualquer pas, hostil ou amigo?"
"Negativo." "Alguma vez vendeu informaes a alguma pessoa, fosse qual fosse o seu estatuto ou profisso - jornais, agncias de informaes, polcias, militares -, fosse para que fim fosse, ainda que incuo?"
"Negativo." "E no 6 nem nunca foi membro de nenhum partido comunista, ou de uma organizao pacifista ou de um grupo prximo dos seus objectivos?"
"Eu sou um cidado britnico", retorquiu Landau, espetando o seu pequeno queixo polaco.
"E no faz nenhuma ideia, ainda que vaga ou confusa, da mensagem global contida no material que manipulou?"
"Eu no o manipulei. Limitei-me a pass-lo." "Mas entretanto leu-o." "Li o que pude. Li alguma coisa. Depois, desisti. Como lhes disse. "
"Porque  que desistiu?" "Se quer saber, desisti por uma questo de decncia. Que  uma coisa que a si no o deve preocupar."
Mas Johnny, em vez de corar, ps-se a vasculhar pacientemente na sua pasta. Tirou um envelope e do envelope um monte de fotografias do tamanho de postais, que disps sobre a mesa como cartas de jogar. Algumas das fotografias eram muito pouco ntidas, e todas elas granulosas. Umas quantas tinham elementos em primeiro plano que dificultavam a viso do resto. Mostravam mulheres a descer as escadas de um prdio de escritrios perfeitamente glido, algumas em grupos, outras isoladas. Algumas levavam sacas, algumas iam de cabea baixa e no levavam nada. E Landau lembrou-se de ouvir dizer que, em Moscovo, era hbito as mulheres sarem durante a hora do almoo para fazerem as compras possveis. S que deixavam as malas de mo em cima das secretrias, para que toda a gente pensasse que no passavam do corredor, e se por acaso compravam alguma coisa regressavam ao trabalho de bolsos a abarrotar.
" esta", disse Landau de sbito, apontando com o indicador. Johnny tinha ensaiado mais um dos seus truques de tribunal. A sua inteligncia no o impedia de fazer disparates. Parecia desapontado e extremamente incrdulo. Estava com ar de quem tinha apanhado Landau numa mentira. O vdeo mostra-o a reagir de uma maneira excessiva. "Por amor de Deus, como  que voc pode ter tanta certeza? Ainda por cima nunca a viu de sobretudo!"
V-se bem no filme que Landau no ficou nada perturbado com essa reaco. " ela, a Katya", diz firmemente. "Reconhec-la-ia fosse onde fosse.  a Katya. Tem o cabelo arranjado, mas  ela. A Katya. E  a saca dela, de plstico. " E continua a examinar a fotografia. "O anel de casamento." Por um momento parece esquecer-se
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de que no est sozinho. "Voltaria a fazer o que fiz por ela amanh", diz. "E depois de amanh."
E assim terminou, satisfatoriamente, o hostil interrogatrio de Johnny.
 medida que os dias avanavam e as enigmticas entrevistas se sucediam, sempre em locais diferentes, sempre com entrevistadores diferentes,  excepo de Ned, Landau sentia, de forma cada vez mais ntida, que as coisas se encaminhavam para um clmax. Num laboratrio de som por trs da Portland Place, puseram-no a ouvir vozes de mulheres. Russas falando russo e russas falando ingls. Mas no reconheceu a voz de Katya. Um outro dia foi consagrado ao dinheiro, o que o deixou perfeitamente alarmado. No se tratava do dinheiro deles, mas sim do seu. Dos seus extractos bancrios - mas como  que os tipos conseguiram os meus extractos de conta? Das suas declaraes de impostos, folhas de salrios, poupanas, hpoteca, seguro de vida, enfim, pior do que as Finanas.
"Confie em ns, Niki", disse-lhe Ned - mas com um sorriso to honesto e tranquilizador que Landau ficou com a sensao de que Ned tinha andado a defend-lo nos bastidores e de que as coisas estavam bem encaminhadas.
Vo propr-me trabalho, pensou na segunda-feira. Vo fazer de mim um espio como o Barley.
Esto a reapreciar o caso do meu pai vinte anos aps a sua morte, pensou Landau na tera-feira.
Na manh de quarta-feira, Sam, o motorista, tocou na campainha do seu apartamento pela ltima vez e ento tudo se tomou claro.
"Para onde  que vamos hoje, Sam?", perguntou Landau nitidamente bem-disposto. "Para a Bloody Tower?"
"Para a Sing Sing", respondeu Sam, e desataram a rir. Mas Sam no o conduziu  Torre nem a Sing Sing, mas sim pasme-se -  entrada secundria de um dos ministrios que, onze dias antes, tinha terminantemente repelido o seu assalto. Brock, o dos olhos cinzentos, conduziu-o por uma escadaria das traseiras e desapareceu. Landau entrou ento numa grande sala que dava para o Tamisa. Mesmo  sua frente, trs homens sentados a uma mesa, todos do mesmo lado.  esquerda estava Walter, com a gravata perfeitamente alinhada e o cabelo brilhante de gel. Ned estava  direita. Ambos exibiam um ar solene. E entre eles, com as mos juntas e assentes sobre a mesa e rugas de severidade  volta dum maxilar saliente, encontrava-se um homem novo, distintamente vestido, que Landau concluiu, e com razo, ser o superior hierrquico dos outros dois, e que, como mais tarde afirmou, lhe parecia sado de outro filme. Era um homem de aparncia extremamente cuidada e cara de poucos amigos. Parecia estar arranjado para aparecer na televiso. Era rico em dinheiro e no s. Andava  volta dos quarenta, mas o que nele havia de mais terrvel era a inocncia. Parecia demasiado jovem para ser acusado de crimes de adultos.
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"O meu nome  Clive", disse, numa voz sumida. "Entre, Landau. Estamos com um problema sobre o que vamos fazer consigo."
E atrs de Clive - atrs deles todos, de facto -, Niki Landau deu finalmente comigo. O velho Palfrey. Ned reparou que ele me vira, sorriu e, com evidente satisfao, apresentou-nos.
"Ah, Niki, apresento-lhe o Harry", disse, e mentia. At ento ningum tinha tido direito a uma apresentao profissional, mas Ned tratou de fazer a minha: "O Harry  o rbitro c da casa. Ele providencia para que toda a gente seja tratada de uma forma justa."
"ptimo", disse Landau. E foi neste ponto da histria que eu fiz a minha modesta entrada em cena, como paquete das leis, agente de vedetas, actor de pontas, executante de favores, e finalmente como cronista; umas vezes Rosecrantz, outras Guildenstern, e s ocasionalmente Palfrey.
E para tomar conta de Landau - muito mais do que eu -, havia ainda Reg, que era um homem enorme, ruivo e com um ar tranquilizador. Reg conduziu Landau para uma cadeira no centro da sala e sentou-se ao seu lado. Pareciam dois alunos castigados por no saberem a lio. Landau gostou imediatamente de Reg, o que era previsvel, j que Reg era por profisso assistente social e os seus clientes incluam desertores, lderes depostos e agentes acabados, e outros homens e mulheres cujos laos com a Inglaterra seriam decerto mais frouxos se o bom do Reg Wattle e a sua simptica mulher, Berenice, no tivesse a tarefa de os proteger.
"Voc fez um bom trabalho, mas no podemos dizer-lhe porque  que o seu trabalho foi bem feito, no seria seguro", prosseguiu Clive no seu tom rido, quando viu Landau confortavelmente instalado. "Mesmo o pouco que sabe  demasiado. E no podemos deix-lo andar a passear pela Europa do Leste com os nossos segredos na cabea. E demasiado perigoso. Para si e para as pessoas envolvidas. Por isso, se  verdade que voc realizou um servio muito vlido, no  menos verdade que se transformou num motivo de srias preocupaes. Se estivssemos em guerra, podamos prend-lo num stio qualquer ou dar-lhe um tiro, uma coisa dessas. Mas no estamos em guerra, pelo menos oficialmente."
Algures na sua prudente caminhada para o poder, Clive tinha-se treinado na tcnica do sorriso. Era uma arma injusta, se usada com pessoas amigas, um pouco como o silncio ao telefone. Mas Clive nada sabia de injustias, porque nada sabia do seu oposto. Ouanto a paixo, era o que ele usava quando precisava de persuadir as pessoas.
" que, no fim de contas, voc poderia perfeitamente apontar umas quantas pessoas importantes, no  verdade?", prosseguiu Clive, com uma voz to sumida que toda a gente se mantinha como que
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paralisada para o poder ouvir. "Sei muito bem que voc no faria unia coisa dessas deliberadamente. O problema  que quando uma pessoa  algemada a um radiador, normalmente no tem muitas sadas. E no fim, no tem nenhuma."
Quando achou que j tinha assustado Landau o suficiente, Clive olhou para mim, fez-me um sinal e seguiu os meus gestos enquanto eu abria a pomposa pasta de cabedal que trouxera comigo e estendia a Landau o longo documento que tinha preparado. Rezava este documento que Landau renunciaria por toda a vida a toda e qualquer viagem para l da Cortina de Ferro, que nunca deixaria o pas sem avisar primeiro Reg, com uma antecedncia de um nmero determinado de dias, sendo os pormenores tratados entre os dois, e que Reg cuidaria do passaporte de Landau, a fim de se prevenir qualquer problema. Rezava ainda que Landau aceitaria irrevogavelmente a interveno que Reg teria na sua vida. Reg ou qualquer outra pessoa que as autoridades nomeassem em seu lugar - interveno em que desempenharia os papis de confidente, filsofo e rbitro discreto de todos os seus problemas, incluindo o melindroso problema de como tratar dos impostos sobre o cheque  caixa junto, a levantar numa sucursal em Fulham de um banco britnico especialmente implicativo, no valor de cem mil libras.
E ainda que, para que a Autoridade o pudesse assustar periodicamente, deveria apresentar-se todos os seis meses ao Consultor Legal dos Servios, Harry, para fazerem o ponto a respeito das questes envolvendo o segredo de Estado - Harry, o velho Palfrey, o amante de Hannah noutros tempos, um homem que, de to vergado pelas coisas da vida, talvez fosse o mais indicado para manter os outros na linha. E que no seguimento e em conformidade e consequentemente ao acima exposto, todo aquele episdio envolvendo uma determinada mulher de nacionalidade russa e o manuscrito literrio de um amigo seu, bem como o contedo do referido manuscrito - fosse qual fosse o entendimento que ele tinha da importncia tanto dos textos como das pessoas -, e ainda o papel desempenhado por um certo editor britnico, tudo isso seria, a partir daquele momento, solenemente declarado nulo e sem efeito, morto, enterrado, inexistente, a partir daquele momento e para todo o sempre. Amen.
Deste documento havia uma cpia, que passaria a viver no meu cofre at que o rasgassem ou morresse de morte natural. Landau leu-o por duas vezes, enquanto Reg, por cima do seu ombro, o acompanhava na leitura. Ento, Landau refugiou-se por momentos nos seus prprios sonhos, sem se preocupar minimanente com quem o estava a observar ou com quem quena que ele assinasse, para que deixasse de constituir um problema.  que Landau sabia que, neste caso, ele era o comprador e no o vendedor.
Viu-se a si mesmo  janela do seu quarto de hotel, em Moscovo. Lembrou-se do seu desejo de deixar de uma vez por todas aquela Profisso e de comear uma vida menos rdua. E veio-lhe  cabea a
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divertida ideia de que talvez o Criador o tivesse tomado rigorosamente  letra, realizando fielmente o seu desejo, o que, para grande embarao dos presentes, lhe provocou uma breve exploso de riso.
"Bom, Harry, espero que seja o nosso amigo Johnny, o ianque, a pagar a conta", disse ele.
Mas a piada no recebeu o aplauso que merecia, porque era a pura da verdade. Ento, Landau pegou na caneta de Reg e assinou, e passou-me o documento e viu-me acrescentar a minha assinatura enquanto testemunha, Horatio B. de Palfrey, assinatura que, ao fim de vinte anos, possui uma to consistente ilegibilidade, que se eu assinasse Heinzs Tomato Soup, ningum daria pela diferena. Devidamente assinado, o documento voltou  pasta de cabedal, que eu fechei ainda sob o olhar atento de Landau. Depois, sucederam-se os cumprimentos, trocaram-se compromissos mtuos, e Clive murmurou, "estamos-lhe gratos, Niki", tal e qual como no filme em que Landau periodicamente acreditava participar.
Ento, todos cumprimentaram de novo Landau e, depois de o verem cavalgando nobremente rumo ao pr do Sol ou, mais precisamente, avanando airosamente pelo corredor, em animada conversa com Reg Wattle, que fazia dois dele, esperaram impacientes que ligassem as escutas, para as quais eu j tinha obtido autorizao com o infalvel argumento dos muito fortes interesses americanos.
Puseram sob escuta os telefones do seu escritrio e do apartamento, leram-lhe o correio e colaram-lhe uma lapa electrnica no eixo traseiro do seu to querido Triumpli.
Seguiram-no nas suas horas de lazer e recrutaram uma dactilgrafa do seu escritrio para vigiar aquele "estrangeiro suspeito" durante as ltimas semanas em que l trabalhou.
Mandaram-lhe namoradas potenciais para os bares onde ele costumava fazer os seus engates. No entanto, apesar destas precaues desajeitadas e suprfluas, ditadas pelos mesmos muito fortes interesses americanos, o resultado foi nulo. Nem um sinal de fanfarronice ou indiscrio chegou aos seus ouvidos. Landau nunca se queixou, nunca se vangloriou, nunca tentou tornar o seu caso pblico. O seu caso acabou por constituir, de facto, uma das poucas histrias rematadas e perfeitamente felizes de toda a nossa histria.
Ele foi o prlogo perfeito. Nunca mais pisou o nosso palco. Nunca fez qualquer tentativa para conhecer Barley Scott Blair, esse grande espio britnico. Pode dizer-se que lhe guardou um respeit eterno. Mesmo na grandiosa abertura da sua loja de vdeo, quando o que mais desejava era poder contar com a presena desse verdadeiro heri da espionagem britnica, mesmo nessa altura Landau no infringiu as regras. Talvez o deixasse satisfeito saber que, certa noite, em Moscovo, quando a velha Inglaterra precisara dos seus servios, tambm ele se comportara como o verdadeiro gentleman ingls que por vezes ansiara ser. Ou talvez o polaco que havia nele tivesse ficado contente por ter troado do urso russo. Ou talvez a memria de Ka-
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tya tivesse alimentado a sua fidelidade, Katya, a forte, a virtuosa, Katya, a corajosa e bela Katya, que, apesar de todo o seu medo, tinha tido o cuidado de o avisar dos perigos que corria. "Tem. de acreditar naquilo que est a fazer."
E Landau tinha acreditado. E Landau sentia um orgulho infindo por ter acreditado, como qualquer um de ns sentiria.
At a sua loja de vdeo floresceu. Era uma verdadeira sensao. Talvez um pouco ousada para alguns espritos, incluindo a polcia de Golders Green, com a qual fui obrigado a ter uma conversa an-stosa. Para outros, porm, era um verdadeiro blsamo.
Mas o mais importante foi que at mesmo ns acabmos por gostar dele, precisamente porque ele nos via como ns queramos que toda a gente nos visse, como zeladores omniscientes, capazes e hericos da sade subterrnea da nossa grande nao. Essa era uma viso que Barley parecia nunca ter sido capaz de partilhar - alis, tal como Hannah, embora ela no nos conhecesse por dentro, embora para ela isto fosse apenas o lugar para onde nq me podia seguir, o santurio do supremo envolvimento, e, por isso, aos seus olhos inflexveis, o santurio do supremo desespero.
"Tenho a certeza de que eles no so a cura, Palfrey", disse-me ela apenas umas semanas antes, quando, por uma razo qualquer de que j no me lembro, eu tentei enaltecer os Servios. "A mim, pelo contrrio, parecem-me muito mais a doena. "
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Ns, os mais experientes no ramo, costumamos dizer que no h operao de espionagem que no descambe ocasionalmente em farsa. Quanto maior for a operao, tanto maiores sero as suas potencialidades cmicas, e nos anais dos Servios so comuns casos como o da caada secreta movida durante uma semana a Bartholomew, alis Barley, Scott Blair, a qual provocou um alvoroo, e consequente frustao, que chegavam para uma dzia de agncias de espionagem. Novios ortodoxos, como Brock da Casa da Rssia, aprenderam a odiar a vida de Barley, mesmo antes de encontrarem o homem.
Ao fim de cinco dias de perseguio, concluram que sabiam tudo acerca de Barley, excepto onde se encontrava. Conheciam a sua ascendnica livre-pensadora e a sua dispendiosa educao, ambas malbaratadas, bem como as histrias pouco edificantes dos seus casamentos, todos eles desfeitos. Conheciam o caf em Camden Town, onde ele jogava as suas partidas de xadrez com qualquer esprito dado  preguia que por l passasse. Ainda que culpado, Barley seria sempre um cavalheiro, foi o que disseram no caf ao nosso agente Wicklow, disfarado, para o caso, de advogado inquirindo sobre um caso de divrcio. Utilizando os pretextos do costume, desonestos mas eficientes, entrevistaram uma irm de Barley, em Hove, que j estava farta dele, negociantes de Hampstead que lhe tinham escrito, uma filha casada em Grantham, que o adorava, e um filho, um D. Juan de meia-idade que trabalhava na City, to concentrado no seu trabalho que parecia ter feito voto de silncio.
Falaram ainda com membros de uma banda de jazz feita  pressa, onde Barley tinha tocado saxofone ocasionalmente, com um assistente social do hospital onde ele estava registado como visitante e
com o vigrio da igreja de Kentish Town, onde, para grande surpresa
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de todos, cantava as partes de tenor. "Que bela voz,  pena aparecer pouco", disse o vigrio, indulgentemente. Mas quando tentaram -
de novo com a ajuda do velho Palfrey - pr sob escuta o seu telefone, para ouvirem um pouco da sua bela voz, no havia nada para pr sob escuta porque ele no tinha pago a conta.
Encontraram mesmo vestgios dele nos nossos prprios registos. Ou melhor, quem encontrou esses vestgios foram os americanos, facto que lhes minou ainda mais o moral. Veio a saber-se, com efeito, que no prncipio dos anos sessenta, altura em que qualquer ingls que tivesse o infortnio de possuir um nome unido por hfen corria o risco de ser recrutado pelos Servios Secretos, o caso de Barley tinha sido enviado para Nova lorque, a fim de ser submetido a um exame rigoroso, de acordo com um tratado de segurana bilateral s parcialmente observado. Furioso, Brock voltou a investigar junto dos Registos Centrais que, depois de negarem todo e qualquer conhecimento daquela pessoa, desenterraram a sua ficha de uma seco do ndex que ainda no tinha sido transferida para o computador. E a partir dessa ficha, chegou-se a uma pasta contendo todo o processo original, desde o tal exame completo feito em Nova Iorque a correspondncia variada. Brock correu ao gabinete de Ned como se tivesse descoberto a chave para tudo. Idade, 22 anos! Passatempos, teatro e msica! Desportos, nada! Razes para considerarem a sua candidatura, um primo chamado Lionel que fazia parte dos Life Guards!
S faltava o desfecho. O oficial recrutador tinha almoado com Barley no Athenaeum e carimbado o seu processo com um "Indeferido", dando-se ao trabalho de acrescentar  mo a palavra "definitivamente".
No entanto, este singular episdio, ocorrido mais de vinte anos antes, teve um certo efeito oblquo na atitude de todos eles em relao a Barley, quando se debruaram, desconcertados e apreensivos, sobre as ligaes de esquerda do velho Salisbury Blair, o pai de Barley. Aos seus olhos, tal facto teria minado a independncia de Barley. No aos olhos de Ned, porque Ned era feito de matria mais forte. Mas aos olhos dos outros, de Brock e dos mais jovens. Acabaram por sentir que lhes deviam qualquer coisa, nem que fosse por ter sido um aspirante falhado  mstica que os animava.
Uma outra frustrao consubstanciou-se no carro de Barley, perfeitamente imprprio para consumo, que a polcia encontrou estacio- nado ilegalmente em Lexham. Gardens, com um pra-lamas amolgado e a carta caducada e uma garrafa de Scotch meio cheia no porta-luvas com um feixe de cartas de amor com a letra de Barley. Os vizinhos andavam a queixar-se do carro ia para semanas.
"Rebocamo-lo, vemo-nos livres dele, multamo-lo ou muito simplesmente reduzimo-lo a p", sugeriu o amvel chefe da Diviso do Trnsito em conversa telefnica com Ned.
"O melhor  esquec-lo", retorquiu Ned, j exausto. No entanto, ele e Brock apressaram-se a examin-lo, na v esperana de encon-
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trarem uma pista. Concluram que as cartas de amor tinham sido enviadas a uma mulher de Lextiam Gardens, que lhas tinha devolvido. A mulher garantiu-lhes com um ar trgico que seria decerto a ltima pessoa no mundo a saber onde Barley estaria.
S na quinta-feira seguinte, quando Ned se ps a examinar pacientemente o extracto bancrio de Barley relativo a esse ms, surgiu a luz que iluminou o caso. Entre as colunas de saldos negativos, Ned deparou com uma ordem de pagamento trimestral a uma sociedade imobiliria, cento e tal libras destinadas a uma Imobiliria Qualquer Coisa Limitada'. Incrdulo, no tirava os olhos daquilo. Ento, rogou uma praga, o que no estava nos seus hbitos. Telefonou logo de seguida para a seco de Viagens, pediu-lhes que verificassem listas de vo de Gatwick e Heathrow j com algum tempo. Quando as Viagens lhe responderam, voltou a rogar pragas. Tinham encontrado. Dias e dias de telefonemas, entrevistas, quase um porta a porta, normas infringidas a todos os nveis, turnos de vigilncia, telegramas a servios amigos em metade das capitais do mundo, a sua to gabada Seco de Registos humilhada pelos americanos. No entanto, ningum com quem tinham falado, nem nenhuma das investigaes feitas, tinha revelado o nico facto crucial, indispensvel e perfeitamente estpido, que eles precisavam de saber: que, dez anos antes, por um qualquer capricho, Barley Blair, depois de ter herdado uns quantos milhares de uma remota tia, comprara uma casinha mais que modesta em Lisboa, onde costumava descansar periodicamente dos trabalhos da sua multifacetada alma. Poderia ter sido na Cornualha, na Provena ou em Tombuctu. Mas acontecera-lhe gostar de Lisboa, daquele stio perto do rio, junto a um pequeno jardim um tanto mal cuidado, e demasiado perto do mercado do peixe, demasiado perto para as sensibilidades de muitas pessoas.
Com esta descoberta, instalou-se na Casa da Rssia uma calma como a que precede o reatamento dos combates. O rosto de Brock parecia ter empalidecido de raiva.
"Quem  o nosso Irmo em Lisboa actualmente?", perguntou-lhe Ned, de novo leve como uma brisa de Vero.
Depois, telefonou para o velho Palfrey, alis Harry, e ordenou-lhe que ficasse inteiramente  sua disposio para o caso de alguma emergncia, o que, como diria Hannah, descrevia perfeitamente a minha situao.
Merridew viria a encontrar Barley no bar do hotel. Empoleirado num banco alto, algaraviava um discurso sobre a natureza humana em inteno de um major de artilharia expatriado, completamente encharcado em lcool. Era o major Arthur Winslow Graves, mais tarde referenciado como um contacto de Barley, contacto que constitua a sua nica interveno na histria dos homens, sem que ele alguma vez o soubesse. As costas altas e arqueadas de Barley
' "Limitada", no original, em Portugus (N. do T.).
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estavam viradas para a porta aberta, e antes desta havia ainda um ptio, pelo que Merridew, que era um jovem de trinta anos, sobre o gordo, pde armazenar nos pulmes algum do ar de que tanto precisava, antes de entrar em cena. Tinha andado metade do dia atrs de Barley, sem qualquer xito, e a cada fracasso mais funoso ficava:
No apartamento de Barley, a menos de cinco minutos do h            1 onde uma mulher inglesa, com um sotaque bastante vulgar, lhe pondera que se fosse lixar, atravs da ranhura do correio.
Na Biblioteca Britnica, onde a bibliotecria lhe disse que Barley tinha passad> l uma tarde folheando livros, com o que parecia sugerir - embora o negasse imediatamente, quando instada a explicar-se - que ele passara toda a tarde num estado de estupor alcolico.
E numa revoltante estalagem ao estilo Tudor, no Estoril, onde Barley e os amigos tinham consumido um jantar particularmente regado sob mosquetes de plstico, e partindo em grande algazarra menos de meia hora antes.
O hotel, que humildemente preferia auto-denominar-se penso', era um antigo convento, um daqueles locais que os ingleses adoram. Para l chegar, Merridew teve de escalar uma escadaria de pedra tapada por videiras e, tendo-a escalado e dado uma primeira olhadela cuidadosa, apressou-se a desc-la para ir dizer a Brock que corresse
- "mas corre mesmo!" - ao caf da esquina e ligasse para Ned. Depois, escalou de novo a escadaria, razo por que se sentia to ofegante e ainda mais maltratado que o costume. Cheiros de terra molhada e caf acabado de moer misturavam-se com as fragncias nocturnas das plantas. Merridew no as sentia. Faltava-lhe o ar.
O soluar de elctricos distantes e o grasnar dos barcos eram os nicos sons de fundo para o monlogo de Barley. Merridew no se apercebia desses sons.
"As crianas cegas no sabem mastigar, meu caro e encantador Gravey", explicava pacientemente Barley, encostando a ponta do seu indicador, muito longo e fino, ao umbigo do major e descansando o cotovelo no balco, ao lado de uma partida inacabada de xadrez. " um facto cientfico, Gravey. As crianas cegas tm de ser ensinadas a mastigar. Ora venha c. Feche os olhos."
Barley segurou ternamente a cabea do major com as duas mos, aproximou-a de si, abriu-lhe os maxilares frouxos e meteu-lhe na boca dois ou trs cajus. "Ora muito bem. Quem  um lindo menino? Quem come a papinha toda? Mastigar, mastigar! Cuidado com a lngua! Mastigar de novo."
Interpretanto aquela fala como a sua deixa, Merridew afivelou o seu sorriso caloroso de encomenda e aventurou-se a entrar no bar,
'Em portugus, no original. (N. do T.)
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onde, para sua grande surpresa, se lhe depararam duas esculturas em tamanho natural, representando duas mulatas em trajes de crte, uma de cada lado do vo da porta. Cabelo castanho, olhos verdes, repetiu mentalmente, examinando as peculiaridades sicas de Barley como se de um cavalo se tratasse. Altura, um me ro e oitenta e dois, barba sempre feita, bem-falante, fsico elegante, dumentria original. Original, uma ova, pensou o atarracado Merridew, ainda resfolegante, enquanto examinava a roupa de Barley: casaco desportivo de linho, calas de flanela cinzenta e sandlias. Mas o que  que aqueles loucos esperavam que ele vestisse numa noite quente em Lisboa? Arminho?
"Desculpem, sim?", disse Merridew gentilmente. " que eu ando  procura de uma pessoa e talvez me possam ajudar."
"O que prova, meu caro patetinha da sua mama", recoi--~,-Barley, depois de ter cuidadosamente reconduzido o major a uma posio erecta, "para citar a famosa cano, que no obstante o facto de o grande feiticeiro nos ter feiro de carne, comer pessoas no  uma atitude correcta. "
"Mas,... Desculpe, mas se no me engano o senhor  Bartholornew Scott Blair", disse Merridew. "No estou enganado, pois no?"
Segurando o major pela lapela do casaco, a fim de prevenir um desastre militar, Barley deu cuidadosamente meia volta e examinou atentamente Merridew, desde os sapatos ao sorriso.
"Charno-me Merridew e trabalho na Embaixada. Sou o segundo secretrio comercial. Lamento imenso, mas recebemos um telegrama muito urgente para si. Seria uma boa ideia se nos acompanhasse e tomasse desde j conhecimento do seu teor."
Ento, imprudentemente, Merridew permitiu-se um maneirismo habitual em funcionrios obesos. Ergueu repentinamente um brao, deu  mo a forma de taa e passou zelosamente com ela pela cabea, (,orno que para confirmar que o cabelo e o chapu ainda l estavam. E este gesto largo, produzido por um homem gordo numa sala de paredes baixas, pareceu suscitar em Barley receios que, de outro modo, poderiam ter permanecido adormecidos, fazendo com que, subitamente, ele ficasse desconcertantemente sbrio.
"No me diga que morreu algum, meu velho", disse ele, com um sorriso to tenso que parecia preparado para o mais trtico gracejo.
"Por amor de Deus. Mr. Blair, no seja to somi         um assunto comercial e no consular. Caso contrrio, no teria vindo parar s nossas mos, no acha?" Merridew esboou um sorriso apaziguador.
Mas Barley no cedera ainda. Nem um milmetro. Continuava a olhar para o vazio, pouco preocupado com o facto de Merridew estar
f t in
 espera. "Mas afinal que raio  que aconteceu?", perguntou.
"Nada", retorquiu Merridew, assustado. " apenas um telegrama urgente. Escusa de dar tanta importncia ao caso. Veio por via diplomtica."
"E quem  que tem urgncia?"
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 "Ningum. No posso dar-lhe uma ideia em frente de toda a gente. confidencial. S ns podemos l-lo." Esqueceram-se dos culos, pensou Merridew, retribuindo o olhar atento de Barley. Lentes redondas. Armao preta. Demasiado pequenos para os seus olhos. Caem-lhe at  ponta do nariz quando nos franze o sobrolho. Quando nos fixa e nos mede.
"Nunca vi uma dvida honesta que no pudesse esperar um dia" declarou Barley, virando-se para o major. "Tenha calma, Mr. Merridew. Beba um copo com a ral."
Merridew podia no ser o mais elegante ou o mais alto dos homens. Mas era eficiente, astuto e, como muitos gordos, tinha inesperados recursos de indignao, capazes de se transformarem numa torrente sempre que fosse preciso.
"Oia-me por uma vez, Mr. Blair, eu no tenho nada a ver com os seus problemas, e ainda bem. No sou nenhum oficial de diligncias, no sou nenhum paquete. Sou um diplomata e tenho um cargo razoavelmente importante. Passei metade do dia a andar de um lado para o outro  sua procura, tenho um carro e um funcionrio l fora  espera e tenho o direito de dispor de algum tempo para mim mesmo. Lamento, mas  assim mesmo."
O dueto poderia ter prosseguido indefinidamente, no tivesse o major ensaiado um inesperado regresso  vida. Atirando para trs os ombros, colou os punhos s bainhas das calas e encarquilhou a boca
e o queixo num trejeito de respeito. "Ordens reais, Barley", clamou ele. "A Embaixada  a Buck Housel c do stio. Um convite  uma ordem. No teve insultar Sua Majestade."
"Ele no  Sua Majestade", objectou pacientemente Barley. "No traz coroa. "
Merridew pensou se no deveria chamar Brock. Tentou pr um sorriso cativante, mas Barley j estava a olhar para um recanto na parede, onde um vaso de flores secas ocultava uma grelha de lareira vazia. Tentou despert-lo com um "ento? est pronto?", o que teve * mesmo efeito que as imprecaes de um marido apressado perante * demora do jantar. Mas o olhar fixo e desfigurado de Barley no largava as flores. Parecia ver toda a sua vida nas flores, todos os desvios errados, todos os passos em falso. Ento, no preciso momento em que Merridew comeava a perder as esperanas, Barley ps-se a meter todas as suas coisas nos bolsos do casaco, ao jeito de um ritual, como se fosse partir para um safari: a carteira dobrada, cheia de cheques de contas sem dinheiro e de cartes de crdito cancelados; o passaporte, manchado de suor e das muitas viagens; o caderno e o lpis que tinha sempre  mo para a produo de prolas de sabedoria alcolica, em cuja contemplao se deleitava quando estava sbrio. E depois de ter feito tudo isso, deps com um gesto
1 Buckingham Palace. (N. do T.)
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firme uma nota choruda sobre o balco, como algum que no fosse precisar de dinheiro durante muito tempo.
"No se esquea do txi para o major, Manuel. Ajude-o a descer as escadas e a entrar para o banco de trs e pague adiantado ao motorista. Pode ficar com o troco. At breve, Gravey. Obrigado pela boa disposio."
O orvalho cobria a terra e as plantas. Uma lua jovem repousava entre um orvalho de estrelas. Desceram as escadas, Merridew  frente, interpelando Barley para que tivesse cuidado com os degraus.
O porto estava cheio de luzes errantes. Um sedan preto com matrcula C13 esperava encostado ao passeio. Brock aguardava impaciente ao lado do carro, oculto pela obscuridade. Um outro carro vigiava, despercebido, a uma boa distncia.
"Apresento-lhe o Eddie", disse Merridew. "Parece que demormos, Eddie. Conseguiu fazer a sua chamada?"
"Consegui", disse Brock. "Est tudo bem em casa, espero... Os midos j esto na cama? A sua mulher  capaz de estar chateada."
"Est tudo bem", resmungou Brock, num tom que significava "cale-se j!"
Barley sentou-se no banco da frente, a cabea colada ao descanso, os olhos cerrados, Merridew conduzia. Brock sentou-se muito quieto no banco de trs. O segundo carro ps-se em marcha lentamente como fazem os perseguidores experientes.
" por este caminho que costuma ir para a Embaixada?", perguntou Barley numa aparente modorra.
"Ah,  que o funcionrio que estava de servio levou o telegrama para casa", explicou Merridew generosamente, como se acolhesse de bom grado tal pergunta. "Lamentavelmente, aos fins-de-semana, temos de isolar a Embaixada e deix-la bem protegida por causa dos irlandeses." Ligou o rdio. Uma mulher de voz sonora soluava um nutrido queixume. "Fado"', disse Merridew. "Adoro fado. Acho que  por causa do fado que estou aqui. Com toda a certeza. Tenho a certeza que inclu o fado na minha candidatura." Ps-se a conduzir com a mo que tinha livre. "Fado", explicava.
"Por acaso no foram vocs que andaram a chatear a minha filha
com uma quantidade de perguntas estpidas?", perguntou Barley.
"Ah, ns s tratamos de assuntos comerciais", disse Merridew, e continuou a guiar com toda a ateno que lhe era possvel. Mas interiormente sentia-se j gravemente perturbado com a pouca inocencia de Barley. Antes eles que eu, pensou, sentindo o olhar persistente de Barley no seu rosto. Se  com tipos destes que a sede tem de se haver nos tempos que correm, ento Deus me livre de ser colocado em Londres.
' Em portugus, no original. (N. do T.)

Tinham arrendado a casa de Lisboa de um antigo membro dos Servios, um banqueiro britnico com uma outra casa em Sintra. O velho Palfrey tinha tratado de tudo. No queriam propriedades oficiais, nada que mais tarde pudesse compromet-los. Ali, no entanto, o tempo e o lugar impunham-se com uma eloquncia muito prpria. Um candeeiro de ferro forjado iluminava a entrada abobadada. As lajes de granito tinham sido picadas para que os cavalos no escorregassem. Merridew tocou  campainha. Brock tinha-se abeirado dos dois, para o caso de haver algum acidente.
"Ol, entrem", disse Ned afavelmente, abrindo o portal enorme, encimado de arquivoltas.
"Bom, no precisam de mim, pois no?", disse Merridew. "ptimo, ptimo." Balbuciando disparatados pedidos de fogo protector, correu para o carro antes que algum o pudesse rebater. Nesse momento passou lentamente o outro carro, como um bom amigo que tivesse visto outro  entrada de casa numa noite perigosa.
Durante um longo momento, enquanto Brock se ps de lado a observ-los, Ned e Barley mediram-se um ao outro como s dois ingleses da mesma altura, classe e configurao craniana poderiam fazer. E embora Ned fosse, aparentemente, o arqutipo perfeito do britnico calmo, fleumtico e equilibrado, e portanto, a muitos nveis, o reverso de Barley - Barley, que tinha um fsico desconjuntado e ossudo, com um rosto que, mesmo em sossego, parecia determinado a explorar tudo o que havia para alm do bvio -, havia entre eles semelhanas capazes de permitirem uma identificao. Atravs de uma porta fechada veio o murmrio de vozes masculinas, mas Ned fez de conta que no o tinha ouvido. Conduziu Barley por um corredor que dava para uma biblioteca, dizendo-lhe, "entre", enquanto Brock ficava no hafl.
"Est muito, pouco ou razoavelmente bbado?", perguntou Ned, baixando a voz e estendendo a Barley um copo de gua gelada.
"No estou bbado", disse Barley. "Quem  o autor do meu sequestr? O que  que se passa?"
"Chamo-me Ned. Vou explicar-lhe tudo. No h telegrama nenhum, no h qualquer crise nos seus negcios para alm do que  costume. Ningum foi sequestrado. Eu perteno aos Servios SecreWa Britnicos. Tal como as pessoas que esto  sua espera para l
Ia porta. Em tempos voc candidatou-se a um lugar nos ServiL~POis tem agora uma oportunidade de nos ajudar."
V.'Ulou-se entre eles o silncio, enquanto Ned esperava que
Ned tinha exactamente a mesma idade de Barley. H cmw anos aue, de uma maneira ou de outra, revelava a sua
de agente secreto britnico a pessoas cui a colaborao pre- ~ esta era a primeira vez que um cliente seu se mantinha

calado, sem pestanejar, sem sorrir, sem recuar, sem exibir o mnimo sinal de surpresa.
"No sei de nada", disse Barley. "Talvez ns gostssemos que descobrisse uma coisa." "Descubram-na sozinhos." "No podemos. Sem voc, no podemos.  por isso que aqui estaMOS. "
Barley deu uns passos indecisos e abeirou-se das estantes. Inclinando a cabea, espreitou por sobre as lentes redondas alguns dos ttulos, enquanto ia bebendo a sua gua.
"Primeiro eram do sector comercial, agora so espies", disse ele. "Fale com o Embaixador", sugeriu Ned. " um idiota. Fomos colegas em Cambridge." Pegou -num livro encadernado e olhou par  a o frontispcio. "Merda", disse com desprezo. "Deve compr-los ao quilo. De quem  esta casa?"
"O Embaixador poder garantir-lhe a minha identidade. Se lhe perguntar se quer ir jogar golfe na quinta-feira, ele responder-lhe- que s depois das cinco."
"No jogo golfe", disse Barley, pegando noutro volume. "Alis, no jogo nada. Retirei-me de todos os jogos."
"Excepto o xadrez", sugeriu Ned, estendendo-lhe a lista telefnica aberta. Com um encolher de ombros, Barley marcou o nmero. Ao ouvir o Embaixador, fez um sorriso que, apesar de trocista, denotava bastante embarao. "Tubby? Fala Barley Blair. Que me diz a uma partidinha de golfe na quinta-feira? Faz bem ao fgado ... "
Uma voz agreste retorquiu que na quinta-feira s depois das cinco. "Depois das cinco no pode ser", respondeu Barley. "Acabvamos por ter de jogar no escuro - a besta desligou", queixou-se, abanando o auscultador, j calado. Ento viu a mo de Ned desligando a chamada.
" pena, mas o caso no  para brincadeiras", disse Ned. "Alis,  um caso realmente muito srio."
Perdido uma vez mais nas suas contemplaes, Barley colocou lentamente o auscultador sobre o descanso. " realmente muito t fronteira entre o realmente muito srio e o realmente muito cmico", observou.
"E se passssemos essa fronteira?", props Ned. A conversa para l da porta tinha cessado. Barley abriu-a e entrou. Ned seguiu-o. Brock ficou no hafl, de guarda  porta da rua. Tnhamos ouvido tudo atravs do nosso aparelho de escuta.
Se Barley sentia alguma curiosidade em relao ao que o esperaria naquela sala, ns no sentamos menos.  um jogo estranho, virar do avesso a vida de um homem sem nunca o ter visto. Barley entrou lentamente. Deu alguns passos e parou, os braos longilneos cados e
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oscilantes, enquanto Ned, a meio caminho da mesa, fazia as apresentaes.
"Clive, Walter, aquele ali  o Bob, Harry. Apresento-lhes o Barley."
Barley fez um aceno indistinto ao ouvir cada um dos nomes. Parecia preferir o testemunho dos seus olhos a tudo o que lhe pudessem dizer.
O mobilirio pomposo e o verdadeiro matagal de plantas de interior atraram a sua ateno. Tal como a laranjeira. Tocou num fruto, acariciou uma folha, depois cheirou delicadamente o polegar e o indicador como que para confirmar que era uma laranjeira de verdade. Havia nele uma raiva passiva, mais evidente que os motivos que a provocavam. Raiva por o terem perturbado, pensei. Porque o pescaram, porque o isolaram, porque o nomearam - uma das coisas que, segundo Hannah, eu mais temia.
Lembro-me tambm de ter reparado que era um homem elegante. No por causa do vesturio, pouco cuidado. Longe disso. Eram os gestos que o tornavam elegante, uma cortesia discreta. Uma afabilidade natural, ainda que lhe resistisse.
"Vocs no usam apelidos, pois no?", inquiriu Barley, depois de ter completado a inspeco  sala.
"Receio bem que no", disse Clive. " que na semana passada um tal Mr. Rigby telefonou  minha filha Anthea. Disse que era inspector das Finanas. Contou uma patranha qualquer sobre impostos que tinham sido mal calculados e que ele queria regularizar. Era um dos vossos palhaos?"
"Pelo que me diz,  muito provvel que fosse", disse Clive, com a arrogncia de algum para quem a mentira era um constrangimento que os outros no lhe deveriam impor.
Barley olhou para Clive, que tinha um desses rostos ingleses que parecem ter sido embalsamados no fulgor da juventude, para os seus olhos friamente astutos e impenetrveis, para a colorao cinza da sua pele. Virou-se depois para Walter, to rotundo, simples e cmico, um FaIstaff que, na escola, teria sido o alvo preferido da chacota dos colegas mais ricos. E de Walter os seus olhos passaram para Bob, repararam na sua aparncia aristocrtica, na idade mais avanada, na tranquilidade altiva, nos castanhos que usava em vez dos cinzentos e dos azuis. Bob estava repousadamente sentado, com as pernas esticadas, um brao caindo senhorialmente sobre a cadeira. culos de meia lente com armao dourada espreitavam no bolso superior do casaco. As solas dos seus sapatos cor de mogno, j um tanto gastos, pareciam ferros de engomar.
"Barley, eu sou o excntrico nesta familia", anunciou serenamente Bob, com a entoao lenta dos bostonianos. "Creio que sou tambm o mais velho e no quero que haja confuses a meu respeito. Tenho cinquenta e oito anos, quanto a isso no h dvida, trabalho para a Central Intelligence Agency, a qual, como voc provavelmente sabe.,
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tem sede em Langley, no estado de Virgnia. Tenho tambm um apelido, mas no o vou insultar com um inventado." Ergueu uma mo cheia de manchas hepticas numa saudao vagarosa. "Muito gosto em conhec-lo. Vamos ento divertir-nos um pouco? Espero que tudo corra o melhor possvel."
Barley virou-se para Ned. "No h dvida que isto est divertido", disse, embora sem qualquer hostilidade evidente. "Ento qual  o nosso objectivo? Nicargua? Chile? Salvador? Iro? Se querem algum para matar um lder do Terceiro Mundo, no contem comigo. "
"No faa teatro", disse calmamente Clive, embora teatro fosse talvez a nica coisa que Barley no estava a fazer. "Ns somos to maus como os homens do Bob e fazemos as mesmas coisas que eles. Tambm temos uma lei dos segredos de Estado, e eles no, e esperamos que assine o documento previsto nessa lei."
Clive acenou ento na minha direco, o que levou Barley a aperceber-se da minha existncia, um tanto tardiamente,  certo. Em ocasies deste tipo, procuro manter-se sempre um pouco  parte, e foi isso que fiz naquela noite. Provavelmente so ainda restos de uma fantasia, da fantasia de que o meu lugar  como juiz num tribunal. Barley olhou para mim e, por momentos, senti-me desconcertado com a franqueza animal do seu olhar. Esse era um pormenor que no colava ao retrato mal acabado que tnhamos feito dele. E Barley depois de me ter mirado e de ter visto no sei o qu, entregou-se a um exame mais esmiuado da sala.
Tudo aquilo tinha um ar opulento. Talvez Barley tivesse pensado que era Clive o proprietrio. De facto, o gosto de Clive andava l por perto, j que a sua identificao com a classe mdia se resumia ao desconhecimento de que havia um gosto mais refinado. Na sala havia tronos entalhados, sofs de chita, velas elctricas espalhadas pelas paredes. A mesa a que estvamos sentados, e que poderia perfeitamente ser o cenrio de uma cerimnia do Armsticio, ficava num recanto elevado da sala, guarnecido de enormes plantas da borracha em rotundos vasos.
"Por que razo no foi a Moscovo?", perguntou Clive, sem esperar que Barley finalmente se instalasse. "Esperava-se que fosse. Alugou um stand, reservou vo e hotel. Mas no apareceu e no pagou. Em vez de ir para Moscovo, veio para Lisboa com uma mulher. Porqu?"
"Havia de vir com um homem?", perguntou Barley. "Que lhe interessa a si e  CIA que eu tenha vindo com uma mulher ou com um pato americano?"
Puxou uma cadeira e sentou-se, mais por protesto do que por obedincia.
Clive acenu-me e eu fiz ento o nmero do costume. Levantei-me, dei a volta  absurda mesa e pus  sua frente o documento relativo aos segredos de Estado. Com um gesto imponente, tirei uma caneta do bolso do colete e ofereci-lha com uma gravidade funrea. Mas os seus olhos fixavam um local algures longe daquela sala. Nessa
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noite e nos meses seguintes encontrei muitas vezes nele esse olhar, um olhar que ignorava os presentes e se instalava num qualquer territrio privado e sujeito a perturbao; tal como reparei na forma como de repente desatava em grande alarido, como forma de exorcizar fantasmas que mais ningum tinha visto; ou como se punha a fazer estalos com os dedos sem qualquer causa aparente, como se quisesse dizer, "Ento est tudo resolvido", quando ningum sabia de resoluo nenhuma.
"Vai assinar isso?", perguntou Clive. "Que fazem se eu no assinar?", retorquiu Barley. "Nada. Mas deixe-me dizer-lhe, formalmente e perante testemunhas, que esta reunio e tudo o que se passe entre ns est sujeito a total sigilo. O Harry  advogado."
"Efectivamente", disse eu. Barley afastou o documento da sua frente. "Pois deixe-me dizer- -lhe que se me apetecer publico isto tudo em grandes parangonas", retorquiu Barley com idntica calma.
Voltei ao meu lugar, levando a minha imponente caneta comigo. "Em Londres, parece que tambm deixou tudo na maior confuso", observou Clve, enquanto punha o documento de novo na pasta. "Dvidas por todo o lado. Ningum sabe para onde  que foi. Umas quantas amantes chorosas. Est a tentar destruir-se a si mesmo ou qu?"
" que eu herdei uma inclinao romntica", disse Barley. "Mas que raio  que isso significa?", disse Clive, pouco preocupado com a sua prpria ignorncia. "Est a disfarar a sujeira com palavras caras?"
"O meu av conseguiu o monoplio dos romances para criadas. Era no tempo em que havia criadas. O meu pai chamou-lhes 'Romances para as Massas' e continuou a tradio."
S Bob se sentiu na obrigao de lhe oferecer algum conforto. "Por amor de Deus, Barley", exclamou, "o que  que h de mal na literatura cor-de-rosa?  melhor do que algum do esterco que para a  publicado. A minha mulher farta-se de ler esses livros e a ela nunca lhe fizeram mal nenhum."
"Se no gosta dos livros que publica porque no muda de livros?" perguntou Clive, que nunca lia nada a no ser os processos dos Servios e a imprensa de direita.
"Eu tenho um conselho de administrao", replicou Barley agastado, como se estivesse a falar com uma criana inoportuna. "Tenho administradores. Tenho accionistas da famlia. Tenho tias. Todos eles gostam das receitas antigas. Gostam dos 'como fazer". De romances. De best-sellers. De Passares do Imprio Britnico." Um olhar para Bob. "Dentro da CIA."
'Tipo de obras de que um dos principais paradigmas  o "Como Fazer Amigos", de Dale Carnegie. (N. do T.)
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"Por que razo no compareceu na feira audio de Moscovo?", repetiu Clive.
"As tias cancelaram o jogo." " capaz de me explicar isso?" "Pensei em levar a firma para o ramo das cassetes. A famlia descobriu e ops-se. Fim da histria."
"E voc desapareceu", disse Clive. " isso o que voc normalmente faz quando o contrariam? Talvez fosse melhor explicar-nos esta carta", sugeriu e, sem olhar para Barley, f-la deslizar sobre a
mesa na direco de Ned.
No era o original. Esse estava em Langley, onde era submetido a todos os testes, desde as impresses digitais ao teste da doena dos Legionrios, pelas imbatveis foras da tecnologia. Era um fac-smile, preparado segundo as meticulosas instrues de Ned, dentro do envelope castanho selado, com a indicao "Para, Mr. Bartholornew Scott Blair - Pessoal - Urgente", na letra de Katya, e aberto com uma faca de papel, para que se visse que a carta j tinha sido lida. Clive estendeu o envelope a Ned. Ned passou-a para Barley. Walter esgaravatava o escalpe com a sua manpula e Bob assistia magnanimamente no papel do tipo porreiro que tinha dado o dinheiro. Barley olhou-me um breve instante, como se se tivesse eleito meu cliente.
O que  que eu fao com isto?, era o que ele perguntava com aquele olhar. Leio ou devolvo? Espero ter ficado impassvel nesse momento. J no tinha clientes. Tinha os Servios.
"Leia-a lentamente", avisou Ned. "Demore o tempo que for preciso, Barley", disse Bob.
O ror de vezes que lemos aquela carta nessa ltima semana!, pensei eu, enquanto via Barley examinando o envelope dos dois lados, afastando-o de si, aproximando-o, os culos redondos erguidos sobre a testa como se fossem culos de proteco. Quantas opinies teriam sido ouvidas e rejeitadas? Tinha sido escrita num comboio, concluram seis peritos em Langley. Na cama, disseram outros trs em,!@n: dres. No banco de trs dum carro.  pressa, por brincadeira, al    Ixo nadamente, aterrorizadamente. Por uma mulher, por um homem.
O autor  canhoto,  destro.  algum que aprendeu o alfabeto cirli-
co em criana, o romano, ambos, nenhum deles.
Num derradeiro lance de comdia, tinham mesmo consultado o velho Palfrey. "De acordo com a nossa lei dos direitos de autor, o destinatrio possui a carta fsica mas o autor possui os direitos", disse-lhes eu. "Mas no creio que os tribunais soviticos nos processem. " Fiquei sem saber se a minha opinio os deixara apreensivos ou aliviados.
"Reconhece ou no a letra?", perguntou Clive a Barley. Metendo os seus longos dedos no envelope, Barley retirou finalmente a carta - mas num jeito desdenhoso, como se em parte ainda esperasse que fosse uma conta. Depois parou. E tirou os seus estranhos culos redondos e p-los em cima da mesa. Virou a cadeira,
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procurando isolar-se de toda aquela gente. Ao comear a ler, todo o seu rosto se franziu. Acabou a primeira pgina e espreitou para o fim da carta,  procura da assinatura. Passou para a segunda pgina e leu o resto da carta at ao fim. Depois leu tudo de novo, de um s flego, desde o "Meu querido Barley" at "A tua querida K." Aps o que apertou ciosamente a carta contra o colo, com ambas as mos, e baixou o tronco sobre ela, pelo que, deliberadamente ou no, o seu rosto ficou escondido de toda a gente e a sua madeixa caiu como um gancho e as suas oraes privadas, privadas ficaram.
" maluca", disse, para a escurido sob os seus olhos. "No h dvida, completamente doida. Ela nem sequer l esteve."
Ningum lhe perguntou, quem  ela? ou, l, onde? At Clive conhecia o valor de um bom silncio.
"K  a abreviatura de Katya, que por sua vez  a abreviatura de Yekaterina, parece-me", disse Walter, com a sua voz aflautada, aps mais algum tempo de espera. "O patronmico  Borisovna." Walter trazia um lacinho ao pescoo, um tanto torto, amarelo com um motivo castanho e cor de laranja.
"No conheo nenhuma K, no conheo nenhuma Katya, no conheo nenhuma Yekaterina", disse Barley. "Borisovna idem. Nunca forniquei com nenhuma, nunca namorei com nenhuma, nunca pedi nenhuma em casamento, nunca casei com ningum com esse nome. Que me lembre, nunca conheci nenhuma mulher com esse nome. Conheci, sim. "
Todos ficaram  espera, eu includo; e teramos esperado toda a
noite que nem uma cadeira rangeria, nem um pigarro se ouvinia, enquanto Barley no recuperasse a recordao dessa mulher chamada Katya.
"A vaca da Aurora", recomeou Barley. "Tentou impingir-me algumas edies de arte de pintores russos. No fui na conversa. As tias teriam ficado fulas."
"Aurora?", perguntou Clive, sem saber se era uma cidade ou uma agncia estatal.
"Edes Aurora." "Lembra-se do outro nome dela?" Barley abanou a cabea, o rosto ainda oculto. "Barba", disse ele. "Katya da barba. Quarenta graus  sombra."
A voz sonora de Bob tinha uma qualidade estereofnica, a sua emisso bastava para alterar as coisas. "E se a lesse alto, Barley?", props, no tom familiar de um velho camarada escuteiro. "Talvez o facto de a ler em voz alta lhe refresque a memria. Vamos tentar, Barley?"
Barley, Barley, todos seus amigos, excepto Clive, o qual, que me
lembre, sempre o tratou por Blair.
"Sim, faa-nos esse favor. Leia-a alto", disse Clive, ou ordenou, e Barley, para minha surpresa, pareceu achar que se tratava de uma boa ideia. Endireitando-se com um movimento rpido das costas,
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colocou de tal forma o tronco que tanto a carta como o seu rosto ficaram iluminados. De rosto igualmente franzido, comeou a ler a carta em voz alta, num tom de mistificao premeditada.
"Meu querido Barley". Inclinou a carta e recomeou. "Meu querido Barley, lembras-te de uma promessa que me fizeste, certa noite em Peredelkino, no alpendre da dacha 1 dos nossos amigos, depois de termos recitado um ao outro a poesia de um grande mstico russo que amava a Inglaterra? Juraste-me que havias de preferir sempre a humandade s naes e que, quando soasse a hora, agiias como um ser humano decente."
Barley parara de novo. "Nada disso  verdade?", perguntou Clive. "J lhe disse. Nunca conheci a megera!" Havia na negao de Barley uma fora nova. Estava a tentar iludir qualquer coisa que o ameaava.
"Por isso te peo agora que cumpras a tua promessa, embora no da forma que talvez tivssemos imaginado nessa noite em que nos tornmos amantes". "Isto  um disparate completo", murmurou. "Esta estpida desta vaca s tem confuses na cabea. "Peo-te que divulgues este livro junto do pblico ingls, que pensa como ns. Publica-o por mim, usando os argumentos que exprimiste com tanto ardor. Mostra-o aos cientistas e artistas e intelectuais do teu pais e diz-lhes que ele  a primeira pedra de uma grande avalanche e que devem ser eles a lanar a prxima pedra. Diz-lhes que, com a nova abertura, nos poderemos movimentar juntos para destruirmos a destruo e castrarmos o monstro que crimos. Pergunta-lhes o que ser mais perigoso para a humanidade: conformarmo-nos como escravos ou resistirmos como homens? Age como um ser humano decente, Barley. Eu amo a Inglaterra de Herzen e amo-te a ti. A tua querida K". "Mas afinal quem  esta mulher? Est louca. Ambos esto@"
Deixando a carta em cima da mesa, Barley encaminhou-se para a parte obscurecida da sala, praguejando em surdina, gesticulando com o punho direito cerrado. "Mas que raio  que esta mulher decidiu tramar?", protestou. "Ela pegou em duas histrias completamente diferentes e misturou-as. Seja como for, onde  que est o livro?" Lembrara-se de ns e enfrentava-nos de novo.
"O livro est seguro", disse Clive, olhando-me pelo canto do olho. "So capazes de me dizer onde  que ele est? Esse livro  meu." "Pensvamos que era do amigo dela", disse Clive. "Fui encarregado de o publicar. Vocs viram o que ele escreveu. Eu sou o editor dele. No tm qualquer direito sobre o livro."
Barley estava a entrar precisamente no terreno em que queramos que no entrasse. Mas Clive depressa o distraiu.
"Ele?", repetiu Clive. "Ento Katya  um homem? Porque  que
1 Dacha, casa de campo russa. (N. do T.)
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diz ele? Olhe que est a deixar-nos confusos. Mas voc deve ser uma pessoa que confunde facilmente os outros."
Tinha esperado pela exploso mais cedo. J me havia apercebido de que a atitude submissa de Barley era uma trgua e no uma vitria. De cada vez que Clive o tentava refrear, Barley aproximava-se muito da revolta. Por isso, quando Barley se abeirou lentamente da mesa, se debruou sobre ela e ergueu frouxamente as mos, com as palmas para cima, no que poderia ter sido um dcil gesto de desamparo, no era de esperar que oferecesse a Clive uma resposta agradvel. Mas nem mesmo eu esperava uma denotao to forte.
"No tm esse direito!", berrou Barley bem na cara de Clive, batendo com as palmas das mos na mesa com tanta fora que os meus papis saltaram  minha frente. Brock apareceu a correr. Ned mandou-o regressar ao hafl. "Esse manuscrito  meu. Foi-me enviado pelo meu autor. Para que eu o apreciasse no meu devido tempo. No tm o direito de mo roubarem, de o lerem ou de o guardarem. Por isso dem-me o livro e vo para casa, para a vossa miservel ilha." Apont  ou um brao na direco de Bob. "E levem o vosso brmane de Boston convosco."
"Para a nossa ilha", lembrou-lhe Clive. "O livro, como voc lhe chama, est longe de ser um livro e nem voc nem ns temos qualquer direito sobre ele", prosseguiu, fria e falsamente. "No me interessa a sua to preciosa tica editorial. Ningum aqui se interessa.
O que ns sabemos  que o manuscrito em questo contm segredos militares acerca da Unio Sovitica que, a serem verdadeiros, se revelero vitais para a defesa do Ocidente. A cujo hemisfrio voc tambm pertence - de bom grado, ao que julgo. Que faria voc no nosso lugar? Ignorava-o? Atirava-o ao mar? Ou tentava descobrir por que razo o destinatrio  um editor britnico decadente?"
"Ele quer que o livro seja publicado! E que seja eu a public-lo! No o quer escondido nas vossas caixas-fortes!"
"Precisamente", disse Clive, olhando-me de novo num relance. "O manuscrito encontra-se sob proteco oficial e foi classificado como altamente secreto", disse eu. "Encontra-se sujeito s mesmas restries que esta reunio. E as outras." O meu velho professor deu certamente nesse momento uma volta no tmulo - receio bem que no fosse a primeira vez. Mas  sempre espantoso o que um advogado consegue quando ningum conhece a lei,
Um minuto e catorze segundos foi o tempo que o silncio demorou na gravao. Ned mediu-o com o cronmetro, j instalado na Casa da Rssia. Esperara com ansiedade por esse momento, mas mesmo assim, chegou a temer que se tratasse de mais uma dessas estranhas avarias que acontecem sempre aos gravadores nos momentos cruciais. Porm, ao ouvir com ateno, apanhou o murmrio de um carro distante e um breve riso de rapariga.  que Barley, nessa altura, j tinha aberto as cortinas e olhava para a praa em frente. Por um minuto e catorze segundos, estivemos pois a olhar para as costas es-
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tranhamente articuladas de Barley, emolduras pelo pano de fundo da noite de Lisboa. Ouve-se ento um estrondo inpressionante, como se vrias janelas se tivessem estilhaado ao mesmo tempo, seguindo-se-lhe um jacto de leo. Poder-se-ia pensar, ao ouvir a gravao, que Barley tinha ensaiado finalmente uma fuga, levando atrs de si os pratos ornamentais portugueses que estavam nas paredes, para alm dos vasos com flores. Mas a verdade  que todo esse estrondo medonho foi apenas o som produzido por Barley ao descobrir a garrafeira e ao deitar trs cubos de gelo e uma medida decente de Scotch num copo de cristal, tudo isto a milmetros de um microfone que Brock, com o seu zelo caracterstico, tinha instalado num dos mveis ricamente entalhados.
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Barley tinha assentado arraiais num dos cantos da sala, numa cadeira dura e sem braos, o mais longe de ns que lhe era possvel. Sentou-se na cadeira, de lado para ns, de cabea baixa sobre o copo, que segurava com ambas as mos, perscrutando-o como se fosse um grande pensador ou, pelo menos, um pensador solitrio. No falava connosco mas apenas consigo mesmo, enfaticamente, severamente, no se mexendo a no ser para sorver o seu whisky ou para comentar com uns quantos movimentos da cabea alguns pontos da narrativa, mais privados e normalmente isolados. Falava com a mistura de incredulidade e afectao com que as pessoas costumam reconstruir os episdios desastrosos, como uma morte ou um acidente de viao. Portanto, eu estava aqu e voc estava al e o outro sujeito veio de acol.
"Foi na ltima feira do livro de Moscovo. No domingo. No no domingo antes, no domingo depois", disse.
"Em Setembro", sugeriu Ned, ao que Barley respondeu virando * cabea para ele e murmurando "Obrigado", como se tal estmulo * deixasse sinceramente gratt>. Depois, franziu o nariz, andou s voltas com os culos e recomeou.
"Estvamos desfeitos de cansao", disse. "A maior parte dos exibidores tinha-se ido embora na sexta-feira. S tnhamos ficado uns quantos. Aqueles que tinham contratos para ultimar ou que no tinham qualquer razo especial para regressarem com brevidade. "
Alm de naquele momento estar num palco, Barley era um homem que sabia atrair as atenes. Era difcil no sentir alguma admirao por aquele homem que para ali estava, sozinho, desamparado, confrontado consigo mesmo. Era difcil no pensar, "boni, vamos l ver onde  que ele nos leva", tanto mais que nenhum de ns sabia para onde ele nos levaria.
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"No sbado  noite embebedmo-nos todos e no domingo fomos a Peredelkino no carro do Jumbo." Uma vez mais pareceu ter de fazer um esforo para se lembrar de que tinha uma audincia. "Peredelkino  a aldeia dos escritores soviticos", disse, como se nenhum de ns tivesse ouvido falar desse lugar. "Os escritores tm as suas dachas nessa aldeia, pelo menos enquanto se portarem bem. A Unio dos Escritores tem essa aldeia reservada apenas aos seus membros - so eles que decidem quem deve receber uma dacha, quem melhor escre-
ve na priso, quem no escreve nada."
"Quem  o Jumbo?", perguntou Ned - uma das suas poucas intervenes.
"Jumbo Oliphant. Peter Oliphant. Director da Lupus Books. Em privado, um fascista escocs. Cinturo negro da Maonaria. Acha que se entende muito bem com os comunas. Carto dourado." Lembrando-se de Bob, inclinou a cabea na direco dele. "No, no  o American Express.  o carto dourado da feira do livro de Moscovo, passado pelos organizadores russos, dizendo que ele  um tipo importante. Carro grtis, tradutor grtis, hotel grtis, caviar grtis.
O Jumbo nasceu com um carto dourado na boca."
Bob ps um sorriso arreganhado para lhe mostrar que a piada tinha sido bem aceite. No entanto, Bob era um homem generoso e Barley tinha-se apercebido disso. Barley, ocorreu-me nesse momento, era uma daquelas criaturas perante as quais no  possvel ocultar sentimentos generosos, da mesma forma que ele no conseguia ocultar a sua prpria acessibilidade.
"De maneira que l fomos todos", reatou Barley, retornando aos seus devaneios. "O Oliphant da Lupus, o Emery da Bodley Head. E uma raparig da Penguin, no me lembro do nome dela. Lembro, sim, Magda. Mas como  que eu podia esquecer uma Magda? E o Blair da A & B, claro. "
Uns nababos, parecamos uns nababos naquela estpida limousine do Jumbo, disse Barley. Eram frases curtas que ia retirando da sua caixa de memrias como se fossem trapos velhos. Um carro vulgar no servia para o Jumbo, tinha de ser um grande Chaika com cortinas no quarto, sem traves e com um gorila com mau hlito a fazer de motorista. A ideia deles era darem uma vista de olhos  dacha de Pasternak, em relao  qual corria o boato de que ia ser declarada museu, embora corresse outro boato segundo o qual os sacanas iam deit-la abaixo. Talvez fossem tambm visitar o tmulo. O Jumbo Olip,hant no sabia quem era o Pasternak, mas a Magda murmurou-lhe ao ouvido, "Jivago", e o Jumbo tinha visto o filme, disse Barley. No estavam com pressa nenhuma, tudo o que eles queriam era passear um bocado e apanhar ar do campo. Mas o motorista do Jumbo meteu por um caminho especial, reservado a corridas oficiais em Chaikas, de maneira que fizeram a viagem em mais ou menos dez segundos em vez de uma hora, estacionaram num lamaal e esfora-
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damente subiram o caminho do cemitrio, tremendo ainda de gratido pelo passeio.
"Um cemitrio numa ladeira, no meio de imensas rvores. O motorista fica no carro. Est a chover. No muito, mas ele no quer molhar o seu fato horroroso. Ou no sair por qualquer outra razo?" Fez uma pausa, aparentemente para contemplar a enormidade do motorista. "O macaco louco", murmurou.
No entanto, eu tive a sensao de que Barley dirigia aquelas palavras a si mesmo e no ao motorista. Pareceu-me ouvir todo um coro auto-acusatrio em Barley, e fiquei sem saber se os outros o estariam a ouvir tambm. Barley tinha dentro de si criaturas que realmente o punham louco.
A questo  que, segundo Barley, o passeio coincidira com um daqueles dias em que as massas libertadas saem em peso para a rua. Noutros tempos, disse, fora vrias vezes ao cemitrio e nunca vira j ningum. S os tmulos com uma grade  volta e todas aquelas rvores, um cenrio de arrepiar. Porm, nesse domingo de Setembro, com os invulgares odores a liberdade que havia no ar, cerca de duzentos admiradores do escritor tinham-se aglomerado  volta do tmulo. E quando se foram embora, eram ainda mais, uma verdadeira multido. O tmulo tinha uma camada de flores que j dava pelos joelhos, disse Barley. As oferendas no paravam de chegar. As pessoas passavam os bouquets umas s outras at chegarem  primeira fila, at carem naquele monte impressionante.
A certa altura comearam as leituras. Um sujeito leu poesia. Uma mulher leu prosa. At que apareceu uma sacana de uma avioneta. Voou to baixo que ningum conseguia ouvir nada. Depois, voltou a passar no sentido oposto. E de novo no sentido inicial.
"Vvvum! Vvvum!", gritou Barley, imitando a avioneta, a mo comprida varrendo os ares. "Uiiamm, uiiamm!", ganiu com uma voz anasalada, enojado.
Mas a avioneta no podia sufocar o entusiasmo da multido que, alis, j resistira  chuva. Algum comeou a cantar, o pessoal todo pegou no refro e foi uma festa. Finalmente o avio desapareceu, possivelmente por falta de combustvel. Mas no era isso que ns sentamos, disse Barley. Nem por sombras. O que ns sentamos era que os cnticos tinham banido dos cus aqueles porcos.
Os cnticos foram-se tornando cada vez mais fortes, profundos e msticos. Barley conhecia trs palavras de russo, os outros nenhuma. Isso no os impediu de cantarem. No obstou a que Magda chorasse perdidamente. No obstou a que Jumbo Olipliant jurasse por Deus, com a voz trmula, j quando desciam a ladeira, que publicaria tudo o que Pasternak tinha escrito, no apenas o filme mas tudo o mais -
assim eu possa, dizia ele -, e faria isso unicamente com o seu dinheirinho pessoal, nada a ver com a firma, trataria de tudo logo que voltasse ao seu castelo damasco junto ao rio.
"O Jumbo tem destes acessos sbitos de entusiasmo", explicou
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Barley, regressando ao contacto com a audincia. Disse-o com um sorriso malicioso que desarmaria qualquer um. Mas essa observao era dirigida em especial a Ned. "s vezes tais acessos chegam a durar uns minutos." Depois, fez uma pausa, franziu de novo o sobrolho, tirou os seus culos redondos, que pareciam ser mais um    ' incmodo do que um alvio, e olhou atentamente para todas as caras uma a uma, como que para se lembrar do que estava ali a fazer.
Estavam ainda a descer a ladeira, recomeou Barley, e ainda muito emocionados, quando o mesmo sujeitinho russo correu para eles, segurando no cigarro ao nvel da cara como se fosse uma vela, perguntando em ingls se ns ramos americanos.
Uma vez mais Clve adiantou-se-nos. A sua cabea ergueu-se lentamente. Na sua voz arrastada e autoritria havia sinais de nervosismo. "O mesmo? Mas quem  esse sujeitinho russo?  a primeira vez que fala dele ... "
Irritado por Clive lhe ter lembrado que estava ali, Barley contorceu o rosto num novo acesso de desagrado. "Por amor de Deus", disse, "ento no v que era ele quem estava a ler os poemas? O tipo que estava a ler os poemas de Pasternak no cemitrio. Ele perguntou se ns ramos americanos e eu respondi, no, graas a Deus somos britnicos."
Reparei ento, e creio que todos reparmos, que fora Barley - e no Olipliant ou Emery ou Magda - quem se tornara, naquela situao, o porta-voz do grupo.
Barley cara no dilogo directo. Tinha um ouvido de papagaio. Conseguia imitar o sotaque russo do sujeitinho e a voz ladrada e o acento escocs de Olipliant. O seu mimetismo flua naturalmente, como se no tivesse conscincia dele.
"So escritores?", perguntou o sujeitinho, agora pela voz de '13arley. "No, infelizmente. Somos s editores", respondeu Barley. "Editores ingleses?" "Viemos c por causa da feira do livro de Moscovo. Eu tenho uma editorazinha chamada Abercrombie & Blair e este  o director em pessoa da Lupus Books. Um rapaz muito rico. Ainda um dia h-de ser cavaleiro. Carto dourado e bar. No , Jumbo?"
Olipliant protestou que Barley estava a falar demais. Mas o sujeitinho queria mais.
"Se no  indiscrio, posso saber porque vieram visitar o tmulo de Pasternak?", perguntou o sujeitinho.
"Viemos por mero acaso", respondeu Olipliant, interrompendo uma vez mais. "Por mero acaso. Vimos uma multido, subimos para ver o que  que se estava a passar. Foi um mero acaso. Vamos andando?"
Mas Barley no tinha a mnima inteno de ir andando. Aborreciam-no os modos de Oliphant e no permitiria que um escocs milionrio e gordo mandasse um russo subnutrido pastar caracis.
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"Viemos c fazer o mesmo que toda a gente faz", replicou Barley. "Viemos prestar a nossa homenagem a um grande escritor. E tambm gostmos dos seus poemas. Foi emocionante. Notvel. Impressionante."
"Gostam de Boris PasternaV", perguntou o sujeitinho. Oliphant, o grande activista dos direitos do homem, respondeu de novo com uma voz spera e um trejeito no maxilar. "No temos nenhuma posio no que respeita a Boris Pasternak ou a qualquer outro escritor sovitico", disse. "Estamos c como convidados. Unicamente como convidados. No temos qualquer opinio acerca dos assuntos internos soviticos."
"Achamos que Pasternak  maravilhoso", disse Barley. "De primeira. Uma verdadeira estrela."
"Mas porqu?", perguntou o sujeitinho, acirrando o conflito. Barley no tinha pressa nenhuma. Pouco lhe importava, disse, que no estivesse totalmente convencido de que Pasternak era o gnio que toda a gente proclamava ser. Pouco lhe importava que, na realidade, achasse que os mritos de Pasternak no justificavam tanta idolatria. Essa era a opinio do editor. Porm, naquela guerra, essa opinio pouco peso tinha.
"Respeitamos o talento e a arte de Pasternak", replicou Barley. "Respeitamos a sua humanidade. Respeitamos a sua famlia, a sua cultura. E em quinto ou sexto lugar, ou seja em que lugar for, respeitamos a sua capacidade para chegar aos coraes do povo russo, apesar de um bando de burocratas ter feito tudo para lhe roubar a notoriedade, provavelmente o mesmo bando de bestas que mandou a avioneta."
" capaz de o citar?", perguntou o sujeitinho. Barley tinha uma memria dada a citaes, explicou-nos, embaraado. "Atirei-lhe com os primeiros versos do 'Prmio Nobel'. Achei que era apropriado depois daquela maldita avioneta."
"No se importa de os repetir?", disse Clive, como se fosse necessrio esquadrinhar tudo.
Barley no disse os versos, murmurou-os. Ocorreu-me nesse momento que talvez fosse afinal um homem muito tmido.
"Como um animal encurralado, eis-me separado Dos meus amigos, da liberdade, do sol. Mas os ces esto a ganhar terreno. Para onde hei-de ir?"
O sujeitinho, disse Barley, olhava com desagrado para a ponta acesa do seu cigarro, enquanto ouvia o poema. Por um momento chegou a pensar se no teriam realmente cado na armadilha de uma provocao, como Oliphant temia.
"Se respeitam tanto Pasternak, porque no vm conhecer alguns amigos meus?", sugeriu o sujeitinho. "Somos todos escritores. Temos uma dacha. Honrar-nos-ia muito falar com editores britnicos to distintos. "
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A Oliphant bastou-lhe ouvir a primeira metade daquele discurso para ficar com um terrvel acesso de cibras, disse Barley. Jumbo Oliphant sabia muito bem o que significava aceitar convites de desconhecidos russos. Era perito na matria. Sabia perfeitamente como eles nos enleavam, como nos drogavam, como nos comprometiam com fotografias infames, como nos obrigavam a resignar a todos os cargos de chefia e a desistir do sonho de nos tornarmos cavaleiros do Reino. Alm disso, estava metido num ambicioso negcio editorial com a VAAP e a pior coisa que lhe podia acontecer era ser encontrado na companhia de indesejveis. Oliptant contraps todas estas razes de peso aos desgnios de Barley, em jeito de confidncia teatral, como se o sujeitinho fosse surdo.
"Seja como for, est a chover", concluiu triunfalmente Oliphant. "O que  que vamos fazer com o carro?"
Oliphant olhou para o relgio. Magda olhava para o cho. Emery olhava para Magda e pensava que talvez houvesse outras coisas a fazer em Moscovo, numa tarde de domingo. Mas Barley, ao que nos disse, atentou com mais cuidado no estranho e decidiu gostar do que via. No tinha qualquer interesse pela rapariga ou por um ttulo de cavaleiro. J tinha decidido que preferia ser fotografado todo nu
com uma quantidade qualque@ de putas russas do que vestido dos ps  cabea e de brao dado com Jumbo Oliphant. Por isso mandou-os a todos para o carro de Jumbo e arriscou acompanhar o desconhecido.
"Nezhdanov", declarou abruptamente Barley para a sala silenciosa, interrompendo o seu prprio discurso. "Lembrei-me do nome do tipo. Nezhdanov. Dramaturgo. Dirigia uma companhia de teatro experimental, no podia levar  cena as suas prprias peas."
A voz sonora de Walter veio perturbar a momentnea calmania. "Meu caro amigo, Vitaly Nezhdanov  um heri recente. H cinco semanas precisamente que tem trs peas em um acto em cena eni Moscovo, e toda a gente deposita nele as mais invulgares esperanas. No que ele seja bom, longe disso. Mas no podemos dizer que ele no presta, porque  um dissidente.  ou era."
Pela primeira vez desde que o vira, o rosto de Barley ganhou nesse momento uma expresso de sublime felicidade: de imediato senti que aquele era o verdadeiro Barley, aquele que muitas nuvens tinham at ento escondido. "Ah, mas isso  realmente ptimo", comentou, com o prazer simples de algum que tinha a capacidade de apreciar o xito de outro homem. "Bestial. Era mesmo disso que o Vitaly precisava. Obrigado pela notcia", disse com um ar positivamente rejuvenescido.
Porm as sombras voltaram uma vez mais ao seu rosto. Ps-se a bebericar o whisky at que murmurou com um ar ausente: "De maneira que l fomos para a festa. A maior parte deles estavam bbados. Apresento-lhe o meu primo, dizia um. Tire um folhado de salsi-
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cha, dizia outro". Mas os seus olhos, tal como as suas palavras, estavam j longe, noutras paragens da memria, como se alguma provao se aproximasse.
Espreitei para a mesa. Bob sorria. Bob haveria de sorrir mesmo no leito de morte, embora com uma sinceridade de escuteiro. Clive, de perfil, um rosto aguado e quase to penetrante como um machado. Walter no parava quieto. Walter, com a cabea para trs, uma cabea que irradiava inteligncia, enrolando um cabelo com o indicador esponjoso, enquanto sorria maliciosamente para os ornamentos do tecto, desfigurado e suado. E Ned, o chefe - o eficiente Ned, o desenvolto Ned - Ned, o linguista e o guerreiro, o executante e o planeador -, sentado como desde o princpio, atento,  espera da ordem para avanar. Para certas pessoas, reflecti, enquanto o observava, a lealdade em excesso pode ser uma terrvel maldio.  que pode vir um dia em que no haja mais nada nem.ningum a quem servir,
Urna casa grande, de estranha construo, recitava Barley no estilo telegrfico a que se tinha agarrado. Revestimento exterior a tabunhas, estilo eduardiano, alpendres ornados com gregas, um jardim sem jardineiro, uma floresta de btulas. Bancos a cair de podres, carvo a arder, o cheiro de um campo de cricket num dia de chuva, hera. Cerca de trinta pessoas, a maior parte homens, sentados ou passeando pelo jardim, cozinhando, bebendo, ignorando o mau tempo tal e qual como os ingleses. Carros velhos, perfeitamente miserveis, estacionados ao longo da berma, pareciam os carros que se faziam em Inglaterra antes de os prsperos porcos de Mrs. Iliatcher terem tomado conta do navio. Rostos simpticos, vozes vivas, nomenclatura muit dada s artes. Surge Nezlidanov conduzindo Barley. Ningum repara neles.
"A anfitri era poeta", disse Barley. "Tamara qualquer coisa. Com ar de lsbica, cabelo branco, divertida. O marido era editor de uma das revistas cientficas soviticas. Nezlidanov era cunhado dele. Eram todos cunhados de todos. A cena literria tem influncia naquelas paragens. Se uma pessoa tem talento e a deixam us-lo, pode contar com um pblico atento."
Na sua memria arbitrria, Barley dividia agora a histria em trs partes. Almoo, que comeou por volta das duas e meia da tarde, quando a chuva parou. Noite, ou seja, logo a seguir ao almoo. E aquilo a que ele chamou "o fim de tudo", que foi quando aconteceu o que aconteceu, e que, imaginvamos ns, dentro do que nos era possvel, teria ocorrido nesse perodo obscuro que vai das duas s quatro da manh, quando Barley, para usar os seus prprios termos, vagueava sem dor entr 'e o nirvana e uma ressaca quase terminal.
Antes do almoo, Barley tinha andado de grupo em grupo - pri-
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meiro com Nezhdanov, depois sozinho. Cavaqueando e bebendo com quem lhe apetecesse cavaquear e beber com ele'.
"Cavaqueando e bebendo?", repetiu Clive com um ar de suspeita, como se tivesse aprendido o nome de um novo vcio.
Bob apressou-se a traduzir. " conversa, Clive", explicou, no seu jeito amistoso. " conversa e  bebida. Nada de sinistro."
Porm, continuou Barley, quando soou a hora do almoo, sentaram-se a uma mesa que no passava de uma prancha enorme sobre uma armao, com Barley numa cabeceira e Nezhdanov na outra e garrafas de vinho branco da Gergia entre eles, e toda a gente a discutir no seu melhor ingls sobre se a verdade era verdade quando no era conveniente para a grande Revoluo proletria. Revoluo a que juntavam o qualificativo pretensa, e se deveramos regressar aos valores espirituais dos nossos antepassados, e se a perestroika estava a ter algum efeito positivo na vida do povo, e algum dizia a meio que a melhor maneira de saber o que estava mal na Unio Sovitica consistia em tentar mandar um frigorfico de Novosibirsk para Leninegrado.
Clive, para minha grande irritao, obviameinte secreta, voltou a interromp-lo. Como um homem afeito a toda e qualquer irrelevncia, Clive queria nomes. Barley bateu com a palma da mo na testa, esquecido da sua hostilidade para com Clive. Nomes. Clive, meu Deus, como  que eu me esqueci? Um tipo que era professor na Universidade Estatal de Moscovo, mas olhe que no consegui apanhar o nome dele. Outro dedicava-se  investigao qumica, era o meio-irmo de Nezhdanov, chamavam-lhe o Boticrio. Um tipo da Academia das Cincias Soviticas, Gregor, mas olhe que no andei a investigar como  que ele se chamava, e ainda menos quais seriam os seus pontos de vista.
"Havia mulheres  mesa?", perguntou Ned. "Duas, mas no Katya", respondeu Barley, e Ned, tal como eu, ficou visivelmente impressionado com uma to rpida percepo.
"Mas havia algum especial, no havia?", sugeriu Ned. Barley inclinou lentamente a cabea para trs e bebeu. Depois, colocou o copo entre os joelhos e deixou-se ficar de cabea baixa, o nariz a pouca distncia do copo, inalando a sabedoria do lcool.
"Claro, claro,  claro que havia algum especial", concordou. "H sempre, no ?", acrescentou, enigmaticamente. "Mas no era Katya. Era outra pessoa."
A sua voz tinha-se transformado. No consegui discriminar em que consistia essa transformao. Talvez uma maior conciso. Uma sugesto de pesar ou remorso. Esperei, como espermos todos. Creio que, apesar de tudo, nesse momento todos sentimos que algo de extraordinrio ia surgir no horizonte.
1 No original, Barley usa o termo "shmooze", que tem o significado de "a chat and a dlink", como Bob explica. Por se tratar de um termo de uso raro, Clive no o entende e replica: "Smooze?" (N. do T.)
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"Um tipo magro, de barba", prosseguiu Barley, fitando a obscuridade como se dela extrasse uma figura humana. "Alto. Fato escuro, gravata preta. Rosto magro, enfiado. Devia ser por isso que usava barba. Mangas demasiado curtas. Cabelo preto: Bbado."
"Tinha um nome?", perguntou Ned. Barley fitava ainda a semi-obscuridade, descrevendo aquilo que nenhum de ns podia ver.
"Goethe", disse por fim. "Como o poeta. Chamavam-lhe Goethe. Apresento-lhe o nosso grande escritor, Goethe. Tanto podia ter cinquenta anos como dezoito. Magro que nem um rapazito. Aquelas rosceas nas faces, muito bbado. Barba."
Como Ned observou mais tarde, quando passou a gravao para toda a equipa ouvir, esse foi, de um ponto de vista operacional, o momento em que a Ave Azul abriu as suas asas. Nenhum silncio insuportvel, ningum respirando fundo. Em vez disso, Barley escolheu esse momento para um violento ataque de espirros, o primeiro dos muitos a que mais tarde assistimos. Comeou com uma srie de espirros isolados, acelerando depois at culminar numa grande salva. Depois, os espirros foram abrandando lentamente de intensidade, enquanto Barley acudia ao nariz com o leno e praguejava entre as convulses.
"Maldita alergia", explicou, em jeito de desculpa.
"Portei-me de uma forma brilhante", prosseguiu Barley. "No cometi o mnimo deslize."
Tinha enchido de novo o copo, desta vez com gua. Sorvia a gua em movimentos lentos e ritmados, como um daqueles pssaros de plstico que havia em todos os tristes bares ingleses antes de aparecer a televiso a substitu-los, aqueles pssaros que punham no meio das miniaturas e que se curvavam num mesura para beber e depois voltavam a posio inicial e de novo se curvavam numa mesura perptua.
"Eu era o centro de todas as aten@es. Estrela do palco e do ecr. Ocidental, simptico e es1             por isso que l vou, no? Os soviticos so o nico povo suficientemente tolo para ouvir as merdas que eu digo. " A madeixa caa-lhe por sobre o copo. " assim que as coisas se passam l. Vamos dar um passeio ao campo e acabamos a discutir com um ramalhete de poetas bbados a questo das intricadas relaes entre liberdade e responsabilidade. Vai-se mijar a uma casa de banho pblica, normalmente imunda, e de repente h uma cabea ao lado que se vira para ns e que nos pergunta se existir vida para alm da morte. Muito simplesmente porque somos ocidentais. E ns sabemos que  por isso. E respondemos-lhe. E eles no se esquecem. No perdem nada do que ns dizemos."
Nesse momento Barley parecia em perigo de cair num mutismo total.
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"Porque  que no se limita a contar o que aconteceu e deixa as crticas para ns?", sugeriu Clive, deixando de certa forma implcito que a posio em que Barley se encontrava no o autorizava a nenhum tipo de crtica.
"O que aconteceu foi que naquele cenrio eu fui uma estrela. Foi um dia de ouro para uma criatura petulante como eu. Mas esqueam. "
Mas esquecer era precisamente o que nenhum de ns queria, como o sorriso jovial de Bob demonstrava. "Barley, creio que est ser demasiado duro para consigo mesmo. Por amor de Deus, ningum se deve censurar por ser uma pessoa divertida. Ao que parece, voc limitou-se a animar a festa."
"De que falaram?", perguntou Clive, nada contagiado pela simpatia de Bob.
Barley encolheu os ombros. "Entre o almoo e a hora do ch discutimos a melhor forma de restaurar o Imprio Russo. J bem bebidos, discutimos a paz, o progresso e a glasnost. Desarmamento imediato sem opo. "
"Aborda frequentemente esses assuntos?" "Quando estou na Rssia, sim", retorquiu Barley, acirrado uma vez mais pelo tom de Clive, embora a sua irritao nunca durasse muito.
"Podemos saber o que disse?" Mas Barley no estava a contar a sua histria a Clive. Estava a cont-la a si mesmo e quela sala e a quem nela estivesse, aos passageiros que o acompanhavam naquela viagem, ponto por ponto, um inventrio da sua loucura. "O desarmamento no era uma questo militar, nem to pouco poltica, foi o que eu disse. Era uma questo de vontade dos homens. Tnhamos de decidir se queramos paz ou se queramos guerra e preparar-nos em conformidade com a nossa escolha. Porque aquilo para que nos preparssemos seria aquilo que teramos de futuro." Parou. "Eram urnas coisas que eu tinha decorado", explicou, seleccionando novamente Ned. "Argumentos requentados que eu tinha lido dias antes."
Parecia sentir que precisava de se explicar melhor. Recomeou. "Por um mero acaso tornei-me, durante essa semana, um verdadeiro perito na matria. Tinha pensado que talvez a minha editora pudesse comprar os direitos de um livro para publicao rpida. Um agente que apareceu l na feira queria que eu comprasse os direitos de um livro sobre a glasnost e a crise da paz. Tentativas feitas por falces do passado e do presente, reapreciao de estratgias. Poderia a paz vencer, apesar de tudo? Pegaram nalguns dos velhos militaristas americanos dos anos sessenta e mostraram corno muitos deles mudaram por completo de posio depois de terem deixado as chefias"
Interroguei-me nesse momento sobre as razes que o levariam a justificar-se. Para que nos estaria a preparar? Porque sentia que devia amortecer o choque antecipadamente? Bob, que no era nada
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parvo, apesar de toda a sua candura, devia estar a pr a si mesmo as mesmas questes.
"Parece-me uma ideia bastante boa, Barley. Capaz de dar dinheiro. At pode ser que eu a aproveite", acrescentou, com um risinho malandro.
"Podernos portanto concluir que voc ouviu esse arrazoado e que depois o vomitou l na festa", disse Clive no seu cmico, meio tom. "Foi isso que nos disse, no foi? Eu sei que no  fcil reconstituir devaneios alcolicos, mas ficamos-lhe muito gratos se der o seu melhor."
Que teria Clive estudado, se  que alguma vez estudou?, perguntei a mim mesmo. E se estudou, onde  que estudou? Que pais eram os seus? E onde  que os Servios teriam ido descobrir estas almas penadas suburbanas com todos os seus valores, ou ausncia deles, perfeitamente em ordem?
No entanto, Barley mostrou-se condescendente perante um tipo de ataque que j conhecia. "Eu disse-lhes que acreditava em Gorbachev", prosseguiu, sem qualquer reaco aparente, bebendo um pouco mais de gua. "Pouco me importava se eles no acreditavam. Eu acreditava. Disse-lhes que a tarefa do Ocidente consistia em descobrir a outra face de Gorbachev, e que a do Leste consistia em reconhecer a importncia da face que lhes era oferecida. Disse que se os americanos se tivesse alguma vez preocupado com o desarmamento, tanto como se preocuparam em mandar um pateta qualquer  Lua ou em pr listas cor-de-rosa nos dentfricos, j h muito que teramos desarmamento. Disse que o grande erro do Ocidente consistia em acreditar que poderia destruir o sistema sovitico, subindo constantemente o lance na corrida aos armamentos, porque,'dessa forma, estvamos a jogar com o destino da humanidade. Disse que, ao brandir os seus sabres, o Ocidente tinha dado aos dirigentes soviticos a desculpa ideal para manterem os portes fechados e instaurarem um estado militar."
Walter soltou um riso relinchado e tapou os dentes muito espaados com uma mo sem plos. "Deus do cu! Ento ns  que temos a culpa dos problemas da Rssia!  uma ideia espantosamente divertida! Por acaso voc nunca pensou, Barley, que a culpa desses problemas  dos prprios russos? No acha que foram eles que se fecharam
na sua prpriua parania? No, no acha. J vi que no acha."
Imperturbvel, Barley reatou a sua confisso. "Houve algum que me perguntou se eu no achava que as armas nucleares tinham garantido a paz durante quarenta anos. Respondi que isso eram patetices jesuticas. Que, nesse caso, tambm podamos dizer que a plvora tinha garantido a paz entre Waterloo e Sarajevo. Seja como for, acrescentei, o que  afinal a paz? A bomba no obstou a que houvesse uma Coreia, a que houvesse um Vietriam. A bomba no impediu a opresso da Checoslovquia, o bloqueio de Berlim, a construo do muro de Berlim ou a interveno no Afeganisto. Se isso  paz, porque no tent-la sem a bomba? Disse que no eram necessrias as
so

expenencias no espao, mas sim as expenencias com a natureza humana. As super-potncias deveriam policiar o mundo juntos. Nesse momento j eu voava a grande altura."
"E acredtou nalgum desses disparates?", perguntou Clive. Barley parecia no saber. De repente, pareceu ver-se a si mesmo como uma criatura superficial por definio, e corou como que envergonhado. "Depois falmos de jazz", disse. "Bix Beiderbecke, Lester Yoting. Toquei mesmo um bocado."
"O qu? No me diga que eles tinham um saxofone!", exclamou Bob, espontaneamente divertido. "O que  que tinham mais? Bateria? Uma banda de dez?  incrvel, Barley, de facto  incrvel!"
Ao princpio pensei que Barley ia sair da sala. De sbito endireitou-se e levantou-se energicamente. Por um momento procurou a porta e encaminhou-se embaraado para ela, o que deixou Ned per- feitamente alarmado, com medo de que Brock o apanhasse. Mas Barley tinha parado a meio da sala, junto a uma mesinha entalhada. Curvado sobre a mesa, comeou a bater ligeiramente com as pontas dos dedos na esquina, enquanto cantava "pah-pah-paah, pah-pah-pah-pah", com uma voz nasalada, ao som daquele acompanhamento simulado de pratos, vassourinhas e tambores.
Bob no demorou a aplaudir, tal como Walter. Tambm eu aplaudi e Ned desatou a rir. S Clive no achou a cena divertida. Barley bebeu mais um gole abstmio e voltou a sentar-se.
"Depois perguntaram-me o que poderia a humanidade fazer", disse como se nunca tivesse deixado a cadeira.
"Quem  que perguntou?", disse Clive, com aquela nota exasperante de incredulidade que ele punha na voz.
"Uma das pessoas que estava  mesa. Mas que importncia tem isso?"
"Temos de partir do princpio que tudo  importante", retorquiu Clive.
Barley ps-se de novo a falar com a: sua voz russa, atabalhoada e instante. "Muito bem, Barley. Suponhamos que as coisas se passam como voc diz. -Nesse caso, quem  que vai conduzir essas experincias com a natureza humana?" Vocs, respondi eu. Ficaram muito surpreendidos. Porqu ns? Porque, disse eu, quando chegar a hora de uma mudana radical, os soviticos tero mais facilidade em desempenhar esse papel do que os ocidentais. Tm uma pequena classe dirigente e uma intelligentsia tradicionalmente muito influente. Numa democracia ocidental seria muito mais difcil fazer ouvir a nossa voz, j que  toda uma multido a falar. Eles gostaram do paradoxo. Eu tambm."
Nem mesmo este ataque frontal aos grandes valores democrticos conseguiu perturbar a cordial pacincia de Bob. "Bom, essa sua apreciao, Barley,  pouco profunda, mas concedo que h nela alguma verdade."
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"Mas voc sugeriu realmente o que deveria ser feto?", insistiu Clive.
"O que eu disse foi que s nos restava a Utopia. Disse que aquilo que h vinte anos nos Parecia um sonho perfeitamente irreal, era agora a nossa nica esperana, tanto a nvel do desarmamento, como da ecologia ou da mera sobrevivncia humana. Gorbachev compreendeu isso  o Ocidente no quis compreender. Disse que os intelectuais ocidentais tinham de encontrar a sua voz. Disse que o Ocidente devia dar o exemplo, e no segui-lo. Era dever de todos desencadear a avalanche."
"Ou seja, desarmamento unilateral", disse Clive, emaranhando as mos. "ois . Tudo se reduz a isso. Sim.  isso mesmo." Com a diferena de que no disse "siiim", o que acontecia sempre que queria dizer "no"
Mas Bob estava impressionado. "E chegou a essa eloquncia s por ter lido urnas coisas sobre o assunto?", disse. "Acho extraordinrio, Barley. Sentir-me-ia orgulhoso se conseguisse assimilar as coisas to bem como voc-
Talvez dernasiado extraordinrio, sugeria o seu tom, embora Barley no se apercebesse evidentemente das implicaes dessa sugesto.
"E enquanto Voc tratava de nos salvar dos nossos piores instintos, o que  que o tal Goethe fazia?", perguntou Clive.
"Nada. os outros participavam na conversa. Ele no." "Mas escutava o que diziam? De olhos arregalados, certamente." "Passado um bocado, estvamos a refazer o mapa do mundo. Volta-se sempre a Ialta, por mais voltas que se d. Toda a gente falava ao mesmo tempo. Excepto Goethe. No comia. No falava. Eu no parava de lhe atirar com sugestes, simplesmente porque ele no participava. Tudo o que fazia era ficar cada vez mais plido e beber cada vez mais vinho. De maneira que acabei por desistir. "
E Goethe nunca falou, prosseguiu Barley, no mesmo tom de confusa auto-recriminao. Nem uma palavrinha durante toda a tarde, acrescentou. Goethe ouvia, enquanto fitava, de olhar absorto, uma bola de cristal invisvel. Ria-se por vezes, mas no era do teor da conversa. Ou levantava-se e seguia em linha recta at  mesa das bebidas, para se servir de mais vodka numa altura em que toda a gente estava a beber vinho, aps o que regressava com o copo cheio, que despejava com uns quantos golos sempre que algum propunha um brinde. Mas ele, nunca props um brinde, disse Barley. Era uma daquelas pessoas que exercem uma influncia moral com o seu silncio, acrescentou, e ns ficamos sem saber se todo aquele silncio  porque esto a morrer de uma doena misteriosa ou se muito simplesmente porque todo o seu pensamento est concentrado numa grande obra.
Quando Nezhdanov conduziu o grupo para dentro, para ouvirem discos de Cotint Basie, Goethe seguiu-os obedientemente. Ia j a
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noite alta quando Barley, que j desistira de pensar nele, o ouviu finalmente falar.
Uma vez mais Ned permitiu-se pr-lhe uma questo muito especial. "Como se comportavam os outros em relao a Goethe?"
"Respeitavam-no. Goethe era a mascote deles. "Vejamos o que Goethe pensa acerca disto", dizia um deles. E Goethe erguia o copo e brindava a todos eles e desatava tudo a rir, excepto Goethe."
"As mulheres tambm?" "Todos. Para eles, as opinies dele  que contavam. Quase abriam alas para ele passar. Ateno, afastem-se que vem a o grande Goethe. "
"E ningum lhe disse onde ele vivia ou trabalhava?" "Disseram-me que estava de frias de um stio onde no podia beber. Quer dizer, eram umas frias alcohcas. E toda a gente brindava s frias alcoficas de Goethe. Ele era irmo no sei de quem. Talvez de Tamara, no sei. Talvez fosse primo. No consegui apanhar isso."
"Acha que o protegiam?", disse Clive. As pausas de Barley so nicas, pensei nesse momento. Procura pensar as questes, domin-las,  sua maneira, ainda que fragilmente. A- sua mente deixa a sala e ns ficamos na maior expectativa at que ela regresse.
"Sim", disse Barley subitamente, aparentemente surpreendido com a sua prpria resposta. "Sim, protegiam-no. Sem dvida. Eram uma espcie de associao de defesa do Goethe, claro que eram."
"Protegiam-no de qu?" Outra pausa. "Talvez o protegessem de ter de se explicar. No pensei nisso na altura. Mas agora parece-me que era isso mesmo. Sim, era isso mesmo."
"E porque  que ele no havia de se explicar?  capaz de sugerir uma razo, sem inventar nada?", perguntou Clive, aparentemente determinado em provocar a irritaao de Barley.
Mas Barley no se irritou. "Eu no invento", disse, e creio que todos achvamos que era verdade. Uma nova pausa: de novo a sua mente deixava aquela sala. "Ele era um homem muito forte, unia personalidade intensa. Sentia-se isso nele", prosseguiu, regressando  realidade.
"Que significa isso?" "O silncio eloquente. Tudo o que se ouve, a mais de cem  hora,  a pulsao do crebro."
"Mas no houve ningum que lhe dissesse que ele era um gnio, ou uma coisa parecida?"
"Ningum me disse isso. No era preciso." Barley olhou de relance para Ned,  procura de um sinal de com-
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preenso. Chefe operacional da cabea aos ps, ainda que necessariamente metido entre quatro paredes. Ned sabia desviar-se bruscamente de uma pessoa, quando ainda se pensava que estaria a tentar apanh-la.
Bob tinha outra pergunta. "Ningum por acaso o levou para um canto isolado e lhe explicou porque  que Goethe tinha um problema de alcoolismo, Barley?"
Barley desatou a rir alto e bom som. As suas momentneas liberdades eram um tanto ou quanto assustadoras. "Mas, por amor de Deus, na Rssia no se tem de ter uma razo para se beber! Diga-me, se  capaz, o nome de um s russo digno de respeito que consiga enfrentar os problemas do seu pas sbrio!"
De novo caiu num silncio profundo, fazendo trejeitos para as sombras. Franziu os olhos e murmurou uma imprecao qualquer, pareceu-me que contra si mesmo. Depois, repentinamente, voltou  sala. "Acordei sobressaltado por volta da meia-noite", disse a rir, "Mas onde  que eu estou?" Deitado nuam espreguiadeira, neste maldito alpendre, com este maldito cobertor em cima! Ao princpio pensei que estava nos Estados Unidos. Num daqueles alpendres de New England, protegidos com mosquiteiros de gaze e o jardim em frente. No conseguia pensar por que carga de gua tinha ido parar to rapidamente  Amrica, depois de um almoo to agradvel em Peredelkino. Ento lembrei-me de que a certa altura eles tinham deixado de falar comigo e que eu acabara por me chatear por no ter ningum com quem falar. No foi nada de pessoal. Eles estavam bbados e cansados de estarem bbaZios numa lngua estrangeira. De maneira que eu instalei-me no alpendre, com uma garrafa de Scotch ao lado. Houve algum que me atirou um cobertor, por causa do orvalho. Deve ter sido a lua que me acordou, pensei. Uma lua cheia enorme. Vermelha e vibrante. Foi ento que ouvi um tipo a falar comigo. Um tipo com um ar muito grave. Falava um ingls imaculado. No me digam que apareceram mais convidados a esta hora, pensei eu. "H males que so necessrios", diz ele, citando-me. Eu tinha dito aquilo ao almoo, durante a minha to importante conferncia sobre a paz. No sei quem  que eu prprio tinha citado. Depois olho com mais ateno  minha volta e dou com aquele vulto barbado com dois metros e meio de altura pairando l em cima, segurando numa garrafa de vodka, o cabelo adejando ao sabor da brisa. Num instante ele estava agachado ao meu lado, com os joelhos quase  altura da cara, enchendo o seu copo. "Ol, Goethe", digo eu. "Pensava que j tinha morrido.  agradvel v-lo de volta. "
Fosse o que fosse que lhe tinha solto, a lngua, reduzia-o agora de novo ao silncio, ao temor de falar, e o seu rosto voltava a ensombrar-se.
Ento ele atira-me com uma outra prola que eu tinha dito ao almoo. "Todas as vtimas so iguais. No h vtimas mais iguais do que outras. "
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Desato a rir. Mas no demasiado. Acho que me sinto embaraado. Constrangido. Sinto que me estiveram a espiar. O tipo passa o almoo todo a beber, no come nada, no diz uma palavra. E de repente, dez horas depois, cita-me como se fosse um gravador. Convenhamos que no  agradvel.
"Quem  voc, Goethe?", pergunto eu. "Que faz voc na vida quando no bebe e no se pe  escuta do que os outros dizem?"
"Eu sou um pria moral", diz ele. "Negoceio em teorias impuras. " " sempre agradvel conhecer um escritor", digo eu. "O que  que tem escrito ultimamente?"
"Tudo,", diz ele. "Histria, comdia, mentiras, romances. " E ento desata-me a falar de uma idiotice que ele escreveu acerca de um bocado de manteiga que se derretia ao sol porque lhe faltava uma perspectiva consistente. S que ele no falava como um escritor. Demasiado tmido. Ria de si mesmo e dei-me conta que tambm ria de mim. No que ele no tivesse o direito de se rir de, mim, bem pelo contrrio, mas  evidente que era desagradvel."
Uma vez mais ficmos  espera, de olhos postos na silhueta de Barley. ramos ns que estvamos tensos, ou ele? Sorveu um pouco mais de gua do seu copo. Girou com a cabea e murmurou qualquer coisa como "nada bem" ou possivelmente "para o infernoP" Nem a audincia, nem os microfones, conseguiram perceber o que ele disse. Ouvimos a cadeira dele ranger como lenha hmida. Na gravao parece o barulho de um ataque armado.
"Nesse momento ele vira-se para mim e diz. "V l, Mr. Barley, voc  editor, no ? No me pergunta onde  que eu vou buscar as minhas ideias?" E eu pensei, ouve l, olha que no  isso o que os editores costumam perguntar, mas est bem, que se lixe. "Est bem, Goethe", digo eu. "Onde  que vai buscar as suas ideias?"
"Mr. Barley. As minhas ideias vou busc-las a - primeiro" - e
comea a enumerar.
Tambm Barley estendeu os seus dedos longilneos e comeou a contar, usando um ligeirssimo sotaque russo. E uma vez mais fiquei impressionado com a delicadeza da sua memria musical. Essa delicadeza no decorria apenas de uma mera repetio de palavras; Barley parecia ir buscar as palavras a uma tremenda cmara de ressonncia onde nada escapava ao seu ouvido.
"As minhas ideias vm - piimeiro, das toalhas de mesa de papel dos cafs de Berlim dos anos trinta. " Nesse momento pra e bebe um suspiro de vodka e um trago enorme e ruidoso de ar nocturno ao mesmo tempo. Chia. No sei se esto a ver, aqueles tipos que tm um peito que parece burburinhar. "Segundo", diz ele, "das publicaes dos meus competidores mais dotados. Terceiro, das obscenas fantasias dos generais e polticos de todas as naes. Quarto, dos intelectos libertados dos cientistas nazis recrutados  fora. Quinto, do grande
'No original, "not: weH" e "to heU", o que explica a confuso dos seus ouvintes. (N. do T.)
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povo sovitico, cujos desejos democrticos so todos filtrados pelo poder atravs de consultas a todos os nveis, e depois atirados ao Neva. E sexto, e muito ocasionalmente, de um distinto intelectual ocidental que acaba de aparecer na minha vida." Aparentemente o intelectual sou eu, porque ele cola o seu olhar na minha pessoa para ver como eu reajo. Fita-me, fita-me com os olhos de uma criana precoce. Transmitindo-me sinais de importncia vital. Ento, subitamente, d-se uma mudana nele. Pe um ar de suspeita.  uma coisa que acontece muitas vezes com os russos. "Voc deu um belo espectculo ao almoo", diz ele. "Como conseguiu convencer o Nezhdanov a convid-lo?" Est a gozar comigo. A dizer-me que no acredita em mim.
"Eu no o convenci", digo eu. "A ideia foi dele. O que  que voc est a tentar insinuar a meu respeito?"
"No existe propriedade de ideias", diz ele. "Voc ps essa ideia na cabea dele. Voc  um tipo esperto. Olhe que foi um bom trabalho. Parabns."
"Ento, em vez de continuar a provocar-me com observaes maliciosas, agarra-se aos meus ombros como se fosse afundar-se. No sei se se sentiu mal ou se perdeu o equilbrio. Tenho a desagradvel impresso de que quer fazer o papel de doente. Tento ajud-lo, mas no sei como. Est incrivelmente quente, todo ele  suor. Caem-me gotas de suor em cima. Tem o cabelo todo molhado. Uns olhos selvagens, de Criana. Penso desapertar-lhe o colarinho. Nesse momento apanho com a voz dele em cima, com a boca e o hlito quente, a sua voz entranha-se-me nos ouvidos. De incio no consigo ouvi-lo, est demasiado perto de mim. Recuo, mas ele cola-se a mim de novo.
"Acredito em tudo o que voc me disse", segreda. "Voc falou-me ao corao. Prometa-me que no  um espio britnico, que eu fao-lhe uma promessa em troca."
"Foram exactamente estas as suas palavras", disse Barley, como se sentisse envergonhado delas. "Lembrava-se de tudo o que eu tinha dito. E eu lembro-me de tudo o que ele disse. "
No era a primeira vez que Barley falava de memria como se a memria fosse sinnimo de angstia, e talvez por isso eu tenha dado comigo, como tantas vezes me acontece, a pensar em Harinali.
"Pobre Palfrey", atirara-me ela num dos seus acessos de crueldade, enquanto examinava o corpo nu no espelho, sorvendo o vodka t-
nico e preparando-se para regressar ao marido. "Com uma memria como a tua, como  que vais conseguir esquecer-te de uma mulher como eu?"
Teria Barley esse mesmo efeito em toda a gente?, perguntei a mim mesmo enquanto ele falava - seria tambm ele capaz de, inconscientemente, tocar no nervo central das pessoas, levando-as automaticamente a embrenharem-se nos seus mais ntimos pensamentos? Talvez Barley tivesse tido precisamente esse efeito em Goethe.
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A passagem que se seguiu nunca foi parafraseada, condensada ou "reconstituda". Os iniciados, ou ouviram a gravao sem qualquer montagem ou ento leram a transcrio integral. Para os no-iniciados, tal passagem nunca existiu. Foi o ponto crucial de tudo o que se seguiu e chamaram-lhe, com deliberada ofuscao, "A Investigao de Lisboa". Quando chegou a vez dos alquimistas e telogos e utentes internos de ambos os lados do Atlntico, foi esta a passagem que escolheram e que meteram nas suas caixas mgicas para justificarem os argumentos previamente seleccionados que caracterizavam as suas ardilosas posies.
"No, de facto no sou nenhum espio, meu caro Goethe. No sou, nunca fui, nem serei. Talvez seja uma coisa vulgar no seu pas, mas no no meu. E se falssemos antes de xadrez? Gosta de xadrez? Falemos de xadrez."
"Ele parecia no ouvir. "E no  espio dos americanos? No  espio de ningum, nem sequer nosso?"
"Oia-me, Goethe", digo eu. "Para ser sincero, estou a ficar um bocado chateado com esta histria toda. Eu no sou espio de ningum. Eu sou eu. Por isso proponho-lhe que falemos de xadrez ou, caso contrrio, voc vai bater a outra porta, certo?" Pensei que depois desta resposta ele se calasse, mas a verdade  que no se calou. Sabia tudo de xadrez, disse ele. No xadrez, um tipo tem uma estratgia, e se o outro no a descobre ou abranda a sua vigilncia,  mais certo que perde. No xadrez, a teoria  a realidade. Mas na vida, em certos tipos de vida, podem surgir situaes em que um jogador tem fantasias to grotescas acerca do outro que acaba por ver nele o inimigo de que precisa. No concorda? Concordo totalmente, Goethe. Ento, de repente, deixamos de falar de xadrez e ele comea a contar a sua vida, como os russos costumam fazer quando esto bbados. Porque  que est neste mundo. Isto s comigo. Diz que nasceu com duas almas, tal como o Fausto, e  por isso que lhe chamam Goethe. Diz que a me era pintora, mas pintava o que via, to naturalmente que no lhe permitiam exibir as suas obras nem comprar materiais. Porque tudo o que vemos so segredos de Estado. Ainda que seja iluso,  segredo de Estado. Mesmo que no funcione e nunca venha a funcionar,  segredo de Estado. E se  mentira do princpio ao fim, ento esse  que  o maior segredo de todos. Diz que o pai esteve doze anos nos campos e morreu de um excesso de capacidade intelectual. Diz que o problema do pai  que era um mrtir. As vtimas s por si j so ms, os santos so piores, diz ele, mas os mrtires so os piores de todos. No concorda?
Concordo. No sei por que razo concordo, mas acontece que sou
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uma criatura civilizada e quando se me agarra  cabea e me diz que o pai fez doze anos de campo e depois morreu, no me vou pr a discutir com ele ainda que esteja bbado.
Pergunto-lhe o seu nome verdadeiro. Diz que no tem. Que o pai o levou com ele. Diz que em qualquer sociedade decente matam o ignorante, mas que na Rssia  ao contrrio, e por isso lhe mataram o pai, porque, ao contrrio da me, ele se recusou a morrer de desespero. Diz que me quer fazer a promessa de que falou. Diz que ama o povo ingls. Os ingleses so os chefes morais da Europa, so os garantes secretos, os unificadores do grande ideal europeu. Diz que os ingleses compreendem a relao que existe entre palavras e aco, ao passo que na Rssia ningum acredita j na aco, e por isso as palavras tomaram-se um substituto da aco, em todas as camadas, um substituto para a verdade que ningum quer ouvir porque ningum pode mudar a situao, se a quiserem mudar perdem o emprego, ou talvez no saibam, muito simplesmente, como mudar a situao. Diz que a desventura dos russos  que anseiam por se tomarem europeus mas o seu destino  tomarem-se americanos, e que os americanos envenenaram o mundo
com a lgica materialista. Se o meu vizinho tem um carro, ento eu tenho de ter dois. Se o meu vizinho tem uma pistola, ento eu tenho de ter duas. Se o meu vizinho tem uma bomba, eu tenho de ter muitas bombas e mais potentes, pouco importa que essas bombas no possam alcanar os seus alvos. De maneira que tudo o que eu tenho a fazer  imaginar a pistola do meu vizinho e arranjar duas delas e a encontro a justificao para tudo o que'queira fabricar. No concorda?"
Foi um milagre que ningum tivesse interrompido aqui, nem mesmo Walter. Mas a verdade  que ele no interrompeu, refreou a lngua, como todos os outros. No se ouviu sequer uma cadeira ranger antes de Barley prosseguir.
"Claro que concordo. Sim, Goethe, concordo inteiramente consigo. Tudo  prefervel a que me perguntem se sou um espio britnico. Ento comea a falar do grande poeta e mstico do sculo xix, Piturin."
"Pecherin", diz numa voz muito aguda, Walter que j no podia mais: transbordava.
"Isso Pecherin", concorda Barley. "VIadimir Pecherin. Pecherin queria sacrificar-se pela humanidade, morrer na cruz com a me aos seus ps. Se eu alguma vez ouvi falar dele? No nunca ouvi falar. Pecherin foi para a Irlanda, tomou-se monge, diz ele. Mas Goethe no pode fazer isso porque no lhe do um visto e, alm do mais, no gosta de Deus. Pecherin gostava de Deus e no gostava da cincia, a menos que a cincia se debruasse sobre a alma humana. Pergunto-lhe que idade tem, Goethe, claro, e no Pecherin. Neste momento ele est com cara de quem tem sete anos e vai fazer cem. Diz que est mais perto da morte do que da vida. Que tem cinquenta anos mas que acaba de nascer."
Walter interrompe nesse momento, mas silenciosamente, como se estivesse numa igreja. Nem parece a sua voz, habitualmente muito seme-
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lhante a um guincho. "Porque  que lhe perguntou a idade? Podia ter-lhe feito tantas perguntas... Que interesse  que tinha saber a idade?>k
"Porque aparentemente a sua idade era indefinvel. S quando franzia o sobrolho  que as rugas apareciam."
"E ele disse 'cincia'? No falou em fsica? S em cincia?" "Cincia. E depois comea a recitar Pecherin. E vai traduzindo ao mesmo tempo. Primeiro diz em russo, depois em ingls. Quo doce  odar a terra natal e aguardar avidamente a sua runa... e na sua runa discernir a alvorada do renascmento universal.  possvel que eu no tenha entendido tudo mas a ideia  esta. Pecherin compreendeu que era possvel uma pessoa amar o seu pas e ao mesmo tempo odiar o sistema vigente, diz ele. Pecherin era louco pela Inglaterra, tal e qual como Goethe. A Inglaterra como a ptria da justia, da verdade e da liberdade. Pecherin mostrou que no havia nada de desleal na traio, desde que se traia o que se odeia e se lute pelo que se ama. Agora suponhamos que Pecherin possua grandes segredos acerca da alma russa. Que faria ele com esses segredos? A resposta  bvia. Confl-los-ia ao povo ingls."
"Enquanto ele diz isto, s penso numa coisa: em despegar-lhe as mos do meu cabelo. Estou a ficar em pnico. Mas ele no me larga.  cara conta cara. Chia e range como uma mquina a vapor. O corao salta-lhe do peito. Os olhos castanhos, enormes, parecem sair-lhe das rbitas. "O que  que voc esteve a beber?", pergunto eu. "Cortisona?"
"Sabe outra coisa que voc disse ao almoo?", pergunta ele. "Eu no disse nada", respondo eu. "Eu nem estive no almoo. Foram dois outros tipos que l estiveram, deram-me uma carga de pancada e tomaram o meu lugar. " De novo no me ouve.
"Voc disse, 'hoje, temos de pensar como heris se queremos comportar-mo-nos como seres humanos meramente decentes'."
"Isso no  meu", digo eu. "Nada do que eu disse  original. Foram coisas que eu li. No so da minha autoria. Agora faa-me um favor, esquea tudo o que eu disse e volte para os seus." No me ouve. Agarra-me pelo brao. Tem umas mos de rapariga, mas fortes como ao.
"Prometa-me que se eu alguma vez tiver coragem para pensar como um heri, voc se comportar como um ser humano meramente decente."
"Oia, Goethe", digo eu. "Acabemos com isto e vamos comer qualquer coisa. Deve haver sopa l dentro, cheira-me a sopa. Gosta de sopa? Gosta de sopa?"
No creio que ele esteja a chorar, mas tem o rosto completamente encharcado. O suor cobre-lhe a pele branca, como se uma dor o percorresse. Agarra-se ao meu pulso como se eu fossse o seu padre. "Prometa-me", diz ele.
"Por amor de Deus, Goethe, o que  que eu lhe prometo?" "Prometa-me que se porta como um gentleman."
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"Mas eu no sou um gentleman, sou um editor." Desata a rir.  a primeira vez que se ri. Um riso sem fim, com algo de estranho, de insondvel. "Voc no pode imaginar a confiana que a sua rejeio me inspira", diz ele.
"Nesse momento levanto-me. Devagar, calmamente, para no o alarmar. Mesmo assim no me larga."
"Eu cometo o pecado da cincia todos os dias", diz ele. "Transformo relhas de arado em espadas. Engano os nossos mestres. Engano os vossos. Perpetuo a mentira. Todos os dias mato a humanidade em mim mesmo. Escuto o que eu lhe digo."
"Agora tenho de ir, meu caro Goethe. As porteiras do meu hotel, como voc sabe, so muitssimo simpticas e, coitadas, devem estar preocupadssimas comigo. Largue-me o brao, quase que mo parte. "
Abraa-me. com fora. Puxa-me contra ele. Faz-me sentir gordo ele que  to magro. Tem a barba molhada, o cabelo molhado, todc ele arde.
"Prometa-me", diz ele. Quer forar-me  promessa, extra-Ia da minha boca. Com um fervor louco. Nunca vi nada assim. "Prometa! Prometa!"
"Est bem", digo eu. "Se voc alguma vez conseguir ser um heri, eu portar-me-ei como um ser humano decente. Est combinado. Est bem? Agora seja bonzinho e deixe-me ir embora."
"Prometa", diz ele. @<Prometo", digo eu e afasto-o de mim. Nesse momento Walter desata aos gritos. Nenhum dos nossos avisos, nenhum dos olhares furiosos de Ned, de Clive ou de mim mesmo, o conseguiram suster. "Mas voc acreditou nele, Barley? Ele no estava a trapace-lo? Voc l no fundo  um tipo esperto. O que  que voc sentiu?"
Silncio. Silncio e mais silncio. E finalmente: "Ele estava bbado. Em toda a minha vida terei estado duas vezes to bbado como ele estava naquela noite. Enfim, trs vezes. Tinha estado todo o dia a beber vodka e continuava a beb-la como se fosse gua. Mas no h dvida que ele conseguiu fascinar-me. Acreditei nele. No se pode deixar de, acreditar nele."
De novo Walter, furioso. "Mas acreditou em qu? De que acha que ele estava a falar? Que acha que ele fez? Toda essa conversa acerca de coisas que no atingem os alvos, de mentir aos mestres dele e aos nossos, de xadrez que no  xadrez, mas outra coisa qualquer! Voc sabe somar, no sabe? Por que razo no veio ter connosco? Eu sei porqu! No veio ter connosco porque meteu a cabea debaixo da areia. 'No sei porque no quero saber'. Foi tudo o que voc pensou."
O som que se ouve a seguir na gravao  a voz de Barley, praguejando contra si mesmo enquanto anda s voltas pela sala batendo com os ps. "Merda, merda, merda", murmura. No pra de praguejar. At que a voz de Clive se junta  dele. Se um dia calhar a Clive
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ordenar a destruio do universo, creio que o tom da sua voz ser igualmente rido e frio.
"Lamento muito mas creio que vamos precisar imenso da sua ajuda", diz ele.
Ironicamente, creio que Clive de facto lamentava. Clive era um homem da tecnologia, pouco  vontade sempre que as fontes eram seres humanos, um espiocrata suburbano da escola moderna. Acreditava que os faCtos eram o nico tipo de informao possvel e desprezava todos aqueles que os factos no explicavam. Se gostava de alguma coisa na vida, para alm das suas promoes ou do Mercedes prateado que no saa da garagem se tivesse um arranho, ento era decerto de computadores e de americanos poderosos, por esta ordem. Para Clive brilhar, a Ave Azul teria de ser um cdigo decifrado, um satlite ou uma comisso inter-agncias. Nesse caso, Barley nunca deveria ter nascido.
Ned era o seu reverso, e por isso mesmo corria mais riscos. Ele era, por temperamento e por treino, um chefe de agentes e um comandante de homens. Os seres humanos eram o seu elemento e, dentro dos limites que lhe eram prprios, a sua paixo. Desprezava as lutas intestinas em tomo das polticas de espionagem, de bom grado deixava tudo isso aos cuidados de Clive, tal como deixava as anlises a Walter. Nesse sentido, Ned era o inabalvel primitivo, como tm de ser as pessoas que lidam com a natureza humana, ao passo que Clive, para quem a natureza humana no passava de um lodaal repugnante, gozava de reputao de modernista.
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Passmos para a biblioteca onde Ned e Barley tinham comeado. Brock tinha instalado um ecr e um projector. Colocara as cadeiras em ferradura e, na sua imaginao, ordenara j a distribuio das pessoas: a cada cadeira corresponderia uma pessoa e s essa pessoa. De facto, Brock, tal como outros espritos violentos, tinha um apetite exagerado por trabalhos servis. Ouvira a entrevista nos nossos aparelhos de escuta e, apesar das sinistras suspeitas que nutria em relao a Barley, um fulgor de excitao ardia nos seus plidos olhos blticos. Barley, refugiado nos seus pensamentos, recostou-se numa das cadeiras da fila da frente entre Bob e Clive, como um convidado privilegiado, ainda que um tanto distrado, de uma projeco privada. Reparei nos movimentos da sua cabea, uma silhueta na semiobscuridade, quando Brock ligou o projector: primeiro cada, em contemplao, depois erguida e atenta mal o primeiro diapositivo apareceu no ecr. Ned sentou-se ao meu lado. No disse uma palavra, mas eu sentia a intensidade disciplinada da sua excitao. Vinte rostos de homens passaram no ecr, a maior parte dos quais de cientistas soviticos que, numa primeira e apressada investigao, foram considerados como potenciais conhecedores das informaes contidas no processo Ave Azul. Alguns apareceram mais do que uma vez: primeiro de barba e depois sem. Outros apareceram com menos vinte anos, porque eram essas as fotografias que os arquivos possuam.
"No  nenhum deles", anunciou Barley quando o desfile acabou, levando subitamente a mo  cabea como se algum bicho o tivesse picado.
Bob achava tal resposta simplesmente inacreditvel. Era to encantador na incredulidade como na credulidade. "Nem um talvez, Barley? Para quem estava to bebido quando viu o homem, voc
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parece-me excessivamente seguro. Francamente, Barley, olhe que eu j estve em certas festas em que nem do meu nome me consigo lembrar . "
"Nem um talvez nem um nada, meu caro amigo. Nada", disse Barley, regressando de imediato aos seus pensamentos.
Agora era a vez de Katya, embora Barley no o pudesse saber, Bob avanou cautelosamente, como um bom professional de Langley mostrando as suas habilidades.
"Barley, estes so alguns dos homens e mulheres em evidncia na cena editorial de Moscovo", disse ele o mais casualmente possvel quando Brock comeou a passar os diapositivos. "Pessoas com quem talvez voc se tenha cruzado durante as suas estadas na Rssia, em recepes, em feiras do livro, enfim pessoas do meio. Se vir algum que conhea, apite."
"Valha-me Deus, aquela  a Leonora!", interrompeu Barley com evidente agrado. No ecr tinha aparecido uma mulher esplndida, corpulenta, com umas ndegas que pareciam um campo de futebol, caminhando ao longo de uma pista de aeroporto. "A Leni  a manda-chuva da SK", acrescentou Barley.
"SK?", repetiu Clive, como se tivesse desenterrado uma sociedade secreta.
"Soyuzkniga. A SK encomenda e distribui livros estrangeiros destinados a todo o territrio da Unio Sovitica. Se os livros chegam ou no chegam aos stios, isso j  outro assunto. Mas a Leni  um espanto!"
"Conhece o outro nome dela?" "Zinovieva." Confirmado, disse o sorriso de Bob para aqueles que j conheciam o nome.
Mostraram-lhe mais caras e Barley escolheu sempre aquelas que eles sabiam que ele conhecia, mas quando lhe mostraram a fotografia de Katya, a mesma que Landau tinha visto - Katya de sobretudo, com o cabelo arranjado, descendo umas escadas com a saca de plstico a tiracolo -, Barley murmurou, "podem passar", como tinha feito em relao a todas as caras que no conhecia.
Porm Bob estava deliciosamente inquieto. "Espere a, Brock, por favor", disse ele, mas de uma forma to desastrada que mesmo uma criana de colo teria percebido que aquela fotografia possua uma. importncia bvia.
E Brock esperou, tal como todos ns: de respirao suspensa. "Barley, esta senhora de cabelo escuro e olhos enormes trabalha nas Edies Outubro, em Moscovo. Fala um ptimo ingls, to clssico como o seu ou como o de Goethe. Ao que sabemos,  redaktor da Outubro, encomenda e aprova tradues inglesas de obras soviticas. No lhe diz nada?"
"Infelizmente, no", disse Barley. Aps o que Clive mo deixou nas minhas mos. Com uma ligeira
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inclinao da cabea. Pode ficar com ele. Palfrey. A testemunha  sua. Assuste-a.
Nas minhas sesses de doutrinamento ponho sempre uma voz especial. Em princpio, dever ser uma voz capaz de instilar o terror do juramento matrimonial e eu odeio-a porque  a voz que Hannah odeia. Se a minha profisso tivesse um lado de falso enfermeiro, esse seria o momento em que eu administro a injeco fatal. Porm, nessa noite, mal me vi a ss com ele, optei por um tom mais protector. De sbito fiquei outro, um Palfrey rejuvenescido, aquele que Hannah costumava dizer que venceria. Dirigi-me a Barley no como se ele fosse um delinquente dos piores, mas como se fosse um amigo  procura de um conselho.
O negcio  este,,comecei eu, usando o jargo menos jurdico que era possvel. Esta  a corda que lhe querem pr ao pescoo. Cuidado. Pense bem.
Aos outros  ,fao-os sentar. Mas a Barley, deixei-o vaguear, porque tinha percebido que se sentia mais  vontade quando podia andar de um lado para o outro, quando podia dar largas  sua irrequietude, quando podia afastar os braos todos para trs numa exuberante espreguiadela. A empatia  uma praga mesmo quando efmera, e nem a mais terrvel das leis inglesas conseguiria proteger-me dela.
E  medida que me ia aproximando dele,  medida que me ia interessando de facto por aquela pessoa que tinha  minha frente, fui reparando numa srie de coisas que me tinham passado despercebidas quando havia mais gente  nossa volta. Reparei na forma como o seu corpo se afastava de mim, como se quisesse proteger-se de um profundo desejo de se dar  primeira pessoa que o solicitasse. Reparei como os seus braos, apesar de uma luta tremenda, permaneciam desassossegados, sobretudo ao nvel dos cotovelos, os quais, semelhantes a renegados, pareciam querer libertar-se do uniforme em que estavam metidos.
E reparei na frustrao que senti por no o poder observar to de perto como queria: atento, o meu olhar procurou mesmo o seu rosto nos espelhos dourados, quando passava por eles e se mirava de relance. At hoje, a sua imagem sempre me surgiu longe, muito longe de mim.
E reparei no seu ar pensativo quando mergulhava na minha homilia ou simplesmente a ignorava, reflectindo sobre determinado ponto e virando-me logo de seguida as costas para o digerir bem digerido, de tal modo que, a todo o momento, tinha  minha frente umas costas enormes e poderosas, to fugidias como o mais fugidio dos rostos.
E reparei ainda que, ao virar-se para mim, os seus olhos no exibiam a subservincia que encontrara noutros destinatrios das minhas sbias palavras, essa subservincia que to frequentemente me deixava nau-
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seado. Barley no estava assustado. No estava sequer perturbado. No entanto os seus olhos incomodavam-me, como sucedera da primeira vez que os vira avaliarem-me. Eram olhos demasiado sinceros, demasiado lmpidos, demasiado sem defesas. Afinal, nenhum dos seus torturados gestos conseguia proteg-lo. Senti que eu ou qualquer outra pessoa podia avanar pelo mar daqueles olhos e reclamar a posse daquela criatura, e esse sentimento assustou-me como se de uma ameaa se tratasse. Fez-me temer pela minha prpria segurana.
Lembrei-me do seu processo. Tantas quedas ao comprido, tantos actos aparentemente autodestrutivos, to pouca prudncia. Uma ficha escolar de meter medo. Cenas de pugilato, em busca de uns mfseros louros: acabou no sanatrio da escola com o maxilar partido. Expulso por estar bbedo quando lia a Epstola da Eucaristia cantada. "A bebedeira vinha da noite anterior, sir. No foi intencional". Aoitado e expulso.
Teria sido muito mais fcil - pensei -, tanto para mim como para ele, se houvesse no seu passado um grande crime, um acto qualquer de cobardia ou omisso. Mas Ned tinha-me mostrado toda a sua vida, incluindo a secreta, a sua histria mdica, dinheiro, mulheres, esposas, filhos. E tudo era comezinho. No havia em toda a sua vida um nico incidente invulgar, uma exploso, um grande crime. Nada de extraordinrio, de invulgar, de grande - talvez este dado fosse a chave para entender Barley. Teria sido por ansiar um mar mais vasto que encalhara sucessivamente em pequenos rochedos, desafiando o Criador a que lhe proporcionasse algo de mais grandioso, pois caso contrrio seria melhor que o deixasse de chatear? Mostrar-se-ia to temerrio se confrontado com outras circunstncias, com circunstncias menos vulgares, mais grandiosas?
Ento, de sbito e antes que me d conta disso, os nossos papis invertem-se. Barley est de p, ao meu lado, espreitando para o papel que tenho nas mos. A equipa continua  espera na biblioteca, oio os sons da sua agitao. A declarao est  minha frente, sobre a mesa. Mas sou eu quem ele est a ler, no a declarao.
"Tem algumas questes a pr?", pergunto eu olhando-o de baixo, consciente da sua altura. "Qualquer coisa que queira saber antes de assinar?" No fim de contas estou a usar a minha voz especial. Por uma questo de autoproteco.
De incio vejo-o confuso, depois divertido. "Porqu? H mais respostas que me queiram dar?"
"O negcio  desleal", aviso-o num tom grave. "Aconteceu que lhe confiaram um grande segredo. Voc no fez nada por isso, mas a verdade  que no pode ignorar tal facto. O que voc sabe chega para enforcar um homem e provavelmente uma mulher. Isso coloca-o numa determinada categoria. Traz-lhe obrigaes a que no se pode furtar."
E, valha-me Deus, dou comigo a pensar novamente em Hannah.
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Ele acordou em mim a dor que Harmali me deixou, como se ela fosse uma ferida acabada de abrir.
Ele encolhe os ombros, desprezando a responsabilidade. "Eu no sei o que sei", diz.
Batem  porta. "A questo  que talvez eles queiram dizer-lhe mais qualquer coisa", digo eu, de novo num tom brando, tentando lev-lo a perceber que me interesso por ele. "O que voc j sabe pode ser apenas o prembulo daquilo que eles querem que voc descubra."
Assina. Sem ler. E um cliente de pesadelo. Podia estar a assinar a sua sentena de morte; pouco lhe importava. Esto a bater  porta mas tenho ainda de assinar como testemunha.
"Obrigado", diz ele. "Obrigado porqu?" Guardo a caneta. J c canta, penso eu, triunfante mas glido, quando Clive e os outros entram na sala. Um rato, este fregus, mas assinou.
Mas a minha outra metade sente vergonha e um misterioso alarme. Sinto que acendi um fogo no nosso prprio campo, e ningum sabe como alastrar nem quem o ir apagar.
A brevidade foi o nico mrito do acto seguinte. Fiquei com pena de Bob. Ele no era um homem dissimulado, e muito       ' menos um fantico. Era uma criatura transparente, mas isso no chega a ser um crime, mesmo neste mundo secreto. Era um homem mais da tmpera de Ned do que da de Clive, e mais prximo dos processos dos Servios do que dos de Langley. Tempos houve em que Langley tinha muitos homens como Bob. Melhores tempos.
"Barley, voc tem alguma ideia da natureza do material que a fonte a que chama Goethe nos forneceu at agora? Tem alguma ideia, digamos, da sua mensagem global?", perguntou Bob, embaraado, pondo o seu sorriso franco.
Johnny tinha feito o mesmo tipo de pergunta a Landau, lembrei-me nesse momento. E tinha-se queimado.
"Como  que eu posso ter alguma ideia?", retorqui Barley. "Nem sequer vi esse material, vocs no me deixam."
"Tem a certeza de que Goethe no lhe deu qualquer indicao, qualquer indcio? Uma confidncia de autor para editor, uma sugesto daquilo que ele poderia vir a fornecer-nos um dia, se ambos cumprissem as respectivas promessas? Para alm daquilo que j nos contou - para alm de toda aquela conversa muito genrica sobre armamentos e inimigos irreais?"
"Contei-lhes tudo o que me lembro", disse Barley, abanando a cabea, confuso.
Tal como Johnny, tambm Bob se ps a olhar de soslaio para a pasta que segurava sob a mesa. S que Bob o fazia com genu-
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no embarao. "Barley, nas seis visitas que fez  Unio Sovitica nos ltimos sete anos, manteve algum contacto, ainda que breve, com pacifistas, dissidentes ou outros grupos no oficiais dessa natureza?"
"Isso  um crime?" Clive interveio de imediato. "Responda  questo, sim?" Espantosamente, Barley obedeceu. Por vezes Clive era simplesmente demasiado insignificante para o poder impressionar. "Conhece-se todo o tipo de pessoas, Bob. Gente do jazz, gente dos livros, intelectuais, jornalistas, artistas - a sua questo no tem resposta possvel. Lamento."
"Ento talvez eu possa dar uma volta a essa questo e perguntar-lhe se nunca se deu com pacifistas em Inglaterra."
"No fao ideia." "Barley, por acaso no tem ideia de que dois membros de um certo grupo de blues em que voc tocou, entre 1977 e 1980, estiveram ligados  campanha a favor do desarmamento nuclear, para alm de participarem noutras iniciativas pacifistas?"
Barley pareceu surpreendido, embora um tanto ou quanto deliciado. "A srio? E quem so eles?"
"Ficaria surpreendido se eu lhe dissesse que se trata de Maxi Burris e Bert Wunderley?"
Barley desatou num riso jovial, o que deixou toda a gente divertida,  excepo de Clive. "Por amor de Deus, Bob! No lhes chame pacifistas. O Maxi era comuna de cabea aos ps. Se alguma vez tivesse tido uma bomba nas mos, pode crer que a atirava para as Cmaras do Parlamento. E o Bert apoiaria."
" verdade que eram homossexuais?", perguntou Bob, com um sorrso de raposa velha.
"O mais possvel", concordou Barley com um ar satisfeito. Aps o que, com alvio evidente, Bob guardou a sua folha e olhou e soslaio para Clive para significar que tinha acabado, e Ned props a Barley que fossem apanhar ar. Walter, em jeito de convite, encaminhou-se para a porta e abriu-a. Ned devia quer-lo no papel de antagonista, pois de outro modo Walter no se teria atrevido a acompanh-los. Barley hesitou por um momento, depois pegou numa garrafa de Scotch e num copo e enfiou-os nos bolsos, num gesto com que talvez pretendesse chocar-nos. Assim equipado, seguiu-os num passo lento, deixando-nos sozinhos e em silncio.
"As perguntas que lhe fez eram de Russel Sheriton?", perguntei a Bob, num tom manifestamente amistoso.
"O Russel  demasiado brilhante para as porcarias que agora acontecem, Harry"-, retorquiu Bob com evidente desagrado. "Isto no so coisas para ele."
As lutas pelo poder em Langley constituam um mistrio mesmo para aqueles que nelas estavam envolvidos, e obviamente - por muito que pretendessemos o contrrio - para os nossos bares do
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dcimo segundo andar. Mas quando as guas andavam mais agitadas e as intrigas ferviam, o nome de Sheriton aparecia frequentemente como o que tinha mais possibilidades de ficar no topo da pirmide.
"Ento quem  que as autorizou, Bob?", perguntei, ainda a propsito das questes que ele pusera a Barley. "Quem  que as escolheu?"
"Talvez o Russe11." "Voc acabou de dizer que o Russell era demasiado brilhante para se meter nestas coisas!"
"Talvez ele precise de manter os seus boiardos calmos", retorquiu Bob, incomodado, acendendo o cachimbo e apagando o fsforo.
Acabada a conversa, preparmo-nos para a longa espera.
Era uma rvore enorme, pela sua sombra a mais procurada daquele jardim pblico perto do rio. Estive por vrias vezes sob essa rvore, sentado ou no, admirando o nascer do sol sobre o porto, com a gabardina cinzenta cheia de lgrimas de orvalho. Por vezes, durante o dia, pude ouvir, sem nada compreender, os discursos de um velho mstico com rosto de santo que a gosta de receber os seus discpulos. Discpulos de todas as idades. Cliamam-lhe o Professor. O banco foi construdo  volta do tronco e braos de ferro dividem-no em vrios assentos. Barley sentou-se no centro, entre Walter e Ned. Tinham j estado num bar frequentado por marinheiros sonolentos e depois num miradouro, isto segundo Barley, j que Ned, v l saber-se porqu, se recusa a lembrar_ -se do miradouro. Agora tinha regressado ao vale para a conversa final. Brock ficara no carro alugado, de onde podia v-los perfeitamente, j que s um relvado o separava deles. Dos armazns no outro lado da rua vinham gemidos de gruas, um arfar de camies, gritos de pescadores. Eram cinco da manh mas o porto estava acordado desde as trs. As primeiras nuvens da aurora ganhavam forma e irrompiam nos cus como se fosse o primeiro dia da criao.
"Arranjem outro", disse Barley. J o tinha dito antes vrias vezes, usando outras palavras. "Eu no sou o homem de que vocs precisam."
"No fomos ns'que o escolhemos", disse Ned. "Quem o escolheu foi Goethe. Seria uma maravilha se conhecessemos outro processo de entrar em contacto com ele sem a sua ajuda. O problema  que ele gostou de si. Provavelmente esteve uma quantidade de anos  espera que aparecesse algum como voc."
"Ele escolheu-me por4ue eu no era um espio", disse Barley. "Escolheu-me porque me ouviu cantar aquela maldita ria e gostou. "
"Mas voc no se vai transformar num espio", disse Ned. "Vai continuar a ser um editor. O editor dele. No vai fazer outra coisa seno colaborar com o seu autor e connosco ao mesmo tempo. Que h de errado nisso?"
"Voc  um tipo que sabe prender as pessoas, Barley, para alm de ser inteligente", disse Walter. "No admira que beba. H vinte anos
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que est subaproveitado. Esta  a sua grande oportunidade de brilhar. Teve sorte."
"Brilhar, j,brilhei em Perdelkino. Sempre que brilho, os fusveis rebentam, fica tudo s escuras."
"Inclusivamente poder pagar as suas dvidas", disse Ned. "Trs semanas de preparao em Londres enquanto espera pelo visto, uma bela semana em Moscovo e acabam-se todos os problemas."
Com a prudncia que nele era inata. Ned evitara a palavra "treino."
Mas Walter intervm novamente, misturando chicotadas e ditos lisonjeiros, sempre excessivo; no entanto, Ned deixa-o falar. "Ora, no acredito que o Barley atribua assim tanta importncia ao dinheiro, ele est demasiado acima dessas coisas! O que interessa  que  uma aco importante para o seu pas. Quantas pessoas no gostariam de estar no seu lugar! Sonham com uma oportunidade destas, anseiam por ela toda a vida. Em vo. E afinal, quando voc acabar o trabalho, volta para o seu pas e pode gozar calmamente os benefcios de ser um cidado britnico, sabendo que os merece ainda que deles escarnea, e que a eles tem direito, e que so algo por que temos de lutar como tudo o mais. "
E Ned tinha feito bem em deix-lo falar. Barley desatou a rir e disse a Walter qualquer coisa como "acabe-me l com isso."
"E se pensar bem ver que  tambm uma aco importante para o seu autor", interveio Ned, mais terra-a-terra. "Est nas suas mos proteg-lo, salv-lo. Se ele est decidido a divulgat segredos de Estado, o mnimo que voc pode fazer por ele  p-lo em contacto com as pessoas competentes. Voc  um homem de Harrow, no ?", acrescentou, como se tivesse acabado de se lembrar desse pormenor. "Creio que li algures que voc andou em Harrow."
"Em Harrow limitei-me a ir  escola", disse Barley e Walter soltou mais um dos seus risos piados, a que Barley se associou por uma questo de cortesia.
"Diga-me, Barley, por que razo  que voc se candidatou aos Servios, j l vai uma quantidade de anos? Lembra-se dos motivos que o levaram a candidatar-se?", perguntou Ned. "Ter sido por sen- tido do dever?"
"Queria afastar-me da firma do meu pai. O meu professor' aconselhou -me a leccionar numa escola preparatria'. O primo Lionel disse-me para ir para a espionagem. E vocs rejeitaram-me."
"Pois . Creio que no podemos fazer-lhe esse favor uma segunda vez", disse Ned.
Como velhos camaradas, os trs homens perscrutaram em siln-
' Neste caso, trata-se do "tutor", professor que, nas universidades britnicas, dirige os estudos de um certo nmero de alunos, com os quais se rene separadamente. (N. do T.    )
1 Escola privada para alunos com idades at aos 14 anos, destinada  preparao para a
frequncia das escolas secundrias. (N. do T.)
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cio a paisagem do rio. Um grupo de navios de guerra cavalgava a foz, os cordames visveis na escurido, como se fossem colares de luzes.
"Olhe que sempre pensei que isto viria a acontecer, sempre sonhei que um deles escaparia  norma", atirou subitamente Walter, falando para o mar. "Sou de alma e corao um homem de Deus, disso no tenho dvida. Ou ento serei um marxista falhado. Sempre acreditei que mais tarde ou mais cedo a histria deles acabaria por produzir um dos nossos. Que sabe voc de cincia? Nada. Claro. Voc  daquela gerao... das ltimas virgens das artes. Se lhe perguntasse o que so intensidades de fogo, era capaz de pensar que eu estava a falar da confeco de bolos."
"Provavelmente", concordou Barley, rindo de novo, involuntariamente.
"E ECP? No faz ideia do que ?" "Infelizmente no gosto de inciais." "Erro circular provvel. Diz-lhe alguma coisa?" "Sou um perfeito analfabeto nessas coisas", retrucou Barley, num dos seus imprevisveis acessos de mau-humor.
"E recalibrar? Quem ou que coisa recalibramos, e com qu?" Barley nem se incomodou a responder. "Muito bem. Agora dga-me o que  o Grande Filho da Puta, vulgarmente conhecido nos meios como o GFP. Espero que esta linguagem no ofenda os seus ouvidos.  ingls do melhor ... "
Barley encolheu os ombros. "O GFP era o super-mssil sovitico SS9", explicou Walter. "Apareceu ao pblico numa parada do Primeiro de Maio, nos anos negros da Guerra Fria. As suas dimenses eram impressionantes e mais tarde foi creditado como uma pegada notvel. Tambm no lhe diz nada, pegada? No interessa, h-de dizer. A pegada, neste caso, eram trs enormes buracos nos desertos da Rssia, buracos que se assemelhavam  configurao do grupo de silos Minuteman com o seu centro de comando. A questo estava em saber se os super-msseis possuam ogivas susceptveis de serem disparadas independenternente e se, dessa forma, os soviticos poderiam atingir trs silos americanos ao mesmo tempo. Aqueles que no quiseram acreditar nessa eventualidade, concluram que as pegadas no passavam de um mero acaso. Aqueles que quiseram acreditar subiram a parada e disseram que as ogivas eram para destruir cidades e no silos. Os crentes venceram e logo obtiveram luz verde para o programa ABM. Pouco importa que a teoria deles tenha sido desacreditada trs anos depois. A teoria passou mas eles ficaram. Estou a ver que no me consegue seguir."
"Desde o princpio", disse Barley. "No faz mal, tenho a certeza que ele aprende depressa", garantiu satisfeito Walter, virando-se para Ned. "Os editores pescam de tudo com facilidade. "
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"Mas haver algum mal em conhecer, Barley?", queixou-se Ned no tom de um homem simples farto de conversas complicadas. " isso que eu no consigo compreender. No lhe estamos a pedir que construa os malditos msseis nem que carregue no boto. Pedimos-lhe apenas que nos ajude a melhorar o conhecimento que temos do inimigo. Se no gosta do nuclear, tanto melhor. E se o inimigo se
revela um amigo, qual  o problema?"
"Pensava que a Guerra Fria estava acabada", disse Barley. "Acabada?! Por amor de Deus, Barley!", exclamou Ned quase sussurrando, num alarme aparentemente sincero.
Walter, em contrapartida, no se mostrou to comedido. Walter queria vincar a sua indignao, e  possvel que estivesse mesmo indignado. Ele era capaz de pr fosse que cara fosse em qualquer momento e at de pr vrias caras ao mesmo tempo. "Isso no passa de teatrice poltica e da barata, so tudo falsas amizades!", bufou ele. "Estamos ns metidos na maior querela ideolgica de toda a histria e voc vem-me dizer que a guerra fria acabou, s porque uma mo cheia de homens de estado acha conveniente cumprimentar-se em pblico e desfazer-se de meia dzia de brinquedos obsoletos. Ah, pois, diz-se que o imprio do mal est de rastos, no ? Que a economia deles est uma calamidade, que puseram a ideologia no prego, que os quintais deles lhes esto a explodir na cara. Mas no me venham dizer que isso  uma razo para desactivarmos as nossas armas, porque no acredito.  uma razo sim para os espiarmos bem espiados vinte e cinco horas ao dia e para lhes darmos um valente pontap nos tomates sempre que eles tentem levantar a cabea. Deus sabe quem eles no pensaro que so daqui a dez anos!"
"Suponho que percebe que, se desistir de Goethe, estar a deix-lo nas mos dos americanos", disse Ned, numa atitude informativa meramente prtica. "O Bob no o deixar escapar, por que razo haveria de fazer tal coisa? No se deixou enganar por aqueles modos  Yale, espero. Como  que voc vai conseguir viver consigo mesmo, sabendo o que acontecer nesse caso?"
"Eu no quero viver comigo mesmo", disse Barley. "Sou decerto a pior criatura com quem poderia viver."
Uma nuvem cor de ardsia trespassada pelos raios vermelhos do sol deslizou pelo cu, antes de se dispersar em fragmentos.
"A questo resunie-se a isto", disse Ned. "Sei que  rude e pouco ingls da minha parte, mas mesmo assim vou dizer-lho. Voc quer ser um participante passivo ou activo na defesa do seu pas?"
Barley estava ainda a preparar uma resposta quando Walter lha forneceu, e num jeito to conclusivo que qualquer contestao estaria votada ao fracasso. "Voc pertence a uma sociedade livre. No tem escolha possvel", disse.
A azfama do porto crescia com o dia, Barley levantou-se lentamente e levou as mos s costas. Parecia ter uma dor permanente
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mesmo acima da cintura. Talvez da lhe viesse o jeito inclinado das costas.
"Qualquer igreja decente j vos teria condenado  fogueira h muitos, muitos anos", comentou, exausto. Virou-se para Ned, espreitando-o por sobre os seus culos demasiado pequenos. "Eu sou o homem errado", avisou-o. "E vocs so loucos se recorrem a num".
"No  s voc que  o homem errado. Todos somos", retorquiu Ned. "Lidamos com coisas erradas."
Barley atravessou o relvado, tacteando os bolsos  procura das chaves. Meteu por uma rua secundria. Ned e Walter deixaram de o ver, mas Brock seguiu-o lentamente e sem dar nas vistas. A casa tinha forma de cunha, estreita na fachada, larga nas traseiras. Barley abriu a porta da rua e fechou-a atrs de si. Acertou o relgio e comeou a subir as escadas, mantendo um passo sereno porque tinha ainda um longo caminho  sua frente.
Era uma boa mulher, no tinha culpa de nada. Todas eram boas mulheres. Eram mulheres para quem ele significava uma misso, o mesmo que eu em tempos signifiquei para Hannah - a misso de salv-lo, de o aliviarem de todas as preocupaes, de porem a funcionar todos os seus muitos, imensos talentos, de o ajudarem a recomear tudo de novo e a esquecer-se de todos os recomeos que j tinha feito na vida. E Barley tinha-a encorajado, tal como tinha encorajado todas as outras. Tinha ficado ao lado delas, como se estivesse  cabeceira do paciente, como se o paciente no fosse ele mesmo, como se ele fosse afinal um membro da equipa mdica. "Ento o que  que vamos fazer a este desgraado para o pormos de p e a funcionar?"
A nica diferena  que ele nunca acreditara no remdio, tal como eu, alis.
Ela estava deitada, de rosto colado  almofada, exausta e possivelmente a dormir. Tinha limpo o apartamento. Como os prisioneiros limpam as celas, como todos cuidados da campa de um ente querido recentemente falecido, tinha posto a brilhar a superfcie de um mundo que no podia alterar. Era possvel que outras pessoas dissessem a Barley que ele era demasiado duro para consigo mesmo. As mulheres, porm, diziam-lho frequentemente. Que ele no devia sentir-se responsvel pelas duas metades de cada relao que se malograva. Mas Barley  que sabia. Conhecia a distncia entre si mesmo e tudo o mais. Nesses tempos ele era ainda o grande especialista da sua prpria incurabilidade.
Tocou-lhe no ombro mas ela no se mexeu. Concluiu que estava acordada.
"Tive de ir  Embaixada", disse. "H gente em Londres que no
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me quer deixar em paz. Tenho de voltar e dar a cara, caso contrrio confiscam-me o passaporte."
Retirou uma mala que estava debaixo da cama e comeou a ench-Ia com as camisas que ela tinha passado a ferro.
"Disseste que desta vez no voltavas", acusou ela. "Que j tinhas servido a ptria o bastante. Que j tinhas cumprido a sentena toda. Foi isso o que disseste."
"Marcaram-me lugar no primeiro voo. No posso fazer nada. Daqui a pouco tenho a um carro  porta para me levar ao aeroporto". Foi  casa de banho buscar a escova dos dentes e o estojo da barba. "Caiu-me tudo em cima", gritou. "No posso fazer nada."
"E eu volto para o meu marido", disse ela. "Fica aqui. Aproveita o apartamento. E tudo o mais. Eu s de-
moro umas semanas. Depois, acabou-se."
"Se no me tivesses dito aquilo tudo, no havia problemas. No me sentiria infeliz se se tratasse apenas de uma relao passageira. Devias ler as tuas cartas. Devias ouvir-te a ti mesmo."
Barley no olhou para ela. Estava curvado sobre a mala. "No faas a mais ningum o que me fizeste", disse ela. Era o mximo que a calma dela permitia. Comeou a soluar e a soluar ficou quando ele fechou a porta, e continuava a soluar na manh seguinte, quando lhe expliquei vagamente o que se passava e lhe pus uma declarao debaixo do nariz e lhe perguntei o que ele lhe tinha dito. No lhe tinha dito nada. Contou a histria toda mas deferideu-o com unhas e dentes. Defend-lo-ia at  morte. Hannah teria feito o mesmo. F-lo ainda, cumpre ainda uma lealdade excessiva, apesar de as suas iluses terem morrido.
Ned e a sua gente tinham apenas trs semanas para porem Barley em forma. Trs fins-de-semana e quinze dias que s comeavam s cinco da tarde, quando Barley se escapulia do escritrio da editora.
Mas Ned fez o trabalho como s ele poderia fazer. Ned era capaz de manter os instrutores acordados toda a noite e de ficar ele acordado toda a noite e todo o dia. E Barley, com a inconstncia que nele era inata, comeou por reagir mal a todas as dificuldades que lhe foram aparecendo, at que acalmou, at que ganhou uma expresso compenetrada, que se foi tomando notoriamente grave  medida que o dia da partida se aproximava. Frequentemente, parecia adoptar sem qualquer objeco toda a tica da nossa actividade. No fim de contas, declarou certa vez a Walter, ser no  sempre parecer? Mas  isso mesmo!, exclamou Walter, deliciado - e isso no se aplica apenas  nossa profisso! E a identidade do homem no ser sempre um disfarce?, insistia Barley; e o nico mundo que vale a pena no ser precisamente o mundo secreto de cada um? Walter garantia-lhe que assim era e aconselhava-o a arranjar residncia permanente antes que os preos subissem.
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Barley tinha gostado de Walter desde o incio, tinha gostado da sua fragilidade e, vejo-o agora, da sua transitoriedade. Parecia saber desde o princpio que estava a cumprimentar um homem em permanente risco de infraco e, por isso, a um passo da excluso. Mas havia momentos em que o rosto de Barley se tomava to vazio como um tmulo aberto. De qualquer modo, Barley era uma criatura pendular e s assim era igual a si mesmo.
Mas o mais importante foi que gostou decididamente da atmosfera familiar com que Ned, dotado de um instinto muito apurado para o apoio a hesitantes, o brindava assiduamente - as ceias com as suas interminveis conversas, a noo de partilha e de comunidade, o facto de ser a estrela da famlia, as partidas de xadrez com o velho Palfrey, para quem Ned astuciosamente empurrava Barley, de molde a contrabalanar a influncia inquietantemente efrnera de Walter.
"Aparea sempre que lhe apetecer", disse-me Nied com uma palmadinha amigvel.
E assim passei a ser o velho Harry tambm para Barley. Harry, meu velho, vamos a uma partidinha de xadrez? Harry, meu velho, porque  que no fica para a ceia? Harry, meu velho, onde  que est o raio do seu copo?
Ned convidava Bob moderadamente, mas nunca convidou Clive. Aquele era o seu filme e Barley era o seu actor. E ele sabia como seduzir Barley.
Para instalar a fortaleza, Ned tinha escolhido uma bela casa de campo eduardiana em Knightsbridge, uma rea de Londres onde Barley no tinha quaisquer amigos ou conhecidos. Clive no gostou do preo, mas como eram os amencanos a pagar as suas reticncias no faziam sentido. A casa ficava num beco, a menos de cinco minutos dos Harrods. Fui eu que a aluguei, em nome do Grupo de Investigao e Aco tica, uma associao caritativa que registara anos antes e que entretanto suspendera as suas actividades  espera de melhores dias. Uma govemanta dos Servios especialmente simptica, Miss Coad, ficou  frente da casa depois de ter cumprido todas as formalidades relacionadas com a operao Ave Azul. O piso de cima, constitudo pelo quarto das crianas, foi convertido numa modesta sala de conferncias e, tal como todas as outras divises, confortveis e bem mobiladas, ficou recheado de microfones.
"Esta ser a sua casa enquanto isto durar", disse Ned a Barley, enquanto lha mostrvamos. "Aqui  o seu quarto, para o caso de precisar, esta  a sua chave. Utilize o telefone  vontade mas olhe que ns vamos ouvir as conversas. Por isso, se for algum assunto privado, recorra  cabina no outro lado da rua."
Por precauo, tinha pedido tambm autorizao ao Ministrio do Interior para pr sob escuta a cabina telefnica. Com a justificao de sempre: interesses americanos muito fortes.
Como no ramos grandes amantes de dormir, Barley e eu ficva-
mos a jogar xadrez depois de todos os outros se terem ido deitar. Ele
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era um adversrio impulsivo e frequentemente brilhante, mas faltava-lhe a minha veia calculista e, por outro lado, eu sabia muito mais das suas fraquezas do que ele das minhas. Afinal eu tinha lido o seu processo. Mas mesmo assim lembro-me de alguns jogos em que ele num pice percebeu tudo e com trs ou quatro jogadas e um berro de gozo me forou a resignar.
"Apanhei-o, Harry! Pea j desculpa! Que vergonha!" Mas quando recomevamos, era visvel que ficava impaciente. Comeava a andar de um lado para o outro e a dar estalos com os dedos enquanto a sua mente se ausentava para mais uma das suas viagens.
" casado, Harry?" "Sou, mas no pareo", retorqui. "O que  que isso quer dizer?" "Tenho uma mulher no campo e vivo na cidade." "H muito tempo?" "H uma eternidade", disse eu descuidadamente, de imediato arrependido por no ter dado outra resposta.
"Ama-la?" "Meu caro amigo! ", repliquei eu. No entanto o seu olhar fixo significava que queria uma resposta. "Creio que sim.  distncia. Sim, amo-a", acrescentei, relutante.
"E ela, retribui?" "Estou convencido disso. H muito tempo que no lho pergunto. " "Criancinhas?" "Um rapaz. J vai nos trinta." "V-o regularmente?" "Recebo um postal de boas-festas pelo Natal, vejo-o em funerais e casamentos.  nossa maneira somos bons amigos."
"O que  que ele faz?" "Em tempos andou de namoro com as leis, agora faz dinheiro." "E  feliz?" Estava a ficar irritado, coisa que j no me acontecia h muito tempo. Ele no tinha nada a ver com as minhas definies de felicidade e amor. No passava de um caloiro. Eu  que tinha o direito de indagar, de o enlear, o contrrio no estava previsto. Mas o mais invulgar de tudo era que eu deixava transpareer a minha irritao. Mas a verdade  que deixava, pois dei com ele fitando-me inquieto, pensando decerto que tinha mexido sem querer em alguma tragdia familiar. Depois, corou e afastou-se, procurando um outro tema capaz de nos distrair, de salvar uma situao para ambos difcil.
"Ele no rejeita o seu papel,  o que eu acho, sir", disse a Ned um tal Mr. Candyman, especialista na ltima novidade em microfones. "No digo que tenha o temperamento certo para a funo, mas a verdade  que escuta com toda a ateno e quanto  memria, ali, a memria  uma maravilha, no se esquece de nada." " um cavalheiro, Mr. Ned,  do que eu gosto nele", comentou uma informadora, encarregada de ensinar a Barley os rudimentos das
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artes da rua. " inteligente e tem imenso sentido de humor, o que, como eu costumo dizer, j  meio caminho andado para aprender a
ter olho. "
Mais tarde, viria a confessar que tinha rejeitado as suas propostas amorosas, de acordo com as regras dos Servios, mas que, graas a ele, se tornara uma devotada leitora de Scott Fitzgerald.
"Isto  s passes de mgica", declarou Barley, enfastiado, no final de uma extenuante sesso sobre as tcnicas da escrita secreta. Mas mesmo assim via-se que tinha gostado.
E com a aproximao do dia fatal, a sua submisso foi-se tornando absoluta. Mesmo quando mandei chamar o guarda-livros dos Servios, um verdadeiro estafermo chamado Christopher, que tinha consagrado cinco dias a uma aterradora inspeco dos livros da Abercrombie & Blair, Barley, ao contrrio do que eu esperava, no se mostrou especialmente revoltado.
"Mas, Chris, no h editor que no esteja falido!", protestou, vagueando pela acolhedora sala de estar ao ritmo da sua prpria agitao, agarrando com firmeza o copo de whsky, embora os seus joelhos fraquejassem quando dava passos mais longos. Os tuba- .res como o Jumbo comem as folhas e ns roemos a casca." E,imitando os alemes: "Vocs tm os vossos mtodos, ns temos os nossos."
Mas tanto eu como Ned ficmos preocupados. E Chris tambm. A operao tinha de correr bem e tnhamos medo que Barley abrisse falncia a meio dos acontecimentos. Um medo de pesadelo.
"Mas, para que  que eu hei-de querer o raio de um editor?!", exclamou Barley, gesticulando com os martirizados culos. "Eu no posso pagar o raio de um editor. As minhas santas tias de Ely pem no prego as jarreteiras1 se eu contratar o raio de um editor!"
Mas nessa altura j eu tinha sondado e convencido as santas tias. De facto, durante um almoo em Rules, conseguira vencer todas a resistncias de Lady Pandora Weir-Scott, a quem Barley chamava a Vaca Sagrada, por causa do ser fervor pela High Church1. Investido do papel de Pontfice do Foregn Office, expliquei-lhe, com os maiores segredos, que a Abercombrie & Blair ia receber, por debaixo da mesa, uma doao RockfelIer destinada  promoo das relaes culturais anglo-soviticas. Mas ela que no dissesse uma palavra, pois caso contrrio l ia o dinheiro parar a uma editora que o merecesse.
"Bom, a mim quer-me parecer que eu mereo esse dinheiro mais do que qualquer pessoa", asseverou Lady Pandora, espetando os cotovelos para extrair o que ainda restava da sua lagosta. "Esperimente
Ordem da Jarreteira, a mais elevada das condecoraes inglesas. Righ Church, grupo conservador e ritualista da Igreja Anglicana que mais se aproxima dos catlicos apostlicos romanos. (N. do T.)
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1 No original, o termo  "on~ que, aos ouvidos puristas de Barley, soa evidentemente mal. Em portugus no h uma equivalncia que resulte to bem como o original, com todas as implicaes do original. "Constante", "contnuo" ou mesmo "continuado" so termos que no suscitariam a irritao de um purista. (N. do T.)
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governar Ammerford com trinta mil por ano e vai ver se eu no mereo."
Maliciosamente, perguntei-lhe se podia abordar o sobrinho com total segurana.
"Nem pense nisso! Deixe-o comigo. Ele no distingue dinheiro de           J esterco e alm disso no consegue mentir, seja em que circunstncia         I for. "
A necessidade de providenciar um zelador para o escritrio de Barley parecia de sbito mais urgente. "Voc ps um anncio no jornal pedindo um funcionrio", explicou Ned, mostrando a Barley um pequeno anncio publicado na imprensa cultural dos ltimos dias. Editora britnica com nome firmado procura leitor de russo qualificado tendo em vista promoo a editor, 25 a 45 anos, fico e temas tcnicos, curriculum vitac.
E no dia seguinte, Leonard Cari Wikclow apresentou-se para a entrevista nas muito hipotecadas instalaes da Abercrombie & Blair, NorfoIk Street, Strand.
"Est aqui um anjo e  para si, Mr. Barley", ribombou a voz encharcada em gin de Mrs. Duribar, atravs do velho intercomunicador. "Digo-lhe que v j?"
Um anjo com clipes de ciclista e mochila s costas. Um rosto perfeitamente anglico, sem um nico sinal de preocupao, caracis angelicamente louros. Olhos azuis de anjo, de que toda a maldade estava ausente. Um, nariz anglico, to misteriosamente torto que apetecia dar-lhe um abano e p-lo direito. Ned tinha pedido a Barley que o entrevistasse da forma mais normal possvel. Leonard Carl Wicklow, nascido em Brigliton, em 1964, diploniado com distino. Estudos Eslavos e Leste-Europeus. Universidade de Londres.
"Ah,  voc, entre. ptimo. Sente-se", rosnou Barley. "Diga-me uma coisa... o que  que o atrai nesta profisso? Olhe que a edio  um negcio absolutamente nojento ... ". Barley tinha almoado com a mais estridente das suas romancistas e ainda estava a digerir a experincia.
"Bom, na realidade, sir, tenho pela edio um interesse continuado. Desde h muito tempo", disse Wicklow com um sorriso de anglico entusiasmo.
"Bom, se ficar a trabalhar connosco certamente deixar de ter um interesse continuado', avisou Barley, irritado com aquele inopinado atropelo  lngua inglesa. " provvel que persista. Pode ser que ressta. At pode acontecer que triunfe. Mas pode estar certo que, enquanto eu estiver ao leme, no ter pela edio um interesse continuado."

"Ainda no percebi se aquele maladrim ladra ou ronrona", resmungou Barley em conversa com Ned, nessa mesma noite, em Knightsbridge, enquanto subamos os trs as estreitas escadas da casa de campo para a reunio diria com Walter.
"Olhe que faz ambas as coisas muito bem", retorquiu Ned. Os seminrios de Walter deixavam Barley perfeitamente subjugado. Era um xito todos os dias. Barley gostava de pessoas frgeis, de pessoas cuja atitude perante a vida revelasse sempre insegurana, e Walter tinha o ar de quem se ia despenhar da ponta do mundo sempre que se levantava da cadeira. Falavam das artes do ofcio, de teologia nuclear, da aterradora histria da cincia sovitica de que a Ave Azul - fosse ela quem fosse - era inevitavalmente herdeira. Walter era demasiado bom professor para revelar sobre que assunto dissertava, e Barley era um aluno demasiado interessado para se permitir perguntar-lho.
"Controlo?", gritava-lhe indignado Walter, o s dos falces. "Diga-me sinceramente se h distino possvel entre controlo e desarmamento, seu pateta! Minorar a crise mundial?! Foi isso o que eu ouvi? Mas onde  que leu esse disparate? No Guardian? Os nossos dirigentes adoram as crises. Festejam as crises. Os nossos dirigentes passam o tempo s voltas pelo mundo  procura de crises, pois s assim conseguem excitar as suas gemebndas lil:>idos!"
E Barley, longe de ficar ofendido, esticava-se todo na cadeira, atento e deliciado, gemia e aplaudia e chorava por mais. Por vezes rebatia Walter. Saltava da cadeira e com um passo pesado percorria
* sala, gritando "Mas - espera a, queraio! -H um mas. " Tinha
* memria e a capacidade necessrias, como Walter previra. E a sua virgindade cientfica no resistira ao primeiro assalto, quando Walter fez a sua conferncia introdutria acerca do equilbrio do terror, conseguindo transform-lo num inventrio de todas as loucuras da humanidade.
"No h sada possvel", anunciou, certo dia, com um ar perfeitamente satisfeito. "E no so os sonhos e as fantasias que vo produzir essa sada, O demnio no voltar ao seu frasco, a confrontao ser para todo o sempre, o abrao estreita-se cada vez mais e de gerao em gerao os brinquedos vo-se tornando cada vez mais engenhosos e nenhum dos dois lados ter alguma vez segurana que baste. Nem os manda chuvas, nem os sacaninhas dos recm-chegados ao clube que todos os anos arrecadam mais uma bombazinha. Estamos cansados de acreditar nisso, porque somos humanos. Podemos at cair na iluso de que a ameaa acabou. Nunca acabar. Nunca, nunca, nunca."
"Ento quem  que nos salva, Walt?", perguntou Barley. "Voc e o Nedsky?I"
"Se alguma coisa nos salvar ser decerto a vaidade, mas duvido que
' Ned, com a terminao "sky", referncia usual em nomes russos (tambm adoptada em "Russki" ou "Russky", termo coloquial para "Russo"). (N. do T.)
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haja salvao", retorquiu Walter. "Nenhum dirigente quer ficar na histria como a besta que destruiu o seu pas numa tarde. E medo tambm, suponho. A maior parte dos nossos garbosos polticos opem de facto uma objeco narcisista ao sucidio, e graas a Deus que assim ."
"Tirando a vaidade e o medo, no h qualquer esperana?" "Para o homem, no", retorquiu satisfeito Walter, e a resposta no era surpreendente, vinda de um homem que por mais de uma vez tinha considerado a hiptese de receber ordens sacras em vez das dos Servios.
"Ento qual  o objectivo de Goethe?", perguntou Barley noutra altura, num tom exasperado.
"Ah, salvar o mundo, sem dvida. Todos ns gostaramos de salvar o mundo."
"Salv-lo, como? Qual  a mensagem dele?" "Isso cabe-lhe a si descobrir, no?" "Mas o que  que ele nos disse at agora? Porque  que eu no posso saber?"
"Meu caro amigo, no seja to infantil", exclamou Walter com um ar arrogante, mas Ned interveio rapidamente.
"Voc sabe tudo o que precisa de saber", disse ele com uma autoridade calma. "Voc  o mensageiro.  para isso que voc est equipado,  isso que ele quer que voc seja. Ele disse-nos que h muitas coisas que no funcionam no lado sovitico. Pintou um quadro de fracassos a todos os nveis - inexactides, incompetncia, uma administrao deficiente e, a juntar-se a tudo isso, resultados falsificados de testes enviados para Moscovo. Pode ser verdade mas tambm pode ser que ele tenha inventado tudo. Ou talvez algum o tenha inventado por ele. De qualquer modo trata-se de uma histria muito estranha."
"E ns achamos que  verdade?", persistiu teimosamente Barley. "Isso voc no pode saber." "Porque no?" "Porque debaixo de interrogatrio toda a gente fala. Os heris j acabaram. Voc fala, eu falo. Walter fala. Goethe fala, ela fala. Por isso, se lhe dizemos o que sabemos acerca deles, arriscamo-nos a comprometer a nossa capacidade de os espiarmos. Conhecemos algum segredo deles? Se a resposta  no, ento eles ficam a saber que nos falta o software, ou o mecanismo, ou a frmula, ou a estao subterrnea supersecreta que nos permitiria conhec-lo. Mas se a resposta  sim, ento eles reagem de forma evasiva, para que ns no continuemo  s a observ-los e a escut-los utilizando esse mtodo."
Barley e eu estvamos a jogar xadrez enquanto a conversa decorria.
"Ento acha que o casamento s funciona havendo alguma distncia entre os dois envolvidos?", perguntou-me, reatando a nossa conversa como se nunca a tivssemos abandonado.
"O casamento no sei, mas o amor, de certeza", retorqui com um
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estremecimento exagerado e mudei rapidamente para assuntos menos ntimos.
Na noite antes da partida, Miss Coad preparou uma truta salmonada e poliu a baixela de prata. Bob foi convidado e apareceu com um belssimo whisky e duas garrafas de Sancerre. Mas s nossas festividades reagiu Barley com a mesma disposio introspectiva, at que o animado Sermo Final de Walter o salvou das garras da melancolia.
"A questo  porqu", trilou subitamente Walter, a sua excntrica voz enchendo toda a sala, enquanto se servia do meu copo de Sancerre. " isso que ns queremos saber. O porqu. No a substncia, mas o motivo. Porqu? Se acreditamos no motivo, acreditamos no homem. E ento acreditaremos no seu material. No princpio no foi o verbo, no foi o acto, no foi a estpida da serpente. No princpio foi porqu? Porque  que ela colheu a ma? Estava chateada? Curiosa? Pagaram-lhe para isso? Foi Ado que a incitou? Se no foi ele, quem foi ento? O Diabo  sempre a capa, o disfarce de qualquer mulher. Ignoremo-lo. Ser que ela serviu de fachada a algum? No basta dizer, "porque a ma estava ali". Essa resposta pode servir para o Evereste. Pode servir para o Paraso. Mas no serve para o caso de Goethe e no serve para ns e decerto no servir para os nossos garbosos aliados americanos, no  verdade, Bobby?"
E quando todos ns desatmos a rir, Walter cerrou os olhos e a sua voz soou ainda mais estridente.
"Pegue-se no caso da encantadora Katya! Porque  que Goethe a escolheu precisamente a ela? Por que motivo a levou a arriscar a sua vida? E porque  que ela lho permitiu? No sabemos. Mas temos de saber. Temos de saber tudo o que pudermos acerca dela porque, na nossa profisso, os correios so a mensagem. Se Goethe  sincero, ento a cabea dela corre perigo. Disso no h dvida. Se ele no  sincero, que poderemos ento concluir acerca dela? Que inventou toda esta histria? Ser que ela est realmente em contacto com ele? Estar em contacto com outra pessoa e, sendo assim, com quem?" Espetou um indicador flcido na direco de Barley. " aqui que voc entra. Goethe pensar que voc  um espio? Ter-lhe-o dito os outros que voc era um espio? O que voc tem de ser  um hamster. Armazene tudo o que puder. Deus o ajude a si e a todos os que, simbolicamente, vo consigo."
Discretamente, enchi outro copo e bebemos. Lembro-me do profundo silncio que ento se fez. Ouviam-se perfeitamente os sinos do Big Ben flutuando por sobre o rio desde Westminster.
S s primeiras horas da manh, quando a partida de Barley j pouco demorava,  que lhe permitimos dar uma vista de olhos pelos documentos que com tanto empenho exigira em Lisboa - os cadernos de Goethe, recriados em fac-smile por Langley, em draconianas condies de sigilo, incluindo as grossas lombadas de carto russas e as gravuras das capas mostrando crianas soviticas encaminhando-se alegremente para a escola.
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Recebendo silenciosamente os cadernos com ambas as mos, Barley voltou nesse momento a ser o editor enquanto ns assistamos curiosos  sua transformao. Abriu o primeiro caderno, espreitou para dentro, sentiu-lhe o peso e fez correr apressadamente as folhas, como se estivesse a calcular quanto tempo demoraria a l-lo. Pegou depois no segundo, abriu-o numa pgina ao acaso, e vendo as linhas muito juntas ps uma cara queixosa, certamente porque o texto, alm de manuscrito, usava s um espao e no dois.
Depois vagueou pelos trs cadernos, saltando de ilustrao para texto e de texto para efuso literria, com a cabea rigidamente inclnada para trs e para o lado, como se estivesse determinado a reser-
var a sua opinio.
Porm, quando ergueu a cabea, reparei que os seus olhos no estavam ali, e que fitavam talvez uma longnqua montanha que s ele poderia ver.
Uma busca de rotina ao apartamento de Barley em Hampstead, conduzida por Ned e Brock aps a sua partida, no revelou qualquer pista importante relativamente ao seu estado de esprito. Encontraram um caderno velho em que ele costumava tomar notas, sobre a sua secretria, no meio de uma impressionante confuso de papis. As ltimas notas pareciam recentes, e a mais significativa talvez fosse um dstico retirado da ltima obra de Stevie Smith.
"Tenho menos medo da noite escura Do que dos amigos que no conheo." Escrupulosamente, Ned incluiu a citao no processo, mas recusou-se a concluir fosse o que fosse. Talvez Barley fosse muito simplesmente uni tipo que no ficava minimamente nervoso na vspera da sua primeira aventura.
E nas costas de uma conta velha que estava no cesto dos papis, Brock descobriu uma citao que mais tarde descobriu ser de Roethke, e que, por obscuras razes do seu foro ntimo, s mencionana algumas semanas depois.
" caminhando que aprendo o rumo do meu caminho."
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Katya acordou sobressaltada e, como depois se convenceu, com a imediata conscincia de que aquele era o dia aprazado. Era uma sovitica emancipada, mas de superstio no conseguia livrar-se.
"Estava marcado", disse para si mesma, mais tarde. Pelas cortinas coadas passava um sol plido, espreitando por entre os quartis de cimento daquele subrbio a norte de Moscovo.  sua volta, os blocos de apartamentos com fachadas de tijolo, cheios de roupa a secar, erguiam-se para um cu vazio como gigantes cor-de-rosa vestidos de andrajos.
 segunda-feira, pensou. Estou na minha cama e no na rua. A rua era no sonho.
Por um mortiento deixou-se ficar quieta, perscrutando o seu mundo secreto e tentando libertar a mente dos maus pensamentos. Vendo que os seus esforos no resultavam, saltou da cama e, impulsivamente, como fazia com quase tudo, avanou com extrema percia entre a roupa pendurada e os acessrios arruinados da casa de banho, entrou na banheira e tomou um duche.
Landau tinha razo, Katya era de facto uma bela mulher. O seu corpo alto era cheio mas sem sombra de gordura, com uma cintura pronunciada e pernas fortes. Tinha um cabelo preto luxuriante, de uma beleza selvagem quando no lhe apetecia arranj-lo. O rosto era travesso e ao mesmo tempo inteligente e parecia animar tudo  sua volta. Vestida ou nua, tods os seus gestos primavam pela graciosidade.
terminado o duche, fechou as torneiras tanto quanto era possvel. Para que a gua no ficasse a pingar, deu-lhes uma martelada com um martelo de madeira em cuja cabea estava escrito "Toma l esta!". Cantarolando para si mesma, pegou num pequeno espelho e voltou ao quarto para se vestir. De novo a rua: onde ficava aquela
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rua? Leninegrado? Moscovo? O duche no tinha apagado o sonho.
O quarto era muito pequeno, a mais pequena das trs divises que constituam o seu reduzido apartamento, uma alcova com um armrio e uma cama. Mas Katya estava habituada queles limites e os movimentos rpidos com que penteava o cabelo, com que o enrolava e prendia, possuam uma elegncia cuja sensualidade no tinha nada de estudado. Claro que o apartamento seria muito mais pequeno se Katya no tivesse direito a vinte metros extra por causa do seu trabalho. O tio Matvey valia mais nove metros; os gmeos e o engenho dela tinham feito o resto. No podia queixar-se.
Talvez fosse uma rua de Kiev   ' pensou, lembrando-se de uma recente visita a essa cidade. No. As ruas de Kiev so largas, a minha era estreita.
Enquanto se vestia, o prdio comeou a acordar e Katya distraiu-se de bom grado a identificar os rituais do mundo normal. O primeiro som veio do apartamento ao lado: o despertador dos Goglidzes soando as seis e meia, seguido dos latidos dos doidos dos borzoP pedindo rua. Coitados dos Goglidzes, pensou, tenho de lhes dar uma prenda. No ms anterior, Natasha tinha perdido a me e na sexta-feira o pai de Otar tinha ido  pressa para o hospital com um tumor no crebro. Vou-lhes dar um frasco de mel, pensou - e nesse mesmo instante ps um sorriso irnico para um antigo amante, um pintor dissidente que, contra todas as leis da Natureza, tinha decidido manter um enxame de abelhas no telhado da sua casa, numa zona para l do Arbat. Garantiam os amigos que esse pintor a tinha tratado o pior possvel. Mas Katya, interiormente, sempre o defendera. No fim de contas ele era um artista, talvez um gnio. Era um belssimo amante e, entre os seus acessos de fria fora capaz de faz-la rir. Acima de tudo, Katya amara-o porque ele conseguira o impossvel.
Depois dos rudos dos Goglidzes veio o choro da filha dos Volkhovs, que tinha os dentes a rebentar. Uma segundo depois, atravs do soalho, ressoava a batida da aparelhagem japonesa, acabada de comprar, e que despejava o ltimo rock americano. Como  que eles arranjavam dinheiro para aquilo?, pensou Katya, reincidindo na empatia - Elizabeth andava sempre grvida e Sasha ganhava cento e sessenta mensais: como era possvel? Depois dos Volkhovs, surgiram os barulhos dos Karpovs, os antipticos Karpovs, para eles s a Rdio Moscovo. Uma semana antes, a varanda deles rura, matando um polcia e um co. Os brincalhes do prdio tinham proposto que se fizesse uma colecta para o co.
Mas nesse momento ela era j Katya, a abastecedora. s segundas-feiras era possvel obter galinhas e legumes frescos, vindos do campo, por vias privadas, durante o fim-de-semana. A sua amiga Tanya tinha um primo que funcionava informalmente como intermedirio de pequenos agricultores. Tenho de telefonar  Tanya.
' Galgos russos (N. do T.)
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Enquanto pensava nisto, lembrou-se dos bilhetes para o concerto. J tinha tomado uma deciso. Logo que chegasse ao escritrio perguntaria pelos dois bilhetes para o concerto da Filarmnica, que o editor Barzin lhe tinha prometido como indemnizao para as propostas desonestas que lhe fizera, completamente 'bbedo, na festa do Primeiro de Maio. Katya nunca tinha reparado sequer nos avanos dele, mas Barzin andava sempre a torturar-se fosse com o que fosse, e quem era ela para poder mitigar a sua culpabilidade - em especial se esta assumia a forma de dois bilhetes para um concerto?
 hora do almoo, depois das compras, negociaria os bilhetes com Morozov, o porteiro, que lhe tinha prometido vinte e quatro sabonetes importados, embrulhados em papel ornamental. Com os sabonetes compraria a pea de tecido verde axadrezado, de pura l virgem, que o gerente da loja de tecidos guardava para ela no armazm. Katya recusava-se terminantemente a pensar nas razes que o levariam a guardar-lhe a pea. Nessa tarde, depois da recepo hngara, passaria o tecido a Olga Stanislavsky, a qual, em troca de fa-
vores a serem negociados, faria duas camisas  cowboy na mquina de costura leste-alem que trocara recentemente pela antiga Singer da famlia. As camisas eram para o aniversrio dos gmeos. E talvez sobrasse tecido suficiente para pagar umas consultas privadas no dentista. Os gmeos bem precisavam.
Portanto, adeus ao concerto. Estava decidido.
O telefone estava na sala de estar, onde dormia o tio Matvey. Um telefone que era uma preciosidade, vermelho, fabricado na Polnia. Volodya surripiara-o da fbrica e tinha tido a generosidade de no o levar quando dera a escapada final. Nos bicos dos ps, para no acordar Matvey - e lanando-lhe um olhar terno, j que Matvey fora o irmo favorito do pai dela -, Katya pegou no telefone e encaminhou-se para o corredor. Chegada ao quarto, sentou-se na cama e comeou a ligar ainda sem ter decidido com quem falaria em primeiro lugar.
Durante vinte ininutos fez a ronda dos amigos, trocando sobretudo mexericos acerca dos stios onde era possvel fazer as compras, mas falando tambm de coisas mais ntimas. Por duas vezes o telefone tocou logo a seguir a t-lo desligado. Aquele realizador de cinema checo de quem tanto se fala agora tinha estado no Zoya a noite anterior. Um homem devastador, dissera Alexandra, tinha de tomar uma deciso quanto  sua vida, tinha de lhe telefonar, mas que pretexto poderia usar? Katya matutou e deu-lhe uma ideia. Trs escultores de vanguarda, at ento banidos, iam expor na Unio dos Trabalhadores Ferrovirios. Porque no convid-lo para a acompanhar  exposio? Alexandra ficara encantada. Era Katya quem tinha sempre as melhores ideias.
O mercado negro dos bifes era todas as quintas feiras  noite, nas traseiras de um camio-frigorfico que esperava os compra-
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dores na estrada para Sheremetyevo, anunciou Lyuba; pergunta por um trtaro chamado Jan, mas no o deixes aproximar-se de ti! Havia anans de Cuba numa loja atrs da rua Kropotkin, disse Olga; diz que vais da parte do Dimitri e paga o dobro do que eles pedirem.
Ao desligar, Katya descobriu que j estava farta do livro americano sobre desarmamento que Nasayan lhe tinha emprestado. Nasayan era o novo editor da seco de ensaios e outros da Outubro. Ningum gostava dele, ningum compreendia como tinha ficado com aquele cargo. Mas toda a gente notara que era ele quem ficava com a chave de uma copiadora, o que desde logo o catalogava como membro das mais negras hostes da burocracia. Katya tinha a estante no corredor, a abarrotar de livros desde o soalho ao tecto. No foi fcil encontr-lo. Aquele livro era um cavalo de Tria. Queria-o fora de casa, e com o livro ia Nasayan.
"Vai algum traduzi-lo?", perguntara-lhe Katya com um ar srio enquanto ele vagueava pelo gabinete dela, espreitando-lhe para as cartas, bisbilhotando a pilha de manuscritos que ela ainda no lera. " por isso que quer que leia?"
"Achei que talvez lhe interessasse", replicou ele. "Voc  me. E uma liberal, seja qual for o significado dessa palavra. Voc deu nas vistas por causa de Chernoby1, e dos rios, e tambm dos arrnnios. Se no o quiser levar, no leve."
Depois de descobrir finalmente o imprestvel livro, entalado entre Hugh Walpole e Thomas Hardy, Katya embrulhou-o em papel de jornal e meteu-o na saca, que pendurou logo de seguida na maaneta da porta, porque ultimamente lembrava-se e esquecia-se de tudo com a mesma facilidade.
A maaneta que ns comprmos juntos na feira da ladra!, pensou, num acesso de compaixo. Volodya, meu pobre querido, meu intolervel marido, reduzido a acalentar a sua nostalgia histrica num apartamento comunal com mais cinco divorciados mal-cheirosos como ele!
Feitos todos os telefonemas, regou apressadamente as plantas e foi acordar os gmeos. Estavam a dormir na diagonal numa cama que s dava para um. Fitou-os com enlevo, por um momento sem coragem para lhes tocar. Ps ento um sorriso, para que eles, ao acordarem, a vissem sorrir.
Durante a hora seguinte, Katya entregava-se-lhes totalmente: era assim que queria que fosse todos os dias. Fazia-lhes a kacha 1, descascava-lhes as laranjas e cantava canes meio tontas com eles, acabando com a "Marcha dos Entusiastas", a favorita dos trs, que rosnavam em unssono, de cabeas baixas, como heris da Revoluo
- sem que as crianas soubessem que a melodia pertencia a uma marcha nazi. Depois de beberem o ch, Katya fazia-lhes a merenda,
' Kacha: papas de cereais. (N. do T.)
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po branco para Sergey, po escuro para Anna, com uma almndega dentro. Depois disso, abotoava os colarinhos de Sergey, ajeitava o leno vermelho de Anna e dava-lhes um beijo, e nunca se esquecia de os pentear porque o director da escola era um pan-eslavista que pregava que a limpeza era um acto de homenagem ao Estado.
Finalmente agachou-se e abraou os gmeos, como fizera todas as segundas-feiras nas ltimas quatro semanas.
"Ento digam-me l o que  que vocs fazem se a mam no voltar a casa uma noite, se por exemplo tiver de ir a correr para uma conferncia ou de ir visitar algum doente?", perguntou Katya com um ar bem-disposto.
"Telefonamos ao pap e dizemos-lhe para vir ficar connosco", respondeu Sergey, libertando-se do abrao.
"E eu trato do tio Matvey", disse Anna. "E se o pap no estiver, o que  que fazem?" Comearam aos risinhos, Sergey porque a ideia o perturbava e Anna porque a excitava a perspectiva de uma calamidade.
"Vamos para a tia Olga!", exclamou Anna. "E depois mexemos no canrio do relgio da tia! E pomo-lo a cantar!"
"E qual  o nmero de telefone da tia? s capaz de mo cantar?" Cantaram-no os trs, perdidos de riso. Os gmeos iam ainda a rir enquanto desciam as escadas fedorentas  frente da me. As escadas serviam de ninho de amor para os adolescentes e de bar para os alcolicos e de casa de banho aparentemente para toda a gente, excepto para eles. De mos dadas, avanaram pelo parque em direco  escola. Katya no meio.
"E qual  o objectivo da tua vida, camarada ?", perguntou Katya a Sergey com uma ironia feroz, enquanto lhe apertava o colarinho uma vez mais.
"Servir o povo e o Partido com todas as minhas foras." "E?" "No deixar que o Vitaly Rogov me roube o almoo!" E foi ainda a rir que os gmeos se afastaram dela e subiram as escadas de pedra da escola. Katya acenou-lhes at eles desaparecerem.
No metro dedicou-se a observar tudo e toda a gente e os seus olhos pareciam perscrutar aquela paisagem com uma extrema clareza e como que ao longe. Reparou que os passageiros tinham todos um ar taciturno, como se ela prpria no fosse um deles; parecia, por outro lado, que todos liam jornais de Moscovo, coisa que um ano antes teria sido impensvel, pois um ano antes os jornais serviam apenas para substituir o papel higinico e vedar correntes de ar. Noutro dia qualquer talvez Katya lesse tambm um jornal durante a viagem; e se no fosse um jornal, talvez um livro ou um manuscrito da sua mesa de trabalho. Mas naquele dia, apesar dos seus esforos para se libertar daquele estpido sonho, Katya vivia demasiadas vidas ao mesmo tempo. Cozinhava sopa de peixe para o pai, como castigo da sua
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teimosia. Suportava uma lio de piano em casa da velha Tatyana Sergeyeviia, que no deixava de censurar a sua pouca aplicao. Corria pela rua, incapaz de acordar. Ou ento era a rua que corria atrs dela. Talvez por isso quase se tivesse esquecido de mudar de comboio.
Ao chegar aos escritrios, um prdio friamente moderno com a madeira lascada e o cimento hmido - que, na sua opinio, mais parecia abrigar uma piscina pblica do que uma editora estatal -, ficou surpreendida com a presena de trabalhadores martelando e serrando no hafl, e por um segundo permitiu-se a terrvel fantasia de que estavam a construir um cadafalso para a sua execuo pblica.
"A verba j  nossa", disse-lhe, ofegante, o velho Morozov, que tinha sempre uma palavra para ela. "O dinheiro foi-nos atribudo h seis anos. Finalmente agora houve um burocrata qualquer que fez o favor de assinar o despacho."
O elevador estava em reparao, como era costume. Na Rssia, pensou Katya, os elevadores e as igrejas esto sempre em reparao. Subiu as escadas rapidamente, sem saber porque ia to depressa, saudando alegremente todos os que precisavam de uma saudao alegre. Mais tarde, ao pensar na pressa com que subira as escadas, interrogou-se sobre se, inconscientemente, no teria adivinhado o toque do seu telefone. De facto, ao entrar no seu gabinete, l estava o telefone a berrar,  espera de uma mo que o acalmasse.
Pegou no auscultador e ainda ofegante respondeu com um "Da", mas era evidente que a resposta no deveria ter sido em russo, j que a primeira coisa que ouviu foi uma voz perguntando em ingls por Madame Orlova.
"Sou eu", disse, tambm em ingls. "Madame Yekaterina Orlova?" "Quem fala?", perguntou com um sorriso. "Lord Peter Winisey?" Algum idiota dos meus amigos que resolveu brincar comigo. Deve ser o marido de Lyuba outra vez. Quer sair comigo, no me larga. Mas no era. De repente sentiu a boca seca.
"Bom, claro que voc no me conhece. Chamo-me Scott Blair. Barley Scott Blair, da Abercrombie & Blair de Londres, editores, estou aqui em viagem de negcios. Ao que parece, Niki Landau.  nosso amigo comum. Niki fartou-se de insistir para que eu lhe telefonasse. Como tem passado?"
"E o senhor, como tem passado?", disse Katya, ouvindo-se a si mesma, sentindo uma nuvem de calor percorrendo-a de alto a baixo e uma dor no meio do estmago mesmo abaixo da caixa torcica. Nesse mesmo momento Nasayan entrou no gabinete, de mos nos bolsos e com a barba por fazer, que era a sua maneira de mostrar profundidade intelectual. Ao ver que ela estava a falar, curvou os ombros e
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fitou-a com uma expresso de amuo e ressentimento, desejoso de que Katya, desligasse.
"Bonjour, Katya Borisovna", disse num tom sarcstico. Mas a voz ao telefone voltava a falar, decidida a no a largar. Era uma voz forte, o que a levou a pensar que se tratava de um homem alto. Era uma voz confiante, por isso devia pertencer a um homem arrogante, um daqueles ingleses que usam fatos caros, que no tm qualquer cultura e que andam sempre com as mos atrs das costas.
"Bom, vou dizer-lhe porque  que decidi telefonar-lhe", dizia a voz
do outro lado. "Parece que o Niki lhe prometeu procurar umas edies antigas de Jane Austen com os desenhos originais.  isso, no ?" No lhe deu tempo de responder. "Acontece que eu trouxe alguns desses livros - por acaso so uma maravilha - e gostaria de saber se poderamos marcar um encontro num local que conviesse aos dois. "
Cansado da sua carranca, Nasayan ps-se a mexer nos papis que estavam sobre a secretria, como era alis seu hbito.
" muito simptico da sua parte", disse ela de boca colada ao bocal, falando o mais baixo possvel. No seu rosto no havia qualquer expresso, era um rosto sem vida, um rosto oficial. Era o rosto para Nasayan.  sua mente ningum teria acesso. S ela.
"Niki mandou-lhe tambm uma tonelada de ch Jackson's", prosseguiu a voz.
"Uma tonelada?", disse Katya. "De que est a falar?" "Para ser sincero, eu nem sabia que ainda havia ch Jackson's. Eles tinham uma loja ptima em Piccadilly, a pouca distncia do Hatchard's. Mas voltando ao que interessa, trouxe-lhe trs tipos de ch diferentes que, alis, esto mesmo aqui  minha frente."
Nesse momento a voz desapareceu. Prenderam-no, pensou ela. Ele nnca telefonou. Estou outra vez
no sonho. Meu Deus, que fao eu a seguir?
" ... Assam, Darjeeling e Orange Pekoe. Mas que raio ser um
peco'? A mim parece-me o nome de um pssaro extico."
"No sei. Suspeito que seja uma planta." "Suspeito que tem razo. Bom, mas a questo , como  que lhe vou dar isto? Vou ter consigo a algum stio? Ou ser que voc pode passar pelo* hotel para bebermos um copo e fazermos uma apresentao formal?"
Katya comeava a apreciar a prolixidade de Barley. Estava a dar-lhe tempo para se acalmar. Passou com os dedos pelo cabelo, descobrindo, para sua surpresa, que ainda o tinha em ordem.
"No me disse em que hotel estava", objectou com voz severa. Nasayan abanava a cabea em sinal de reprovao. "Calcule s!  perfeitamente ridculo, tanto tempo a falar e esque-
1 Pekoe, variedade de ch. (N. do T.)
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ci-me do hotel. Estou no Odessa, conhece? Fica ao cimo da rua dos antigos balnerios pblicos. Gosto muito deste hotel. Sempre que venho a Moscovo, procuro marcar quarto no Odessa, mas nem sempre  possvel. Durante o dia tenho o tempo muito ocupado com reunies -  sempre assim nestas viagens a correr - mas as noites neste momento esto relativamente livres, se para si estiver bem. Que tal hoje  noite? Assim no deixamos para amanh o que podemos fazer hoje. Est de acordo?"
Nasayan acendeu um dos seus imundos cigarros, embora no escritrio toda a gente soubesse que ela odiava o tabaco. Depois de o acender, suspendeu-o no ar e sorveu o fumo com os seus lbios femininos. Katya fez-lhe um trejeito de repulsa, mas ele ignorou-a.
"Perfeitamente de acordo", disse Katya no tom mais militar que lhe era possvel. "Esta noite tenho de ir a um recepo oficial nessa zona.  uma recepo em honra de uma importante delegao da Hungria", acrescentou, sem saber ao certo quem pretendia impressionar. "H muitas semanas que a estamos a preparar."
"ptimo. Maravilhoso. Sugira uma hora. Seis? Oito? Qual  a melhor hora para si?"
"A recepo  s seis horas. Talvez possa aparecer s oito e um quarto. "
"Pois fica oito e um quarto. No se esqueceu do nome, no? Scott Blair. Scott como o Antrctico, Blair como uma trompete. Sou alto e feio, tenho  volta de duzentos anos, com culos que no me deixam ver nada. Mas Niki disse-me que voc era a rplica sovitica da Vnus de Milo, de maneira que deve ser fcil reconhec-la."
"Isso  perfeitamente ridculo!", exclamou ela, rindo apesar de tudo o que sentia.
"Ento eu espero por si no hall do hotel. Mas tambm lhe podia dar o nmero de telefone do meu quarto para o caso de haver qualquer desencontro. Tem um lpis  mo?"
Quando desligou, foi a exploso. No podia mais conter os sentimentos contraditrios que se acumulavam desde que Nasayan entrara. Olhou-o com uns olhos chamejantes.
"Grigory Tigranovich. Seja qual for a sua posio aqui, no tem o direito de andar a rondar o meu gabinete, de andar a vasculhar na minha correspondncia, nem de ouvir as minhas conversas telefnicas. Tem aqui o seu livro, leve-o. Se tem alguma coisa a dizer-me, diga-mo mais tarde."
Depois pegou numa pilha de folhas, uma traduo de um livro sobre as realizaes das cooperativas agrcolas cubanas. Com as mos frias, comeou a passar as folhas como se estivesse a cont-las. S uma hora depois telefonou a Nasayan.
"Desculpe a minha irritao", disse ela. "Um grande amigo meu morreu este fim-de-semana. No estava em mim."
 hora do almoo, j tinha mudado de planos. Morozov podia esperar pelos bilhetes, o gerente de loja pelos sabonetes, Olga Stanis-
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lavsky pelo tecido. Andou a p um bom bocado, apanhou depois um autocarro, e no um txi. Saiu do autocarro, de novo caminhou, passando ptios e mais ptios, at que encontrou o forte arruinado de que andava  procura, bem como a lea em frente. " a que me pode contactar quando precisar de mim", tinha ele dito. "O porteiro  meu amigo. No saber sequer quem fez o sinal. "
Tem de acreditar no que est a fazer, lembrou-se Katya. Acredito. Se acredito. Levav@ o postal ilustrado na mo, um Rembrandt do Hermitage de Leninegrado. "Amor para todos vs", dizia a mensagem, assinada "Alina", com um corao por baixo.
Tinha encontrado a rua. Parou. Era a rua do pesadelo. Tocou  campainha, trs vezes, depois meteu o postal por debaixo da porta.
Uma manh de Moscovo perfeita, cheia de luz e vida, um ar lavado, um dia capaz de apagar todos os pecados. Feita a chamada, Barley dirigiu-se para a rua. Chegado ao passeio, que o sol j aquecera, descontraiu punhos e ombros, olhou  sua volta e decidiu deixar vaguear a sua mente, deixar que a cidade afogasse os seus medos com todo aquele emaranhado de cheiros e vozes. O fedor da gasolina russa, do tabaco, dos perfumes baratos e das guas do rio - eu te sado, maravilhoso fedor! Daqui a dois dias j no dou por ti. As cargas de cavalaria espordicas dos autocarros - eu vos sado, magnficas arremetidas! Os camies castanhos, com o seu rudo de arrotos, ribombando sobre os buracos das ruas, ao despique uns com os outros. O lgubre vazio que ficava entre cada leva de camies. As lmousines com as janelas de vidros esfumados, os prdios todos iguais, decadentes ants do tempo - ser um bloco de escritrios, um quartel ou uma escola? Rapazes de tez plida fumando a esta ou quela porta, esperando. Motoristas lendo jornais, encostados aos carros nos parques de estacionamento, esperando. O grupo silencioso de homens solenes, de chapu todos, de olhos fixos numa porta fechada, esperando.
Porque  que isto sempre me atraiu?, perguntou para si mesmo, contemplando a sua vida no pretrito, o que nele era um hbito recente. Porque voltei sempre a esta terra? Sentia-se exultante, radiante, no podia deixar de se sentir assim. No estava habituado ao medo.
Era porque eles sabiam enfrentar aquela vida, decidiu. Porque aguentavam a dureza da vida melhor do que ns. Porque amavam a anarquia e temiam o caos. Por causa da tenso que sentia existir entre esses dois sentimentos.
Porque Deus sempre encontrou desculpas para no os visitar. Por causa da sua ignorncia universal e do fulgor que dela irrompe. Por causa do seu sentido de humor, to bom como o nosso e melhor.
Porque eles so a ltima grande fronteira num mundo excessiva-
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mente descoberto. Porque eles desejam tanto ser como ns e quase do nada comeam.
Por causa do corao infindo que bate nos infindos campos de batalha. Porque o campo de batalha  o meu prprio campo de batalha.
Talvez s oito e um quarto, dissera ela. Que ouvira ele naquela voz? Proteco? Mas proteco em relao a quem? A ela prpria? A ele? A mim? Na nossa profisso, os correios so a mensagem.
A rua, o mundo, olhar a rua, o mundo, disse Barley para si mesmo. S aqui na rua posso, devo estar.
Do metro saam, com passos rpidos e decididos, raparigas com saias de algodo e rapazes com bluses de ganga, a caminho do trabalho ou da escola, de expresses taciturnas que, a uma palavra, se desfaziam em risos. Ao darem pelo estrangeiro, estudavam-no com olhares breves e frios - os culos redondos com lentes muito grossas, os sapatos feitos  mo j bastante gastos, aquele fato imperialista. Pelo menos em Moscovo, Barley Blair observava a etiqueta burguesa no vestir.
Juntando-se  multido deixou que ela o conduzisse, pouco preocupado com o caminho que seguia. Em contraste com a sua disposio decididamente exuberante, as filas para comprar comida tinham um ar triste e irrequieto. Os heris do trabalho e veteranos de guerra, vestidos com severidade, o peito cheio de medalhas retinindo ao sol, chegariam decerto atrasados, fossem para onde fossem. Mesmo a sua indolncia parecia ter um tom de contestao. Na nova atmosfera que se vivia, no fazer nada era por si s um acto de oposio. Porque se no fizermos nada, no mudamos nada. E no mudando nada, agarramo-nos quilo que entendemos, ainda que o que entendamos sejam as grades do nosso crcere.
Talvez s oito e um quarto. Ao chegar ao largo rio, Barley voltou ao ritmo de passeio. Do outro lado, as cpulas do Kremlin, dignas de contos de fadas, erguiam-se para um cu sem nuvens. Uma Jerusalm com a lngua arrancada, pensou. Tantas torres e quase nenhum sino. Tantas igrejas e no se ouve uma orao.
Ao ouvir uma voz mesmo ao seu lado, virou-se subitamente e descobriu um velho casal, trajando a sua melhor roupa, que queria saber o caminho para um stio qualquer. Mas Barley, o da memria perfeita, poucas palavras russas conhecia. Era uma msica que ouvira j muitas vezes, mas cujos mistrios no conseguira ainda penetrar.
Riu-se e ps um ar de desculpa. "Desculpe, meu amigo, mas no falo russo. Sou uma hiena imperialista. Ingls, calcule!"
O velho agarrou-lhe o pulso em sinal de amizade. Em todas as cidades estrangeiras que j visitara, era costume ser abordado por naturais que lhe perguntavam o caminho para stios
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que no conhecia, em lnguas que no compreendia. S em Moscovo lhe agradeciam a ignorncia.
Comeou ento a fazer o caminho de volta, parando frente a montras de vidros sujos, simulando examinar o que elas ofereciam ao olhar dos transeuntes. Bonecas de madeira pintadas. Para quem? Latas de fruta cheias de p, ou seriam conservas de peixe? Pacotes amolgados pendurados de uma corda vermelha, um mistrio o contedo, talvez pecos. Frascos com amostras mdicas sortidas, iluminados por lmpadas de dez watts. Estava de novo perto do hotel. Uma alde com olhos de bbeda abordou-o, propondo-lhe um ramalhete de tlipas agonizantes, embrulhadas em papel de jornal.
" tremendamente simptico da sua parte", exclamou e, vasculhando nos bolsos, pescou uma nota de um rublo.
Um Lada verde encontrava-se estacionado frente  entrada do hotel, com o radiador esmagado. Um carto no pra-brisa tinha as iniciais VAAP, escritas  mo. O motorista, debruado sobre o cap, retirava os limpadores, no fossem roub-los.
"Scott Blair?", perguntou-lhe Barley. "Anda  minha procura?"
O motorista no lhe prestou a mnima ateno, continuando empenhado no seu trabalho. "Blair?", disse Barley. "Scott?"
"So para mim, querido?", perguntou-lhe Wicklow, atrs de si. "Est a portar-se bem", acrescentou calmamente. "Nada a apontar. "
Wicklow proteg-lo-, tinha dito Ned. Wicklow ser o primeiro a saber se algum o segue. Mas haver segundos?, perguntava-se Barley. Na noite anterior, logo depois de chegarem ao hotel, Wicklow tinha desaparecido e s voltara depois da meia-noite. Barley, antes de ir para a cama, assomou  janela e viu-o na rua a falar com dois jovens de jeans.
Entraram para o carro. Barley atirou as tlipas para a prateleira de trs. Wicklow sentou-se no banco da frente, e, num russo impecvel, desatou numa alegre galhofa com o motorista, que no parava de rir. Wicklow ria tambm.
"No me quer contar a anedota?",- perguntou Barley. Wicklow no se fez rogado. "Perguntei-lhe se ele gostaria de conduzir a Rainha quando ela vier c para a visita de estado.  que na Rssia h um ditado que diz, se roubares, rouba um milho, e se fomicares, fornica uma rainha."
Barley baixou a janela e com os dedos tocou uma melodia no peitoril. A vida era uma anedota at s talvez-oito-e-uni-quarto.
"Barley! Bem-vindo  Barbria, amigo. Por amor de Deus, homem, no me cumprimente aqui na entrada, j temos problemas que cheguem! Mas voc est com um aspecto ptimo", queixou-se com algum alarme Alik Zapadny, quando tiveram tempo para se examinarem um ao outro. "Porque  que voc no tem sinais de ressaca,
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Barley? Est apaixonado? Voltou a divorciar-se? O que  que voc tem andado a tramar que precise de confessar-me?"
O rosto cansado de Zapadny examinava-o com uma inteligncia desesperada, as sombras da recluso estampadas para sempre nas suas faces encovadas. Quando Barley o conheceu, era Zapadny um tradutor duvidoso que cara em desgraa e tinha de trabalhar sob pseudnimo. Agora era um duvidoso heri da reconstruo, com uma camisa branca e um fato preto demasiado grandes para o seu fsico.
"Eu ouvi a Voz, Alik", explicou Barley, num acesso afectuoso enquanto lhe entregava uma pilha de nmeros antigos do The Times embrulhados em papel castanho. "Vou para a cama s dez todas as noites, com um bom livro. Apresento-lhe Len Wicklow, o nosso especialista das coisas russas. Sabe mais acerca de si do que voce mesmo, no  verdade, Leonard Carl?"
"Bom, graas a Deus que h algum que sabe mais de mim do que eu mesmo!", protestou Zapadny, tendo o cuidado de no desembrulhar a prenda. "Estamos a ficar muito inseguros, agora que o nosso grande mistrio russo comea a ser desvendado em pblico. A propsito, Mr. Wicklow, sabe muito acerca do nosso novo patro? Ouviu falar, por exemplo, da forma como ele resolveu reeducar os nossos trabalhadores? Pois. Acontece que ele tinha uma viso muito potica dos nossos cem milhes de trabalhadores subeducados que desejariam promover a sua cultura durante os tempos livres. Queria-lhes vender uma quantidade impressionante de ttulos, que iam
desde o ensino do Grego  trigonometria, passando por conselhos bsicos sobre a lida da casa. Tivemos de lhe explicar que o homem da rua sovitico se considera uma criatura finita e que, nos seus tempos livres, se dedica  bebedeira. Sabe o que  que acabmos por lhe comprar para ele no ficar triste? Um livro sobre golfe! Voc no faz ideia da quantidade de valorosos cidados soviticos que se sentem agora fasinados pelo vosso golfe capitalista." E  socapa, uma piada ainda perigosa - "No que haja muitos capitalistas por aqui. Ali, no, de modo nenhum."
Eram dez, sentados a uma mesa amarela, sob um cone de Lenine feito com madeira compensada, Zapadny falava, os outros ouviam e fumavam. Nenhum deles, ao que Barley sabia, tinha competncia para assinar um contrato ou aprovar um negcio.
"Mas vamos l ver, Barley, que disparate  esse que voc anda para a a espalhar de que veio c para comprar livros soviticos?", perguntou Zapadny em jeito de troca de galhardetes, erguendo as sobrancelhas arqueadas e juntando as pontas dos dedos  maneira de Sherlock Holmes. "Vocs, britnicos, nunca compram os nossos livros. Em contrapartida, fazem-nos comprar os vossos. Alm disso, voc est falido, pelo menos  o que dizem os seus amigos de Londres. A A. & B. vive do ar e do whisky escocs,  o que eles dizem. Pessoalmente acho uma dieta excelente. Mas por que razo veio? Em
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minha opinio, o que voc quis foi um pretexto para nos visitar outra vez. "
O tempo passava. A mesa amarela flutuava sob os raios de sol. Uma nuvem de fumo de cigarro flutuava sobre a mesa. Pela cabea de Barley flutuavam fotografias de Katya a preto e branco. O Diabo  a capa, o disfarce de qualquer mulher. Beberam ch em belas chvenas de Leninegrado. Zapadny formulava os avisos do costume contra os negcios directos com os editores soviticos, seleccionando Wicklow como audincia: a velha guerra entre a VAAP e o resto do mundo continuava bem acesa. Dois homens plidos aproximaram-se para ouvir e logo se foram embora. Wicklow, entretanto, ganhava simpatias distribuindo Gauloises azuis.
"Tivmos uma injeco de capital, Alik", disse Barley, desatento, longe dali. "Os tempos mudaram. A Rssia hoje  o que est a dar. Basta-me dizer aos rapazes do dinheiro que estou a fazer um catlogo de autores russos e desatam todos a correr atrs de mim, tanto quando podem com aquelas peminhas gordas e pequeninas que eles costumam ter. "
"Mas, Barley, essesrapazes, como voc lhe chama, podem transformar-se em homens num instante", avisou Zapadny, o grande apreciador de sofismas, com um riso fresco e dcil. "Sobretudo quando esto a pensar no reembolso, quer-me parecer."
"A coisa  como eu descrevi no meu telex, Alik. Talvez no tivesse tido tempo de o ler", disse Barley, mostrando alguma severidade. "Se tudo correr como planemos, a A. & B. lanar ainda este ano uma coleco novinha em folha inteiramente consagrada s coisas russas. Fico, no-fico, poesia, literatura juvenil, cincias. Temos uma coleco nova de medicina popular, tudo em livro de bolso. Os temas viajam, bem como as reputaes dos autores. Gostaramos de contar com o contributo de mdicos e cientistas soviticos. Claro que no queremos livros sobre a criao de ovelhas na Monglia Exterior ou viveiros de peixe no Crculo Polar rctico, mas se vocs quiserem sugerir assuntos interessantes c estamos ns para vos ouvir. Anun-
ciaremos o nosso catlogo na prxima feira do livro de Moscovo e, se as coisas correrem bem, publicaremos os nossos primeiros seis ttulos na prxima Primavera."
"Desculpe, Barley, mas diga-me uma coisa, vocs tm actualmente peso no mercado ou esto  espera da interveno divina como sempre aconteceu?", perguntou Zapadny com a sua aparatosa delicadeza.
Resistindo  tentao de dizer a Zapadny que tivesse mais cuidado com os seus modos, Barley porfiou. "Estamos a negociar um contrato de distribuio com vrios editores importantes e em breve anunciaremos essa ideia. Exceptuando a fico. Para a fico, usaremos apenas a nossa extensa rede", disse, incapaz de se lembrar por que razo tinham negociado contrato to bizarro ou mesmo se o tinham negociado.
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"A fico, sir, continua a ser a nau almirante da frota da A. & B.", explicou devotadamente Wicklow, evitando mais apuros a Barley.
"A fico devia ser sempre a nau almirante de todas as frotas", corrigiu Zapadny. "Diria mesmo que o romance  a mais grandiosa de todas as maratonas. Claro que  uma opinio estritamente pessoal.  a forma de arte mais elevada, o romance. Mais elevada que a poesia, mais elevada que o conto. Mas agradeo-lhes que no me citem."
"Bom, sir, digamos que para ns a fico  a super-potncia literria", comentou Wicklow, insinuante.
Sentindo-se especialmente gratificado, Zapadny virou-se para Barley. "No que toca  fico, gostaramos, neste caso especial, de fornecer o nosso prprio tradutor e de cobrar cinco por cento extra de direitos pela traduo", disse.
"Isso no  problema", disse Barley cordialmente, como que anestesiado. "Actualmente o oramento da A. & B. comporta isso perfeitamente."
Mas para grande surpresa de Barley, Wicklow interveio bruscamente. "Desculpe, sir, mas h de facto um problema:  que isso significa o dobro dos direitos. No me prece que possamos aguentar tal proposta. No deve ter prestado ateno ao que Mr. Zapadny disse. "
"Ah, sim, claro, tem toda a razo", disse Barley, endireitando-se muito na cadeira. "Claro, como  que ns podamos pagar mais cinco por cento?"
Sentindo-se como um conspirador prestes a cometer mais uma falcatrua, Barley tirou uma pasta da sua mala e espalhou depois meia dzia de prospectos lustrosos na parte da mesa onde o sol batia. "As nossas ligaes americanas encontram-se descritas na pgina dois", anunciou. "A Potomac Boston participa connosco no projecto, a A. & B. paga todos os direitos pela publicao em ingls de qualquer obra sovitica, e vende-os  Potomac para a publicao na Amrica do Norte. Eles tm uma companhia gmea em Toronto, portanto venderemos tambm no Canad. Certo, Wickers?"
"Claro, sir." Mas como  que o Wicklow conseguiu aprender esta droga toda to depressa?, pensou Barley nesse momento.
Zapadny estava ainda a estudar o prospecto, virando lentamente as pginas novinhas em folha. "Foi voc que fez esta merda, Barley?", perguntou cortesmente Zapadny.
"Foi a Potornac", disse Barley. "Mas o rio Potomac fica to longe da cidade de Boston", objectou Zapadny, exibindo os seus conhecimentos de geografia americana para os poucos que os partilham. "A menos que o tenham mudado de stio recentemente, o rio Potomac fica em Washington. Pergunto a mim mesmo que atraco mtua poder haver entre a cidade de Boston e esse rio? Trata-se de uma campanhia antiga, Barley, ou de uma nova?"
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" nova neste campo. Mas antiga nos negcios. So comerciantes, tiveram sede em Washington, tm-na agora em Boston.'Gostam de arriscar capital. Tm uma pasta diversificada. Produo de filmes, parques de estacionamento, slot machines, caffigrIsI e cocana. O costume, enfim. A edio  apenas uma das suas ocupaoes."
Mas enquanto os outros desatavam a rir, era Ned que Barley ouvia. "Parabns, Barley. Bob encontrou um ricao de Boston que est disposto a ser seu parceiro. Tudo o que voc tem a fazer  gastar o dinheiro dele."
E Bob, com os seus ps de ferro de engomar e o casaco de tweed, sorriu-lhe com um sorriso de comprador.
Onze e meia. Oito horas e quarenta e cinco minutos at s talvez-oito-e-um-quarto.
"O motorista quer saber como  a Rainha, para no ter nenhuma surpresa quando ela chegar", gritava excitadamente Wicklow para o banco de trs do carro. "Est a ficar interessadssimo. Quer saber se ela aceita subornos. E se manda executar pessoas por pequenas ofensas. E que tal  viver num pas dirigido por duas mulheres de ferro. "
"Diga-lhe que  esgotante mas que ns estamos  altura da situao", disse Barley com um bocejo enorme.
Depois de se refrescar com um gole de whisky que trazia no frasco de bolso, encostou a cabea e ao acordar viu-se seguindo Wicklow no corredor de uma priso. S que em vez dos gritos dos presos, o que ouvia era o assobio de uma chaleira e o clique de um baco ecoando na escurido. Um momento depois, Wicklow e Barley encontravam-se nos escritrios de uma companhia de caminhos-de-ferro britnica, safra de 1935. Lmpadas salpicadas de lndeas de mosca e ventoinhas arruinadas danam penduradas nos caibros de ferro fundido. Amazonas com lenos na cabea martelando em mquinas de escrever antiquadas com alfabeto cirlico, enormes como fomos. As prateleiras cheias de p esto a abarrotar de livros-razo. Pilhas de caixas de sapatos cheias de folhetos brilhantes e lustrosos erguem-se desde o soalho at aos peitoris das janelas.
"Barley! Jesus! Bem-vindo a Prometeu Libertado! Dizem-me que finalmente conseguiu algum dinheiro. Quem lho deu?", grita uma figura de meia-idade com uniforme de guerra  Fidel Castro, que corre para eles no meio de toda aquela confuso. "Negociamos directamente, h? Estamo-nos nas tintas para aquelas bestas da VAAP, certo?"
"Yuri, que bom encontr-lo aqui! Apresento-lhe Len Wicklow, o nosso editor do catlogo russo."
"Voc  um espio?"
1 Prostitutas que marcam encontros por telefone. (N. do T.)
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"S nos tempos livres, sr." "Jesus!  um tipo porreiro! Faz-me lembrar o meu irmo mais novo."
Esto na Madison Avenue. Venezianas, grficos nas paredes, poltronas, Yuri  gordo, exuberante e judeu. Barley trouxe-lhe uma garrafa de Black Label e collants para a sua nova mulher, que  uma verdadeira beldade. Yuri tira a tampa da garrafa e insiste em deitar uns golinhos nas chvenas de ch. Pairam no ter russo. Falam de Bulgakov, Platonov, Akhmatova. Solzhenitsyn vir a ser permitido? E Brodsky? Falam de uma srie de escritores britnicos contemporneos, todos eles menores, que arbitrariamente dispuseram de favores oficiais e que consequentemente se tornaram famosos na Rssia. Barley no conhece alguns deles, abomina os outros. Gargalhadas, brindes, notcias dos amigos ingleses, morte aos filhos da me da VAAP. A Rssia est a mudar, no sei se o amigo Barley j se deu conta. Viu aquele artigo no Noticas de Moscovo de quinta-feira acerca daqueles fanticos neo-fascistas de Pamyat?  uma gente de um nacionalismo exacerbado, anti-semita, so contra tudo excepto contra eles mesmos. E aquele artigo no Ogonyok sobre Sigmund Freud? E a defesa que a Novy Mir fez do Nabokov? Editores, desenhadores, tradutores, proliferam em quantidades espantosas, como  habitual, mas quanto a Katyas, Katyas,  que no h. Est tudo bbedo, mesmo os que declinaram o convite ao lcool. H algum que, apresenta um grande escritor, de seu nome Misha, que se senta num lugar onde toda a audincia o pode ver.
"Misha ainda no esteve na priso", explica Yuri num tom escusatrio, e toda a gente desata a rir. "Mas se ele tiver sorte, pode ser que o prendam antes que seja tarde, que  para o publicarem no Ocidente!"
Falam das ltimas obras-primas da fico sovitica. Yuri escolheu no mais que oito da sua prpria lista - todas elas best-sellers garantidos, Barley. Publique-as que logo ter meios para abrir uma conta num banco suo para mim. Uma caa a sacas de compras de plstico antes de Wicklow se apoderar de cpias a papel carbono de oito manuscritos impublicveis, porque este  um mundo em que a fotocopiadora e a mquina de escrever elctrica ainda so instrumentos de sedio e, como tal, proibidos.
Falam de teatro e do Afeganisto. Em breve nos encontraremos em Londres!, grita Yuri, como um jogador louco que resolveu apostar tudo. "Mando-lhe o meu filho, est bem? E voc manda-me o seu? Oia, trocamos refns, que assim eles j no se bombardeiam uns aos outros!"
Todos se calam enquanto Barley fala, todos se calam quando Misha fala. Wicklow traduz, enquanto Yuri e trs outros criticam a traduo de Wicklow. Msha critica as crticas. As coisas comeam a correr mal.
Algum pergunta porque  que a Gr-Bretanha continua a ser go-
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vernada por um partido fascista como o Conservador. Porque  que o proletariado ainda no correu com esses filhos da me? Barley oferece-lhes uma resposta muito pouco original, diz que a democracia  o pior dos sistemas excepto para os outros. Ningum acha graa. Talvez j tenham ouvido a piada, talvez no gostem dela. O melhor  aproveitar enquanto eles ainda esto sob o efeito do whsky e sair rapidamente. Sair antes que os sorrisos se esbatam por completo. Como  que os ingleses podem pregar os direitos humanos, pergunta algum com ar de poucos amigos, se escravizam os escoceses e os irlandeses? Porque  que vocs apoiam o nojento governo da frica do Sul?, grita uma loura de noventa anos, de vestido de baile. Eu no apoio, diz Barley, acreditem que no apoio.
"Oia", diz Yuri  porta. "Afaste-se do sacaria do Zapadny, certo? No digo que ele seja do KGB. Mas acho que ele precisou de uns grandes amigos para o porem de novo em circulao. Voc  um tipo porreiro. Percebe onde quero chegar?"
Nesse momento j se tinham abraado uma srie de vezes. "Yuri", diz Barley. "A minha velha me ensinou-me que vocs todos eram do KGB."
"Eu tambm?" "Voc especialmente. Disse-me ela que voc era o pior de todos. "
"Adoro-o. No se esquea, mande-me o seu filho. Como  que ele se chama?"
Uma e meia e esto atrasados uma hora para a prxima caminhada na acidentada estrada que leva at um stio chamado talvez-oito-e-um-quarto. Madeiras escuras, uma comida esplndida, empregados atenciosos, a atmosfera de um pavilho de caa senhorial. Esto sentados  longa mesa sob a sacada na Unio dos Escritores, Alik Zapadny preside de novo. Vrios escritores jovens e prometedores j nos sessenta anos vagueiam junto  mesa, ouvem e desaparecem, levando consigo os seus grandes e profundos pensamentos. Zapadny aponta aqueles que foram recentemente libertados da priso e os que, espera eW, os ho-de substituir em breve. Burocratas literrios puxam de cadeiras e exercitam o seu ingls. Wicklow  o intrprete, Barley brilha,  do sumo de frutas e dos resduos de Black Label. O mundo vai melhorar, assegura Barley e Zapadny, como se fosse um especialista na matria chamada mundo.
Ousa citar Zinoviev. "Quando  que tudo acabar?" Quando as pessoas deixarem de fazer bicha para verem o tmulo?" - uma referncia ao mausolu de Lenine.
O aplauso, desta feita, no  to ensurdecedor. s duas da tarde, em conformidade com as novas leis do consumo de bebidas alcolicas, e as duas da tarde neste caso so a hora H, o empregado traz uma garrafa de vinho e Zapadny, em honra de Barley, extrai uma garrafa de pepper-vodka da sua pasta carunchosa.
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"O Yuri disse-lhe que eu era do KGB?", pergunta com um ar pesaroso.
"Claro que no", replica vigorosamente Barley. "No se considere caso nico. Ele diz isso a todos os ocidentais. Na realidade, o Yuri s vezes chateia-me um bocado.  um tipo simptico mas toda a gente sabe que como editor no presta. Por isso, como  que um judeu como ele consegue chegar  posio que tem? o filho mais novo dele foi baptizado em Zagorsk a semana passada. Como  que explica uma coisa destas?"
"Esse  um problema que no me diz respeito, Alik. Eu vivo e deixo viver. Nem mais, nem menos." E  parte: "Wickers, tire-me daqui, estou a ficar sbrio."
Pelas seis, depois de mais duas reunies extraordinariamente eloquentes, e depois de ter miraculosamente conseguido declinar meia dzia de convites para essa noite, Barley regressa ao quarto do hotel e luta com o chuveiro para ver se recobra a sobriedade, enquanto Wicklow lhe grita umas quantas frases  porta todas elas sobre questes editoriais, em inteno dos microfones. @ que Wicklow tem ordens de Ned para ficar com Barley at ao pano cair, no v o homem ficar nervoso ou enganar-se no texto.
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O Hotel Odessa, nesse terceiro ano da Grande Reconstruo Sovitica, no era propriamente a prola do tosco comrcio turstico moscovita, embora tambm no fosse a mais vulgar das suas pedras. Era um hotel dilapidado, vtima de desmazelos vrios, selectivo nos seus favores. Dependendo do rublo mais do que do dlar, faltavam-lhe certos requintes, como os bares abertos a moedas estrangeiras ou os grupos de americanos do Minnesota, saturados de viagens, chorando pelas bagagens desaparecidas. Encontrava-se to mal iluminado que os candeeiros de lato e os empregados e a sala de jantar instalada numa galeria, evocavam mais um passado terrvel j muito perto do seu colapso do que a fnix socialista renascendo das cinzas. E quando saamos de um elevador que no parava de tremer durante a breve viagem, e enfrentvamos corajosamente a carranca da porteira do piso, acocorada no seu cubculo e rodeada por todos os lados de chaves de quartos enegrecidas e telefones quase musguentos de to hmidos, ento  que no podamos deixar de ter a sensao de havermos regressado, por um momento, s mais vis instituies da nossa juventude.
Mas nessa altura a Reconstruo no era ainda um medium visual. Encontrava-se ainda na fase audio.
No entanto, para quem achasse tal pormenor importante, o Odessa, nesses tempos, era um hotel do qual se podia dizer que tinha alma, que tinha um esprito s seu, e felizmente que ainda o tem. As senhoras da recepo, sempre atenciosas, escondem coraes de ouro por detrs de uns olhos normalmente duros; dos porteiros, diz-se que fazem vista grossa quando passamos e no nos pedem o passe do hotel cinco vezes ao dia. O chefe-de-mesa, depois de adequadamente encorajado, conduz-nos simpaticamente ao nosso recanto e, em tro-
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ca, pede apenas um sorriso corts. E ao princpio da noite, entre as seis e as nove, o hall do hotel transforma-se num cortejo improvisado das cem naes do Imprio. Administradores elegantemente vestidos vindos de Tashkent, professores da Estnia, de pele e cabelos cor-de-linho, funcionrios do Partido acabados de chegar da Turquernnia e da Gergia, todos eles de olhar chamejante, directores de fbricas de Kiev, engenheiros navais de Archangel - isto para no falar nos cubanos, afegos, polacos, romenos e do peloto habitual de alemes de Leste, deselegantemente arrogantes -, toda essa gente sai em corropios dos autocarros do aeroporto e da luz da rua transplanta-se para a esmagadora escurido do hafi, a fim de prestar a sua homenagem a Roma e arrastar por fases a bagagem at  recepo.
Nessa noite, tambm Barley, ele prprio um relutante emissrio de um outro imprio, encontrou o seu lugar no meio daquela multido de emissrios.
A primeira coisa que fez foi sentar-se, mas logo uma senhora de vetusta idade lhe tocou no ombro, pedindo-lhe o lugar. Depois, em passos flutuantes, dirigiu-se para um recanto perto do elevador, onde se manteve at que uma muralha de malas de carto e embrulhos de papel castanho quase o emparedava. Finalmente, retirou-se para
* proteco de um pilar central e a ficou, pedindo desculpa
* toda a gente, fitando os movimentos da porta de vidro, afastando-se desajeitadamente das pessoas que passavam, mas interpondo-se logo de seguida no seu caminho, enquanto brandia a Emma de Jane Austen  altura do peito e, na outra mo, um medonho saco de plstico do aeroporto de Heathrow.
S Katya o salvaria e Katya no demorou. No havia naquele encontro nada de secreto, no havia no comportamento de ambos nenhuma dissimulao. Olharam um para o outro ao mesmo tempo, enquanto Katya rompia entre o fluxo que entrava ou que saa. Barley ergueu num repente um brao, acenando com Jane Austen.
"Ol, sou eu, Blair! Ainda bem que chegou!", gritou. Katya desapareceu por um momento e logo reapareceu vitoriosa. Barley no sabia se ela o tinha ouvido, mas viu-a sorrir e erguer os olhos para o Cu, como num filme mudo, pedindo desculpa pelo seu atraso. Katya afastou uma madeixa de cabelo negro e Barley pde ver os anis de casamento e noivado de que Landau falara.
"No imagina a dificuldade que tive para me despachar daquilo", gesticulava ela no meio das cabeas. Ou talvez os seus gestos significassem: "Foi o cabo dos trabalhos para arranjar um txi."
"No faz mal", gesticulava Barley. Nesse momento Katya virou-lhe as costas e, de sobrolho carregado, ps-se a vasculhar na malinha de mo,  procura de um qualquer carto de identidade para mostrar ao polcia  paisana, cuja agradvel tarefa, nessa noite, consistia em vigiar todas as mulheres atraentes que entrassem no hotel. Katya mostrou-lhe um carto ver-
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melho. Barley pde concluir que se tratava do carto da Unio dos Escritores.
Porm, tambm Barley foi perturbado pelas perguntas de um palestiniano de elevada estatura, a quem teve de explicar, no seu sofrvel francs, que de facto no era membro da Associao Para a Paz, e que tambm no era o gerente do hotel, e que duvidava mesmo que houvesse algum gerente.
Wicklow, que observava estas manobras a meio das escadas, diria mais tarde que nunca vira um encontro pblico to bem encenado.
Como actores, Barley e Katya estavam vestidos para peas diferentes: Katya parecia uma personagem de um drama srio, com o seu vestido azul e a sua gola de renda antiga que tanto tinham atrado Landau; e Barley estava equipado para uma baixa-comdia inglesa, com um fato escuro s riscas brancas, um fato que pertencera ao seu pai e que lhe estava curto nas mangas, e um par de botas de camura da Ducker's de Oxford, j muito gastas, que decerto fariam as delcias de um coleccionador de velharias.
Quando finalmente se encontraram, a surpresa foi mtua. Afinal eram ainda uns estranhos, menos prximos um do outro do que das foras que ali os juntavam. Resistindo ao impulso de lhe dar um beijinho formal no rosto, Barley atentou espantado nos olhos dela, que eram no s muito escuros e ao mesmo tempo cheios de luminosidade, mas tambm dotados de pestanas muito densas, dando quase a impresso de serem postias.
E como Barley, pelo seu lado, apresentava aquela expresso indefinivelmente pateta que certos homens ingleses pem na presena de qualquer bela mulher, Katya teve razes para suspeitar que os seus pressentimentos estavam certos e que, de facto, estava perante um indivduo arrogante.
Entretanto j estavam sufientemente prximos para poderem sentir o calor dos corpos um do outro e para Barley poder aperceber-se do cheiro da maquilhagem dela. A Babel de lnguas estrangeiras continuava a pairar  sua volta.
"Voc  Mr. Barley, creio", disse-lhe ela ofegante, passando-lhe com a mo pelo antebrao, como se procurasse assegurar-se de que aquele homem era real.
"Sim, claro, sou eu mesmo  ' ol, muito bem, e voc  Katya Orlova, a amiga do Niki, no  verdade? Ainda bem que conseguiu vir. Chegou mesmo a tempo. Como tem passado?".
As fotografias no inentern mas tambm no dizem a verdade, pensava Barley enquanto observava o peito dela subindo e descendo com a respirao. As fotografias no captam a paixo de uma mulher que parece ter acabado de testemunhar um milagre e que nos escolhe a ns como seu primeiiro confidente.
A multido, que no parava de cirandar pelo hafl, f-lo voltar  realidade. No meio daquele tumulto, nenhum casal, por mais resis-
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tncia que oferecesse, poderia dedicar muito tempo a uma troca serena de galanteios.
"Olhe, Katya", disse ele, como se de repente tivesse tido uma ideia brilhante. "Convido-a para um bolo. O Niki disse que voc merecia todos os mimos. Conheceram-se na feira, no foi? Foi o que ele me disse. Ah, o Niki. Um tipo incrvel. Um corao de ouro", prosseguiu jovialmente, conduzindo-a pela escada, na direco de uma porta que dizia "Bufete." " um bom tipo. Um bocado desagrdvel s vezes, mas quem o no ?"
"Ah, Mr. Landau  um homem muito bom", comentou ela, falando, tal como Barley, para uma audincia indefinida, embora houvesse nas suas palavras um tom especialmente persuasivo.
"E digno de confiana", considerou aprovativamente Barley ao chegarem ao patamar do primeiro piso. Fosse pelo que fosse, tambm Barley estava agora ofegante. "Se pedirmos ao Niki que faa qualquer coisa,  certo e sabido que ele a faz.  sua maneira,  verdade, mas faz. Faz e guarda os seus pensamentos para si mesmo. Sempre achei que um bom amigo  isso que faz. No acha?"
"Eu diria que sem discrio no pode haver amizade", replicou ela como se citasse um texto da celebrao do casamento. "A verdadeira amizade tem de basear-se na confiana mtua."
E Barley, embora aceitando afectuosamente a profundidade daqueles conceitos, no pde deixar de reconhecer a similaridade que havia entre as cadncias daquele discurso e o tom com que Goethe lhe falara.
Numa rea protegida por cortinas situava-se um balco de nove metros de comprido onde o nico alimento  vista eram uns biscoitos espalhados sobre uma bandeja. Atrs do balco, trs mulheres corpulentas, vestidas com uniformes brancos e uma espcie de capacetes de plstico transparente, montavam guarda a um samovar enorme enquanto travavam renhida discusso.
"Mas o velho Niki,  sua maneira, claro,  tambm um bom conhecedor de livros", observou Barley, esticando o tema da conversa enquanto se sentavam nos bancos frente  cerca de corda do balco. "Bte intelectuelle, como dizem os franceses. Queramos ch, por favor. ptimo."
As mulheres continuaram a arengar entre si. Katya fitava-as sem qualquer expresso no rosto. De sbito, para grande surpresa de Barley, tirou da mala o passe vermelho e rosnou para as mulheres -
rosnar era a palavra exacta -, do que resultou que uma delas se afastou das companheiras o tempo suficiente para poder arrancar duas chvenas de uma grade, instalando-as depois em dois pires, mas to violentamente que mais parecia estar a carregar uma velha espingarda. Furiosa ainda, encheu de gua uma chaleira enorme. E tendo desenterrado dum bolso, com novos sinais de raiva, uma caixa de fsforos acabada de estrear, abriu o gs e atirou com a chaleira para cima do bico, aps o que retomou apressadamente a discusso.
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"Que tal um biscoito?", sugeriu Barley. "Ou fois gras." "Obrigada. J comi bolo na recepao." "No me diga. E era bom, o bolo?" "Nem por isso." "E os hngaros, simpticos?" "Os discursos no foram propriamente significativos. Diria antes que foram banais. No posso deixar de criticar o nosso lado por causa disso. No nos descontramos o suficiente perante os estrangeiros, mesmo quando os estrangeiros vm de pases socialistas."
Por um momento ficaram ambos sem saber o que dizer. Barley lembrou-se de uma rapariga que tinha conhecido na Universidade, a filha de um general, com uma pele que parecia ptalas de rosa e que dedicou todas as suas energias  luta pelos direitos dos animais at que casou  pressa com um caador local. Katya fitava melancolicamente o outro extremo da sala, onde havia uma dzia de mesas dispostas segundo um alinhamento rigoroso. Numa delas encontrava-se Leonard Wicklow, que ria de uma piada qualquer com um jovem da sua idade. Noutra, um velho Rittmcsteil, calando botas de montar, bebia limonada com uma jovem de jeans, e abria muito os braos, como se estivesse a descrever as propriedades que perdera.
"No percebo porque  que no a convidei para jantar", disse Barley, reencontrando de novo os olhos dela com a sensao de que mergulhava de cabea neles. "Talvez por no querer avanar demasiado depressa. A menos que no haja qualquer problema."
"No teria sido conveniente", replicou ela, franzindo o sobrolho. A chaleira comeou a assobiar a toda a fora mas as guerreiras do bufete no lhe prestaram qualquer ateno.
" sempre to difcil falar ao telefone, no acha?", disse Barley para matar o silncio. "Quer dizer,  como falar com uma espcie de flor de plstico, em vez de um rosto humano. Pessoalmente, acho o telefone uma coisa muito desagradvel, no acha?"
"Desculpe. O que  que acha desagradvel?" "O telefone. O facto de se falar  distncia." A chaleira comeou a cuspir vapor para cima do bico. "Quando no podemos ver as pessoas, fazemos delas as ideias mais disparatadas."
Atira-te agora, pensou Barley. J. "Ainda outro dia disse isso mesmo a um amigo meu, editor tambm", prosseguiu Barley no mesmo tom descontrado. "Estvamos a discutir acerca de um romance que me enviaram recentemente. Mostrei-lho, com toda a confidencialidade necessria, e posso-lhe dizer que ele ficou perfeitamente deslumbrado. Disse que era a melhor coisa que via desde h muito tempo. Que era dinamite." Os olhos dela no despegavam dos dele e eram assustadoramente directos. "Mas  to estranho uma pessoa no possuir sequer uma fotografia do escritor", prosseguiu Barley num tom perfeitamente casual.
' Em alemo no original: capito de cavalaria. (N. do T.)
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" que nem sei o nome do homem. Isto para no falar de outros pormenores, por exemplo, onde  que ele vai buscar toda a sua informao, onde  que aprendeu a sua arte, etc., etc. No sei se me fao entender.  como ouvir uma pea musical e no se ter a certeza se  Bratinis ou Cole Porter."
Katya franziu o sobrolho e encolheu os lbios como se estivesse a humedec-los dentro da boca. "Essas questes pessoais no me parecem relevantes para um artista. H escritores que s podem trabalhar na obscuridade. E talento  talento. No precisa de qualquer explicao. "
"Bom, repare que eu no estava a falar propriamente de explicao, mas sim de autenticidade", explicou Barley. Uma ligeira penumbra sublinhava-lhe o osso malar mas, ao contrrio do cabelo, era cor de ouro. "Quer dizer, voc conhece os meandros da edio. Se um tipo escreve um romance acerca das tribos selvagens do norte da Birmnia, por exemplo, temos todo o direito de lhe perguntar se alguma vez desceu a sul de Minsk. Sobretudo se o romance  realmente importante, o que  o caso. Segundo o meu amigo,  mesmo um nmero potencial em qualquer top. Num caso destes, creio que h o direito de pedir ao escritor que se apresente e declare as suas qualificaes. "
Mais audaciosa que as outras, a mais velha das trs mulheres estava a deitar gua quente no samovar. Uma outra abria a enorme caixa registadora. A terceira deitava raes de ch numa balana manual. Barley, entretanto, ps-se a vasculhar nos bolsos e acabou por tirar uma nota de trs rublos. Ao ver a nota, a mulher da caixa registadora desatou numa firada desesperada.
"Parece-me que quer dinheiro trocado', no ?", disse Barley estupidamente. "No  o que todos queremos?"
Nesse instante viu que Katya tinha j posto trinta kopeks sobre o balco e que fazia duas covinhas mnimas quando sorria. Pegou nos livros e na mala. Ele seguiu-o com as chvenas numa bandeja. Porm, ao chegarem  mesa, ela dirigiu-se-lhe com uma expresso de desafio.
"Se um autor  obrigado a provar que o que diz  a verdade, ento tambm o seu editor o tem de provar", disse ela.
"Ah, mas quanto a isso eu defendo a honestidade para ambas as partes. Quanto mais pusermos na mesa, tanto melhor nos sentiremos todos. "
"Ao que sei, o autor foi inspirado por um poeta russo. "
"Pecherin", replicou Barley. "Investiguei-o. Nasceu em 1807, em Dymerka, provncia de Kiev."
Os lbios dela abeiravam-se da chvena, os olhos quedavam-se baixos. E embora pela sua cabea passasse um sem nmero de outros pensamentos, Barley reparou que a orelha direita dela, ressaltando
1 No original, trocadilho entre "change", "dinheiro trocado", e "change", "mudana". (N. do T.)
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entre o cabelo, se tinha tornado transparente  luz do fim da tarde que se escoava pela janela.
"O autor tambm foi inspirado por certas opinies de um ingls a respeito da paz mundial", disse ela com a maior severidade.
"Acha que ele gostaria de se encontrar de novo com esse ingls?" "Isso pode ser estudado. No se sabe se  possvel." "Bom,  que o ingls em questo gostaria de se encontrar com ele", disse Barley. "Tm imensas coisas para dizer um ao outro. Onde  que voc vive?"
"Com os meus filhos." "E onde vivem os seus filhos?" Uma pausa enquanto Barley voltava a ter uma desconfortvel sensao de ter infringido alguma tica desconhecida.
"Vivemos perto da estao de metro do Aeroporto. Mas j no h nenhum aeroporto na zona. S h apartamentos. Quanto tempo vai ficar em Moscovo, Mr. Barley?"
"Uma semana. E a sua morada?" "No  conveniente. E vai ficar toda a semana aqui no hotel Odessa?"
"A menos que corram comigo. Que faz o seu marido?" "Isso no interessa." "Trabalha na edio?" "No." " escritor?" "No." "Ento que faz ele?  compositor? Guarda fronteirio? Cozinheiro? Como pode ele assegurar-lhe o estilo de vida a que est habituada?"
Katya voltou a nr-se, o que pareceu agradar-lhe tanto a ela como a ele. "O meu marido era director de uma empresa de madeiras", disse ela.
"E de que  director agora?" "A fbrica dele faz casas pr-fabricadas para reas rurais. Estamos divorciados, alis como toda a gente em Moscovo."
"E os seus filhos? So rapazes? Raparigas? Que idade tm?" Tais perguntas puseram termo ao riso bem disposto de Katya. Por um momento Barley pensou que ela lhe ia voltar as costas e desaparecer. A cabea ergueu-se, determinada, o rosto cerrou-se-lhe por completo e um fogo de raiva chispava-lhe nos olhos. "Tenho um rapaz e uma rapariga. So gmeos, tm oito anos. Mas isto no interessa."
"Voc fala muito bem ingls. Melhor do que eu. To puro como gua da nascente."
"Obrigada. Tenho uma aptido natural para as lnguas estrangeiras. "
"No, no  s isso,  mais do que isso.  um ingls de um outro mundo.  como se a lngua inglesa tivesse parado em Jane Austen. Onde  que o aprendeu?"
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"Em Leninegrado. Andei na escola em Leninegrado. A lngua inglesa  tambm a minha paixo."
"Em que universidade andou?" "Na de Leninegrado tambm." "Quando veio para Moscovo?" "Quando me casei." "Como  que conheceu o seu marido?" "Conhecamo-nos desde crianas. Quando andvamos na escola, amos juntos para os acampamentos de Vero."
"E pescavam?" "Pescvamos e cavamos coelhos", disse ela enquanto o seu sorriso iluminava de novo toda a sala. "O Volodya  da Sibria.  um homem que sabe dormir na neve, que sabe esfolar um coelho e pescar peixe atravs do gelo. Na altura em que casei com ele, estava a passar por uma fase em que rejeitava os valores intelectuais. Achava que esfolar um coelho era a coisa mais importante que um homem podia saber fazer. "
"Na realdade, o que me interessava saber era como tinha conhecido o autor", explicou Barley.
Viu-a ento lutando no tumulto da sua indeciso, reparou como os seus olhos logo reflectiram a volubilidade das suas emoes, ora perto dele, ora longe dele. At que a perdeu de uma vez por todas, quando ela se baixou para pegar na malinha de mo, afastando depois o cabelo rebelde. "Por favor, d os meus agradecimentos a Mr. Landau pelos livros e pelo ch", disse ela. "Eu prpria lhe agradecerei. da prxima vez que ele vier a Moscovo."
"No se v embora. Por favor. Preciso da sua opinio." Barley baixou a voz e de repente ficou muito srio. "Preciso das suas instrues sobre o que hei-de fazer com aquele louco manuscrito. Sozinho no vou l. Quem o escreveu? Quem  Goethe?"
"Infelizmente tenho de voltar para casa, os meus filhos esperam-me. "
"No h ningum que cuide deles?" "Naturalmente que h." "Telefone-lhes. Diga que est atrasada. Diga que encontrou um homem fascinante que quer falar de literatura consigo toda a noite.  demasiado breve, este encontro. Preciso de tempo. Tenho montes de perguntas para lhe fazer."
Depois de pegar nos volumes de Jane Austen, Katya encaminhou-se para a porta. Como um vendedor persistente, Barley acompanhou-a aos tropees.
"Por favor", disse. "Olhe. Eu sou um editor ingls perfeitamente desprezvel, mas que quer discutir cerca de dez mil coisas extremamente srias com uma bela mulher russa. Eu no mordo, no minto. Jante comigo."
"No  conveniente." "E outra noite, ser conveniente? Que hei-de eu fazer? Queimo
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incenso? Ponho uma vela  janela? Foi por si que eu vim. Ajude-me a ajud-la."
Aquele apelo deixava-a confusa. "Posso ficar com o seu nmero de telefone?", insistiu ele. "No  conveniente", murmurou ela. Desciam j a vasta escadaria. Olhando num relance para o mar de cabeas no hall do hotel, Barley viu Wicklow e o an-go no meio delas. Agarrou Katya pelo brao, sem violncia mas com a firmeza bastante para que ela parasse.
"Quando?", perguntou ele. Continuando a segurar-lhe no brao  altura do bceps, imediatamente abaixo da axila, onde a carne era mais firme e mais cheia.
"Talvez lhe telefone mais para o fim da noite", replicou ela, compadecendo-se.
"Talvez, no." "Telefono." Barley deixou-se ficar nas escadas e viu-a aproximar-se dwmultido e aparentemente respirar fundo antes de abrir caminho com os braos. Suava. Parecia ter um xaile molhado sobre as costas e os ombros. Precisava de um copo, de uma bebida. Acima de tudo queria libertar-se do microfone. Queria esmag-lo e calc-lo com toda a fora e mandar depois para Ned os bocadinhos, em encomenda pessoal e registada.
Wicklow, com o seu nariz torto, subiu os degraus dois a dois na direco de Barley e, sorrindo como um ladro, disse-lhe um disparate acerca de uma biografia sovitica de Bernard Shaw.
Katya avanou rapidamente pela rua. Procurava um txi mas ao mesmo tempo precisava de movimento. As nuvens acumulavam-se no cu e no se via uma estrela, apenas as ruas largas e o brilho dos candeeiros de Petrovka. Katya precisava de distncia. Distncia dele e de si mesma. Ameaava apoderar-se dela um pnico que no advinha do medo, mas sim de uma violenta averso. Ele no devia ter mencionado os gmeos. No tinha o direito de abater as paredes de papel que separavam uma vida da outra. No tinha o direito de a importunar com questes burocrticas. Tinha confiado nele: porque no confiava ele nela?
Passou uma esquina e continuou a andar.  um imperialista tpico, falso, impertinente, indigno de confiana. Um txi passou, mas no lhe prestou qualquer ateno. Um segundo abrandou o suficiente para ouvi-Ia gritar para onde ia e logo acelerou  procura de um servio mais lucrativo - prostitutas que queriam ir para a outra margern, mveis a transportar, legumes, carne e vodka do mercado negro que algum queria distribuir, turistas que era fcil enganar. A chuva comeava a cair, uma btega imparvel.
Que humor to grosseiro o dele. E a impertinncia com que me
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interrogava! Nunca mais me aproximo dele. Katya devia apanhar o metro, mas sentia medo dos espaos fechados. Atraente, claro, como muitos ingleses. Encantador na sua falta de jeito. Espirituoso, sem dvida sensvel. No lhe tinha passado pela cabea que ele pudesse aproximar-se to intimamente dela. Ou talvez tivesse sido ela quem se aproximou demasiado dele.
Continuou a andar, tentanto acalmar-se, procurando um txi. A chuva caa agora mais forte. Tirou um pequeno guarda-chuva de mala e abriu-o. Era uma guarda-chuva da R. D. A., um presente de um amante efmero de que nunca se orgulhara. Ao chegar a um cruzamento, e quando se preparava para atravessar a rua, um rapaz num Lada azul parou mesmo ao p dela. Katya no o tinha chamado.
"Quer ir para algum lado?" Seria um ta~ ou um ffnpostor? Katya entrou e disse-lhe para onde queria ir. O rapaz comeou a discutir. A chuva martelava na caDta.
" urgente", disse ela, dando-lhe duas notas de trs rublos. " urgente", repetiu, olhando para o relgio e pensando ao mesmo tempo se as pessoas costumavam ver as horas quando estavam com pressa em chegar ao hospital.
O rapaz parecia ter tomado a peito a causa dela. Conduzia e falava a uma velocidade louca, enquanto a chuva ia entrando pela sua janela aberta. Contava que a me, que vivia em Novgorod, tinha desmaiado quando andava a apanhar mas e, como estava no cimo de uma escada, tinha dado uma queda horrvel e acordado com ambas as pernas metidas em gesso. O pra-brisas era uma torrente sem fim. Ele nem parara para enganchar os limpadores.
"Como est ela agora?", perguntou Katya, pondo um leno na cabea. Uma mulher com urgncia em chegar a um hospital no se pe  conversa a propsito das desgraas dos outros, pensou.
" aqui", disse o rapaz, fazendo um gesto de lhe devolver as notas de trs rublos. "Paga para a prxima, est bem? Como  que se chama? Quer fruta fresca, caf, vodka?"
"Fique com o dinheiro", retorquiu ela, rejeitando as notas. Os portes estavam abertos. O hospital passava perfeitamente por um bloco de escritrios, com algumas luzes brilhando tenuemente' Um lano de escadas de pedra, meio cobertas de lama e lixo, conduzia a um caminho superior que, por sua vez, levava a uma pequena estrada. Olhando para baixo, Katya viu umas quantas ambulncias estacionadas, com as suas luzes azuis rodando indolentemente, um grupo de motoristas e maqueiros fumando. Aos seus ps, uma mulher jazia numa maca, o rosto esmagado torcido para o lado, como se pretendesse escapar a um segundo embate.
Ele preocupou-se comigo, pensou Katya, regressando por um momento a Barley.
Correu para o bloco cinzento que se erguia  sua frente. Uma clnica projectada por Dante e construda por Franz Kafka, recordou. Os funcionrios esto sobretudo interessados em roubar remdios
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para os venderem depois no mercado negro; os mdicos tm todos dois empregos porque  a nica maneira de alimentarem as famlias, recordou ainda.  um stio para a gentalha, para a ral do nosso imprio, para os proletrios sem sorte que no acedem s influncias nem s relaes da minoria. A voz que perpassava pela sua ccabea tinha um ritmo que era o ritmo da sua marcha. Passou confiadamente a porta dupla. Uma mulher chamou-lhe a ateno e Katya, em vez de lhe mostrar o carto, deu-lhe um rublo. O hall ecoava como uma piscina. Atrs de um balco de mrmore, umas quantas mulheres ignoravam toda a gente. S no se ignoravam umas s outras. Um velho de uniforme azul dormitava numa cadeira, os olhos abertos pareciam fitar uma televiso apagada. Passou por ele com um passo rpido e entrou num corredor cheio de camas com doentes. Da ltima vez no havia camas no corredor. Tinham-nas tirado talvez porque esperassem algum importante. Um estagirio perfeitamente exausto estava a dar sangue a uma velha, assistido por uma enfermeira de macaco aberto e jeans. Ningum gemia, ningum se queixava. Ningum perguntava porque  que tinha de morrer num corredor. Num sinal luminoso brilhavam apenas as primeiras letras da palavra "Urgncia". Seguiu nessa direco. Faz de conta que aquilo  teu, tinha avisado ele da primeira vez. E resultara. Resultava ainda.
A sala de espera era uma sala de conferncias fora de uso, to pouco iluminada como uma enfermaria  noite. No estrado, uma matrona com cara de santa, sentada numa cadeira, encabeava uma fila de candidatos, to longa como um exrcito em retirada. No auditrio, os infelizes e miserveis resmungavam e murmuravam na penumbra, embalavam os filhos. Homens com ferimentos meio tratados aguardavam em bancos. Bbados refastelados nas cadeiras praguejavam. O ar tresandava a anti-sptico, a vinho e a sangue velho.
Dez minutos de espera. De novo os seus pensamentos corriam para Barley. Os olhos, to directos e ntimos, o seu ar de coragem sem esperana. Porque no lhe dei o meu nmero de telefone? Por que razo no lho pude dar? A mo dele no seu brao, como se l estivesse desde sempre. "Foi por si que eu vim. " Escolheu um banco quase a cair, perto da porta dos fundos, com um letreiro que dizia "Casas, de Banho". Sentou-se e ps-se a examinar aquela fila de gente doente. Uma pessoa morre ali e ningum lhe pergunta o nome, dissera ele. A porta  ali, acol  o bengaleiro, ensaiou. Depois so as casas de banho. O telefone est no bengaleiro, mas nunca  usado porque ningum sabe que l est. No hospital no h qualquer linha directa, mas esta linha foi instalada para um manda-chuva, um mdico que queria falar sem problemas com os seus doentes particulares e a amante, at que acabou transferido. Um idiota qualquer ps o telefone onde ningum o via, atrs de um pilar. E nunca o tiraram de l.
Mas como  que tu conheces esses stios todos?, perguntara-lhe
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ela. H uma entrada assim, uma ala assado, o telefone fica no stio tal, sentas-te e esperas. Como  que conheces isto tudo?
Ando a p, foi o que ele respondeu. E ela imaginou-o a caminhar apressado pelas ruas de Moscovo, sem dormir, sem comer, e imaginou-se a si mesma, a caminhar, a caminhar. Eu sou o No-Judeu Errante, dissera-lhe ele. Caminho para estar com a minha mente, bebo para fugir dela. Quando caminho, ests a meu lado; vejo o teu rosto junto do meu ombro.
Caminhar at cair, pensou. E eu cairei com ele. No banco ao lado dela, uma camponesa com um leno de cabea cor de aafro comeara a rezar em ucraniano. Agarrava um pequeno cone com ambas as mos e sobre ele curvava a cabea, cada vez mais baixo, at espetar a testa na figura estanhada. Crescia um brilho intenso nos seus olhos e, quando os cerrou, Katya viu lgrimas correndo entre as plpebras. Num instante ficarei'como tu, pensou.
Lembrou-se do que ele lhe contara sobre uma visita a uma casa morturia na Sibria, uma fbrica para os mortos, situada numa das cidades-fantasma onde ele trabalhava. Os corpos desciam por uma rampa e passavam depois por um carrossel, homens e mulheres misturados, onde eram etiquetados e onde, pela calada da noite, as velhas os despojavam de todo o ouro. A morte  um segredo como qualquer outro, dissera-lhe ele; um segredo  uma coisa que  revelada a uma pessoa num momento determinado.
Porque procuras sempre ensinar-me o significado da morte?, perguntara ela, angustiada. Porque tu me ensinaste o significado da vida, replicara ele.
Esse telefone  o mais seguro em toda a Rssia, dissera ele. Nem mesmo os maiores lunticos dos nossos rgos de Segurana pensariam em pr sob escuta um telefone sem uso de um hospital de urgncias.
Lembrou-se da ltima vez que se encontrara com ele em Moscovo, no pino do Inverno. Ele apanhara um comboio dos mais lentos numa estao ignorada, um stio sem nome situado nenhures. No comprara bilhete e viajara em terceira classe, depositando dez rublos na mo do cobrador, como toda a gente fazia. Os nossos mundanos rgos competentes andam to burgueses que j nem sabem misturar-se com os trabalhadores, dissera ainda. Katya imaginara-o como uma criana perdida, dormindo na semi-escurido do beliche de cima reservado para as bagagens, s com a grossa roupa de baixo vestida, escutando a tosse dos fumadores e os roncos dos bbados, sufocando com o fedor das criaturas humanas e o calor do aquecedor de gua sempre gotejante, enquanto contemplava as coisas aterradoras que conhecia e de que nunca falava. Que inferno ser esse, quando se sabe que o auge absoluto da nossa carreira significa a calamidade absoluta para a humanidade?
Reviu-se  espera dele, acampada entre milhares de criaturas j desesperadas, na estao de Kazansky, sob as baas lmpadas fluo-
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rescentes. O comboio est atrasado, foi cancelado, descarrilou, diziam os boatos. Tem cado muita neve no caminho para Moscovo.
O comboio est a chegar, no houve nada, no precisavam de ter dito tantas mentiras. Os funcionrios da estao tinham deitado formol nas casas de banho e toda a estao tresandava a formol. Katya trazia o gorro de pele de Volodya porque lhe ocultava melhor o rosto.
O cachecol de angor cobria-lhe o queixo, o casaco de cabedal cobria o resto. Nunca sentira um desejo to forte por ningum. Sob a pele do vesturio corriam um calor e uma fome ao mesmo tempo.
Quando ele desceu do comboio e se encaminhou para ela atravs da neve j derretida e suja, Katya sentiu o seu corpo tenso e embaraado, como o de um rapazinho. Ao lado dele, no metro cheio de gente, quase gritava no silncio ao sentir o corpo dele colado ao seu. Tinha pedido a Alexandra que lhe emprestasse o apartamento. Alexandra tinha ido para a Ucrnia com o marido. Abriu a porta da rua e disse-lhe para ir  frente. Por vezes, ele parecia no saber onde estava ou ento pouco ligava a todos os preparativos que ela providenciava. Por vezes Katya tinha medo de lhe tocar, de to frgil que ele era. Mas no nesse dia. Nesse dia correu para ele, agarrou-o com toda a sua fora, colou-o a ela sem jeito nem ternura, castigando-o por tantos meses e noites de saudades infrutferas.
E ele? Ele abraava-a como o pai dela costumava fazer, mantendo as mos longe e os ombros firmes. E quando ela se afastou dele, sabia j que nunca mais o seu corpo bastaria para adormecer os tormentos daquele homem.
s a minha nica religio, murmurou ele, beijando-lhe o rosto com os lbios cerrados. Ouve-me, Katya, ouve o que eu decidi fazer.
A camponesa ajoelhava no cho, adorando o seu cone, comprimindo-o contra o peito e os lbios. Katya levantou-se e foi obrigada a passar por cima dela, para depois meter pelo corredor. Um jovem plido com um casaco de cabedal tinha-se sentado na ponta do banco. Tinha um brao enfiado na camisa, devia ter o pulso partido. Como estava de cabea baixa, s ao passar por ele Katya reparou que tambm tinha o nariz partido, ainda que cicatrizado.
O bengaleiro estava s escuras. Uma lmpada fundida danava inutilmente. Um balco de madeira enorme barrava-lhe o caminho. Tentou erguer a aba do balco, mas era demasiado pesada. Serpeou por debaixo dela. Num segundo viu-se no meio de cabides, ganchos e chapus que ningum fora buscar. O pilar ficava a um metro de distncia. Um cartaz escrito  mo dizia NAO TEMOS TROCOS. Leu-o  luz de uma porta que constantemente abria e fechava. O telefone estava no stio habitual, no outro lado, mas quando se abeirou dele quase no o conseguia ver na escurido.
No despegava os olhos do telefone, desejosa de que tocasse. Acabara o pnico. Recuperara toda a sua fora. Onde ests?, perguntava a si mesma. Num dos teus nmeros postais ou num dos teus refgios longnquos? No Kazakisto? No Mdio Volga? Nos Urais? Ele andava por
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todos esses stios, ela sabia que andava. Noutros tempos, podia adivinhar, pela cor da sua pele, se ele tinha andado a trabalhar ao ar livre. Noutras alturas, parecia ter estado debaixo de terra durante meses. Onde ests tu com a tua terrvel culpa?, perguntava ela. Onde ests tu com a tua aterradora deciso? Num stio s escuras como este? Nos telgrafos de uma pequena cidade, abertos todo o dia? Imaginou-o preso, era assim que por vezes o via nos sonhos, amarrado e lvido, a um canto de uma cabana, preso a um cavalo de pau, quase prostado,  merc de golpes que nunca paravam. O telefone estava a tocar. Ergueu o auscultador e ouviu uma voz baixa.
"Fala Pyotr", disse ele, usando o cdigo com que se protegiam um
ao outro - se estiver nas mos deles e me forarem a telefonar, dar-lhes-ei um nome diferente para que tu te possas esconder.
"Daqui fala Alina", replicou ela, espantada por conseguir falar. Nada mais a preocupava. Ele est vivo. No foi preso. No lhe esto a bater. No o prenderam a um cavalo de pau. Sentiu-se indolente, cansada. Ele estava vivo, falava com ela. Factos, apenas, nenhuma emoo na voz, uma voz de incio remota e apenas serni-familiar. De uma ponta  outra, apenas factos. Faz isto. Ele disse isto. Eu disse isto. Diz-lhe que lhe agradeo por ter vindo a Moscovo. Diz-lhe que ele est a portar-se como um ser humano razovel. Eu estou bem. E tu?
Nesse momento, Katya desligou, incapaz de falar mais. Voltou para a sala de conferncias e sentou-se num banco ao lado dos outros todos, a respirao opressa, sabendo que ningum se preocuparia com ela.
O rapaz do casaco de cabedal continuava sentado no banco. Reparou uma vez mais no seu nariz torto, perfeito apesar de estranho. De novo se lembrou de Barley e sentiu-se grata por existir um homem como ele.
Barley estava deitado na cama em mangas de camisa. O quarto era um caixote sem ventilao, filho de um outro quarto enorme, retalhado numa srie de caixotes, todos eles atormentados pelo verdadeiro coro de guas que  da praxe em qualquer hotel russo, a fungadela constante das torneiras, o pingo da cisterna da minscula casa de banho, os arrancos sbitos do enorme radiador preto, o gemido do frigorfico sempre que se lana nas suas convulses peridicas. Bebia ~Y de um copo dos dentes, fazia de conta que lia  luz perfeitamente incipente da mesa-de-cabeceira. Mesmo ao seu lado estava o telefone, e ao lado do telefone o caderno em que anotava mensagens e grandes pensamentos. Os telefones podem ser criaturas vivas, avisara Ned, tudo depende de estarem ou no desligados. No  o caso deste, pensou Barley. Este s vive quando ela telefonar. Tentava ler o magnfico Mrquez mas a letra parecia-lhe arame farpado; desconcentrava-se a todo o momento e tinha de voltar atrs.
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Um carro passou na rua, a seguir um transeunte. Depois foi a vez da chuva, estoirando como tiros abafados contra os vidros da janela. Sem um clamor, sem um riso, sem um grito de raiva, Moscovo devolvera-se aos grandes espaos.
Aqueles olhos. Que viram em mim? Uma relquia, decidiu. Vestido com o fato do meu pai. Um mau actor oculto pela sua prpria representao. Atrs da maquilhagem, nada. Ela procurava em mim a convico e em vez disso o que viu foi a bancarrota moral da minha classe e deste tempo ingls. Procurava uma esperana futura e encontrou vestgios de uma histria acabada. Procurava o contacto e encontrou em mim um cartaz que dizia "reservado". Por isso um breve olhar lhe bastou, e fugiu.
Reservado para quem? Para que grande dia ou paixo me reservei? Tentou imaginar o corpo dela. Mas com um rosto daqueles, quem precisa de um corpo?
Bebeu. Ela  coragem. Ela  inquietao. Bebeu de novo. Katya, se  isso que tu s,  para ti que eu estou reservado.
Se. Que faltaria saber sobre Katya? Nada, a no ser a verdade. Houvera uma poca, h muito esquecida, em que confundira beleza e inteligncia, mas Katya era to obviamente inteligente que, desta feita, no era possvel confundir as duas qualidades. Outra poca houvera, e Deus era testemunha, em que confundira beleza e virtude. Mas em Katya tinha pressentido virtude to sublime que, se naquele momento ela espreitasse por aquela porta e lhe dissesse que acabara de matar os filhos, encontraria instantaneamente seis maneiras de a convencer da sua inocncia.
Se. Bebeu mais um gole de Scotch e com um arrepio lembrou-se de Andy.
Andy Macready, trompetista, deitado numa cama de hospital com a cabea cortada. Tiride, explicou vagamente a mulher. Quando descobriram, Andy recusou a cirurgia. Preferia dar um ltimo mergulho e no voltar, dizia. Por isso embebedaram-se os dois e planearam uma viagem a Capri, uma ltima grande comezaina, rios de vinho tinto e o derradeiro mergulho rumo aos confins de terra nenhuma no imundo Mediterrneo. Mas quando a tiride comeou realmente a afect-lo, Andy descobriu que preferia a vida  morte, pelo que votou na cirurgia em vez de Capri. E separaram-lhe a cabea do corpo, s as vrtebras ficaram a lig-la ao corpo, e com tubos fizeram-no sobreviver. E ali estava Andy, na cama do hospital, ainda uma criatura vivente, sem razo nenhuma para viver, sem razo nenhuma que o fizesse morrer, amaldioando o dia em que recusou Capri, e tentando encontrar um significado para si mesmo que fosse mais forte do que a morte.
Vou telefonar  mulher do Andy, pensou. Pergunto-lhe como  que est o velho. Viu as horas, calculou que horas seriam no mundo
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real ou irreal de Mrs. Macready. Estendeu a mo para o auscultador mas no o levantou. Podia tocar.
Pensou em Anthea, a sua filha. Querida Ant. Pensou no filho, Hal, imaginou-o na City. Desculpa l ter-te estragado a vida, Hal, mas deixa l que ainda tens algum tempo para a endireitar.
Pensou no apartamento de Lisboa e naquela mulher debulhada em lgrimas. Com um estremecimento, pensou no que lhe poderia ter acontecido. Pensou nas suas outras mulheres, mas a sua culpabilidade estava abaixo do nvel usual, assunto que tambm lhe proporcionou algumas cogitaes. Pensou de novo em Katya e percebeu que era nela que tinha estado a pensar o tempo todo.
Uma batida na porta.  ela, veio ter comigo. Traz apenas um roupo, est nua por baixo. Barley, querido, murmura ela. Ainda me ama depois do que aconteceu?
No, no  o gnero dela.  uma mulher sem precedentes nem sequelas. No tem nada a ver com todas as prostitutas decadentes que conheci.
Era Wickow, o anjo da guarda, preocupado com o seu protegido. "Entre, Wickers. Vai um gobnho?" Wicklow ergueu as sobrancelhas, o que equivalia a perguntar se ela tinha telefonado. Vestia um casaco de cabedal em que eram visveis algumas gotas de chuva. Barley abanou a cabea. Wicklow encheu um copo com gua mineral.
"Estive a dar uma vista de olhos por alguns dos livros que eles nos propuseram hoje", disse ele, no tom extravagante que ambos tinham adoptado por causa dos microfones. "Pensei que talvez lhe interessasse saber a minha opinio acerca de alguns dos ttulos dos ensaios e manuais."
"Pois opine  sua vontade, Wicklow", disse Barley hospitaleiramente, espreguiando-se na cama uma vez mais, enquanto Wicklow pegava na cadeira.
"Bom, dos ttulos ue eles apresentaram h apenas um que me parece interessante.   um manual de sade fsica, com dietas e exerccios. Creio que poderemos consider-lo como um dos nossos grandes lanamentos, neste esquema de co-produo. Talvez pudssemos contratar um dos melhores ilustradores russos, sempre aumentava o impacte da obra."
"Aumente  vontade. O cu  o bmite." "Teremos, de perguntar primeiro ao Yuri." "Pergunte. "
Um hiato. Continuemos com a mesma conversa, props mentalmente Barley.
"Ah, a propsito, sir, tinha-me perguntado porque  to frequente os russos usarem a palavra 'conveniente'."
"Sim, de facto perguntei", disse Barley, que nunca lhe tinha feito tal pergunta.
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"Quando dizem 'conveniente', o termo russo em que esto a pensar  udobno. Significa conveniente, mas tambm prprio, o que, por vezes, pode causar alguma confuso. Quer dizer, uma coisa  no ser conveniente, outra no ser prprio."
"Sem. dvida, sem dvida", concordou Barley, depois de ter pensado demoradamente no assunto, enquanto sorvia o seu Scotch.
Depois deve ter dormitado, j que, sem perceber porqu, se viu sentado e muito direito, com o auscultador colado ao ouvido e Wicklow de p junto a ele. Estamos na Rssia, foi por isso que ela no disse o nome.
"Aparea", convidou ele. "Desculpe telefonar-lhe to tarde. Incomodo?" "Incomodar no, perturbar sim. Perturbar, perturba sempre. Foi ptimo aquele ch. Pena que tivesse durado to pouco. Onde est?"
"Convidou-me para jantar amanh, segundo me parece." "Barley ps-se  procura do caderno. Wicklow passou-lho de imediato.
"Almoo, lanche, jantar, tudo", disse ele. "Para que morada mando ir o coche de cristal?" Escrevinhou uma morada. "A propsito, qual  o seu nmero de telefone, para o caso de um de ns se perder?" Katya deu-lhe tambm o nmero de telefone, relutantemente, era um desvio s regras, mas mesmo assim deu-lho. Wicklow esperou que ele escrevesse o nmero e, lentamente, retirou-se do quarto.
Nunca se sabe, pensou Barley, acalmando-se com mais um longo gole de Scotch depois de ter desligado. Quando uma mulher  bela, inteligente e virtuosa, nunca se sabe para que lado vai cair. Gostar de mim ou no passarei para ela de um rosto na multido?
Ento, subitamente, o medo moscovita apossou-se dele num abrir e fechar de olhos. Atacou-o no momento em que menos o esperava, depois de o ter combatido todo o dia. Os terrores ocultos da cidade atroavam-lhe nos ouvidos e depois deles era a voz aflautada de Walter que zunia na sua cabea.
"Ser que ela est realmente em contacto com ele? Ou ter inventado esta histria sozinha? -Ou estar em contacto com outra pessoa, e sendo assim, com quem?"
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Na sala de controlo, situada nas caves da Casa da Rssia, parecia viver-se a atmosfera tensa de um ataque areo capaz de durar toda a noite. Ned estava sentado  secretria de comando, atrs de uma muralha de telefones. Por vezes, um dos telefones piscava o sinal vermelho e Ned atirava para o bocal uns quantos monossilabos, num estilo o mais conciso possvel. Duas assistentes de gestos doces iam depositando os telegramas em cima da secretria e despejando os cinzeiros. Dois relgios dos Correios, um com a hora de Londres, outro com a de Moscovo, brilhavam sob uma luz forte como duas luas gmeas encostadas  parede do fundo. Em Moscovo era meia-noite, em Londres nove horas. Ned quase no levantou a cabea quando o seu segurana-chefe me abriu a porta.
No me fora possvel chegar mais cedo. Tinha passado a manh com os procuradores do Tesouro e a tarde com os advogados de Cheitenham. A ceia serviria para entreter uma delegao de espiocratas da Sucia, aps o que os despacharia para o espectculo musical da praxe.
Walter e Bob debruavam-se sobre um mapa das ruas de Moscovo. Brock falava 'com a sala de cdigos atravs do telefone interno. Ned mergulhava no que parecia ser um extenso inventrio. Fez-me sinal para me sentar e atirou-me uma remessa de mensagens da frente, copiadas  pressa e em forma de entradas.
09h54 Barley conseguiu telefonar para Katya, na Outubro. Marcaram encontro para esta noite s 20h15 no Odessa. Segue.
13h20 irregulares seguiram Katya at ao nmero 14 da rua tal. Deixou uma carta numa casa que parece estar vazia. Fotos seguem breve pela mala. Segue.
20h18 Katya chegou ao Hotel Odessa. Barley e Katya falam no bufete. Wicklow e um irregular observam. Segue.
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21h05 Katya deixa o Odessa. Resumo da conversa segue. Gravaes seguem breve pela mala. Segue.
22h00 provisrio. Katya prometeu telefonar a Barley esta noite. Segue.
22h50 Katya  seguida at ao hospital tal. Wicklow e um irregular cobrem. Segue.
23h25 Katya recebe chamada num telefone sem uso do hospital. Fala trs minutos e vinte segundos. Segue.
E de sbito nada mais.
O acto de espiar  a normalidade levada a extremos. Espiar  esperar.
"O Clive Sem ndia recebe esta noite?", perguntou Ned, como se a minha presena o tivesse feito lembrar-se de alguma coisa.
Respondi que Clive estaria na sua suite toda a noite. Tinha estado metido na Embaixada Americana todo o dia e dissera-me que devia estar disponvel  noite.
Seguims no meu carro para a sede. "J viu esta porcaria?", perguntou-me, batendo com as pontas dos dedos num documento que trazia no colo.
"Que porcaria?" "A lista de nomes a quem foram distribudos os documentos da Ave Azul. Os que os leram mais os seus strapas."
 cautela, decidi no comentar. Era lendrio o mau gnio de Ned a meio das operaes. Na porta do gabinete de Clive a luz estava verde, o que significava "entrem se se atrevem". A chapa de bronze anunciava "Delegado" em letras cujo brilho eclipsaria a prpria Casa da Moeda.
" capaz de me explicar, Clive, por que raio no foi respeitada a confidencialidade do assunto?", perguntou-lhe Ned, mal entrmos, acenando-lhe com a lista. "Damos aos tipos de Langley um lote de material altamente sensvel e cuja fonte no conhecemos e da noite para o dia eles recrutam um exrcito inteiro! Como  que isto  possvel? Onde  que estamos? Em Hollywood? Ns temos um tipo l, em carne e osso. E temos um dissidente que nunca vimos".
Clive deu a volta  carpete dourada. Quando discutia com Ned tinha o hbito de se virar de sbito para ele, como se fosse uma carta de jogar. E nesse momento f-lo uma vez mais.
"Ento voc acha que a lista de conhecedores da Ave Azul  demasiado longa?", perguntou, no tom de quem ouve um testemunho.
"Acho e voc tambm devia achar. E Russel Sheriton tambm.  capaz de me explicar que raio  esta coisa que d pelo nome de Conselho de Apoio Cientfico do Pentgono? E esta Comisso de Conselheiros Acadmicos da Casa Branca, que raio de comisso  esta?"
"Preferia que seguisse um procedimento mais restritivo e que insistisse para que eles limitassem o conhecimento do caso  Comisso
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Inter-Agncias? Que s os chefes soubessem do assunto, sem qualquer apoio de comisses, equipas ou assistentes?  isso que quer dizer?"
"Se acha que consegue voltar a meter a pasta de dentes no tubo, ento a resposta  sim. "
Clive ps um ar de quem estaria a meditar nos mritos da sugesto. Mas eu sabia, tal como Ned, que Clive no meditava nos mritos de nada. Para ele s interessava saber quem era a favor e quem era contra fosse o que fosse. Depois de o saber, dedicava-se apenas a
descobrir qual era o melhor aliado.
"Em primeiro lugar, nem um s desses distintos cavalheiros a que me referi  capaz de entender seja o que for do material da Ave Azul, se no contar com o apoio de peritos", prosseguiu Clive na sua voz perfeitamente fria. "Portanto, ou os deixamos chapinhar na mais total ignorncia ou ento admitimos os seus apndices e aceitamos o preo. E isto aplica-se tambm  Comisso de Espionagem da Defesa e a todos os conselheiros da Marinha, do Exrcito, da Fora Area e
da Casa Branca."
"Quem  que eu estou a ouvir? Estou a ouvir a sua voz ou a de Russell Sheriton?", perguntou Ned.
"Como podemos pedir-lhes que no consultem as suas equipas cientficas, quando simultaneamente lhes estamos a dar um material que  extremamente complexo?", persistiu Clve, ignorando nitidamente a questo de Ned. "Se a Ave Azul for verdadeira, ento precisaro com certeza de toda a ajuda possvel."
"Se", repetiu Ned, enfurecido. "Se for verdadeira. Meu Deus, Clive, voc ainda  pior do que eles. H duzentos e quarenta nomes nessa lista e todos eles tm uma mulher, uma amante e quinze amigos do peito."
"Em segundo JugaD>, prosseguiu Clive, numa altura em que j nos
tnhamos esquecido de que houvera um primeiro, "no   nossa espionagem que compete decidir, mas sim  de Langley". Virara-se para mim antes de Ned ter tempo de lhe responder. "Palfrey, con-
firme, por favor. No nosso tratado de cooperao com os americanos, no demos a Langley direitos de primazia sobre todo e qualquer material estratgico?"
"Em assuntos estratgicos a nossa dependncia de Langley  total", concedi. "Eles dizem-nos o que querem que ns saibamos. Em troca, somos obrigados a comunicar-lhes tudo o que descobrimos. Nunca descobrimos muita coisa, mas de facto o acordo  assim."
Clive escutou-me atentamente e com um ar aprovativo. A sua frieza ganhara uma ferocidade desusada, o que obviamente me deixava intrigado. Se ele possusse uma conscincia, diria que essa frieza era causada por um possvel constrangimento. Que tinha ele estado a fazer naEmbaixada todo o dia? Que ofertas tinha feito, e a quem, e a
troco de qu?
" comum nestes Servios concluir-se - erradamente - que ns
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e os americanos estamos no mesmo barco", continuou Clive, agora falando unicamente para Ned. "Mas no estamos. No estamos quando se trata de estratgia. No temos no nosso pas um especialista de defesa capaz de ombrear com um americano em matria de estratgia. No que toca a estratgia, ns, os britnicos, no passamos de uma jangada minscula e perfeitamente ignorante do seu rumo, ao passo que eles so o Queen Elizabeth. No cabe  jangada dizer ao transatlntico como deve navegar."
Estvamos ainda maravilhados com o vigor desta declarao quando o telefone vermelho de Clive comeou a tocar. Sofregamente, correu para o auscultador, porque uma coisa que Clive adorava era atender chamadas naquele telefone em frente dos seus subordinados. Pouca sorte a sua. Era Brock. Queria falar com Ned.
Katya tinha acabado de telefonar a Barley, e tinham combinado encontrar-se na noite seguinte, disse Brock. A equipa de Moscovo precisava da aprovao urgente de Ned para as suas propostas de operao relativamente a esse encontro. Ned saiu imediatamente.
"Que anda voc a tramar com os americanos?", perguntei a Clive, que no se deu ao incmodo de me responder.
Passei o dia seguinte  conversa com os meus suecos. Na Casa da Rssia, a vida continuava morna. Espiar  esperar. Por volta das quatro escapuli-me para o meu gabinete e telefonei a Hannah.  uma coisa que fao s vezes. Pelas quatro regressa ela do Instituto de Oncologia, onde trabalha em part-time, e o marido nunca volta a casa antes das sete. Contou-me como lhe tinha corrido o dia, quase no liguei ao que ela disse. Falei-lhe do meu filho, Alan, que estava apaixonado por uma enfermeira de Birmingham, uma rapariga sem dvida simptica mas que realmente no tinha a classe do Alan.
"Pode ser que telefone mais tarde", disse ela. s vezes dizia isso, mas nunca telefonava.
Barley seguia ao lado de Katya. Os passos dela pareciam um eco dos seus, embora mais firme. Uma penumbra doentia banhava as casas velhas e esburacadas daquela paisagem dickensiana. O primeiro ptio era sombrio, o segundo tenebroso. No meio do lixo, uns quantos gatos pararam a fit-los. Dois rapazes de cabelos compridos que podiam passar por estudantes jogavam tnis com uma fila de caixotes de carto a servir de rede. Um terceiro observava encostado  parede. Um pouco mais  frente, uma porta borrada de grafitti e com um quarto crescente pintado a vermelho. "Ateno s marcas vermelhas", avisara Wicklow. Ela estava plida e Barley ps-se a pensar se no estaria tambm plido, seria um milagre se no estivesse. H homens que nunca sero heris e heris que nunca sero homens, pensou, com urgentes agradecimentos a Joseph Conrad. E Barley Blair nunca ser nem uma coisa nem outra. Levou a mo  maaneta da porta e tentou rod-la. Katya mantinha-se um pouco
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afastada. Trazia uma gabardina e  cabea um leno. A maaneta girava mas a porta no cedia. Empurrou a porta com ambas as mos, pnmeiro ligeiramente, depois com toda a fora. Os jogadores de tnis desataram a gritar-lhe em russo. Barley ficou como que paralisado, sentindo fogo pelas costas.
"Eles esto a dizer que a porta s abre ao pontap", disse Katya, e, para seu grande espanto, Barley reparou que ela sorria.
"Se num momento destes voc consegue sorrir", disse ele, "ento imagino que cara no ter quando se sente feliz."
Mas deve t-lo dito para si mesmo, j que ela no respondeu. Com um pontap, a porta cedeu de facto, gemendo sobre a areia que se acumulava debaixo dela. Os rapazes, rindo da cena, regressaram ao jogo. Barley avanou na escurido e Katya seguiu-o. Carregou num boto mas no havia luz, A porta fechou-se com estrondo atrs deles e quando, s apalpadelas, procurou a maaneta no conseguiu encontr-la. Por um momento pararam naquela profunda escurido, sentindo os cheiros a gato, cebolas e fritos e escutando rdios e discusses que pertenciam a outras vidas. Acendeu um fsforo. Apareceram trs degraus, depois meia bicicleta, a seguir um patamar e um elevador imundo. E nada mais porque o lume lhe chegara aos dedos. Vai para o quarto andar, dissera Wicklow. Ateno s pinturas a vermelho. Mas como  que vou ver coisas pintadas a vermelho no meio desta escurido? Deus respondeu-lhe com uma luz plida vinda do piso superior.
"Quer dizer-me onde estamos?", perguntou ela afavelmente. " o apartamento de um amigo meu", respondeu ele. "Um pintor. "
Barley abriu a porta do elevador, depois a grelha. Disse "faz favor", mas Katya j estava l dentro, olhando para cima, ansiosa por que aquilo subisse.
"Ele est fora por uns dias. Sempre  um bom stio para falarmos", disse.
Reparou de novo nas pestanas dela, na humidade daqueles olhos. Gostaria de consol-la mas ela no estava suficientemente triste.
" pintor", repetiu, como se isso legitimasse um amigo. "Oficial?" "No. No me parece. No sei." Porque no lhe dissera Wicklow que raio de pintor era o homem? Ia a carregar no boto quando uma rapariguinha com culos de aros de tartaruga entrou a correr no elevador abraando um urso de plstico. A criana gritou uma saudao e o rosto de Katya iluminou-se ao responder-lhe. O elevador l foi subindo aos arrancos; em cada piso os botes davam um estalido que mais parecia de pistola. No terceiro andar, a criana, muito educadamente, disse-lhes adeus e Barley e Katya responderam-lhe em unssono. No quarto, o elevador parou com um sobressalto, como se tivesse batido no tecto e talvez tivesse mesmo batido. Barley deixou-a passar para terra firme e, com
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um salto ligeiro, saiu tambm.  sua frente, havia um corredor que tresandava a beb, talvez a muitos bebs. Ao fim do corredor, naquilo que parecia ser uma parede sem portas, uma seta vermelha apontava  esquerda, para uma estreita escada de madeira. No primeiro degrau estava Wicklow, agachado como um duende, lendo um livro enorme  luz de uma pilha. No ergueu a cabea quando eles passaram, mas Barley reparou que Katya o observava atentamente.
"O que ? Viu algum fantasma?", perguntou-lhe. T-lo-ia ouvido? E ele, ter-se-ia ouvido a si mesmo? Teria sequer falado? Estavam j num extenso sto. Frestas de cu trespassavam o telhado, os caibros dos telhados estavam manchados de dejectos de morcegos. Sobre as vigas do soalho havia um caminho feito de pranchas de andaimes. Barley segurou na mo dela. Uma mo larga e forte e seca. A nudez daquela mo contra a nudez da sua prpria mo, era como a ddiva de todo um corpo.
Avanou cautelosamente, entre cheiros de terebentina e linhaa e o sopro de um vento inesperado. Com alguma dificuldade passou entre um par de cisternas de ferro e viu uma gaivota de papel em tamanho natural voando pendurada numa trave, danando em volta do fio que a segurava. Barley avanou, conduzindo Katya. Para l da gaivota, pendia uma cortina listrada presa a um varo de chuveiro. Se no h gaivota, ento no h encontro, dissera Wicklow. Ausncia de gaivota significa aborto. Ora a est o meu epitfio, pensou Barley. "No havia gaivota, por isso ele abortou." Puxou a cortina e entrou num estdio de pintor, conduzindo-a sempre pela mo. No centro do estdio encontrava-se um cavalete e um cubo de madeira estofado onde decerto se sentaria o modelo. Um velho sof de espaldar alto assentava no cho sobre o seu estofo.  uma casa antiga, dissera Wicklow. Como eu, Wickers, como eu. Uma clarabia improvisada rompia o declive do telhado. Tambm a clarabia tinha uma marca vermelha pintada. Os russos no confiam nas paredes, explicara Wicklow, ela h-de falar melhor ao ar livre.
Barley abriu a clarabia, para grande consternao de uma colnia de pardais e pombos. Fez um sinal a Katya para subir primeiro, e reparou no jeito fcil com que o seu corpo longilneo trepou ao telhado. Seguiu-a, mas com to pouco jeito que bateu com a espinha na borda do telhado, o que o levou a soltar um previsvel "Chia!". Ficaram de p entre duas empenas, num vale coberto de chapa de chumbo, to pouco extenso, que caso se sentassem, nem os ps poderiam estender. De ruas que no podiam ver chegava-lhes a palpitao do trnsito. Katya olhava-o e de muito perto. E se ficssemos aqui, para sempre?", pensou ele. Os teus olhos, eu, o cu. Esfregava as costas, semicerrando os olhos por causa da dor.
"Di-lhe?" " s uma espinha fracturada." "Quem  aquele homem que est nas escadas?", perguntou ela.
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"Trabalha para mim,  o meu editor. Fica de vigia enquanto conversamos."
"Ontem  noite estava no hospital." "Que hospital?" "A noite passada, depois de ter estado consigo, tive de ir a um certo hospital."
"Est doente? Porque foi ao hospital?", perguntou Barley, deixando de esfregar as costas.
"No interessa. Ele estava l. Dava a impresso que tinha um brao partido. "
"No, no pode l ter estado", retorquiu Barley, sem acreditar no que dizia. "Depois de voc se ter ido embora ele esteve sempre comigo. Discutimos uma quantas coisas sobre os livros russos."
Barley viu a suspeita abandonar lentamente os olhos dela. "Estou cansada. Desculpe."
"Deixe-me dizer-lhe o que eu resolvi, se no estiver de acordo, diga. Conversamos e depois levo-a a jantar. Se os guardies do Povo ouviram a nossa conversa a noite passada, esto com certeza  espera que vamos jantar. O estdio pertence a um amigo meu, pintor e louco por jazz como eu. Nunca lhe disse o nome dele porque no consigo lembrar-me e talvez nunca o tenha sabido. Pensei em trazer-lhe uma garrafa e depois dvamos uma espreitadela aos quadros dele, s que o homem no apareceu. A seguir, fomos jantar e conversmos acerca de literatura e da paz mundial. Apesar da minha reputao, no lhe fiz qualquer proposta amorosa. Passei o tempo a contemplar a sua beleza, a qual me infunde um respeito excessivo. Que tal?"
" conveniente." Barley agachou-se num repente, tirou uma meia garrafa de Scotch do bolso e abriu-a. "Bebe disto?"
"No." "Eu tambm no. " Barley esperava que ela se sentasse ao seu lado, mas Katya permaneceu de p. Deitou um fio de whisky na tampa e ps a garrafa aos seus ps.
"Corno se chama ele?", perguntou. "O autor. Goethe. Quem  ele?" "Isso no interessa." "Em que unidade  que ele est? Em que firma? Qual  o nmero da sua caixa postal? Est num ministrio? Num laboratrio? Onde  que ele trabalha? No podemos desperdiar o pouco tempo que teMos."
"No sei. "
"Onde  que ele pra? Tambm no me vai dizer isso?" "Pra em muitos stios. Trabalha em muitos stios." "Como  que o conheceu?" "No sei. No sei que lhe possa dizer. "
"O que  que ele lhe disse para me dizer a mim?" Katya vacilou, como se ele a tivesse apanhado em falta. Com um ar pensativo, respondeu-lhe. "Disse-me o que era necessrio. Que eu
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devia confiar em si. Foi generoso.  por natureza um homem generoso. "
"Ento o que  que a detm?" Nada. "Porque julga que vim a Moscovo?" Nada. "Acha que me agrada brincar aos polcias e ladres em Moscovo?"
"No sei." "Porque me mandou o livro se no confia em mim?" "Foi por ele que o mandei. No fui eu que o escolhi a si. Foi ele", retorquiu Katya com um ar melanclico.
"Onde  que ele est agora? No hospital? Como  que falou com ele?" Barley fitou-a,  espera da resposta. "Porque no comea muito simplesmente a falar e depois logo se v?", sugeriu. "Ouem  ele, quem  voc, em que trabalha ele. "
"No sei. "
"Quem  que esteve no alpendre s trs da manh na noite do crime9" Nada, s o silncio. "Diga-me porque  que me arrastou para isto, Katya. Foi voc quem comeou, no eu. Katya? Est a ouvir-me9 Sou eu, Barley Blair. Blair, Barley Blair, fao umas habilidades, imito pssaros, bebo. Sou um amigo."
Barley adorava aqueles silncios graves enquanto a olhava naqueles olhos que no paravam de o fitar. Adora senti-Ia a escutar com os olhos. Adorava aquele retorno a uma proximidade quase ntima sempre que ela falava.
"No houve crime nenhum", disse ela. "Ele  meu amigo. O seu nome e ocupao no interessam."
Barley sorveu um pouco mais de whisky enquanto pensava naquela resposta. "Ento  isto que voc habitualmente faz pelos seus amigos? Passa clandestinamente para o Ocidente os manuscritos ilcitos que eles produzem?" Ela tambm pensa com os olhos, pensou. "Ele no lhe disse por acaso sobre que incidia o manuscrito?"
"Claro que no. No me faria correr riscos sem o meu consentimento."
Barley reparou no tom de defesa que havia na voz dela e isso melindrou-o. "Que lhe disse ele que havia no manuscrito?", perguntou.
"O manuscrito descreve o envolvimento do meu pas na preparao de armas anti-humanitrias de destruio macia durante muitos anos. Mostra-nos at que ponto a corrupo e a incompetncia grassam em todos es campos da nossa indstria de defesa. Fala-nos ainda de uma administrao que, de to deficiente, se torna criminosa, bem como de vrios atropelos ticos."
"Mas que grande tirada, Katya!", retorquiu Barley. "O que eu gostaria de saber era se tem conhecimento de outros pormenores, para alm do que me acaba de dizer. "
"No estou familiarizada com assuntos militares." "Ento posso concluir que ele  um militar." "No, no ."
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"Ento se no  militar, o que  que ele ?" Silncio. "Mas diga-me uma coisa, Katya. Voc aprova o que ele faz? Aprova a sua deciso de passar as informaes para o Ocidente?"
"Ele no as passou para o Ocidente, nem para qualquer bloco.  verdade que respeita os britnicos, mas isso no  importante.
O que  importante  que o seu gesto garantir uma verdadeira abertura entre os cientistas de todas as naes. Contribuir para destruir a corrida aos armamentos. " Ela ainda no tinha cedido por completo. Falava monocordicamente como se tivesse aprendido o texto de cor. "Ele acredita que no temos tempo a perder. Temos de destruir o abuso que se faz da cincia e os sistemas polticos responsveis por esse abuso. Quando ele fala de Filosofia,  em ingls que fala", acrescentou.
E voc ouve, pensou Barley. Ouve com os olhos. Em ingls. E entretanto magica se h-de ou no confiar em mim.
" um cientista?" ".  um cientista." "Odeio-os a todos. De que ramo  ele? Fsica?" "Talvez. No sei." "Mas as informaes do manuscrito so muito variadas. Fala de preciso, alvos, comando e controlo, motores de msseis. O nosso cientista trabalhar por acaso acompanhado? Quem  que lhe fornece o material? Como  que ele sabe tanta coisa?"
"No sei. O que sei  que est sozinho. Isso  bvio. No tenho assim tantos amigos. Ele no  um grupo.  possvel que dirija o trabalho de outras pessoas. No sei."
" um homem altamente colocado? Um chefe? Trabalha aqui em Moscovo?  um dirigente? O que  que ele , afinal?"
Katya abanou a cabea a cada pergunta. "No trabalha em Moscovo. De qualquer modo, nunca lhe perguntei onde trabalha e ele tambm no mo diz. "
"Faz testes?" "No sei. S sei que tem trabalhado em muitos stios. Por toda a Unio Sovitica. s vezes v-se que esteve a trabalhar ao sol, outras vezes que passou muito frio, outras ainda muito sol e muito frio. No sei."
"E nunca mencionou a unidade em que trabalha?" "No." "E nmeros postais, no tem? Nomes de chefes? O nome de um colega ou de um subordinado, talvez ... "
"Ele no est interessado em dizer-me tais coisas." E Barley acreditava nela. Enquanto estivesse com ela, acreditaria que o norte era o sul e que as crianas nascem em jacarands.
Katya fitava-o,  espera da prxima pergunta. "Ser que ele compreende as consequncias da divulgao do manuscrito?", perguntou-lhe Barley. "Quer dizer, as consequncias que
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essa divulgao ter para ele? Ser que ele sabe com que fogo est a brincar?"
"Ele diz que h momentos em que as nossas aces tm de vir primeiro e que s devemos pensar nas consequncias quando elas ocorrerem." Katya parecia estar  espera de que ele dissesse qualquer coisa, mas Barley aprendera j a abrandar a sua velocidade de reaco. "Se  nossa frente se desenha claramente um objectivo, ento podemos avanar um passo. Se nos dedicamos a todos os objectivos ao mesmo tempo, ento no avanaremos nada."
"E voc? Ter ele pensado nas consequncias que isso poder ter para si, se alguma vez se vier a saber?"
"Ele j se resignou." "E voc?" "Tambm, naturalmente. A deciso tambm foi minha. Se no, porque o apoiaria?"
"E os seus flhos?", perguntou ele. "Tudo o que estamos a fazer  para eles e para a sua gerao", retorquiu ela com uma determinao que raiava a clera.
"E as consequncias para a Me Rssia?" "Ns consideramos a destruio da Rssia prefervel  destruio de toda a humanidade. O nosso maior fardo  o passado. De todas as naoes, no apenas da Rssia. Consideramo-nos como os executores do passado. Ele diz que se no conseguirmos executar o nosso passado, nunca conseguiremos construir o futuro. S poderemos construir um novo mundo quando nos libertarmos das mentalidades do velho. Para dizermos a verdade, temos de estar preparados para ser os apstolos da negao. Ele cita Turgenev. Nlista  aquele que no reconhece nenhum princpio como certo, por muito que esse princpio seja venerado."
"E voc,  uma niilista ?" "No. Sou uma humanista. Se nos  dada a oportunidade de desempenharmos um papel na construo do futuro, ento no a po- deremos enjeitar."
Barley procurava naquela voz uma rstea de dvida. Nem rstea, nem sinal. O seu tom era perfeito, perfeitamente seguro.
"H quanto tempo  que ele diz coisas destas? Desde sempre? Ou s recentemente?"
"Ele sempre foi um idealista.  essa a sua natureza. Sempre foi uma criatura extremamente crtica, num sentido construtivo. Houve uma poca em que conseguiu convencer-se de que as armas de aniquilao eram to terrveis que teriam decerto o efeito de abolir a guerra. Acreditou que essas armas produziriam uma alterao nas mentalidades dos sistemas militares. Admitia convictamente o paradoxo de que quanto mais poderosas fossem as armas, maior seria a sua capacidade para implantar a paz. Por isso era um entusiasta das posies estratgicas americanas."
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Katya comeava a abrir-se. Barley sentia claramente que ela j no podia mais, que a conteno era j impossvel. Katya despertava e aproximava-se dele. Sob os cus de Moscovo, ela repelia todas as suas suspeitas, porque excessiva fora a sua solido, porque excessivo fora o seu abandono.
"E que facto ou factos contriburam para a sua mudana de opinio?"
"H muito que ele conhece a incompetncia e a arrogncia das nossas organizaes militares e burocrticas. H muito que sabe que  essa incompetncia e essa arrogncia que minam as razes do progresso, como ele diz. Inspiram-no a perestroika e a perspectiva da paz mundial. Mas no  um utpico, no  uma criatura passiva. Sabe muito bem que nada surgir por si. Sabe que o nosso povo est iludido e que lhe falta poder colectivo. A nova revoluo tem de ser imposta de cima. Pelos intelectuais. Pelos artistas. Pelos administradores. Pelos cientistas. O que ele pretende  dar o seu prprio contributo, um contributo irreversvel, para essa mudana, de acordo com as exortaes da nossa liderana. Por isso cita um provrbio russo que diz: 'Se o gelo est fino, temos de andar depressa'. Diz que vivemos h demasiado tempo numa era de que j no precisamos.
O progresso s ser um facto quando essa era tiver acabado."
"E voc est de acordo?" "Estou, tal como voc!" Uma exclamao inflamada. Fogo nos olhos. Um ingls demasiado perfeito, aprendido no convento, nos clssicos autorizados do passado. "Ele diz que o ouviu criticar o seu pas nos mesmssimos termos!"
"Diga-me uma coisa, Katya, ele no tem por acaso interesses vulgares como toda a gente?", perguntou Barley. "Por exemplo, gosta de cinema? De que marca  o carro dele?"
Katya afastara-se dele. Barley atentou no perfil dela, recortado contra o cu vazio de nuvens. Depois, bebeu mais um gole de Seotch.
"Voc disse que ele talvez fosse um fisico", lembrou-lhe. "Fez estudos de Fsica. Creio que tambm  especialista competente em certos campos da Engenharia. No campo em que trabalha, julgo que tais distines nem sempre so rigorosamente observadas,"
"Onde  que ele estudou?" "Na escola consideravam-no j um prodgio. Aos catorze anos ven-
ceu uma Olimpada de Matemtica. O seu xito foi divulgado pelos jornais de Leninegrado. Depois foi para o Litmo, mais tarde fez estudos de ps-graduao.  um indivduo brilhante."
"Eram precisamente esses indivduos que eu odiava quando andava na escola", retorquiu Barley, verificando, com algum alarme, que ela no gostara da sua observao.
"Mas no odiou Goethe. Alis, inspirou-o mesmo. Goethe cita muitas vezes o seu amigo Scott Blair. 'Se queremos que haja esperana, teremos todos de trair os nossos pases.' Foi mesmo voc que disse isto?"
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"O que  um Litmo?", perguntou Barley. "Litmo  o Instituto de Cincia Mecnica e ptica de Leninegrado. Depois da Universidade, Goethe foi para Novosibirsk, onde estudou na cidade cientfica. de Akademgorodok. Licenciou-se em Cincias, doutorou-se em Cincias. Fez tudo."
Barley gostaria de insistir com ela acerca daquele "tudo", mas receava assust-la. Por isso, deixou-a falar sobre si mesma. "E como  que voc aparece na vida dele?"
"Desde criana." "Criana de que idade?" Barley sentiu de novo reticncias na expresso dela, reticncias que se dissolveram passado um momento. Era como se ela precisasse de se lembrar de que estava em boa companhia - ou em to m companhia que pouca diferena faria comprometer-se ainda mais.
"Nos anos sessenta foi um intelectual importante", disse ela com um sorriso grave.
"Que idade tinha o prodgio?" "Trinta." "De que ano estamos a falar?" "l968. Nessa altura ainda ele era um idealista na defesa da paz. Dizia que os nosso dirigentes nunca seriam capazes de mandar os tanques. 'Os checos so nosso amigos', dizia ele. So como os srvios, e os blgaros. Se fosse em Varsvia, talvez mandassem os tanques. Mas contra os checos, contra os nossos amigos checos, nem pensar'."
Katya estava agora de costas para ele. Ela era um sem nmero de mulheres ao mesmo tempo. De costas para ele falava para o cu. No entanto, fazia-o penetrar na sua vida e escolhia-o como confidente.
Foi no ms de Agosto, em Leninegrado, disse ela, tinha dezasseis anos, estudava Francs e Alemo, era o ltimo ano de escola. Era uma aluna-modelo, sonhava com a paz e tinha uma viso revolucionra o mais romntica possvel. No era ainda uma mulher feita e julgava-se j uma mulher madura. Era com ironia que Katya ia falando de si. Aos dezasseis anos, tinha j lido Erich Fromin e Ortega y Gasset e Kafka, vira mesmo o Dr. Strangelovel. Considerava Sakharov como um homem correcto no seu pensamento, mas errado no mtodo. Preocupava-se com os judeus russos, mas partilhava a opinio do pai de que tinham sido os prprios judeus os causadores dos seus problemas. O pai era professor de Humanidades na Universidade, e a escola onde ela andava era para filhos e filhas da nomenclatura de Leninegrado. Tudo isto se passava em Agosto de 1968, mas Katya e os seus amigos ainda eram capazes de viver em esperana poltica. Barley tentou lembrar-se se alguma vez tinha vivido em esperana poltica e concluiu que no lhe parecia. Ela falava como se nunca mais a pudessem impedir de falar. Nesse momento Barley gos-
1 Film de Stariley Kubnck, corn Peter Selers, unia stira ern torm da que~ n~. (N do T)
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taria de lhe ter pegado na mo, como tinha feito nas escadas. Gostaria de lhe ter pegado em qualquer parte do corpo, de preferncia a
cara, gostaria de a ter podido beijar em vez de estar para ali a ouvi-Ia desfiar a histria dos seus amores.
"Ns acreditvamos que o Leste e o Ocidente estavam a aproximar-se", disse. "Quando os estudantes americanos se manifestavam contra a guerra do Vietriam, ns sentamo-nos orgulhosos deles e vamo-los como nossos camaradas de luta. Quando os estudantes de Paris se revoltaram, o nosso desejo era estar ao lado deles nas barrcadas, vestindo roupas iguais s deles, claro, boas roupas francesas a
que ns no tnhamos acesso."
Olhou num relance para ele e sorriu. Um quarto crescente tinha aparecido entre as estrelas e Barley tinha uma vaga ideia, seguramente literria, de que quarto crescente era um mau agouro. Um bando de gaivotas tinha-se instalado num telhado do outro lado da rua. No te deixarei nunca, pensou.
"Havia um homem no nosso prdio que tinha estado ausente durante-nove anos", continuou ela. "Voltou certa manh, fazendo de conta que nunca tinha estado fora. O meu pai convidou-o para jantar e durante toda a noite passou discos para ele ouvir. Creio que nunca tinha encontrado uma pessoa acabada de sair de um campo. Por isso, esperava que ele falasse de todos os horrores por que tinha passado. Nada disso. O homem no queria outra coisa seno ouvir Shostakovich. Nessa altura no entendia ainda que h sofrimentos que no podem ser descritos. Sabamos que na Checoslovquia estavam a ocorrer reformas extraordinrias. Acreditvamos que estas reformas chegariam em breve  Unio Sovitica, que em breve teramos uma
moeda forte e poderamos viajar livremente."
"E a sua me, onde estava?" "A minha me j tinha morrido." "De que morreu?" "De tuberculose. J estava doente quando eu nasci. A 20 de Agosto havia uma projeco de um filme de Godard no Clube dos Cientistas. S para convidados, claro." Involuntariamente a sua voz tinha-se tornado severa. "Os convites eram para duas pessoas.
O meu pai tinha indagado acerca do contedo moral do filme e mostrava-se relutante em levar-me. Eu insisti e ele acabou por aceder, com o argumento de que eu andava a estudar francs e portanto devia ver filmes franceses. Conhece o Clube dos Cientistas de Leninegrado?".
"No posso dizer que conhea", respondeu ele, recostando-se. "Alguma vez viu o filme A bout de soufflc?'" "Entrava nele", respondeu Barley, e Katya desatou a rir enquanto ele sorvia o whsky.
1 Filme de Jean-Luc Godard, com Jean-Paul Belmondo e Jean Seberg, um dos ttulos bsicos da "nouvelle vague" francesa, (N. do T.)
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"Ento h-de lembrar-se que era um filme muito tenso. Lembra-se?"
"Lembro." "Foi o filme mais forte, mais poderoso que alguma vez vi. Toda a gente ficou muito impressionada, mas para mim foi um verdadeiro choque. O Clube dos Cientistas fica junto do rio Neva.  um edifcio muito antigo, magnfico, com escadarias de mrmore e, sofs muito baixos, onde  difcil uma mulher sentar-se com uma saia apertada.       "
Katya olhava de novo  sua frente. Barley fitava de novo o seu perfil. "H um belssimo jardim de Inverno e uma sala que parece uma mesquita, com imponentes cortinados e carpetes luxuosas. O meu pai gostava muito de mim, mas preocupava-se comigo e por isso mostrava-se severo. Quando o filme acabou, fomos para uma sala de jantar com painis de madeira nas paredes. Uma sala lindssima. Sentmo-nos a uma mesa muito longa, como todas as outras, e foi a que eu conheci Yakov. Foi o meu pai quem nos apresentou. 'Apresento-te um novo gnio no mundo da Fsica', disse-me ele. O meu pai cometia por vezes o erro de ser sarcstico com os jovens. Yakov era muito belo. Tinha j ouvido falar dele, mas ningum me tinha dito que era to vulnervel, parecia mais um artista do que um cientista. Perguntei-lhe em que estava a trabalhar naquele momento e ele respondeu-me que tinha voltado para Leninegrado a fim de recuperar a sua inocncia. Desatei a rir e dei-lhe uma resposta que, numa rapariga de dezasseis anos, seria no mnimo inesperada. Disse-lhe que achava estranho que um cientista andasse  procura da sua inocncia, quando havia tanta gente que no se preocupava nada com isso e que, pelo contrrio, deveria preocupar-se. Ele explicou-me que em Akadenigorodok tinha realizado estudos extremamente brilhantes em certos campos e que por isso os militares no o largavam. Em Fsica, ao que parece, a distino entre investigao pacfica e investigao militar  frequentemente muito tnue. Os militares ofereciam-lhe tudo - privilgios, dinheiro para o seu trabalho -, mas ele recusava porque queria canalizar as suas energias para objectivos pacficos. Isso irritava os militares porque normalmente recrutam a nata dos nossos cientistas e no esto  espera de uma recusa. Por isso Yakov voltara  sua velha Universidade, na esperana de reencontrar a inocencia perdida. De incio pensara estudar Fsica Terica e procurara para tal o apoio de gente influente. No entanto, todos se mostravam relutantes precisamente por causa da sua atitude. Alm disso, no tinha autorizao para residir em Leninegrado. Falava com toda a liberdade, como acontece normalmente com os nossos cientistas. E sentia um entusiasmo incrvel por tudo o que se passava em Gorodok. Falava dos estrangeiros que passavam por l, dos jovens e brilhantes cientistas americanos vindos de Stanford e do MIT, sem esquecer os ingleses. Falava dos pintores que eram proibidos em Moscovo mas que podiam expr em Gorodok. Os seminrios, a intensidade daquela vida, a livre troca de ideias - e, disso estava certo,
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a livre troca de amor. 'Em que outro pas, seno na Rssa, teriam os cientistas um concerto especialmente realizado para eles, com Richter e Rostropovich, e Okudzhava a cantar, e Voznesensky a ler os seus poemas?! Este  o mundo que ns cientistas, devemos construir para os outros!' Ele brincava e dizia as suas piadas e eu ria-me como uma mulher madura. Nesses tempos ele era um homem extremamente espirituoso, mas tambm muito vulnervel, como hoje. H nele uma parte que se recusa a crescer.  o artista que h nele, mas  tambm o perfeccionista. J naquela poca criticava sem rodeios a incompetncia das autoridades. Dizia que havia tantos ovos e tantas salsichas no super-mercado de Godorok que iam l autocarros com gente de Novosibirsk   ie pelas dez da manh j no havia nada nas prateleiras. Porque  que tinham que ser as pessoas a fazer a viagem e no os ovos?, perguntava ele. Seria muito melhor se os ovos fossem ter com as pessoas! Ningum apanhava o lixo, acrescentava ele, e a electricidade era cortada dia sim dia sim. Por vezes, nas ruas, havia lixo que dava pelos joelhos. E chamavam quilo um Paraso cientfico! Nesse momento fiz outro comentrio precioso. 'Mas esse  o problema do Paraso', disse eu. 'No h ningum para recolher o lixo'. Toda a gente se riu imenso. Para mim aquela noite estava a ser um sucesso. Depois ele falou da velha guarda, que tentava opor-se s ideias dos novos e logo debandava abanando a cabea, como velhos camponeses que vissem pela primeira vez um tractor. Pouco importam as tentativas da velha guarda, acrescentou. O progresso acaba sempre por vencer. O comboio blindado da Revoluo que Estaline tinha feito descarrilar - disse ele ainda - seguia de novo em frente e a prxima paragem seria Marte. Foi ento que o meu pai o interrompeu com uma das suas opinies cnicas. O meu pai achava que Yakov fazia demasiado barulho com as suas ideias. 'Mas diga-me uma coisa, Yakov Yefremovich', disse o meu pai, 'Marte no era o deus da guerra?'. Num instante a expresso de Yakov ganhou um ar intensamente reflexivo. Nunca pensei que um homem pudesse mudar to depressa: num momento, audacioso, no momento seguinte, solitrio e angustiado. Intimamente censurava o meu pai. Estava furiosa com ele. Yakov tentava recuperar do choque, mas o meu pai deixara-o definitivamente desesperado. Yakov no lhe falou por acaso do pai dele?"
Katya estava sentada do outro lado daquele vale de telhas, com as suas longas pernas estiradas, o vestido cingido ao corpo. O cu escurecia, a lua e as estrelas cresciam no negrume da noite.
"Disse-me que o pai tinha morrido de uma overdose de inteligncia", replicou Barley.
"O pai dele participou num motim de prisioneiros de um campo. Foi o desespero que o levou  revolta. Yakov no soube da morte do pai durante muitos anos. Certo dia apareceu-lhe um velho em casa, dizendo que tinha morto o pai dele. Tinha sido guarda do campo em que o pai de Yakov estivera preso e participara na exe!cuo dos rebeldes. Cumprira ordens superiores, claro. Os amotinados tinham
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sido mortos s dzias pelas metralhadoras dos guardas, perto do terminal dos caminhos de ferro em Vorkuta. O guarda soluava ao contar isto. Yakov tinha apenas catorze anos mas perdoou ao velho e ofereceu-lhe vodka."
No posso fazer isto, pensou Barley. No tenho nada a ver com esta dimenso, no estou  altura desta gente.
"Em que ano foi morto o pai dele?", perguntou. O que voc tem de ser  um hamster.  praticamente a nica coisa que voc pode fazer, comportar-se como um hamster.
"Acho que foi na Primavera de 1952. Enquanto Yakov permanecia silencioso, toda a gente na mesa comeou a falar com a maior veemncia da Checoslovquia", prosseguiu ela no seu ingls perfeito e arqueolgico. "Diziam alguns que o bando dirigente iria mandar os tanques. O meu pai tinha a certeza de que assim seria. Outros diziam que havia razes para que mandassem os tanques. O meu pai contrapunha que os nossos dirigentes enviariam os tanques, tivessem ou no razo. Os czares vermelhos, acrescentou, fariam o que muito bem lhes apetecesse, tal e qual como os mares brancos tinham feito.
O sistema venceria porque o sistema sempre vencera e o sistema era precisamente a nossa maldio. Esta a convico do meu pai, como mais tarde viria a ser a de Yakov. Mas nessa altura ainda Yakov estava decidido a acreditar na Revoluo. Gostaria que a morte do pai tivesse valido a pena. Depois de escutar atentamente o meu pai, tornou-se agressivo. 'Nunca mandaro os tanquesP, disse. 'A Revoluo h-de sobreviver!', acrescentou, batendo com o punho na mesa. Reparou nas mos *dele? So como as mos dum pianista, muito brancas, muito magras. Nesse momento, tinha j bebido demais.
O meu pai tambm e por isso reagiu com alguma irritao aos comentrios de Yakov. Queria que o deixassem em paz com o seu pessimismo. Um humanista distinto como o meu pai no poderia gostar que um jovem cientista como Yakov o contestasse, tanto mais que o considerava um indivduo arrogante e presunoso. Talvez o meu pai tambm sentisse cimes, porque, enquanto discutiam, senti que me estava a apaixonar por Yakov."
Barley bebeu mais um golinho de whisky. "No o choca?", perguntou ela, indignadamente, de novo com um sorriso nos lbios. "No o choca que uma rapariga de dezasseis anos se apaixone por um homem experiente, j na casa dos trinta?"
Barley no se sentia muito perspicaz, mas ela parecia necessitar de uma resposta tranquilizadora. "No sei que lhe diga, mas, vendo a questo globalmente, diria que foram ambos muito felizes."
"Quando a recepo acabou, pedi ao meu pai trs rublos para ir ao Caf Sever comer gelados com as minhas amigas. Havia vrias filhas de acadrnicos na recepo, algumas delas eram minhas colegas de escola. Convidei tambm Yakov para vir connosco. A caminho do caf, perguntei-lhe onde  que vivia. Respondeu-me que vivia na rua do Professor Popov. Depois perguntou-me: 'Quem foi PopovT Desatei a rir.
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Toda a gente sabe quem foi Popov, disse. Popov foi o grande inventor russo da rdio, o homem que emitiu um sinal rdio ainda antes de Marconi. Yakov no estava assim to certo. 'Talvez Popov nunca tenha existido', replicou. 'Talvez o Partido o tenha inventado para satisfazer a nossa obsesso de que somos os primeiros a inventar tudo'. Com esta resposta fiquei a saber que, l no fundo, ele ainda tinha dvidas sobre o que os nossos dirigentes fariam na Checoslovquia".
Bailey acenou-lhe sensatamente com a cabea, apesar de no sentir sensatez nenhuma.
"Perguntei-lhe se o apartamento dele era partilhado ou s dele. Respondeu-me que era um quarto que partilhava com um antigo conhecido do Litmo que trabalhava  noite num laboratrio muito especial e que por isso raramente se encontravam. 'Ento mostre-me onde vive', disse-lhe eu. 'Quero saber se vive confortavelmente.' Foi ele o meu primeiro amante", disse ela com a maior simplicidade. "Foi extremamente delicado, corno eu esperava, mas foi tambm um homem apaixonado. "
"Bravo", disse Barley, mas to baixo que duvidava que ela o tivesse ouvido.
"Fiquei com ele trs horas e apanhei o ltimo metro. O meu pai estava  minha espera. Falei com ele como se fosse uma estranha de visita quela casa. No preguei olho, essa noite. No dia seguinte as notcias da B13C. Os tanques tinham invadido Praga. O meu pai, que tinha previsto a invaso, estava desesperado. Mas nesse momento no era o meu pai que me preocupava. Em vez de ir para a escola, fui  procura de Yakov. O seu companheiro de quarto disse-me que o encontraria no Saigo, nome por que era conhecido um caf na Nevsky Prospekt, um caf frequentado por poetas, traficantes de droga e especuladores, nunca por filhas de professores universitrios. Yakov estava a beber caf, mas via-se perfeitamente que estava bebado. No parara de beber vodka desde que ouvira as notcias. 'O teu pai tem razo', disse ele. 'O sistema vence sempre. Falamos ns de liberdade e afinal somos ns os opressores.' Trs meses depois regressou a Novosibirsk. Apesar de toda a sua amargura, regressou. 'Tenho de escolher entre morrer de obscuridade e morrer de compronisso', disse-me. 'Como  uma escolha entre uma morte e outra, o melhor  optar pela alternativa mais confortvel. "
"E como  que voc ficou?", perguntou Barley. "Com vergonha dele. Disse-lhe que ele era o meu ideal e que me sentia decepcionada. Tinha acabado de ler os romances de Stendlial, por isso falei-lhe no tom de uma grande herona francesa. Mesmo assim acreditava que ele tinha tomado uma deciso imoral. Dizia uma coisa e fazia outra. Na Unio Sovitica, disse-lhe eu, h demasiada gente a fazer isso mesmo. Disse-lhe ainda que nunca mais falaria com ele enquanto no corrigisse devidamente aquela escolha imoral. Lembrei-lhe o caso de E. M. Forster, que ambos admirvamos. Disse-lhe que ele tinha de ser um homem de um s rosto. Que
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os seus pensamentos e aces tinham de ser uma e a mesma coisa. Claro que passado pouco tempo compadeci-me dele e reatmos, mas j no era a mesma coisa, a nossa relao tinha perdido todo o romantismo inicial. De Novosibirsk enviava-me cartas frias. Sentia vergonha dele. Talvez de mim mesma, tarnbm."
"De maneira que acabou por se casar com Volodya", disse Barley. "Exacto." "E manteve a sua relao com Yakov?", sugeriu Barley, como se fosse a coisa mais natural deste mundo.
Katya corou, enquanto o olhava com severidade. "Sim,  verdade, durante algum tempo eu e Yakov mantivrnos uma relao clandestina. No nos encontrvamos muitas vezes, de vez em quando apenas. Ele dizia que ns ramos um romance que no tinha sido acabado. Precisvamos um do outro para completar o destino de cada um. Ele tinha razo, mas eu no me tinha apercebido do poder da sua influncia sobre mim, ou do poder que eu tinha sobre ele. Pensei que se nos vssemos mais vezes talvez nos consegussemos libertar um do outro. Quando conclu que no era isso que acontecia, deixei de o ver. Amava-o mas recusava-me a v-lo. E alm disso estava grvida de Volodya."
"Quando voltaram a encontrar-se?" "Depois da ltima feira do livro de Moscovo. Foi voc o catalizador de que Yakov estava  espera. Ele tinha passado a frias a beber. Escrevera inmeros documentos internos e apresentara muitas queixas oficiais. Nenhuma delas tinha perturbado minimamente o sistema, embora me parea que ele conseguira incomodar as autoridades. Mas voc apareceu e falou-lhe ao corao. O que voc fez foi transformar os pensamentos dele em palavras num momento crucial da sua vida, e alm disso voc ligava as palavras  aco, coisa que Yakov no considera fcil. No dia seguinte, telefonou-me para o meu escritrio usando um pretexto. Disse-me que um amigo lhe tinha emprestado o apartamento. A minha relao com Volodya estava j a desintegrar-se nessa altura, embora vivssemos ainda juntos porque Volodya estava  espera de arranjar casa. Fui ter com ele ao apartamento. Foi a que ele me falou de si pela primeira vez. E muito disse. Disse-me que voc tinha feito com que tudo se tornasse claro para ele. 'Aquele ingls deu-me a soluo. A partir de agora, temos de dedicar-nos apenas  aco, e aco significa sacrificio', disse ele. 'As palavras so a maldio da sociedade russa. So um sucedneo para a aco.' YakoV sabia que eu tinha contactos com editores ocidentais, por isso pediu-me que procurasse o seu nome nas nossas listas de visitantes estrangeiros. Lanou-se de imediato ao trabalho. Queria que eu lhe desse o manuscrito a si. Andava a beber imenso. Apavorava-me que bebesse tanto. 'Como podes escrever bbado?', perguntei-lhe uma vez. Respondeu-me que bebia para sobreviver."
Barley bebeu mais um trago de whisky. "Contou ao seu marido que tinha voltado a ver Yakov?"
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"No." "E Volodya no descobriu?" "No." "Ento quem  que sabe?" Katya respondeu prontamente, como se j se tivesse feito a mesma pergunta por vrias vezes.
"Yakov nada diz aos seus amigos. Disso no tenho dvida. Quando sou eu a pedir um apartamento emprestado, digo apenas que  por uma razo privada. Na Rssia temos palavras para segredo e solido, mas no temos palavra nenhuma para privacidade."
"E as suas amigas? No perceberam nada?" "No somos propriamente anjos. Se lhes peo certos favores, elas tiram determinadas concluses. Por vezes sou eu que fao os favores. Nada mais. "
"E ningum ajudou Yakov a elaborar o manuscrito?" "No." "Nenhum dos seus amigos dos copos?" "No." "Como pode estar to certa?" "Porque tenho a certeza de que ele est completamente sozinho com os seus pensamentos."
" feliz com ele?" "Como?" "Gosta dele? Ama-o? Ele diverte-a?" "Penso que Yakov  um grande homem, e tambm um homem muito vulnervel que no pode sobreviver sem mim. Ser um perfeccionista equivale a ser uma criana. Equivale tambm a uma ausncia total de sensatez, a uma incapacidade para aceitar o lado prtico da vida. Creio que sem mim ele no se aguentaria."
"E neste momento, ainda aguenta?" "Yakov responder-lhe-ia com esta pergunta: destes dois homens, qual  o so: aquele que planeia o extermnio da humanidade, ou aquele que d os passos necessrios para o evitar?"
"E aquele que faz ambas as coisas?" Katya no respondeu. Sabia que ele estava a provoc-la. Barley sentia cimes, queria desgastar os alicerces daquela profunda fidelidade.
"Ele  casado?", perguntou. Uma expresso furiosa varreu o rosto de Katya. "No creio que ele seja casado. Mas isso no interessa."
"Tem filhos?" "Essas perguntas so ridculas." "A situao  ridcula." "Ele diz que os seres humanos so as nicas criaturas que fazem dos filhos vtimas. Yakov est decidido a no fazer vtimas."
Excepto as vtimas de Katya, pensou Barley, mas conseguiu no o dizer.
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"Portanto voc seguiu a carreira dele com interesse", sugeriu ele secamente, procurando de novo situar Goethe.
" distncia e sem conhecer porrnenores." "E durante todo esse tempo nunca soube em que  que ele trabalhava?  isso que me tem estado a dizer?"
"O que eu consegui saber, deduzi-o das nossas discusses sobre questes ticas. 'Que poro da humanidade teremos de exterminar se quisermos preservar a humanidade? Como podemos falar de luta pela paz se planeamos guerras terrveis? Como podemos falar de alvos selectivos se no possumos os mecanismos de preciso necessrios para os atingirmosT Quando discutimos assuntos como estes, tenho naturalmente conscincia do seu envolvimento. Quando ele me diz que o maior perigo para a humanidade no  a realidade do poder sovitico mas sim a sua iluso, eu no o questiono. Encorajo-o. Incito-o a ser um homem coerente e se necessrio corajoso. Mas no o questiono. "
"Rogov? Nunca lhe falou de um Rogov? Do Professor Arkady Rogov?"
"J lhe disse que ele no fala dos colegas. "
"Quem lhe disse que Rogov era colega dele?" "Pela sua pergunta conclu que era", retorquiu Katya furiosa, e de novo Barley acreditou nela.
"De que modo comunica com ele?", perguntou Barley, retomando o seu tom afvel.
"Isso no interessa. Um certo amigo dele recebe uma determinada mensagem, informa-o e Yakov telefona-me depois."
"E esse certo amigo sabe quem envia essa determinada mensagem?"
"Nada indica que saiba. Sabe que  uma mulher. Nada mais." "Yakov tem medo?" "Fala muito de coragem, portanto posso concluir que tem medo. Cita Nietzche. 'O bem supremo  no ter medo.' Cita Pasternak. 'A raiz da beleza...'"
"E voc?" Katya desviou os olhos. Nas casas prximas acendiam-se as primeiras luzes.
"No posso pensar apenas nos meus filhos. Tenho de pensar nos filhos de todos", disse ela, e Barley reparou em duas lgrimas que jaziam esquecidas no seu rosto. Bebeu um gole mais de whsky e cantarolou alguns compassos de Basie. Quando voltou a olhar para ela, j as lgrimas tinha desaparecido.
"Ele fala da grande mentira", disse ela, como se se tivessse lembrado disso nesse preciso momento.
"Que grande mentira?" "Tudo faz parte da mesma grande mentira, tudo, at a mais nfima pea sobressalente da arma mais insignificante. At os re-
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sultados que so enviados para Moscovo fazem parte da grande mentira. "
"Resultados? Que resultados? Resultados de qu?" "No sei. "
"De testes?" Katya pareceu esquecer-se da sua negativa inicial. "Sim, talvez de testes. Creio que o que ele quer dizer  que os resultados dus testes so deliberadamente distorcidos, de molde a satisfazer as ordens dos generais e as exigncias de produo oficiais dos burocratas. Talvez seja ele prprio quem os distorce. Yakov  um homem muito complicado. Por vezes fala dos seus muitos privilgios, que muito o envergonham."
A lista das compras, como Walter lhe tinha chamado. Com um sentido do dever j muito embotado, Barley atacou os ltimos artigos da lista.
"Ele no mencionou nenhum projecto em particular9" "No. "
"Nunca referiu nenhuma participao sua em sistemas de comando? Nunca lhe disse como  controlado o comando operacional?"
"No." "Nunca lhe disse que passos  necessrio dar para prevenir ataques lanados por engano?"
"No." "Nunca, sugeriu que podia estar envolvido no processamento de dados?"
Katya estava cansada. "No." "E promoes? No  promovido de vez em quando? Medalhas? Festas de arromba sempre que sobe um degrau da escada?"
"S fala de promoes para dizer que a corrupo alastra. J lhe disse que ele talvez tenha feito crticas ao sistema demasiado abertamente. No sei."
Katya tinha-se afastado dele. A cortina do cabelo ocultava-lhe o rosto.
"O melhor ser voc fazer-lhe as perguntas directamente", disse ela, no tom de algum que se preparava para sair, "Ele quer encontrar-se consigo em Leninegrado, na sexta-feira. Vai assistir a uma importante conferncia numa das instituies cientficas militares."
Primeiro os cus agitaram-se, depois Barley apercebeu-se da friagem da noite. Parecia estar encerrado numa nuvem de gelo, embora o cu escurecesse e clareasse a todo o momento e a lua nova, logo que o movimento incessante das nuvens lho permitiu, irradiasse uma luz clida.
"Yakov props trs stios e trs horas", prosseguiu Katya no mesmo tom monocrdico. "Pede-lhe que comparea em qualquer desses locais s horas marcadas. Ele estar presente num deles caso
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possa. Pediu-me ainda para lhe mandar as suas saudaes e agradecimentos. Yakov tem por si muito apreo."
Katya ditou-lhe trs moradas e observou-o atentamente enquanto ele as escrevia no caderno, usando o seu arremedo de cdigo. Para sarem tiveram ainda de esperar algum tempo, j que Barley teve mais um dos seus acessos de espirros. Pacientemente, Katya aguardou que os espirros passassem, enquanto Barley arquejava e amaldioava o Criador.
Jantaram como dois amantes exaustos numa adega com um velho co cinzento e uma cigana que cantava blues acompanhada  guitarra. Quem era o proprietrio da adega, quem permitia que aquele local existisse ou porqu, eram mistrios que Barley nunca se tinha dado ao trabalho de deslindar. Tudo o que sabia era que numa encarnao qualquer, numa j longnqua feira do livro, tinha aterrado naquela adega j completamente bbado, com um grupo de editores polacos completamente doidos, acabando a noite a tocar "Bless This House" com um saxofone cado do cu.
Durante o jantar o dilogo entre os dois no ultrapassou o nvel da mera formalidade. Enquanto falavam o abismo que os separava no parou de aumentar. Parecia a Barley que esse abismo se resumia afinal a toda a insignificncia da sua pessoa. Fitava-a atentamente e sentia que no tinha nada para lhe oferecer que ela no tivesse em quantidade e qualidade muito superiores. Se as coisas tivessem tomado o rumo que nele era normal, ter-lhe-ia feito uma apaixonada declarao de amor. O recurso intempestivo  expresso de sentimentos puros e absolutos ter-lhe-ia sido essencial para acabar com a tenso natural numa relao recente. Porm, na presena de Katya, no encontrava sentimentos que fossem to puros e absolutos como os dela. Sentiu que a sua vida no passava de uma srie de ressurreies inteis, um fracasso que o fracasso seguinte suplantava sempre. Horrorizado, conclua que pertencia a uma sociedade inteiramente materialista, a uma sociedade que quase no ligava importncia aos grandes temas do Homem. Mas isso eram coisas que no podia dizer a Katya. Se lhas dissesse, arriscar-se-ia a destruir a imagem que ela tinha dele, e, cada essa mscara, no teria rigorosamente nada para lhe oferecer.
Enquanto falavam de livros, Barley assistia ao progressivo afastamento daquela mulher. O rosto dela parecia ausente, a voz prosaica. Tentou reencontr-la, cantou e danou para ela, mas Katya estava definitivamente longe. No fundo, fimitava-se a repetir as declaraes formais e sem brilho que Barley tinha ouvido durante todo o dia, enquanto aguardava ansiosamente a hora do seu encontro. No tarda nada, pensou, estou a falar-lhe da Potomac Boston e a explicar-lhe que o rio e a cidade no tm nada a ver um com o outro. E Deus sabe que passado um momento era isso mesmo que estava a fazer.
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S pelas onze horas, depois de a gerncia do restaurante ter apagado as luzes e quando a acompanhava j pelas ruas desertas at  estao de metro,  que Barley se deu conta - apesar de a ideia ser no mnimo pouco razovel - de que talvez tivesse causado nela uma impresso que, embora a um nvel modesto, podia ser comparada com o deslumbramento que ela provocara nele. Katya agarrava-lhe no brao. Os seus longos dedos colavam-se ao antebrao dele. Para acompanhar o ritmo de Barley, a sua passada era agora mais larga. A boca branca do elevador abriu-se para a receber. Os lustres reluziam por cima das suas cabeas como rvores de Natal invertidas, quando se despediram com o tradicional beijo russo: primeiro na face esquerda, depois na face direita, finalmente na face esquerda. E um "boa-noite" depois dos trs beijos.
"Mr. Blair! Bem me parecia que era o senhor! Mas que coincidncia! Venha, ns levamo-lo a casa!"
Barley entrou para o carro e Wicklow, com a sua agilidade de acrobata, afundou-se no banco de trs e lanou-se ao trabalho de retirar o gravador do fundo das costas de Barley.
Deixaram-no no Odessa. Tinham ainda bastante trabalho para fazer. O hall do hotel parecia um terminal de aeroporto num dia de persistente nevoeiro. Em todos os sofs e poltronas, convidados muito pouco oficiais mas que tinham pago a taxa corrente, dormitavam na escurido. Barley examinou-os benignamente, franzindo o nariz. Alguns traziam fatos de treino. Outros estavam mais formalmente vestidos.
"Algum alinha num copo?", perguntou em voz bem alta. Respondeu-lhe o silncio. "No me digam que no partilham comigo um copinho de whisky!", acrescentou, retirando a garrafa, aind dois teros cheia, do bolso de dentro da gabardina. Bebeu um longo gole para dar o exemplo, e passou a garrafa para o vizinho do lado.
E foi assim que Wicklow o encontrou duas horas depois - no hall do hotel, amistosamente acampado no meio de um grupo de gratas almas noctvagas, deliciando-se com um ltimo whisky antes de recolher ao quarto.
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"Quem so estes americanos que o Clive foi desencantar?", murmurei para Ned, enquanto nos reunamos como devotos madruga- dores  volta do gravador de Brock na sala de controlo.
O relgio de Londres marcava as seis. O estrpido matinal de Victoria Street no se fazia ainda sentir. A chiadeira da bobina do gravador parecia um coro de estorninhos no meio de to profundo silncio. A fita chegara pelo correio meia hora antes, depois de ter viajado por terra at Helsnquia e num avio especial at Northolt, sempre na mala diplomtica, como era bvio. Se Ned houvesse cedido  diablica tentao tecnolgica, teramos evitado processo to dispendioso. E a tentao, neste caso, era um novo aparelho, fervorosamente recomendado pelos feiticeiros de Langley, e que, segundo eles, transmitia o mais seguramente possvel a palavra falada. Mas Ned era Ned e Ned preferia os seus prprios mtodos, cuja eficcia a experincia confirmava.
Sentado  sua secretria, Ned assinava um documento, ocultando-o ao mesmo tempo com a mo esquerda. Dobrou o papel depois e meteu-o num envelope, que fechou e entregou a Enuna, uma das suas assistentes, uma mulher de uma altura exorbitante. Claro que nesse momento j no estava  espera de uma resposta, pelo que a sua veemncia no deixou de me surpreender.
"No passam de uns miserveis oportunistas", retorquiu ele. "De Langley?" "Da Segurana de quem?", insisti. Ned abanou a cabea, demasiado furioso para poder responder. Fora o documento que acabara de assinar que o deixara assim, ou a presena dos intrusos americanos? Eram dois. Quem os escoltava era Johnny, o homem deles de Londres. Vestiam blazers azuis-marinhos
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e usavam o cabelo cortado  escovinha. Exibiam um asseio, um aprumo dignos de mrmons, o que no deixava de me repugnar. Entre os dois sentara-se Clive, mas Bob tinha-se sentado ostensivamente a um canto da sala, ao lado de Walter, que estava com um ar perfeitamente abatido - talvez por causa da hora, pensei. Mesmo Johnny parecia incomodado com a presena dos dois estranhos, e incomodado foi como eu me senti de imediato. Aqueles rostos obtusos e desconhecidos no tinham lugar possvel na nossa operao e para mais num momento to crucial. Faziam-me lembrar duas carpideiras  espera de uma morte qualquer. Da morte de quem? Olhei de novo para Walter e a minha inquietao adensou-se.
Examinei uma vez mais os dois americanos, cados sabe-se l de onde, to insignificantes, to certinhos, to sem carcter. Segurana, tinha dito Ned. Mas porqu? E porqu agora? Porque olhavam eles para toda a gente, excepto para Walter? Porque olhava Walter para todos os presentes, excepto para eles? E porque  que Bob se tinha sentado longe deles? E por que razo Johnny no fazia outra coisa seno olhar para as mos? Felizmente nesse momento a gravao interrompeu os meus pensamentos.
Ouvimos o estrondo de passos nas escadas de madeira. Depois, um som que parecia ser de pancadas e a imprecao de Barley ao bater com as costas na clarabia. Finalmente, o som de ps arrastados: era o momento em que subiam ao telhado.
 uma sesso, pensei, quando comemos a ouvir aquele dilogo num telhado de Moscovo. Barley e Katya falavam-nos do alm. Num instante esqueci os dois intrusos e os seus rostos inexpressivos de carrascos.
Ned era o nico de ns com auscultadores. S mais tarde, quando os experimentei,  que percebi a diferena. Com os auscultadores, ouviam-se os pombos de Moscovo esvoaando no fronto e a respirao rpida que transparece na voz de Katya. E o bater do corao do nosso homem, nitidamente captado pelos microfones que ele tinha no corpo.
Brock passou toda a cena do telhado at que Ned ordenou uma pausa. Apenas os dois intrusos pareciam ter ficado impassveis. Os seus olhos castanhos varriam-nos a todos ns e no atentavam em ningum. Walter corara.
Brock passou depois a cena do jantar. Ningum se mexia: no se ouvia um suspiro, o ranger de uma cadeira, um estalo de dedos. Nem mesmo quando a gravao acabou e Brock desbobinou a fita. Silncio total. Ned tirou os auscultadores e deu incio  sua interveno.
"Yakov Yefremovich, ltimo apelido desconhecido, fsico, trinta anos em 1968, portanto nascido em 1938", anunciou, pegando num formulrio cor-de-rosa e escrevinhando nele. "Walter, ofertas?"
Walter tratou de recobrar nimo. Parecia agitado, e na sua voz j no havia sinais da habitual frivolidade. "Yefrem, cientista sovitico,
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outros nomes desconhecidos, pai de Yakov Yefremovich, acima referido, morto em Vorkuta depois de um motim, na Primavera de 52"         '
-iendeclarou, sem olhar para o seu bloco. "No pode haver muitos 4. tistas chamados Yefrem executados por overdose de inteligncia, nem mesmo nos tempos do simptico Estaline", acrescentou num tom perfeitamente pattico.
A ideia era absurda, mas nesse momento pareceu-me ver lgrimas nos seus olhos. Talvez tenha mesmo morrido algum, pensei, olhando uma vez mais para os dois mrmons.
"Johnny?", disse Ned, continuando a escrever. "Creio que ficaremos com Boris, outros nomes desconhecidos, vivo, professor de Humanidades, Universidade de Leninegrado, fins dos anos sessenta, uma filha, Yekaterina", disse Johnny, que continuava a olhar para as mos.
Ned pegou noutro formulrio, preencheu-o e atirou-o para o seu arquivador de plstico, como se fosse dinheiro que lhe agradasse deitar fora.
"Palfrey, quer jogar?" "Se no v inconveniente, ficaria com os jornais de Leninegrado", disse eu no tom mais ligeiro possvel, dado que os americanos de Clive tinham os olhos castanhos pespegados em mim. "Gostaria de saber quem foram os corredores, os juzes de partida e chegada e os vencedores das Olimpadas de Matemtica de 1.952", acrescentei, acompanhado por alguns risos. "E por uma questo de segurana talvez no fosse mau ver tambm as de 51 e 53. E j agora, podamos incluir as suas medalhas acadmicas. Pode ser? 'Ele licenciou-se em Cincias, doutorou-se em Cincias. Fez tudo', disse ela. Poderei investigar 'tudo' o que ele fez? Obrigado."
Feitos os lances, Ned olhou  sua volta  procura de Emma e pediu-lhe que levasse os formulrios para os Arquivos. Mas isso no agradou a Walter, subitamente decidido a que no o ignorassem. Num pice levantou-se e correu para a secretria de Ned, metro e meio de insignificncia, os punhos pequeninos esvoaando  sua frente.
"Eu fao a pesquisa sozinho", anunciou num tom excessivamente dramtico, apertando o feixe de papis cor-de-rosa contra o peito. "Esta guerra  demasiado importante para que a ponhamos nas mos dos nossos generais reformados dos Arquivos, por muito irresistveis que eles sejam."
E lembro-me de ter reparado no olhar com que os mrmons seguiram Walter at ele sair da sala, e no olhar que lanaram um ao outro enquanto ouvamos o passinho apressado e compassado de Walter ao longo do corredor. E no  por hoje saber o que sei que lhes digo que, naquele momento, o meu sangue gelou de inquietao por Walter, sem que eu chegasse a perceber porqu.
"Vamos apanhar um bocado de ar do campo", disse-me Ned pelo
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telefone interno, uma hora depois, tinha eu acabado de regressar  minha secretria na sede. "Diga ao Clive que preciso de si."
"Ento o melhor  ir, no?", retorquiu Clive, ainda trancado no seu gabinete com os dois mrmons.
Tnhamos pedido emprestado um Ford bastante rpido a um dos nossos colegas. Enquanto conduzia, Ned procurou evitar as minhas poucas tentativas de dilogo. Em vez de falar, deu-me o processo para ler. Chegados aos campos de Berkshire, Ned continuava em silncio. E quando atendeu o telefone do carro, para responder a Brock que precisava de uma confirmao qualquer, limitou-se a resmungar um elptico "ento diga-lhe", regressando imediatamente s suas cogitaes.
Estvamos a quarenta milhas de Londres, no mais ftido planeta at hoje produzido pelo homem. Estvamos nos bairros-da-lata da cincia moderna, que so stios onde a relva est sempre bem aparada. Os pilares do porto, j umas relquias, tinham a encim-los dois lees de grs que a eroso corroera. Um homem de modos educados, com um casaco desportivo castanho, abriu a porta a Ned. O seu colega explorou imediatamente debaixo do chassis com um detector. Depois, muito educadamente, apalparam-nos de alto a baixo.
"Os senhores vo levar a pasta?" "Vamos", retorquiu Ned. "Importa-se que a abra, sir9" " melhor no abrir." "Ento, no se importam que a passemos pela caixa? No tem negativos l dentro, pois no, sir?"
"Faa o favor", disse eu. "Passe-a pela caixa." Ficmos a v-los enquanto passavam com a pasta por um objecto verde que mais parecia um balde de carvo. Acabada a operao, restituiram-nos a pasta.
"Obrigado", disse eu, recebendo-a de volta. "No tem de qu, sir, foi um prazer."
O furgo azul  nossa frente dizia SIGAM-ME. Um lobo da Alscia olhava-nos com um ar feroz atrs da janela gradeada do furgo. Os portes abriram-se electronicamente, revelando montculos de relva aparada que mais pareciam campas cobertas de vegetao. Dunas verde-azeitona estendiam-se a perder de vista. Naquele local uma nuvem em forma de cogumelo teria parecido uma coisa perfeitamente natural.Estvamos a entrar no parque. Dois busardos volteavam no cu sem nuvens. Uma vedao alta de arame farpado cercava os campos de feno. Edifcios de tijolo irrepreensivelmente limpos aninhavam-se em engenhosas cavidades. Um cartaz chamava a ateno para a necessidade de se vestir roupa protectora nas zonas D a K. Uma caveira com dois ossos cruzados dizia "Voc Foi Avisado".
O furgo  nossa frente seguia a uma velocidade de funeral. Arrastadamente, passmos uma curva.  nossa frente, courts de tnis vazios e torres de alumnio. Caminhos de argila colorida iam ficando lenta-
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mente para trs, guiando-nos at um cacho de abrigos verdes. No meio deles, sobre uma colina, encontrava-se o ltimo vestgio da era pr-nuclear, uma tpica manso rural de Berkshire, de tijolo e pedra, com a palavra "Administrador" gravada a stencil no porto. Um homem corpulento descia agilmente o caminho irregularmente empedrado. Trazia um blazer verde e uma gravata com um desenho de raquetes de squash douradas, e um leno metido na virola do punho.
"Vm da Firma, no  verdade? Muito bem. Eu sou o O'Mara. E os senhores so ... ? Eu disse ao nosso homem para esperar no laboratrio at que o charnssemos."
"Muito bem", disse Ned. O'Mara tinha um cabelo louro com invases de grisalho e uma voz brusca de militar, que o lcool minara de dissonncias. O pescoo era rotundo e nos seus dedos de atleta eram ntidas as manchas cor-de-mogno provocadas por muito anos de nicotina. "O'Mara  o tipo que controla os nossos cientistas", dissera-me Ned, num dos raros dilogos durante a viagem. "Em parte pertence ao pessoal, mas tambm pertence  segurana, enfim pertence a esta merda toda."
A sala de estar parecia ter sido limpa e arranjada por prisioneiros de guerra napolenicos. At os tijolos da lareira tinham sido encerados e as Unhas de estuque entre eles haviam sido realadas com uma primorosa pintura a cal. Sentmo-nos em poltronas de um padro cor-de-rosa, bebendo gin-tnico com imenso gelo. Ferraduras de cavalo cintilavam nas traves negras do tecto, igualmente brilhantes do muito polimento.
"Acabo de regressar dos Estados-Unidos", lembrou O'Mara, como que explicando a nossa recente separao. Ergueu o seu copo e atacou-o como se estivesse sequioso. "Vocs vo l muitas vezes?"
"Uma vez por outra", disse Ned. "De vez em quando", disse eu. "Sempre que o dever chama." "Ns, por acaso, mandamos bastante pessoal para l. S por uns tempos, claro. So emprstimos que fazemos. Alguns vo para o
0k1ahorna, outros para o Nevada, outros ainda para o Utah. A maior parte gosta daquilo. Mas h sempre uns quantos que ficam apanhados e querem logo voltar para casa." Bebeu mais um gole e
demorou ainda um tempo a engolir. "Visitei o laboratrio de armamentos deles, em Livermore, na Califrnia. Um belo local. E tratam muito bem as visitas. Nada-se em dinheiro por l. Convidaram-nos para assistirmos a um seminrio sobre a morte. Claro que era um tema incrivelmente macabro, mas os psiquiatras, ao que parece, acreditavam que discutir a morte faria bem a toda a gente, e alm disso os vinhos eram extraordinrios. Quer dizer, quando se planeia atirar grandes quantidades de criaturas humanas para a fogueira  natural que se queira saber como  que a coisa funciona." Bebeu uma vez mais, bebia constantemente. A colina, quela hora, era um local particularmente sossegado. " surpreendente, mas a verdade  que havia imensa gente que quase nunca tinha pensado no assunto. Espe-
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cialmente os jovens. Os mais velhos mostravam um pouco mais de respeito. Ainda se lembravam da idade da inocncia, se  que alguma vez existiu unia idade de inocncia. H dois tipos de calamidades, a verso brutal e a verso suave. Na primeira,  morte imediata, na segunda  morte lenta. Nunca tinha pensado nisso. Acho que d um novo significado  importncia de estarmos no centro das coisas. Seja como for, a verdade  que j chegmos  quarta gerao. Sempre  uma consolao. Vocs por acaso jogam golfe?"
"No", disse Ned. "Eu tambm no", respondi. "Nunca tive grande queda para o golfe. Andei a aprender mas no me serviu de nada."
"Aqui temos um campo ptimo para o golfe, a chatice  que nos obrigam a usar equipamento protegido, seno ainda morremos de alguma tacada." Voltou a beber, seguindo o mesmo ritual lento. "O Winfle  um excntrico", explicou depois de engolir. "So todos uns excntricos mas o Winfle  dos maiores. Primeiro foi socialista, depois dedicou-se ao Cristo. Agora est na contemplao e no Tai Chi. Graas a Deus que  casado. Fez a Grammar schooF mas sabe falar. Reforma-se daqui a trs anos."
"Disse-lhe muito ou pouco?", perguntou-lhe Ned. "Eles acham sempre que esto sob suspeita. Disse-lhe que ele no estava e disse-lhe ainda que no podia abrir a sua estpida boca acerca da conversa que teria convosco."
"E acha que ele abre?", perguntei. O'Mara abanou a cabea. "No sei que hei-de achar, a maior parte s nos do problemas, por muito que a gente ande em cima deles. "
Bateram  porta e Winfle entrou, um eterno estudante de cinquenta e sete anos. Era um homem alto, mas com as costas arqueadas, com um cabelo grisalho encaracolado que esvoaava para o lado, e uma rstea de um fulgor passado. Vestia um pullover Fair Isle sem
mangas, calas muito largas e mocassins. Sentou-se com os joelhos juntos, segurando no copo de sherry bem longe de si, como se o copo fosse uma retorta qumica que no inspirava confiana.
Ned voltara a ser o profissional. Tinha abafado toda a sua raiva. "Andamos a ver se conseguimos localizar alguns cientistas soviticos", disse, procurando um tom suficientemente vago. "Temos seguido os meandros do sistema de defesa deles. No  um assunto propriamente excitante."
"Ah, ento so da Espionagem", disse Winfle. "Foi o que eu pensei, mas no disse nada."
Ocorreu-me nesse momento que aquele era sem dvida um homem muito solitrio.
"A si no lhe interessa nada o que eles so", avisou O'Mara num
1 Grammar Schooi escola secundria britnica. Aqui trata-se de uma referncia pejorativw o que est em causa  o facto de Winfle ter frequentado a escola estatal e no uma escola privada, o que denuncia a sua provenincia social. (N. do T.)
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tom perfeitamente afvel. "So ingleses e esto a fazer o trabalho deles, como voc faz o seu."
Ned retirou uma quantas pginas dactilografadas de uma pasta e estendeu-as a Winde, que s pegou nelas depois de ter arrumado o copo em cima da mesa. Nas suas mos as falanges dobravam-se e os dedos encrespavam-se, como se fossem as mos de um homem pedindo que o libertassem.
"Estamos a tentar maximalizar algum do nosso velho material a que entretanto no prestmos a devida ateno", disse Ned, caindo num jargo que, noutras circunstncias, teria evitado. "O que a tem  uma descrio do seu interrogatrio quando voltou de uma visita a Akademgorodok, em Agosto de 1963. Lembra-se de um major Vauxhali? No  propriamente uma obra-prima da arte literria mas o que interessa  que,voc menciona dois ou trs cientistas soviticos cuja histria gostaramos de pr em dia, caso ainda vivam e voc ainda se lembre deles."
Winfle puxou de um par de culos perfeitamente pavorosos com uma armao metlica, como se estivesse a proteger-se de um bombardeamento de gases.
"Se bem me lembro, o major Vauxhall deu-me a sua palavra de honra de que tudo o que eu dissesse seria inteiramente voluntrio e confidencial", declarou, acentuando didacticamente certas palavras. "Portanto, surpreende-me muito que o meu nome e as minhas palavras apaream agora em arquivos ministeriais a que muita gente pode ter acesso, vinte e cinco anos depois do sucedido."
"Olhe que sempre  uma maneira de voc se tornar imortal, por isso o melhor  no protestar", avisou O'Mara.
Decidi interpor-me entre os dois como algum que separasse beligerantes numa discusso familiar, Sugeri a Winfle que talvez ele pudesse completar o relatrio do major, que era parco em pormenores. Podia talvez dizer qualquer coisa acerca de um ou dois dos cientistas soviticos cujos nomes estavam na ltima pgina, ou talvez dar-nos uma ideia da equipa de Cambridge em que estivera integrado. Enfim, no se importaria certamente de responder a uma ou duas perguntas que, para o caso em questo, eram realmente importantes.
"'Equipa' no  a palavra exacta no contexto em causa", retorquiu Winfle, agarrando-se  palavra como um predador esfomeado. "Pelo menos do lado britnico, no . Equipa sugere um objectivo comum.
O que ns ramos era um grupo de Cambridge, isso sim. Uma equipa, nunca. Alguns foram por causa da viagem, outros por uma questo de auto-promoo. Estou-me a referir em particular ao professor Callow, que tinha uma opinio muito exagerada acerca do seu trabalho sobre aceleradores, opinio entretanto refutada". O seu sotaque de Birming;ham comeava a sobressair. "Claro que uma minoria muito limitada ia por motivos ideolgicos. Eram homens que acreditavam na cincia sem fronteiras. Na livre troca de conhecimentos para o bem comum da humanidade."
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"Uns panhonhas", explicou solcito O'Mara. "Havia os franceses, imensos americanos, os suecos, holandeses, at um ou dois alemes", prosseguiu Winfle, sem ligar aos comentrios de O'Mara. "Em minha opinio, todos eles tinham esperana e os russos tinham-na aos montes. Ns, os britnicos,  que no tnhamos nada de nada, s empatvamos. E continuamos a empatar."
O'Mara resmungou qualquer coisa e bebeu mais um gole de gin para recuperar foras. Porm o sorriso afvel de Ned, apesar de um pouco esbatido, encorajou Winde a prosseguir.
"Estvamos no auge da era Khrushchev, como sem dvida esto lembrados. Era o Kennedy deste lado, o Khrushchev do lado de l. Diziam alguns que estvamos no limiar de uma poca de ouro. As pessoas nesses tempos falavam de Khrushchev tanto como se fala de Gorbachev agora, disso estou certo. Embora deva dizer que, em minha opinio, o nosso entusiasmo nessa altura era mais genuno e espontneo do que o pretenso entusiasmo de agora."
O'Mara bocejou e fitou-me desconcertantemente com os seus olhos papudos.
"Ns dissemos-lhe tudo o que sabamos. E eles fizeram o mesmo", continuou Winfle, agora num tom mais confiante. "Ns, lamos os nossos papis. Eles, liam os deles. O Callow, disso no tenho dvida, foi um fracasso. Eles perceberam logo quem ele era. Mas ns no tnhamos s o Callow, tnhamos o Panson na ciberntica e ele de facto saiu-se muito bem, e tnhamos ainda este vosso criado. A minha modesta conferncia foi um verdadeiro xito, apesar de ser eu a diz-lo. Para ser franco, nunca mais ouvi aplausos como aqueles. No me surpreenderia que ainda falassem de mim l por aquelas bandas.
O que eu posso dizer  que as barricadas caram to rapidamente que era possvel ouvi-Ias a desabarem, mas literalmente a desabarem, no anfiteatro. 'Circulao, sim, demarcao, no', era a nossa palavra de ordem. 'Circulao' tambm no era a palavra adequada para o caso, pelo menos para quem viu a quantidade de vodka que 'circulou' ao fim da noite. Ou as mulheres. Ou para quem ouviu as conversas que 'circulavam'. Claro que o KGB ouviu. Todos sabamos isso. Antes de partirmos tnhamos tido uma conversa preparatria, embora muitos no estivessem de acordo. Eu no pus nenhuma objeco, sou um patriota. A questo  que nem o KG13 deles nem o nosso poderiam ter feito alguma coisa para impedir tanta 'circulao'. Era evidente que tinha entrado num tema que lhe agradava, pois nesse momento endireitou-se na cadeira para proferir um discurso h muito preparado. "Gostaria de acrescentar que o KGB deles, en,
minha opinio,  visto de maneira muito incorrecta. Sei de fonte limpa que o KGB sovitico tem protegido muito frequentemente alguns dos mais tolerantes elementos da intelligentsa sovitica."
"Por amor de Deus, Winfle, no me diga que o nosso KGB no tem feito o mesmo", disse O'Mara.
"Alm disso, no tenho a mnima dvida de que as autoridades
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soviticas tm toda a razo quando dizem que em qualquer troca de conhecimentos cientficos com o Ocidente, a Unio Sovitica tem mais a ganhar do que a perder. " A sua cabea, sempre inclinada, ia saltitando na minha direco e na de Ned como se fosse um sinal dos caminhos-de-ferro, e a sua mo retorcida nas falanges descansava sobre a coxa num jeito angustiado. "E, alm do mais, eles tinham a cultura. As nossas Letras, Artes e Cincias no so nada ao p das deles. Eles tinham o sonho renascentista do homem completo, e tm-no ainda. Eu prprio no tenho muita cultura. Falta-me o tempo para isso. Mas l, estava tudo preparado para quem sentisse interesse. E, ao que sei, no saa muito caro. Havia mesmo coisas gratuitas. "
Nesse instante Winde precisou de se assoar. E para se assoar, precisou em primeiro lugar de abrir o leno sobre o joelho, agarrando depois nele com dedos operacionais. Ned aproveitou aquela pausa imposta pelas circunstncias.
"Bom, talvez pudssemos agora passar a alguns dos cientistas soviticos cujos nomes fez o favor de comunicar ao major Vauxhall", sugeriu, pegando no molho de papis que eu lhe estendera.
Tnhamos finalmente chegado  questo que nos levara l. De ns quatro, pareceu-me, s Winfle ainda no se tinha apercebido disso, j que os olhos amarelados de O'Mara pousavam agora no rosto de Ned, estudando-o com uma perspiccia dispptica.
Ned comeou pelos nomes que tinha posto de parte, como eu teria feito. Tinha-os marcado a verde. Dois, sabia-se que tinham j morrido, um terceiro cara em desgraa. Era um teste  memria de Wintle, em ensaio para o nome que interessava. "Sergey?", disse Winde. "Ah, claro, Sergey! Mas qual era o apelido dele? Popov? Popovich?  isso, Protopopov! Sergey Protopopov, engenheiro especializado em combustveis!"
Num jeito persuasivo e paciente, Ned disse-lhe mais trs nomes, um quarto nome, guiando a memria dele, exercitando-a: "Bom mas pense um segundo antes de dizer no outra vez. J pensou? mesmo no? Est bem. Outro nome. Que me diz a Savelyev?"
"Importa-se de repetir?" A memria de Winfle, reparei, tinha os problemas habituais dos ingleses, com os apelidos russos. Preferia nomes prprios que podia anglicizar.
"Savelyev", repetiu Ned. Olhei nesse momento para O'Mara: continuava a examinar Ned. Este ps-se a olhar para o relatrio que tinha nas mos, talvez com um ar excessivamente descontrado. "
esse o nome. Savelyev". Soletrou-o. "Jovem, idealista, falador, descrevia-se como um indivduo humanitrio. Trabalha em partculas, criado em Leninegrado." Estas foram as suas palavras, de acordo com o major Vauxhall, j l vo muitos anos. H alguma coisa que gostaria de acrescentar? Por exemplo, no se manteve em contacto com ele? Com o Savelyev?"
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Winfle sorria de espanto. "Ento era esse o seu nome? Savelyev? Estou deveras surpreendido. Est a ver? Tinha-me esquecido por com@leto. Para mim ele continua a ser o Yakov."
" ptimo@   Yakov Savelyev. Lembra-se do patronmico9" Wintle,abanou a cabea, sorrindo ainda. "Tem alguma coisa a acrescentar  sua discrio original?" Tivemos de esperar. Winde tinha um sentido do tempo completamente diferente do nosso. E, a avaliar pelo seu sorriso postio, um sentido de humor igualmente diferente.
"Um tipo muito sensvel, o Yakov. No se atrevia a pr-nos questes durante as conferncias. Esperava pelo fim, puxava-nos pela manga do casaco e s ento  que fazia as perguntas. 'Desculpe, qual  a sua opinio acerca do seguinte problema...' Tudo questes importantes. Era tambm um homem muito culto,  sua maneira, segundo ouvi dizer. Parece que deu muito nas vistas nas sesses de poesia. E nas exposies de arte."
A voz de Wintie sumiu-se nesse instante e receei que o silncio lhe servisse para inventar alguma histria, coisa que as pessoas fazem frequentemente quando no tm mais informaes para dar, mas querem manter a sua ascendncia. No entanto, para meu grande alvio, Winde estava apenas a vasculhar no seu armazm de memrias
- ou talvez a colh-las do ar com os seus dedos esticados.
"Andava sempre de grupo em grupo, o Yakov", disse finalmente Winfle, com o mesmo irritante sorriso de superioridade. "Punha-se sempre a um canto, muito srio, sempre  margem das discusses. Empoleirado na borda de uma cadeira. Havia um mistrio qualquer
com o pai dele, nunca cheguei a saber o que era. Ouvi dizer que tambm era cientista, mas que fora executado. No foi s ele, muitos outros cientistas foram tambm executados. Matavam-nos como moscas, segundo li. Se no os matavam, mantinham-nos na priso. Tupolev, Petliakov, Korolev - algumas da maiores estrelas da tecnologia aeronutica conceberam as suas melhores coisas na priso. Ramn. inventou na priso uma nova caldeira para mquinas trmicas. A primeira unidade sovitica de investigao de balstica de foguetes foi montada numa priso. Foi Korolev quem a dirigiu."
"Muito bem montada, meu velho", interrompeu O'Mara, de novo
num tom irritado.
"Deu-me uma rocha", prosseguiu Winfle. A mo dele, de novo assente sobre o joelho e com a palma virada para cima, abriu-se e fechou-se agarrando a pretida imaginria.
"Rocha?", retorquiu Ned. "Msica ou uma amostra geolgica?'" "Quando ns, os Ocidentais, deixmos Akadem", recomeou Winfle, como que lanando-se numa histria inteiramente nova, "despojmo-nos por completo de tudo o que tnhamos. Ficmos literalmente depenados. Se tivessem visto o nosso grupo no ltimo dia,
' No original, rock, da a confuso entre msica e rocha. (N. do T.)
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no teriam acreditado. Os nossos hospedeiros russos choravam baba e ranho, eram s abraos e beijos, o autocarro cheio de flores, at o Callow teve um acesso de choro,  incrvel mas  verdade. E ns, os Ocidentais, desfizemo-nos de tudo o que tnhamos: livros, jornais, canetas, relgios, lminas de barbear, pasta dentrfica, nem as escovas de dentes escaparam. Discos tambm, se os havia. Roupa interior, gravatas, sapatos, camisas, meias, tudo. Tudo, a no ser o mnimo de que precisvamos para chegarmos decentemente a casa. No tnhamos concordado com tal distribuio. Nem sequer a tnhamos discutido. Foi uma coisa que aconteceu espontaneamente. Alguns deram mais coisas que outros, claro. Sobretudo os americanos, fartaram-se de dar coisas, impulsivos como so. Ouvi dizer que um tipo tinha oferecido um casamento de convenincia a uma rapariga que estava desesperada para sair da URSS. Isso no fiz. Nunca faria. Sou um patriota."
"Mas deu algumas das suas coisas a Yakov", sugeriu Ned, enquanto fingia que escrevia esmeradamente numa agenda.
"Ainda dei algumas, sim. Foi um bocado como dar comida aos pssaros no parque. Vamos atrs do pombo que tem mais dificuldade em apanhar o milho e no pensamos noutra coisa seno em engord-lo, coitado. Alm disso, eu gostava do jovem Yakov, era impossvel no gostar dele, uma alma to nobre."
A mo tinha ficado paralisada no jeito de agarrar a rocha inexistente, as pontas dos dedos esforando-se por se unirem. A outra mo elevava-se agora  altura da cara e beliscava um bom bocado de carne.
"Aqui tem, Yakov", disse eu. "No seja lento na sua caminhada. A sua timidez s lhe faz mal." Eu, nessa altura, usava uma mquina de barbear elctrica. Com bateria, transformador, tudo metido num belo. estojo. Mas ele deu-me a impresso de que no tinha ligado muito  oferta. Se bem me lembro, ps o estojo de parte e comeou a andar de um lado para o outro, lentamente, arrastando os ps. Foi ento que percebi que queria dar-me qualquer coisa. Era a rocha, embrulhada em_papel de jornal. Eles no tinham papel de fantasia, naturalmente. "E um bocado do meu pas", disse ele. "Para lhe agradecer a sua conferncia", acrescentou. Queria que eu amasse sempre tudo o que de bom havia no pas dele, por muito mau que ele pudesse parecer do exterior. Olhem que ele falava muito bem ingls, melhor do que metade de ns. Para dizer a verdade, sentia-me um bocado embaraado. Fiquei com a rocha durante muitos anos, muitos anos mesmo. At que a minha mulher, numas das suas grandes limpezas da Primavera a atirou para o lixo. Ainda pensei escrever-lhe, mas nunca o fiz. @ preciso dizer que ele tambm era um tipo arrogante,  sua maneira, mas era. Bom, muitos deles eram arrogantes. Atrevo-me a dizer que ns tambm o ramos,  nossa maneira, claro. Todos ns pensvamos que a cincia conseguiria um dia governar o mundo.
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Bom, creio que agora governa, mas no do modo que ns tnhamos idealizado, disso estou certo."
"E ele escreveu-lhe?", perguntou Ned. Winde, por um momento, reflectiu sobre a questo. "Nunca se sabe' no ? Se ele escreveu, no podemos saber se as cartas tero sido apreendidas. Nem quem  que as ter apreendido."
Tirei da pasta as fotografias e passei-as a Ned. Ned entregou-as a Wintle enquanto O'Mara observada a cena. Winde comeou min-las e, de repente, soltou um grito.
" ele! E ele! Yakov! O homem que me deu a rocha", disse, devolvendo a fotografia a Ned. "Veja com os seus olhos! Repare-me nos olhos dele! Diga-me ]o se no so os olhos de um sonhador!"
Era uma fotografia extrada do vespertino de Leninegrado com a data de 5 de Janeiro de 1954 e reconstituda pela Seco Fotogrfica, mostrando Yakov Yefremovich Savelyev enquanto jovem gnio.
Havia mais alguns nomes e Ned interrogou laboriosamente Wintle a propsito de cada um deles, lanando pistas falsas, apagando indcio sobre indcio, at ter a certeza de que na cabea de Winde, Savelyev no significava mais do que tudo o resto.
"Foi muito inteligente da sua parte ter escondido o trunfo na mo", observou O'Mara enquanto, de copo na mo, nos acompanhava at ao carro. "A ltima vez que ouvi falar de Savelyev estava ele a dirigir os testes com os msseis nos confins do Cazaquisto, congeminando novas maneiras de ler a telemetria deles de forma a que mais ningum a conseguisse ler. Que  feito dele? Fechou a loja e vende o recheio?"
 muito raro o meu trabalho proporcionar-me prazer, mas aquele encontro, aquele lugar e, acima de tudo, aquele O'Mara, estavam a pr-me literalmente doente.  muito raro eu agarrar algum pelo brao, e quando o fao logo me arrependo e desisto a tempo. No foi isso que aconteceu com O'Mara.
"Creio que j assinou o documento relativo aos segredos de Estado, no  verdade?", perguntei-lhe num tom rigorosamente calmo.
"Assinar? Pois se eu quase que escrevi a minuta?!", retorquiu O'Mara, extremamente surpreendido.
"Ento deve estar informado de que tudo o que voc possa saber por via oficial e todas as especulaes baseadas nesse conhecimento constituem propriedade perptua da Coroa". Mais uma das minhas distores da lei, mas pouco importava para o caso. S nesse momento lhe libertei o brao. "Portanto, se gosta do seu trabalho aqui e est  espera de promoo, e se anseia pela sua penso, sugiro-lhe que no volte a pensar neste encontro nem em qualquer nome a ele associado. Obrigadssimo pelo gin. Adeus".
Na viagem de regresso, com a identificao da Ave Azul confirmada e logo comunicada telefonicamente  Casa da Rssia, Ned per-
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maneceu calado, refugiado nos seus pensamentos. No entanto, quando chegmos a Victoria Street, mostrou-se subitamente determinado a no me deixar partir. "Fique por perto", ordenou-me e desceu  minha frente os degraus da cave.
 primeira vista, a cena da sala de controlo era uma verdadeira festa. O centro das atenes era Walter, flutuante como um pintor frente a uma tela, embora a tela fosse, desta feita, um quadro branco to grande como ele, no qual ia escrevendo, a giz colorido, alguns dados sobre a vida de Savelyev. Se estivesse de chapu de aba larga e bata de pintor, no teria decerto parecido mais bomio. S ao fim de um instante me lembrei da sinistra apreenso que sentira de manh.
 volta dele - ou melhor, atrs dele, j que o quadro branco estava encostado  parede, debaixo dos relgios - encontravam-se Brock e Bob, bem como Jack, o nosso descodificador, Emma, a assistente de Ned, e Pat, uma mulher mais velha que Enuna e uma das principais funcionrias dos Arquivos Soviticos. Todos eles seguravam copos de champanhe e cada um tinha um sorriso diferente, embora o sorriso de Bob fosse mais um esgar de quem acabara de ter uma dor.
"Um homem que tem de tomar decises sozinho", declamou epicamente Walter. Ao ouvir-nos entrar parou por um momento, mas no virou a cabea. "Depois de muitos xitos, um homem chega aos cinquenta  anos e faz um balano da sua vida. Atenta na sua mortal condio e na vida que desperdiou. Como todos ns, no ?"
Recuou um pouco. Depois, num arranco, escreveu uma data. Fez ento uma pausa para beber um gole de champanhe. E nesse momento senti que havia algo de brutal e assustador na sua figura, como se, no seu rosto, uma maquilhagem pesada estivesse agora a desfazer-se.
"Viveu, toda a sua vida adulta no seio daquele mundo secreto", prosseguiu num tom animado. "Mas de boca calada. Tomando as suas prprias decises, sozinho, sem que mais ningum soubesse, honra lhe seja feita. Vingando-se da histria, que o quer aniquilar, e provavelmente h-de mesmo aniquil-lo". Outra data e a palavra OUMPIADAS. " o ano crucial. Se fosse mais novo, faziam-lhe uma lavagem ao crebro. Se fosse mais velho, disputaria a sinecura a um qualquer velho imbecil."
Bebeu uma vez, mais, ainda de costas para ns. Olhei para Bob  procura de'um sinal esclarecedor, mas Bob no despegava os olhos do cho. Olhei para Ned. Observava atentamente Walter, mas do seu rosto estava ausente qualquer expresso.
Olhei de novo para Walter e reparei que havia alga de estranho na sua respirao, como se uma qualquer revolta o deixasse arquejante. "Inventei-o, inventei este homem, tenho a certeza de que o inventei", declarou Walter, aparentemente ignorante da estupefaco dos presentes. "H anos que previa o seu aparecimento." Escreveu as palavras PAI EXECUTADO. "Mesmo depois de o terem recrutado, este pobre cordeiro, fez tudo para continuar a ser um cordeiro.
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No havia nele falsidade. No guardava ressentimentos. Tinha as suas dvidas, mas, como todos os cientistas, era um bom soldado. At que um dia - bingo! Desperta finalmente e descobre que  sua volta s h lixo e que desperdiou o seu gnio com um bando de gangsters incompetentes e que, alm disso, empurrara ainda mais o mundo para o abismo da runa." Walter escrevia com violncia e raiva, o suor escorria-lhe pelas tmporas: TRABALHOU SOB A DIREC9 DE ROGOV NO CAMPO DE TESTES 109 NO CAZAQUISTAO. "Ele no o sabe, mas acaba de integrar-se na grande revoluo andropusica russa dos anos oitenta. Passou por todas as mentiras, passou por Estaline, pela breve luz khrushcheviana, pela longa escurido dos tempos de Brejnev. Mas tem ainda um derradeiro trunfo, uma ltima hiptese andropusica de que o mundo retenha a sua memria. E as novas palavras de ordem ressoam-lhe nos ouvidos: revoluo a partir de cima, abertura, paz, mudana, coragem, reconstruo. Encorajam-no mesmo a revoltar-se."
Walter escrevia agora mais depressa do que nunca, apesar de ar-
quejante: TELEMETRIA, PRECISO. "Onde aterraro?", perguntou retoricamente, com a voz entrecortada. "At que ponto se aproximaro dos alvos? De quantos alvos? E quantos sero disparados? E quando? Qual  a expanso e a temperatura superficial?
O que tem a ver a gravidade com isto tudo? Questes cruciais de que a Ave Azul sabe as respostas. E sabe-as porque est encarregado de fazer os msseis falar - sem que os americanos os oiam, pois nisso est a sua arte. Porque ele inventou os sistemas crpticos que os super-ouvidos americanos na Turquia e no continente chins no conseguem entender. Ele v claramente todas as respostas, antes que o camarada Rogov as aambarque para os seus donos e senhores de Moscovo. Essa , segundo a Ave Azul, a especialidade de Rogov. "O professor Vitaly Rogov  um lambe-botas", diz-nos ele no segundo caderno. Douta opinio.  isso mesmo que Vitaly Rogov , um lambe-botas. Um lambe-botas bvio, inteiramente realizado, completamente invertebrado, uma mquina de cumprir normas e de ganhar medalhas e privilgios. Faz-nos lembrar algum, este profes~ sor Rogov? Ningum. Nunca o nosso to caro Clive. Mas voli Ave Azul. Eis que a panela de presso rebenta. A nossa ave confessa
a sua agonia a Katya e Katya diz-lhe, "Chorar no basta, faz qualquer coisa". E ele, Deus seja louvado!, segue to corajosas palavras. D-nos tudo, rigorosamente tudo a que pode ter acesso. As Jias da Coroa a dobrar, a re-dobrar. A decifrao dos sistemas crpticos. A telemetria en clai. Chaves de cdigo para nos ajudar a entend-Ia. A verdade frontal e sem desvios, antes que a enfeitem para consumo de Moscovo. Claro, claro que ele  louco. Mas quem o no ? Quem  melhor que ele?" Bebeu um ltimo gole de champanhe. Reparei nesse instante que o seu rosto era uma massa rubra de dor e
'No original, eni- francs: "a nu".
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constrangimento e indignao. "A vida  uma borrada", explicou, entregando-me o seu copo ao passar por mim.
Num segundo Walter desapareceu da sala e subiu as escadas. Ouvimos uma sucesso de portas de ao abrindo e fechando at ele sair para a rua.
"O Walter era um risco", explicou lapidarmente Clive na manh seguinte, perante a minha insistncia. "Para ns talvez ele no passasse de um sujeito excntrico. Mas para os outros ... " Nunca tinha ouvido da boca de Clive uma referncia to pouco encoberta ao sexo. Mas num instante a sua auto-censura prevaleceu. "Mandei-o para a seco de treino de agentes", prosseguiu, regressando ao seu tom normal, que era absolutamente impessoal. "Houve demasiado alarme do outro lado."
Do outro lado do Atlntico, queria ele dizer.
E assim desaparecia de cena Walter, o magnfico Walter. No me tinha enganado: nunca mais voltmos a ver os mrmons, nunca mais Clive se referiu a eles. Se eram mensageiros de Langley ou se muito simplesmente chegaram, julgaram e puniram, nunca o podemos saber. Ou talvez no fossem de Langley, talvez pertencessem a um daqueles grupos com nomes resumidos a iniciais que Ned tanto contestara. Ou seriam dois representantes daquela classe de gente que constitua o dio de Ned - a classe dos psiquiatras mansos?
Fossem eles quem fossem, o certo  que o seu efeito foi sentido em toda a Casa da Rssia e a ausncia de Walter deixou em ns um vazio s comparvel aos portentosos buracos produzidos pelas armas do nosso melhor aliado. Bob apercebeu-se disso e lia-se-lhe no rosto a vergonha que-sentia. At Johnny, o duro, se mostrava constrangido.
"Vou quer-lo mais metido nisto", disse-me Ned. Fraca consolao para a ausncia de Walter.
"Andas outra vez nervoso", disse-me Hannah enquanto caminhvamos.
Tnhamo-nos encontrado uma vez mais  hora do almoo. O Instituto de Oncologia ficava perto de Regent's Park. Por vezes, nos dias de calor, encontrvamo-nos uma meia-hora, o tempo de uma sanduche. Outras vezes, tnhamos mesmo tempo para ir at ao Jardim Zoolgico. De vez em quando, Hannah metia folga e acabvamos na cama.
Perguntei-lhe pelo marido, Derek. Era um dos nosso poucos temas comuns. Tinha-se portado mal outra vez? Tinha-lhe batido? Nos tempos em que ramos amantes em full-time, cheguei a pensar que Derek contribua decisivamente para a nossa unio. Mas agora Hannah j no queria falar dele. Queria saber apenas por que estava eu nervoso.
"Mandaram embora um homem de quem gostava muito", res-
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pondi. "Bom, mandar embora, no mandaram. Atiraram-no para o caixote do lixo."
"Que mal  que ele fez?" "Mal nenhum. Decidiram muito simplesmente v-lo com outros olhos."
"Porqu?" "Porque lhes convinha. Deixaram de toler-lo porque isso satisfazia determinadas exigncias."
Hannali pensou um pouco naquela explicao. "Por outras palavras, homens de conveno conveno se tornam", sugeriu. Como tu, dizia ela nas entrelinhas. Como ns.
Porque continuo a v-Ia?, pensei.  como voltar  cena do crime?  para pedir, pela milsima vez, a sua absolvio? Ou volto para ela do mesmo modo que se visita a escola da nossa juventude, para se tentar entender o que ter acontecido a essa poro dariossa vida?
Harinali continua uma bela mulher, o que  uma consolao. @O grisalho dos cabelos e a deformao do corpo no espreitam ainda. Quando  meia luz entrevejo o seu rosto e vislumbro o seu sorriso corajoso e vulnervel,  a Hannali de h vinte anos que estou a ver. E, numa confidncia de que sou o nico destinatrio, murmuro que, apesar de tudo, no a destru. "Que bem que ela est", digo para mim mesmo. "Repara-me bem nela. Sorri. Ei-la sorridente e inclume.  Derek quem a fere, no tu."
Mas tais confidncias nunca me convencem. Longe disso.
A bandeira inglesa que tanto irritava o ditador Estaline quando a via das fortificaes do Krenifin, ondulava desalentadamente no seu mastro do trio da Embaixada Britnica. O palcio creme assemelhava-se a um velho bolo de casamento  espera que, o cortassem e as guas oleosas do rio corriam dceis, apesar do aguaceiro matinal que as fustigava. Nos portes de ferro, dois polcias russos estudavam criteriosamente o passaporte de Barley. A chuva borrava j a tinta.
O mais novo tomou nota do nome. O mais velho comparou, com um ar dubitativo, os traos marcados do rosto que tinha  sua frente com o que vinha na fotografia. Barley trazia um impermevel castanho que escorria gua. O cabelo lembrava gesso colado  cabea. E parecia um pouco mais baixo.
"Francamente! Que dia este!", exclamou a simptica jovem da saia de xadrez plissada que o aguardava no hafl. "Ol, chamo-me Felicity.
O senhor  quem eu penso, no ? Enfim, um tanto ou quanto molhado, mas  Scott Blair, no  verdade? Entre, o Conselheiro Econmico est  sua espera."
"Pensava que os 'econmicos' eram no outro edifcio." "Ah, no, esses so os do Comercial.  outra coisa." Barley seguiu o traseiro ondulante da jovem pela ancestral escadaria acima. Sentia-se deslocado sempre que entrava numa misso
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britnica. Porm, naquela manh, sentia-se perfeitamente noutro stio. Parecia-lhe ouvir o assobio desafinado do seu ardina em Hampstead. O rudo arquejante da enceradora fez-lhe lembrar o barulho da carrinha do leite. Eram oito da manh, e o Reino Unido oficial no estava ainda oficialmente acordado. O Conselheiro Econmico era um escocs atarracado de cabelo cor-de-prata. Chamava-se Craig.
"Mr. Blair! Como est? Faa o favor de se sentar! Bebe ch ou caf? Receio que saibam ao mesmo, mas estamos a fazer progressos. Gradualmente, havemos de conseguir fazer ch com sabor a ch e caf com sabor a caf. "
De imediato pegou na capa de Barley e empalou-a num cabide do Ministrio das Obras Pblicas. Por sobre a secretria, uma fotografia emoldurada mostrava a Rainha em fato de montar. Um aviso ao lado da fotografia indicava que no era seguro falar naquela sala. Felicity trouxe ch e biscoitos Garibaldi. Craig falava num tom vigoroso, como se no pudesse esperar muito tempo para revelar as suas notcias. O seu rosto vermelho brilhava de escanhoado.
"Ento, Mr. Barley, segundo ouvi dizer, os bandidos da VAAP no atam nem desatam... Disseram-me que voc est farto de ouvir respostas evasivas! Diga-me uma coisa, acha que essa gente da VAAP bate bem da bola? Algum lhe deu uma resposta concreta? Ou me engano muito ou s lhe tm dado msica moscovita... Sabe, aqui  tudo fogo de vista, incluindo naturalmente o trabalho. Transaces, contratos, so coisas raras, muito raras mesmo. O apetite pelo lucro, a diligncia nos negcios so termos que no existem no vocabulrio deles. Isto aqui resume-se a duas coisas: contos de fadas e coa-tomates. Sempre achei que era uma combinao impossvel. Calcule! Uma ociosidade incurvel atrelada a vises inatingveis. O Embaixador usou esta minha frase recentemente num despacho. Nenhum crdito dado, nenhum pedido. Diga-me l como  que eles podem aguentar uma econonua assente na indolncia, no tribalismo e no desemprego oculto? Resposta: no aguentam! Ser que alguma vez se vo libertar disso? E que suceder se se libertarem? Resposta: s Deus sabe. Na minha opinio, o mundo dos livros no passa de um microcosmos em que se repercute todo o dilema desta terra, est a ver? Um microcosmos apenas ... "
Crag continuou a berrar at que, aparentemente, decidiu que Barley e os microfones j tinham a sua conta. "Olhe, acredite que apreciei imenso a nossa conversinha. Devo dizer-lhe que me deu imenso material para as minha reflexes. Sabe, na nossa profisso corremos sempre o risco de estarmos desligados das bases, o que no interessa. Importa-se que lhe mostre a Embaixada e o apresente ao resto do pessoal? Eles no me perdoariam se eu me esquecesse."
Com um gesto de comando, Craig avanou por um corredor que terminava numa porta metlica com        ium ralo ameaador. A porta abriu-se mal eles se aproximaram e fechou-se logo que Barley entrou.
Craig  o seu contacto, dissera Ned.  um tipo incrvel, mas  ele que o h-de levar ao seu chefe.
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A primeira impresso de Barley foi de que estava numa enfermaria s escuras, a segunda de que a enfermaria afinal era uma sauna, porque a nica luz em toda aquela diviso vinha de um canto, rente ao cho, e tambm por causa do cheiro a resina. At que concluiu que era uma sauna suspensa, pois apercebeu-se de que o soalho balanava.
Ao sentar-se com todo o cuidado numa cadeira discerniu dua figuras atrs de uma secretria. Por sobre a primeira havia um poster com um Beofeatei' defendendo a ponte de Londres. Por cima da segunda figura, o lago Wndermere enlanguescia ao pr-do-sol,num anncio dos Caminhos-de-Ferro Britnicos.
"Bravo, Barley", exclamou uma vigorosa voz inglesa, no muito diferente da de Ned, sob o Beefeater. Chamo-me Paddy, ou Patrick, como queira, e este cavalheiro aqui  o Cy.  americano."
"Ol, Barley", disse Cy. "Ns somos apenas os moos de recados c do stio", explicou Paddy. "Naturalmente a nossa aco  extremamente limitada. A nossa principal tarefa  fornecer os camelos e as refeies quentes. Ned manda-lhe calorosas saudaes. Clive tambm. Se eles no estivessem to mal vistos, tambm estariam c a roer as unhas connosco. Riscos da profisso. Calha a todos."
Enquanto falava, a pouca luz da sala ia-lhe revelando os traos. Era um homem rude mas gracioso, com as feies marcadas e os olhos sonhadores de um explorador. Cy tinha um ar polido e citadino, e era uma dzia de anos mais novo que Paddy. Tinham as mos sobre um mapa das ruas de Leninegrado. Paddy tinha os punhos da camisa pudos. A camisa de Cy era das que no precisam de ferro.
"Queria perguntar-lhe se quer continuar", disse Paddy, como se tal pergunta fosse uma piada infalvel. "Se voc quiser sair da coisa est no seu direito e no guardamos ressentimentos. Quer sair? Que me diz?"
"Zapadny mata-me", murmurou Barley. "Porqu?" "Sou convidado dele.  ele quem me paga as contas, que fixa os meus programas". Barley levou a mo  testa e esfregou-a como que procurando reavivar a comunicao com o seu crebro. "Que lhe hei-de dizer? No posso sem mais nem menos pegar na trouxa e dizer adeus, at j, agora vou para Leninegrado. Ele ficava a pensar que eu sou maluco. "
"Foi Leninegrado que disse e no Londres?", persistiu Paddy num tom perfeitamente simptico.
' Menibro da guarda real inglesa, guarda da Torre de Londres (N. do T.)
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"No tenho visto. O visto s d para Moscovo, no d para Leninegrado."
"Mas suponhamos que pode ir a Leninegrado." Outra longa pausa. "Preciso de falar com ele", disse Barley, como se isso fosse uma explicao.
"Com Zapadny?." "Com Goethe. Tenho de falar com ele." Depois de, num gesto que nele era habitual, ter roado com o pulso direito pela boca, Barley ficou a olhar para o pulso como se estivesse  espera de ver sangue. "A Goethe no posso mentir", murmurou.
"Essa  uma hiptese que no se pe. O que Ned quer  uma parceria, no uma decepo."
"Tal como ns", disse Cy. "No vou usar de subterfgios ou de artimanhas com ele. Ou falo com ele com todas as cartas na mesa ou ento o melhor  no falar. "
" exactamente isso que Ned quer", disse Paddy. "Queremos dar-lhe tudo o que ele precisa."
"Ns tambm", disse Cy. "Potomac Boston, Incorporated, o nosso novo parceiro comercial americano", props Paddy com uma voz fresca, olhando para um papel  sua frente. "O chefe da operao editorial deles  um tal Mr. Henziger, no  verdade?"
"J. P.", disse Barley. "Alguma vez o viu?" Barley abanou a cabea e deu um estremeo ao corpo. "S o nome no contrato", disse.
" tudo o que sabe dele?" "Falmos ao telefone umas quantas vezes. Ned achou que era bom que nos ouvissem na Unha h-ansatlntica. Por uma questo de precauo>
"Mas voc no faz qualquer retrato mental dele?", persistiu Paddy, no jeito que tinha de procurar respostas claras, ainda que isso fizesse dele um pedante. "Ele no constitui para si uma personagem de contornos mais ou menos definidos?"
"Para. mim ele no passa de um nome com dinheiro e escritrios em Boston e de uma voz ao telefone. Nada mais."
"E nas suas conversas com terceiros locais - com Zapadny, para sermos mais precisos -, voc no apresentou por acaso J. P. Henziger como uma espcie de figura tenebrosa? No lhe ps uma barba falsa ou uma perna de pau, no lhe atribuiu uma vida sexual sinistra? Nada que tenhamos de levar em conta para o caso de fazermos dele uma personagem de carne e osso, por assim dizer?"
Barley ps-se a pensar mas parecia longe. "No?", perguntou Paddy. "No", disse Barley e de novo abanou a cabea escusadamente.
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"Ento nesse caso podemos considerar a seguinte situao", prosseguiu Paddy. "Mr. J. P. Henziger da Potomac Boston, jovem, dinmico, agressivo, encontr-se actualmente de frias na Europa com a mulher. Estamos na poca das frias. Neste momento esto, digamos, no Hotel Marski em Heisnquia. Conhece o Marski?"
"J l bebi um copo", disse Barley, como se esse facto o envergonhasse.
"E como so impulsivos como todos os americanos, meteu-se-lhes na cabea que podiam fazer uma viagem-relmpago a Leninegrado.  a sua vez, Cy, creio. "
Cy ps o seu sorriso e agradeceu. Tinha uma expresso arguta quando o seu rosto ganhava vida e um modo de falar inteligente@ ainda que mal-humorado.
"Os Henziger fazem uma excurso guiada de trs dias, Barley. Vistos na fronteira filandesa, o guia, o autocarro, tudo em ordem. So gente honesta, gente decente.  a primeira vez que visitam a Rssia. Em Boston a glasnost est na berra. Ele investiu dinheiro em si. Sabe que voc est em Moscovo a gast-lo, por isso pede-lhe que largue tudo e que v num instante a Leninegrado, pegar-lhe nas malas e relatar-lhe os progressos.  a prtica normal, tpica de um jovem capitalista. V alguma falha nisto? H algo que para si no funcione?"
Tudo se tomava claro na sua cabea e na sua viso. "No. Funciona perfeitamente. Se para si funciona, para mim tambm h-de funcionar."
"Primeiro, hoje de manh, hora britnica, J. P. telefona do Marski para o seu escritrio em Londres, r9sponde-lhe o gravador", prosseguiu Cy. "J. P. no gosta de falar para gravadores. Daqui a uma hora manda-lhe um telex, ao cuidado de Zapadny, VAAP, com cpia para Craig, Embaixada Britnica, Moscovo, pedindo-lhe que v ter com ele na sexta-feira ao Hotel Evi-opeiskaya, alis Europa, Leninegrado, que  onde fica o grupo de turistas. Zapadny ficar furioso, talvez d um grito de dor. Mas como voc anda a gastar o dinheiro de J. P., prevemos que Zapadny no tenha outra hiptese seno submeter-se  lgica das foras do mercado. Est a seguir-me?"
"Estou", disse Barley. Paddy pegou ento na histria. "Se ele tiver juzo, ajuda-o a alterar
* visto. Se amuar, Wicklow leva rapidamente o visto ao OVIRI, que
* altera num instante. Em nossa opinio,  melhr voc no falar muito do caso ao Zapadny. No se rebaixe, no lhe pea desculpa. Seria errado. Chamaria as atenes. Diga muito simplesmente que  assim que as coisas se passam no mundo moderno: a grande velocidade."
' Departamento de vistos no tursticos para soviticos, pertencente ao Ministrio do Interior. (N. do T.)
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"J. P. Henziger  familia", disse Cy. " um ptimo funcionrio. E a mulher dele tambm."
Parou abruptamente. Como um rbitro que tivesse acabado de assistir a uma infraco, Barley disparara um brao a apontava-o ao peito de Paddy.
"Esperem a, vocs os dois! Um momento! Nada de pressas, se fazem favor! De que me vo servir esses dois, por muito bons que eles sejam, se vo passar o tempo metidos numa porcaria de um autocarro turstico?"
Paddy demorou um instante a recuperar daquela inesperada investida. "Diga-lhe, Cy", pediu.
"Barley, na quinta-feira  noite, quando eles chegarem ao Hotel Europa, Mrs. Henziger ser acometida de violentas dores de barriga leninegradenses. J. P. ficar sem vontade de ir ver as vistas, estando a sua amada dama s voltas com diarreia. Recolher-se- por isso ao quarto do hotel. Como v, no h problema nenhum."
Paddy aproximou o candeeiro e a bateria do mapa de Leninegrado. As trsmoradas de Katya estavam marcadas com um crculo a vermelho.
S ao fim da tarde  que Barley lhe telefonou,  hora em que ela deveria estar a dar uma arrumao final na sua secretria. Dormira uma sesta e para se pr operacional bebera uns quantos whiskies. Mas quando comeou a falar, reparou que a sua voz saa demasiado estridente. No podia ser, tinha de baixar a voz.
"Ah. Ol! Chegou bem a casa?", disse, com a sensao de que no conhecia aquele que estava a falar. "O comboio no se transformou numa abbora ou numa coisa parecida?"
"Obrigada, cheguei sem problemas." "ptimo. Bom, eu telefonei s para saber como estava. Pois. E para lhe agradecer a noite de ontem, foi uma noite maravilhosa. Hum... E para lhe dizer adeus, at breve."
"Tambm eu lhe agradeo. Foi uma noite muito produtiva." "Pensava que teramos outra hiptese de nos vermos. O problema  que tenho de ir a Leninegrado. Negcios... Uma chatice. Bom, a verdade  que tive de alterar os meus planos."
Um silncio prolongado. "Ento o melhor  sentar-se", disse ela. Barley no sabia qual dos dois tinha enlouquecido. "Sentar-me por 9
Tue m*"uso nosso. Antes de uma longa viagem, costumamos sentar-nos um pouco. Est sentado?"
Barley sentia-lhe a felicidade na voz e por isso sentia-se tambm feliz.
"No, na realidade estou deitado. Serve?" "Nunca ouvi dizer. O hbito  uma pessoa sentar-se em cima da
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bagagem ou num banco, suspirar um pouco e benzer-se depois. Mas espero que estar deitado tenha o mesmo efeito."
"Tem." Depois de.Leninegrado, volta para Moscovo?" "Bem, nesta viagem no. Creio que voltamos directos para a escola."
"Escola?" "Inglaterra.  uma estpida expresso minha." "E que significa escola nesse contexto?" "Obrigaes. Imaturidade. Ignorncia. Os habituais vcios ingleses. "
"Tem muitas obrigaes?" "Malas delas. Mas estou a aprender a destrin-las. Por acaso ontem at consegui dizer que no e surpreendi toda a gente."
"Porque  que tem de dizer que no? Porque no dizer que sim? Talvez tivessem ficado ainda mais surpreendidos."
"Bom, esse foi o problema de ontem  noite, no foi? Nunca consigo falar de mim mesmo. Falmos de si, dos grandes poetas de todas as pocas, do senhor Gorbachev, de edies. Mas pusemos de parte o principal tema. Eu. Tenho de fazer uma viagem especial s para a chatear com a minha pessoa."
"Tenho a certeza de que no me chateia." "Quer que lhe traga alguma coisa?" "Como?" "Da prxima vez. Quer alguma coisa em especial. Uma escova para os dentes elctrica? Papelotes? Mais Jane Austen?"
Uma pausa longa e deliciosa. "Desejo-lhe uma boa viagem, Barley", disse ela.
O ltimo almoo com Zapadny foi um velrio sem cadver. Eram catorze sentados  mesa, todos homens, os nicos comensais do enorme restaurante de um hotel ainda inacabado. Os criados traziam a comida e desapareciam logo de seguida para longnquos subrbios. Zadapny tinha de mandar patrulhas  sua procura. Ningum bebia e s Barley e Zapadny se entregavam  amena cavaqueira prpria de um repasto. O som de fundo era de uma msica enlatada dos anos cinquenta. Para alm de muitas marteladas.
"Mas ns preparmos uma grande festa para si, Barley", protestou Zapadny. "O Vassily traz a bateria, o Victor empresta-lhe o saxofone, um amigo meu que tem uma destilaria s dele prometeu-nos seis garrafas, e no faltaro os pintores e os escritores o mais loucos possvel. Enfim, temos todos os ingredientes para a produo de uma noite intensamente indecente e voc tem todo o fim-de-semana para recuperar. Diga a esse sacana desse americano da Potomac que se v lixar. No gostamos de o ver to srio."
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"Os nossos capitalistas, Alik, so como os vossos burocratas. Se os ignoramos corremos riscos. Como voc corre."
O sorriso de Zapadny no era caloroso nem condescendente. "Chegmos mesmo a pensar que voc estava de corao amarrado a uma das nossas afamadas belezas moscovitas. A deliciosa Katya no o convence a ficar?"
"Qual Katya?", ouviu-se Barley responder, enquanto pensava, intrigado, que, com tanta martelada, o tecto j deveria ter cado.
Um zumbido de animao percorreu a'mesa. "Estamos em Moscovo, Barley", lembrou-lhe Zapadny, muito divertido consigo mesmo. "Em Moscovo tudo levanta ondas. A ntelligentsia  pequena, estamos todos falidos e as chamadas telefnicas locais so grtis. Se voc janta com Katya Orlova num restaurante ntimo e especialmente louco, na manh seguinte h pelo menos quinze dos nossos que sabem desse jantar."
"Foi um encontro puramente comercial", disse Barley. "Ento porque  que no levou Mr. Wicklow consigo?" "Porque ele  demasiado jovem", retorquiu Barley, provocando mais um coro de gargalhadas russas.
O comboio da noite para Leninegrado deixa Moscovo alguns minutos antes da meia-noite, segundo consta para que os inmeros burocratas russos possam pedir ajudas de custo para dois dias. O compartimento tinha quatro beliches, e Wicklow e Barley tinham o par de baixo antes de aparecer uma peso-pesado loura que s se calou quando Barley trocou de beliche com ela. A quarta cama era ocupada por um homem pacato e aparntemente abastado que falava um.ingls elegante e exibia um ar pesaroso. Trazia vestido um fato escuro, tpico de advogado, e para dormir ps um pijama furiosamente listrado que teria ficado beni num palhao, mas nem por isso os seus modos se avivaram. Houve novo perodo de negociaes quando a loura se recusou a despir nem 4ue fosse o chapu enquanto os trs homens no desandassem para o corredor. A harmonia voltou ao compartimento quando ela os chamou e, enfiada num fato de treino cor-de-rosa com pompons nos ombros, lhes ofereceu bolinhos caseiros em sinal de gratido pelo cavalheirismo demonstrado. E ficou to impressionada quando Barley lhe ofereceu whisky que os obrigou a partilharem tambm do seu chourio, insistindo mais do que uma vez para que bebessem  sade de Mrs. Thatcher.
"De onde so os senhores?", perguntou o passageiro melanclico a Barley quando se deitavam.
"De Londres." "Londres, Inglaterra. No vm da lua, nem das estrelas, mas de Londres, Inglaterra", confirmou o melanclico e, ao contrrio de Barley, pareceu cair rapidamente no sono. Porm, horas depois, ao
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pararem numa estao, acordou e reatou a conversa. "Que estao  esta?", perguntou sem se preocupar em saber se Barley estaria ou no acordado.
"No fao ideia." "Se Anna Karenina viesse connosco esta noite e encontrasse em si a presena de esprito necessria, seria este o local em que abandonaria o pouco satisfatrio Vronsky."
"No me diga", retorquiu Barley, perfeitamente aturdido. O whisky tinha acabado mas o homem triste tinha brandy da Gergia.
"Foi em tempos um pntano, pntano continua a ser", disse o sempre-triste. "Se quiser entender a doena russa, ter de viver no pntano russo."
Estava a falar de Leninegrado.
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Um cu baixo, povoado de nuvens que lembravam algodo, parecia roar os palcios importados, dando-lhes um ar lgubre apesar dos seus vestidos de fantasia. Nos parques tocava-se uma msica estival, mas o Vero ocultara-se por detrs da nuvens, deixando uma nvoa nrdica muito branca serpeando e tremulando sobre os canais venezianos. Como lhe acontecia sempre que visitava Leninegrado, Barley tinha a sensao de que era noutras cidades que estava, por vezes Praga, outras vezes Viena, Paris ou Londres. Das cidades que conhecia, nenhuma outra escondia a sua ignomnia atrs de tantas fachadas harmoniosas, nenhuma outra punha questes to terrveis com um mero sorriso. Que crentes se encontravam naquelas igrejas fechadas e irreais? E que Deus veneravam? Quantos corpos tinham atulhado aqueles graciosos canais ou flutuado gelados rumo ao mar? Em que outra cidade poderia a mais terrvel das barbries ter produzido to belos monumentos? At as pessoas na rua, to lentas no falar, to cheias de decoro e discrio, pareciam ligadas por uma monstruosa e generalizada dissimulao. E Barley, enquanto caminhava vagarosamente e apreciava os monumentos como qualquer turista - e contava os minutos como qualquer espio -, Barley sentia-se a partilhar dessa duplicidade.
Tinha cumprimentado um capitalista americano que no era capitalista, e lamentado a doena da mulher dele que no estava doente e que provavelmente no era sua mulher.
Tinha instrudo um seu subordinado, que no era subordinado, para que o socorresse numa emergencia que nunca ocorreria.
Ia encontrar-se com um escritor que no era escritor, mas que procurava o martrio numa cidade onde o martrio era oferecido grtis, fizessemos ou no bicha para o comprar.
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O medo paralisava-o e tinha uma ressaca de quatro dias. Era finalmente um cidado de Leninegrado. Ao dar consigo na Nevsky Prospekt apercebeu-se de que andava  procura de um caf a que chamavam "Saigo", um local frequentado por poetas, traficantes de droga e especuladores e nunca por filhas de professores universitrios. "O seu pai tem razo", ouviu-o dizer. "O sistema acaba sempre por vencer."
Tinha um mapa das ruas da cidade, oferecido por Paddy - um mapa alemo com um texto traduzido para vrias lnguas. Cy tinha-lhe dado um exemplar de Ciime e Castigo, uma edio da Pengum com uma traduo capaz de o desesperar. Tinha metido o mapa e o livro num saco de plstico. Wicklow tinha insistido nesse ponto. No podia ser um saco qualquer, tinha de ser aquele saco, anunciando uma porcaria de um cigarro qualquer, naturalmente americano, e reconhecvel a quinhentos metros de distncia. Agora a sua nica misso na vida era seguir o rasto de RaskoInikov na sua caminhada fatal para assassinar a velha senhora, e era por isso que nesse momento andava  procura de um ptio que ficava em frente do Canal Griboyedev. Era um ptio com portes de ferro e uma rvore enorme que espalhava uma sombra consoladora. Entrou, avanou lentamente e lentamente comeou a vaguear por ali, espreitando para o seu Cime e Castigo e examinando depois cautelosamente as janelas sujas de p, como se esperasse que o sangue da velha agiota comeasse a escorrer sob os batentes amarelecidos. S ocasionalmente permitiu que o seu olhar passeasse por essa indistinta meia distncia que  a preferida das classes altas inglesas, e que compreende objectos to irrelevantes como transeuntes ou no transeuntes imobilizados numa espera qualquer; ou o porto que dava para a Rua Plekhanova, porto que, segundo Paddy, s era conhecido por pessoas intimamente relacionadas com aquele local, por exemplo cientistas que, na sua juventude, tivessem estudado no Litmo, situado muito perto, mas que, pelo movimento que Barley vinha investigando com o ar mais normal possvel, no davam sinais de vida.
Faltava-lhe o ar. Uma bolha de nusea cravara-se-lhe no peito como se estivesse a passar por um poo de ar. Tinha chegado ao porto. Abriu-o. Atravessou uma sala de entrada. Subiu os poucos degraus que davam para a rua. Olhou para todos os lados e com grande alarde fez de conta que estava a apreciar as suas descobertas, enquanto as to amaldioadas correias dos microfones lhe iam serrando as costas. Deu meia-volta e, sempre no mesmo jeito de passeio, voltou ao ptio, passou a rvore enorme e retomou o caminho do canal. Sentou-se num banco e desdobrou o mapa das ruas. Dez minutos, dissera Paddy, dando-lhe um cronmetro que haveria de substituir o seu relgio de herana, demasiado falvel. Cinco minutos antes, cinco minutos depois, e no espera mais.
"Perdeu-se?", perguntou um homem plido que parecia demasiado velho para poder dedicar-se a vendas ilcitas. Usava culos italia-
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nos  corredor de automveis e tnis Nike. O seu ingls de russo tinha um acento americano.
"Obrigado, meu velho, mas perdido ando eu sempre", retorquiu afavelmente Barley. " assim que eu gosto."
"Quer vender-me alguma coisa? Cigarros? Scotch? Canetas de tinta permanente? Quer negociar em drogas ou moeda ou qualquer coisa do gnero?"
"Obrigadssimo, mas estou muito bem assim", replicou Barley, aliviado por ter ouvido o homem falar normalmente. "Mas ficaria ainda melhor se se desviasse um pouco do Sol."
"Deseja conhecer um grupo internacional de pessoas, incluindo algumas raparigas9 Posso lev-lo a conhecer a verdadeira Rssia, aquela que nunca ningum consegue ver."
"Para ser o mais honesto possvel, meu velho, no creio que voc conhecesse a verdadeira Rssia se ela se levantasse e lhe desse um pontap nos tomates", disse Barley, retomando o estudo do mapa.
O homem zarpou imediatamente.
s sextas-feiras at os grandes cientistas fazem o que toda a gente faz, dissera Paddy. Do por encerrada a semana e embebedam-se. Do incio aos seus trs dias de folia, comunicam uns aos outros as respectivas proezas e pesquisas. Os seus anfitries de Leninegrado enchem-nos com um copioso almoo, mas deixam-lhes tempo suficente para se irem abastecer nas lojas antes de regressarem aos seus nmeros postais. A corrida s lojas constituir para o seu amigo a primeira hiptese de escapar ao grupo. Se escapar. Se decidir realmente comparecer ao encontro.
O meu amigo. O meu amigo, o meu RaskoInikov. E no o amigo dele. Meu. Para o caso de isto fracassar.
Um encontro falhou, mais dois para tentar. Barley levantou-se, esfregou as costas e, como tinha tempo, prosseguiu o seu passeio literrio por Leninegrado. Atravessando de novo a Nevsky Prospekt, contemplou as faces curtidas dos vendedores e, num acesso de empatia, pediu que o aceitassem no seu seio: "Eu sou um de vs! Partilho as vossas confuses! Aceitem-me! Escondam-me! Ignorem-me!" Acalmou-se. Olhou  sua volta. Achou-se um idiota. Um idiota de boca aberta.
Para trs ficava a Catedral Kazan.  sua frente, a Casa do Livro. Como bom editor que era, Barley decidiu entrar, olhando de soslaio para as janelas e para a torre baixa e larga com o seu odioso globo. Mas no ficou muito tempo, pois corria o risco de ser reconhecido por algum funcionrio do departamento editorial. Meteu pela rua Zhelyabova, na direco de um dos grandes armazns de Leninegrado, com as suas modas inglesas dos tempos da Segunda Guerra Mundial e chapus de pele fora de estao distribudos pelas montras. Postou-se conspicuamente na entrada principal, segurando no saco com o dedo do meio e desdobrando o mapa para disfarar.
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Aqui no, pediu. Por amor de Deus, aqui no. Por favor, Goethe, um pouco de privacidade. Aqui no pode ser.
"Se ele escolher a loja  porque pretende um encontro  vista de toda a gente", dissera Pady. "Quando ele o vir, h-de abrir muito os braos e gritar bem alto, 'Scott Blair,  mesmo voc? No  possvel!'."
Nos dez minutos seguintes Barley no pensou em nada. Primeiro estudou o mapa, depois ergueu a cabea e ps-se a apreciar os edifcios. Depois dos edifcios, apreciou as mulheres e, nesse dia de Vero em Leninegrado, as mulheres retribuam a apreciao. Mas isso no era o bastante para o tranquilizar. Enfronhou-se de novo no estudo do mapa. O suor escorria-lhe como berfindes pelo peito. Passou-lhe pela cabea a fantasia de que os microfones entrariam em curto-circuito. Por duas vezes pigarreou, porque tinha medo de no conseguir falar. Mas quando procurou humedecer os lbios descobriu que tinha a lngua seca.
Os dez minutos tinham passado j. Decidiu esperar mais dois porque os mereciam: ele, Katya, Goethe. Dobrou o mapa, mal, como sempre acontecia. Meteu-o no berrante saco de plstico. Deixou-se levar pela multido e descobriu que, afinal, at sabia andar como toda a gente, no fazia paragens ou desvios sbitos nem se estatelava estrondosamente ao comprido.
Lentamente voltou  Nevsky e tomou a direco da Ponte Anichkov. Procurava o elctrico 7 que ia para Smolny, para a sua terceira e ltima apario frente ao congresso dos espies de Leninegrado.
Esperou na bicha, entre dois jovens de jeans e trs babushkas'.
O elctrico parou e os jovens saltaram para dentro. Barley seguiu-os. Os dois rapazes desataram numa conversa ruidosa. Um velho levantou-se, oferecendo o lugar a uma das babushkas. Fazemos uma multido simptica, pensou Barley em mais um acesso de empatia com uma multido de que afinal no fazia parte; fiquemos juntos o dia todo, vamos divertir-nos. Um mido fazia-lhe caretas, perguntava-lhe qualquer coisa. Numa sbita inspirao, Barley subiu a manga e mostrou-lhe o relgio metlico de Paddy. O rapaz examinou-o demoradamente e soltou uma vaia ruidosa. Com um clangor de. chapa o elctrico parou.
Teve medo e no veio, pensou aliviado Barley ao entrar no parque.
O sol rebentou por entre as nuvens. Tem medo: quem o pode censurar?
Mas nesse momento mesmo, viu-o. Goethe, exactamente corno fora anunciado. Goethe, o grande amante e pensador, sentado no terceiro banco  esquerda do caminho de cascalho, um rifilista que no reconhece nenhum princpio.
' Avs, velhas, no original em russo. (N. do T.)
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Goethe. Lendo o jornal. Sbrio, com metade da sua estatura original, obviamente vestido de preto, mas mais parecendo o irmo mais velho e mais baixo. O corao de Barley esmoreceu e logo palpitou perante viso to vulgar. A imagem do grande poeta extinguira-se. Rugas sulcavam uma pele outrora macia. No havia nada de sublime naquele russo barbado com ar de escriturrio, apanhando o ar da tarde num banco do parque.
Mas o certo  que era ele, Goethe, e sentado no meio de um sem nmero de relquias russas que lhe eram antagnicas: mas nenhum tiro de pistola vinha das belicosas esttuas de Marx, EngeIs e Lenine, que o cercavam com as suas carrancas de bronze em plintos estranhamente separados; nenhum tiro de mosquete vinha da sagrada Sala 67, onde Lenine tinha instalado o seu quartel-general revolucionrio, num internato para filhas da melhor classe de So Petersburgo; nenhuma marcha fnebre saa da catedral azul barroca de Rastrelli, construda para suavizar os anos de declnio de uma imperatriz; nenhuns olhos vendados saam do quartel-general do Partido com o seus polcias enormes olhando ameaadoramente as massas libertadas.
Smola significa marinheiro, lembrou-se estupidamente Barley naquele instante eterno de monstruosa normalidade. Em Smolny, Pedro, o Grande, reuniu os seus marinheiros para a primeira Armada russa.
As pessoas que estavam perto de Goethe eram to normais quanto ele.
O dia tinha comeado cinzento, mas o sol recente produzira milagres e os cidados cumpridores comeavam a despir camisas, como se pressionados por uma urgncia comum. Rapazes nus da cintura para cima, raparigas como flores murchas, mulheres rotundas com soutiens de cetim deitadas aos ps de Goethe, com rdios ao lado, mastigando sanduches e discutindo assuntos insondveis, mas que as faziam passar dos esgares  reflexo e da reflexo ao riso numa sucesso rpida.
Um canunho de pedrinhas passava junto ao banco. Barley avanou decididamente, estudando as Informationen1 nas costas do mapa dobrado. No campo, dissera Ned numa sesso inteiramente devotada a uma coisa macabramente rotulada de manhas do oficio, a fonte  a estrela e a estrela  que decide se o encontro vai para a frente ou se aborta.
Menos de cinquenta metros separavam Barley da sua estrela, mas o caminho unia-os como uma linha recta. Estaria a andar demasiado depressa ou demasiado do devagar? Num momento quase chocava com o casal que ia  sua frente, no momento seguinte era empurrado por algum que ia com pressa. Se ele o ignorar, espere cinco minutos e passe segunda vez, dissera Paddy. De olhos postos no mapa, Barley viu o rosto de Goethe erguer-se como se tivesse farejado a sua presena. Viu a palidez das suas faces e as covas escuras dos seus olhos. E depois a palidez do jornal, que Goethe dobrava como se fosse um lenol de acampamento. Viu que havia um jeito an-
1 Informaes, em alemo no original. (N. do T.)
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gular e muito pouco harmnico nos seus movimentos, de tal modo que, na mente vertiginosa de Barley, ele se assemelhou nesse moniento a uma figura de um relgio ultra-preciso de uma cidade sua: agora ergo o meu rosto plido, agora marco as doze com a mi nha bandeira branca, agora levanto-me e desapareo. Dobrado o jornal, Goethe meteu-o no bolso do casaco e deu uma pedaggica vista de olhos ao seu relgio. Depois, com o mesmo ar mecnico de quem era uma inveno alheia, tomou o seu lugar no exrcito de pedestres e, com passos longos, encaminhou-se na direco do rio.
Barley j sabia agora a que ritmo caminhava, j que o seu passo era o passo de Goethe. A sua presa metera pelo caminho que ia dar a uma fila de carros estacionados. De olhos e crebro operacionais, Barley seguiu-o e, ao chegar aos carros, viu-o junto ao apressado Neva, o casaco inchado pela brisa do rio. Um barco de recreio passou, mas no havia nos passageiros qualquer sinal de recreao. Um navio carvoeiro avanava lentamente, sarapintado de zarco, e era belo de ver o fumo escuro que saa da sua chamin  luz volvel do rio. Goethe estava encostado  balaustrada, perscrutando a corrente como se quisesse calcular a sua velocidade. Barley avanou na direco dele sem reparar onde punha os ps, j que toda a sua ateno estava concentrada no mapa. Mesmo quando ouviu Goethe dirigir-se-lhe, no seu ingls maculado que o tinha acordado no alpendre em Peredelkino, Barley no lhe respondeu imediatamente.
"O senhor queira desculpar, mas quer-me parecer que nos conhecemos. "
Mas Barley de incio recusou-se a ouvir. A voz sara demasiado nervosa, demasiado titubeante. Continuou embrenhado nas Informatonen. Deve ser mais um vendedor, disse para si mesmo. Ou  um dealer ou  chulo.
"Desculpe, creio que o conheo", repetiu Goethe, como se ele prprio j no estivesse muito seguro.
S ento, convencido pela insistncia do estranho, Barley ergueu relutantemente a cabea.
"Se no estou enganado, o senhor  Scott Blair, o distinto editor ingls."
Perante o que Barley decidiu persuadir-se a reconhecer o homem que lhe tinha dirigido a palavra, primeiro com um ar dubitativo, depois, ao estender-lhe. a mo, com um prazer sincero mas mudo,
"Estou espantado", comentou calmamente. "Meu Deus. Quem havia de dizer, o grande Goethe. Conhecemo-nos naquela vergonhosa festa literria. Se bem me lembro, ramos as nicas pessoas sbrias. Como tem passado?"
"Ah, muito bem", retorquiu Goethe com uma voz j mais decidida. Porm, quando o cumprimentou, Barley reparou que as mos dele escorregavam com o suor. "No poderia estar melhor neste mo-
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mento. Bem-vindo a Leninegrado, Mr. Barley.  pena eu ter um compromisso esta tarde. Mas podamos passear um pouco, no? Tro- car algumas ideias?" A voz baixara de tom. " mais seguro do que ficar aqui parado", explicou.
Tinha agarrado no brao de Barley e ia-o empurrando decididamente ao longo da margem. Tamanha pressa tinha anulado todas as veleidades tcticas de Barley. Olhou de relance para aquela figura curvada, para a palidez do seu rosto atormentado, para os sulcos de dor ou medo ou inquietao que o percorriam. Reparou naqueles olhos de acossado, pestanejando nervosos sempre que passava algum. Naquele momento, todos os sentimentos de Barley se resumiam a um s: proteg-lo. Para o bem dele e para o bem de Katya.
"Se pudssemos caminhar uma meia hora, veramos o navio de guerra Aurora aquele que deu o sinal para a Revoluo. Mas a prxima revoluo comear com alguns sauves compassos de Bach.  tempo de comear. No concorda?"
"E sem maestro", disse Barley com um sorriso franco. "Ou talvez com uma pea do jazz que voc to bem toca.  isso!  isso mesmo! Voc anunciar a nossa revoluo tocando Lester Yoting com o seu saxofone. Leu o ltimo livro de Rybakov? Proibido durante vinte anos e por esse motivo uma obra-prima russa.  abusar do tempo, parece-me."
"Ainda no foi publicado em ingls." "E o meu, leu?" A mb magra de Goethe apertava-lhe o brao. A voz aflita volvera um murmrio.
"Sim, li aquilo que consegui entender." "E que acha?" " corajoso." "s?" " sensacional. Aquilo que eu entendi. No*tvel." "Nessa noite ns encontrmos-nos, reconhecemo-nos. Foi uma noite mgica. Conhece um ditado russo que diz, Vm pescador conhece sempre outro  distncia'? Ns somos pescadores. Alimentaremos o mundo com a nossa verdade."
"Talvez faamos isso", disse Barley num tom dubitativo e sentiu a cabea macilenta virar-se num giro para ele. "Tenho de discutir o seu livro consigo um bocado, Goethe. Temos um ou dois problemas."
"Foi por isso que voc veio. Eu tambm. Obrigado por ter vindo a Leninegrado. Quando o publica? Tem de ser rpido. Aqui, os escritores esperam trs, cinco anos para ver um livro publicado, ainda que no sejam Rybakovs. Eu no posso esperar tanto tempo. A Rssia no tem tempo a perder. E eu tambm no."
Uma fila de rebocadores passava nesse momento, um barco com dois remadores balanou fortemente na sua esteira. Um casal abraava-se encostado  balaustrada. E  sombra da catedral uma jovem abanava um carrinho de beb enquanto lia um livro que segurava com a outra mo.
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"Como eu no apareci na feira audio de Moscovo, Katya entregou o manuscrito a um colega meu", disse cautelosamente Barley.
"Eu sei. Tinha de correr o risco." "O que voc no sabe  que esse colega no me conseguiu localizar em Inglaterra e por isso deu o manuscrito s autoridades. Gente discreta. Peritos."
Alarmado, Goethe virou-se de sbito para Barley e uma sombra de terror espalhou-se rapidamente sobre o seu rosto angustiado. "Eu no gosto de peritos", disse. "Os peritos so os nossos carcereiros. No h ningum que eu mais odeie na terra."
"Mas voc tambm  um perito, no , Goethe?" "Por isso mesmo sei o que digo! Os peritos no passam de uns viciados. No resolvem nada! So os lacaios de qualquer sistema que os contrate. Perpetuam esse sistema. Quando somos torturados, so peritos que nos torturam. Quando somos enforcados, so peritos que nos enforcam. No leu o que escrevi? Quando o mundo for destrudo, no sero loucos a destru-lo, mas sim peritos perfeitamente sos e burocratas perfeitamente ignorantes. Voc traiu-me."
"Ningum o traiu", retorquiu irritado Barley. "O manuscrito, muito simplesmente, extraviou-se. Os nossos burocratas no so os vossos burocratas. Letam-no, admiram-no, mas precisam de saber algo mais acerca de si. S podem acreditar na mensagem se acreditarem na fonte. "
"Mas querem public-lo?" "Primeiro que tudo precisam de ter a certeza de que voc no  uma fraude, e a melhor forma de chegarem a essa certeza  falarem consigo. "
Goethe ia a caminhar demasiado depressa, levando Barley atrs de si. Olhava fixamente para ponto nenhum  sua frente. O suor corria-lhe pelas fontes.
"Eu sou um homem de letras, Goethe", disse ofegante Barley para um rosto que parecia longe dele. "Tudo o que sei de Fsica resume-se a donjuanices, mulheres e cerveja quente. Isto so coisas que me excedem, Goethe. E que excedem tambm Katya. Se  este o caminho que quer seguir, ento permita aos peritos que o acompanhem e deixe-nos a ns de fora. Era isto que eu lhe queria dizer. "
Passaram um caminho e avanaram por mais um segmento de relva. Um grupo de crianas da escola abriu alas para eles passarem.
"Ento foi para isso que veio? Para me dizer que se recusa a publicar-me?"
"Mas como  que eu posso public-lo?", retorquiu Barley, cuja exasperao crescia com o desespero de Goethe. "Mesmo que pudssemos pr aquele material em condies de ser publicado, que aconteceria a Katya? Ela  o seu correio, no sei se est lembrado. Foi ela quem passou segredos de defesa soviticos par uma potncia estrangeira. Isso aqui no  brincadeira nenhuma. Se alguma vez descobrem o que vocs fizeram. Katya pode encomendar a sua alma no dia
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em que o primeiro exemplar chegue aos escaparates. Qual  o papel do editor no meio disto tudo? Acha bem que v para Londres, que me sente calmamente  minha secretria e que carregue no boto que vos h-de eliminar aos dois?"
Goethe arfava, mas os seus olhos tinham deixado de varrer as multides e viravam-se agora para Barley.
"Oia-me com ateno, Goethe", pediu Barley. "Espere um instante s. Eu entendo-o. Creio sinceramente que o entendo. Voc tinha um talento e esse talento foi usado para fins indignos. Voc conhece todos os podres do sistema e pretende limpar a sua alma. Mas voc no  Cristo nem Pecherin. No  o seu caso que importa. Se quer matar-se, mate-se, o problema  seu. Mas no se esquea de que a matar tambm a ela. E se no o inquieta mat-la, por que razo haveria de preocupar-se em salvar pessoas?"
Seguiam na direco de um parque de piqueniques, com cadeiras e mesas feitas de toros. Sentaram-se lado a lado e Barley desdobrou o mapa. Debruaram-se sobre as ruas de Leninegrado, fingindo que as examinavam. Goethe pensava ainda nas palavras de Barley, confrontando-as com os seus objectivos.
"S o agora existe", explicou por fim, numa voz que no excedia o murmrio. "No h outra dimenso a no ser o agora. No passado, fizmos, tudo mal porque queramos salvar o futuro. Agora temos de fazer tudo bem para salvarmos o presente. Perder tempo  perder tudo. A histria da Rssia nunca deu segundas hipteses. Quando saltamos sobre um abismo, o salto tem de ser perfeito e definitivo: nos abismos da histria russa nunca h nada onde nos possamos agarrar. E quando falhamos, ela d-nos o que merecemos: outro Estabne, outro Brejnev, outra purga, outra era glacial de aterradora monotonia. Se a evoluo presente se mantm, ento terei estado na vanguarda. Se pra ou regride, ento no passarei de um nmero das estatsticas da nossa histria ps-revolucionria."
"Tal como Katya", disse Barley.
O dedo de Goethe, incapaz de estar parado, viajava pelo mapa. Olhou  sua volta e prosseguiu. "Estamos em Leninegrado, Barley, o bero da nossa grande revoluo. Ningum triunfa aqui sem sacrifcio. Voc disse que precisvamos de uma experincia com a natureza humana. Porque est ento to chocado quando so precisamente as suas palavras que eu quero pr em prtica?"
"Voc enganou-se a meu respeito nesse dia. Eu no sou o homem que voc imaginou. No sou um fala-barato, sou o fala-barato. Por um mero acaso voc conheceu-me num dia em que o vento soprava na direco certa."
Controlando desesperadamente a sua ira, Goethe abriu as mos e espetou-as em cima do mapa. "Voc no precisa de me lembrar que o homem no  a mesma coisa que a sua retrica", disse. "Os nossos novos chefes falam de abertura, de desarmamento, de paz. Pois deixemo-los ter a abertura de que falam. E o desarmamento. E a paz.
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Enfrentemos o embate e demos-lhes o que eles pedem. E faamos com que desta feita eles no possam voltar atrs." Estava j de p, incapaz de suportar o espao limitado da mesa.
Barley levantou-se tambm. "Goethe, por amor de Deus! Tenha calma. "
"Ao diabo a calma! ,a calma que mata!" Comeou de novo a andar no seu passo enrgico. "No  passando os nossos segredos de mo em mo, como se fssemos ladres, que vamos acabar com a praga do secretismo! Eu tenho vivido desde sempre na mentira! E vem voc dizer-me para manter secreta essa mentira! Porque  que a mentira sobrevive? Porque o segredo a alimenta. Porque  que a nossa viso grandiosa se esfarelou por completo at dar nessa medeinha confuso? Por causa do segredo. Como  que vocs conseguem manter o vosso povo na ignorncia da insanidade dos vossos planos de guerra? Atravs do secretismo. Impedindo que se faa luz. Mostre o meu trabalho aos seus espies, se  que isso que tem de fazer. Mas publique-me: tambm. Foi isso que voc me prometeu e eu acredito na sua promessa. Deixei cair um caderno no seu saco, nesse caderno encontrar novos captulos da minha obra. No tenho dvidas de que ele responde a muitas das questes que esses idiotas querem pr-me."
A brisa do rio refrescava o rosto afogueado de Barley enquanto caminhavam. Olhando de relance para o rosto de Goethe, que o suor tornara brilhante, pareceu-lhe vislumbrar sinais de uma inocncia ferida que, aparentemente, era a razo do seu ultraje.
"Para o meu livro quero uma capa s com letras", anunciou. "Nada de desenhos, por favor, nada de coisas que dem nas vistas. Est a ouvir-me?"
"Mas se ainda nem tem um ttulo!", objectou Barley. "Agradecia que usasse o meu prprio nome. Nada de fugas. No quero pseudnimos. Usar um pseudnimo  inventar mais um segredo."
"Mas eu nem se o seu nome, Goethe." "Eles ho-de sab-lo. Depois do que Katya lhe disse, e com os novos captulos, no tero o mnimo problema para me identifcarem. Faa as suas contas correctamente. E todos os seis meses mande o dinheiro para uma causa que o merea. Ningum poder dizer que fao isto a pensar no meu lucro."
Atravs das rvores prximas, acordes de msica marcial competiam com o chocalhar de elctricos invisveis.
"Goethe", disse Barley. "Qual  o problema? Tem medo?" "Venha para Inglaterra. Eles fazem-no sair clandestinamente. Eles conhecem as manhas do ofcio. Em Inglaterra voc poder dizer ao mundo tudo o que quiser. Alugamos o Albert Hall para si. Levamo-lo  televiso,  radio - onde voc quiser. E quando a sua misso
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estiver cumprida, do-lhe um passaporte e dinheiro e voc poder passar o resto da sua vida tranquilo e feliz na Austrlia."
Tinham parado outra vez. T-lo-ia Goethe ouvido? Teria compreendido? Nos seus olhos paralisados no havia qualquer expresso. Tinha os olhos fixos em Barley como se ele fosse um local distante nos confins de um vasto horizonte.
"Eu no sou um desertor, Barley. Sou um russo, e o meu futuro  aqui, ainda que seja um futuro curto. Publica-me ou no? Preciso de saber. "
Para ganhar tempo, Barley meteu a mo no bolso do casaco e tirou o livro j muito surrado que Cy lhe dera. "Pediram-me que lhe entregasse isto", disse. "Uma recordao do nosso encontro. As questes que eles lhe querem pr encontra-las- no prprio texto, juntamente com uma morada na Finlndia para onde poder escrever e um nmero de telefone em Moscovo com instrues sobre o que deve dizer quando telefonar. Se voc os contactar directamente, podero dar-lhe toda uma srie de engenhosos brinquedos que tomaro muito mais fcil a comunicao". Ps o livro na mo de Goethe e o livro a ficou.
"Publica-me? Sim ou no." "Como  que eles podem entrar em contacto consigo?  uma coisa que eles tm de saber. "
"Diga-lhes que podem entrar em contacto comigo atravs do meu editor."
"Tire Katya desta embrulhada. Mantenha-se com os espies e afaste-se dela."
O olhar de Goethe tinha descido at ao fato de Barley e assim se manteve, como se o fato o tivesse perturbado. O seu sorriso triste era como um ltimo dia de frias.
"Hoje est de cinzento, Barley. O meu pai foi atirado para a priso por homens cinzentos. Foi morto por um velho que usava um uniforme cinzento. Foram os homens cinzentos que destruram a minha bela profisso. Tenha cuidado ou um dia destes destroem tambm a sua. Jura que publica a minha obra ou tenho de procurar de novo um ser humano decente?"
Por um momento Barley no foi capaz de responder. J no sabia como escapar  pergunta.
"Se conseguir ter acesso ao material e se conseguir p-lo em forma de livro, publico-o", replicou.
"Perguntei-lhe se sim ou no." Prometa-lhe tudo o que ele queira, desde que dentro de limites razoveis, dissera Paddy. Mas o que eram limites razoveis? "Est bem", retorquiu. "Sim."
Goethe devolveu-lhe o livro e Barley, espantado com o gesto, meteu-o de novo no seu bolso. Abraaram-se e Barley sentiu o cheiro a suor e a fumo de muitos cigarros fumados e encontrou de novo naquele abrao a fora desesperada da despedida em Peredelkino. To abruptamente como o abraara, Goethe separou-se dele
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e, depois de olhar nervosamente  sua volta uma vez mais, encaminhou-se rapidamente para a paragem do elctrico. Ao v-lo afastar-se, Barley reparou num velho casal que, numa esplanada, seguia a cena, oculto pelas sombras de rvores azuis-escuras.
Barley espirrou uma vez e depois comeou a espirrar seriamente. J no podia evitar a crise. Voltou para o parque, a cara enfiada no leno, enquanto sacudia os ombros e espirrava e sacudia de novo os ombros.
"Scott! Ora viva! ", exclamou J. P. Henziger, com o entusiasmo excessivo de um homem ocupado, obrigado a esperar, abrindo rapidamente a porta do maior quarto do Hotel Europa. "Scott, este  um daqueles dias em que descobrimos quem so os nossos verdadeiros amigos. Faa o favor de entrar. O que o fez demorar tanto? Venha falar  Maisie."
Era um homem na casa dos quarenta, musculoso e gil, mas tinha o tipo de rosto feio e amistoso com que Barley costumava simpatizar  primeira vista. Usava um cabelo de elefante num dos pulsos e uma DiaMete de ouro no outro. Meias-luas de suor manchavam-lhe a camisa de algodo, nas axilas. Wicklow apareceu por trs dele e num pice fechou a porta.
Camas separadas, com cobertas verde azeitona, dominavam o centro do quarto. Numa delas estava deitada a supostamente debilitada Mrs. Henziger, uma gatinha de trinta e cinco anos, sem maquilhagem, os cabelos soltos caindo tragicamente sobre os ombros sardentos. Um homem de fato preto rondava pouco  vontade a cabeceira da paciente. Tinha culos castanhos-escuros. Uma mala de mdico esperava aberta sobre a cama. Henziger prosseguiu o seu improviso para os microfones.
"Scott, quero apresentar-lhe o Dr. Pete Bernstorf do Consulado Geral Americano aqui em Leninegrado, um ptimo mdico. Sem ele no sei o que faramos. A Maisie est muito melhor. Ali, e Mr. Wicklow foi inexcedvel. Leonard arranjou o hotel, o passeio guiado, a farmcia, tratou de tudo. Como  que lhe correu o dia?"
"Lindamente! Correu-me desesperadamente bem!", atirou-lhe Barley e, por um momento, o guio improvisado ameaou descambar em catstrofe.
Barley atirou com o saco de plstico e o livro de bolso para cima da cama. Com as mos trmulas despiu o casaco, desprendeu as correias dos microfones e atirou-as para cima do saco e do livro. Levou uma mo atrs das costas e, recusando a oferta de ajuda de Wicklow, extraiu o pequeno gravador cinzento, atirando-o tambm para cima da cama, de tal modo que Maisie foi obrigada a desviar as pernas, acompanhando o acto com um "Merda!" abafado. Liberto de todos os seus adereos, Barley enfiou-se na casa-de-banho. Deitou todo o whsky do seu frasco de bolso num copo dos dentes, abraando com
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o outro brao o peito como se tivesse levado um tiro. Bebeu e voltou a beber, perfeitamente indiferente  expedita manobra que entretanto se desenrolava no quarto.
Henziger, leve que nem um gato apesar do corpanzil, pegou no saco, tirou o caderno e passou-o a Bernstorf que o meteu de imediato na sua mala de mdico entre frascos de remdios e instrumentos vrios, onde desapareceu por artes mgicas. Henziger passou-lhe depois o livro, que tambm desapareceu. Wicklow, por sua vez, passou-lhe o gravador e as correias dos microfones, que logo entraram na
mala. Enquanto fechava a mala, Berristorf deu as suas ltimas instrues  paciente: nada de slidos durante quarenta e oito horas, ch, uma fatia de po de centeio, mas se puder evitar, melhor, e tome o antibitico at ao fim mesmo que se sinta melhor. Henziger no o
deixou acabar.
"Doutor, se por acaso passar por Boston, e precisar de alguma coisa, seja o que for, h?, j sabe. Aqui tem o meu carto, garanto-lhe que ser bem recebido e ... "
De copo na mo, Barley permanecia encostado ao lavatrio, olhando furiosamente para o espelho, enquanto a mala do Bom Sa- maritano se encaminhava para a porta.
De todas as noites que Barley passou na Rssia e, vendo bem, de todas as noites de toda a sua vida, aquela foi sem dvida a pior.
Henziger ouvira dizer que um restaurante funcionando em regime de cooperativa tinha acabado de abrir em Leninegrado, o que significava, de acordo com o ltimo cdigo, que se tratava de um restaurante privado. Wicklow foi espreitar o local mas veio com ms notcias - estava a abarrotar de gente. A golpes de simpticos telefonemas e de ainda mais simpticas gorjetas, conseguiram uma mesa extra, a um metro de distncia da mais terrvel e barulhenta pera cigana que Barley alguma vez esperara ouvir.
E ali estavam eles sentados  mesa do restaurante cooperativo, celebrando a miraculosa recuperao de Mrs. Henziger. Os miados dos cantores eram amplificados por megafones electrnicos. No havia pausas entre os nmeros.
E  volta deles estava sentada a Rssia que o puritano adormecido em Barley odiava desde h muito, mas nunca vira: os nem-por-isso-muito-secretos czares do capitalismo, os novos-ricos da indstria e exibicionistas do consumo, os ricaos que financiavam o Partido e os exploradores do mercado negro, com as mulheres ao lado, cobertas de jias e tresandando a perfumes ocidentais e desodorizantes russos, e com os empregados sempre ao lado, sempre babados  volta das mesas dos mais ricos. As vozes medonhas dos cantores elevaram-se, a msica,  disputa, conseguiu abaf-las, mas as vozes voltaram a impor-se num chinfrim extraordinrio que s a voz de Henziger conseguiu vencer.
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"Scott, h uma coisa que voc tem de saber", berrou ele para Barley, debruando-se excitadamente sobre a mesa. "Isto por aqui est a dar a volta. Cheira-me a esperana por estas bandas, cheira-me a mudana, cheira-me a comrcio. E ns na Potornac estamos a participar nessa mudana. Sinto-me orgulhoso do nosso papel. " Nesse momento j o grupo de cantores tinha abafado os seus berros. "Orgulhoso", repetiram os seus lbios, que um milho de decibis ciganos tinham reduzido  mudez.
Para Barley, o problema estava em que Henziger no deixava de ser um tipo simptico e Maisie era decididamente uma boa camarada, o que piorava ainda mais as coisas. A agonia arrastava-se e Barley chegava finalmente ao abenoado estado da surdez. Foi no meio da cacofonia que encontrou afinal o seu refgio. Atravs das pequenas aberturas das janelas, o seu eu secreto mergulhava na noite de Leninegrado. Para onde foste, Goethe?, perguntava. Quem a substitui quando ela no est? Quem cerze as tuas meias pretas e cozinha as tuas sopas deslavadas, enquanto tu a arrastas pelos cabelos ao longo do teu muito nobre e altrustico caminho, que te h-de conduzir  auto-destruio?
Sem saber exactamente como, viu-se no hotel. De facto, ao acordar, deu consigo pendurado no brao de Wicklow, no meio de uma chusma de alcolicos finlandeses que, envergonhados, vagueavam aos tropees pelo hafl.
"Grande festa!", comunicou a quem o ouvisse. "Um conjunto esplndido. Obrigado por terem escolhido Leninegrado."
Porm, enquanto Wicklow o rebocava para a cama, Barley que resistira  bebedeira espreitou para baixo, na direco da escada vazia. E, na escurido que circundava a entrada, viu Katya, sentada, de pernas cruzadas, a saca no colo. Trazia um casaco preto cintado e um leno de seda branco preso sob o queixo e os seus olhos seg'uiam-no com insistncia e o seu sorriso era o sorriso de sempre, tenso, triste e cheio de esperana, um convite ao amor.
Porm, quando a turvao se extinguiu nos seus olhos, viu-a dizer pelo canto da boca qualquer coisa de picante para o porteiro do hotel, e s ento compreendeu que aquela mulher no passava de mais uma prostituta de Leninegrado  procura de cliente.
E no dia seguinte, para grande fanfarra dos mais discretos clarins britnicos, o nosso heri regressou  ptria.
Ned no queria qualquer aparato, no queria americanos e obviamente no queria que Clive estivesse presente, mas estava decidido a marcar o acontecimento com um gesto qualquer. Por isso seguimos para Gatwick e, depois de termos deixado Brock nas Chegadas com um cartaz que dizia "Potomac", instalmo-nos numa sala de espera que os Servios partilhavam com o Foreign Office com algum constrangimento e discusses interminveis sobre quem teria bebido o gin.
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Espermos alguns minutos, o avio estava atrasado. Clive telefonou de Grosvenor Square para perguntar, "J chegou, Palfrey?", como se em parte esperasse que Barley tivesse ficado na Rssia.
Passou mais meia hora e Clive voltou a telefonar, mas dessa feita foi Ned quem atendeu. Tinha acabado de desligar quando a porta se abriu e Wicklow entrou com um sorriso arreganhado de menino de coro, mas conseguindo ao mesmo tempo lanar srios avisos com o olhar.
Segundos depois entrou Barley, com o mesmo ar que tinha nas fotografias do processo, excepto que estava lvido. "Os sacanas gostaram!", exclamou, ainda antes de Brock ter podido fechar a porta. "Aquele comandante todo no-me-toques que falava  moda de Surrey! Um dia mato-o, quele poreo!"
Enquanto Barley barafustava, Wicklow explicou discretamente a causa de lanta agitao. O avio tinha sido ocupado por uma delegao de jovens homens de negcios britnicos, que Barley tinha desde logo rotulado de yuppies da pior espcie, e que, pelos vistos, o eram. Vrios deles estavam j bbedos quando entraram no avio e os outros depressa os acompanharam. Estavam h apenas alguns minutos no ar quando o comandante, na opinio de Barley o verdadeiro provocador do incidente, anunciou que o avio tinha deixado o espao areo sovitico. Ouviu-se um estrondo de vivas e as hospedeiras irromperam pelo avio distribuindo pressurosamente champanhe. De copo na mo, todos, yuppies, hospedeiras e restante tripulao, desataram ento a cantar  'o "Rule, Britannia!"
"A partir de agoris vou na Aerofiot!", protestava Barley perante os nossos rostos impassveis. "Vou escrever  companhia que nos transportou. Vou ... "                                       1
"No vai nada", interrompeu-o afavelmente Ned. "Vai  deixar-nos fazer-lhe uma festa. Depois pode barafustar."
Dito isto, cumprimentou-o e s lhe largou a mo quando Barley esboou um sorriso.
"Onde  que est o Walt?", perguntou, espreitando  sua volta. "No est, est atratar de outros assuntos", disse Ned, mas nesse momento Barley j estava a pensar noutra coisa. A sua mo tremia violentamente enquanto bebia. Chorou mesmo um pouco. Acontece com novatos sempre que regressam de uma operao, garantiu-me Ned.
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Tudo o que sucedeu nos trs dias seguintes foi mais tarde examinado minuciosamente como se dos destroos de um avio se tratasse. No podamos deixar passar nenhum erro tcnico. Poucos encontrmos.
Depois da exploso no aeroporto. Barley passou  fase animada, perdendo-se em sorrisos que s ele entendia durante a viagem de carro, saudando paisagens familiares no seu jeito timidamente afectuoso. Ainda no carro teve um ataque de espirros.
Mal chegmos  casa de Knightsbridge, onde Ned o obrigava a passar a noite antes de regressar ao seu apartamento, Barley depositou a bagagem  entrada, correu a abraar Miss Coad e, declarando-lhe amor eterno, presenteou-a com um explndido chapu de pele de lince, que nem Wicklow o vira comprar.
Nesse momento abandonei-os. Clive tinha-me chamado ao dcimo segundo andar para aquilo que designava por "discusso crucial", embora no pretendesse outra coisa seno tirar nabos da pcara. Ento, como estava ele? Nervoso? Eufrico? Como  que ele estava, Palfrey? Johnny estava presente. Escutava, mas quase no falava. Bob, disse, tinha sido chamado a Langley para consultas. Contei-lhes o que tinha visto, sem tirar e certamente sem pr. Ambos ficaram espantados com as lgrimas de Barley.
"Quer dizer ento que ele disse que ia voltar?, sublinhou Clive. Nessa mesma noite, Ned jantou com Barley. Ainda no era o interrogatrio sobre a misso. Era apenas o regresso  terra. As gravaes revelam um Barley falando com desenvoltura e um tom acima do usual. Quando me juntei a eles para beber o caf, estava a falar de Goethe, mas com uma objectividade artificial.
Estava mais velho, tinha perdido toda a sua vitalidade. Estava uma runa. Uma verdadeira runa.
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Parecia que tinha deixado de beber. Agora a droga era outra. "Havia de ter visto as mos dele, Harry, no paravam de tremer em cima do mapa."
Havia de ter visto as suas, pensei eu, quando estava a beber champanhe no aeroporto.
Nessa noite referiu-se a Katya apenas uma vez, e tambm de um modo deliberadamente desprendido. Creio que estava decidido a mostrar-nos que no nutria sentimentos diferentes dos nossos, sentimentos que exigissem da sua parte um controlo particular. Em Barley isso no constitua uma desonestidade. Com excepo dos que lhe tnhamos ensinado, Barley era incapaz de embustes. O que o motivava era o seu medo de at onde poderiam levar os sentimentos que ocultava, se perdesse o pano de fundo que ns ramos. Katya estava mais assustada por causa dos filhos do que por causa de si mesma, disse, de novo com um desapego ensaiado. Como a maior parte das mes, no acham?, acrescentou. Por outro lado, os seus filhos eram a chave para o mundo que ela queria salvar. Portanto, num certo sentido, o que ela estava a fazer era uma verso absoluta do amor maternal, no est de acordo, Nedsky?
Ned concordou. Mas olhe que com os prprios filhos, ser mais dura das experincias, acrescentou.
Uma rapariga maravilhosa, insistiu Barley, agora num tom paternalista. Um tanto ou quanto demasiado enrgica para o seu gosto, mas para quem gostava de mulheres com a fibra moral de Joana d'Arc 'Katya era decerto a indicada. E alm disso era uma bela mulher. Sem a mnima dvida. Traos talvez demasiado fortes para ser clssica, no sei se esto a perceber, mas inegavelmente atraente.
No lhe podamos dizer que andvamos h uma semana a admirar fotografias de Katya, de maneira que limitmo-nos a receber a informao sem mais comentrios.
s onze horas, queixando-se da diferena horria, Barley caa de sono e cansao. Ficmos na entrada a v-lo arrastar-se pelas escadas acima a caminho do quarto.
"Seja como for, o material  bom, no ?", perguntou, agarrado ao corrimo, lanando-nos um olhar sorridente de malcia atravs dos seus culos redondos e minsculos. "Deve ser de primeira o caderno que ele nos deu. J o viram, suponho."
"Os cientistas esto a queimar as pestanas com esse caderno", replicou, Ned. Foi melhor no lhe ter dito que disputavam o caderno que nem trinta ces a um osso.
"Peritos so viciados", comentou Barley, de novo maliciosamente sorridente.
"Uma coisa s, Nedsky. Talvez no fosse m ideia melhorar a instalao dos microfones. Tenho as costas em ferida.  melhor arranjarem uma correias menos duras para o prximo tipo que mandarem. A propsito, onde  que pra o tio Bob?"
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"Mandou-lhe abraos", disse Ned. "Por enquanto anda numa grande efervescncia, mas espera estar consigo em breve."
"No andar  caa com o Walt?" "Mesmo, que soubesse, no lho diria", retorquiu Ned, e desatmos os trs a rir.
Nessa noite, lembro-me que recebi um telefonema perfeitamente irrelevante da minha mulher, Margaret, acerca de uma multa por estacionamento proibido que lhe tinham aplicado em Basingstoke -
uma multa injusta, segundo ela.
"Aquele espao era meu, tinha acabado de fazer sinal quando se meteu  minha frente aquele sacaninha num Jaguar novinho em folha, um Jaguar branco, com cabelo preto cheio de gel ... "
Inadvertidamente comecei a rir e sugeri-lhe que os Jaguares com cabelo preto cheio de gel tambm precisavam de estacionar. O humor nunca foi o ponto forte de Margaret.
Na manh seguinte, era um domingo, Clive voltou a chamar-me, primeiro porque queria informaes sobre a noite anterior, e depois porque queria que eu falasse abertamente com Johnny acerca de questes to esotricas como as possibilidades legais de considerar Barley funcionrio dos Servios. Mas Clive queria saber mais. Queria saber se, no caso afirmativo, Barley tinha renunciado a certos direitos
- o seu direito a representao legal na eventualidade uma disputa connosco, por exemplo. Respondi-lhe com alguma ambiguidade, o que no deixou de o aborrecer, mas o que lhe disse resumia-se basicamente a um "sim". Sim, ele tinha renunciado a tais direitos. Ou mais exactamente, sim, podamos lev-lo a pensar que tinha renunciado, qualquer que fosse o teor da lei.
Johnny, creio que ainda no o referi, tinha-se diplomado em Direito, em Harvard, pelo que, ao contrrio do que era habitual, Langley no se vira na necessidade de enviar um batalho de conselheiros legais.
De tarde, e visto que Barley no estava com disposio para ficar metido em casa e o dia permanecia ensolarado, fomos de carro at Maidenhead e passemos depois pelas margens do Tamisa. No regresso, pareceu-me adivinhar que Barley tinha j sido interrogado; assim sendo, e no tendo os nossos analistas mais questes e pr-lhe, e estando todos os seus encontros operacionais cobertos pelos necessrios meios tcnicos, pouco mais haveria a vasculhar na sua misso.
Sentir-se-ia Barley abalado pelas nossas preocupaes? Aparentvamos uma disposio o mais jovial possvel, mas no pude deixar de pensar que a atmosfera de estagnao que ameaava a operao comeava tambm a contamin-lo. Ou talvez os seus sentimentos andassem num tremendo turbilho de confuses e decepes em que ns no passvamos de um entre muitos factores.
Na noite de domingo cemos os trs em Knigthsbridge e Barley estava to apaziguado e calmo que Ned decidiu - como eu teria feito
- que seria seguro mand-lo para Hampstead.
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O seu apartamento ficava num edific0 victQriano perto da East Heath Road e o posto de vigilncia esttico situava-se no piso de baixo, dirigido por um jovem e prometedor casal dos Servios. Os inquilinos desse apartamento tinham sido temporariamente instalados noutro local. Por volta da onze, o nosso casal referiu que Barley estava sozinho no seu apartamento e que no parava de andar de um lado para o outro. Ouviam-no mas no cp viam. Ned tinha-se oposto ao vdeo. Fartava-se de falar consigo mesmo, acrescentou o casal, e quando abriu o correio, a sua voz encheiu os monitores de imprecaes.
Ned no ficou inquieto com esta ltima informao. Tinha j lido o correio de Barley e sabia que ele no continha horrores maiores que os do costume.
Por volta da uma da manh, Barley telefonou  sua filha Anthea, que vivia em Grantham.
"O que  um ig?" "A casa dum esquim sem o 16. Que tal estava Moscovo?" "O que  que obtemos se cruzarmos o Atlntico com o Titanic@"" "Meio Atlntico aproximadamente. Que tal estava Moscovo?" "E que obtemos se cruzarmos uma ovelha com canguru?" "Perguntei que tal estava Moscovo." "Um saltador de l2. Que tal est o chato do teu marido?" "A dormir ou a tentar dormir. O que  que aconteceu ao torrozinho de acar que levaste para Lisboa?"
"Foi-se." "Pensei que era permanente." "Ela . Eu no. "
De seguida Barley telefonou a duas mulheres, a primeira uma ex-mulher em relao  qual mantinha direitos de visita, a segunda, algum que no tnhamos ainda na nossa lista. Nenhuma delas o poderia receber assim sem mais nem menos, tanto mais que tinham os maridos ao lado na cama.
 uma e quarenta, o casal informou que as luzes do quarto de Barley, estavam apagadas. Ned foi de bom grado deitar-se, mas eu estava j no meu pequeno apartamento o dormir era a ltima coisa que naquele momento conseguiria fazer. Recordaes de Hannah formigavam-me na cabea, misturadas com imagens de Barley na casa de Knightsbridge. Lembrei-me da forma falsamente despren'dida como ele falava de Katya e dos seus filhos e no podia deixar de
Nesta e na pergunta seguinte h um jogo entre dois sentidos do verbo *lo crou", "atravessar", no primeiro caso, "fazer cruzamentos", no segundo. Em ambos os casos a preposio usada  "with", da o "com o Titanic" da primeira pergunta, quando deveria ser "no Titanic". (N. do T.) ' Neste caso, o jogo  entre os sentidos de "jumper", "Saltador" como o canguru e "camisola de l com capuz". (N. do T.)
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compar-lo com a insistncia com que eu negava o meu amor por Hannah, nos tempos em que esse amor constitua para mim um sinnimo de perigo. A Hannah anda um bocado em baixo, dizia-me uma voz inocente de cinco em cinco minutos. Deve ser o marido que anda a chate-la, pensava eu, e sorria. Aposto que ele gosta de bater-lhe, dizia eu, exactamente com o mesmo tom superior de desprendimento que ouvira em Barley, enquanto os fogos- secretos que ardiam dentro de mim me iam roendo o corao com as suas labredas cancerosas.
Na manh seguinte Barley voltou ao seu escritrio, mas tinha ficado combinado que passaria pela casa de Knightsbridge depois do trabalho, caso houvesse pontos a esclarecer. Esta combinao no era propriamente formal ou irrelevante, j que Ned acabou fechado no dcimo segundo andar travando renhida batalha e era muito provvel que, ao fim do dia, tivesse de ceder terreno ou, caso contrrio, de aguentar uma guerra sem quartel com os mandarins.
Mas por essa altura j Barley tinha desaparecido.
Segundo os informadores comandados por Brock, Barley deixou o seu escritrio da NorfoIk Street alguns minutos antes do previsto, precisamente s quatro e quarenta e trs, levando consigo o saxofone. Wicklow, que se encontrava ne   -sse momento nas traseiras da Abercrombie & Blair passando  mquina um relatrio da viagem a Moscovo, no deu pela sua partida. Mas alguns dos rapazes de Brock, todos eles de jeans vestidos, seguiam Barley num passeio pelo Strand e, quando ele mudou de ideias, acompanharam-no at ao Soho, onde o viram enfiar-se num bebedouro vespertino frequentado por editores e agentes. Passou vinte minutos no bar, emergiu dele ainda com o saxofone e com um ar perfeitamente sbrio. Chamou um txi e um dos rapazes estava suficientemente perto dele para poder ouvir a morada do nosso abrigo. O mesmo rapaz avisou Brock, que telefonou para Knightsbridge e pediu a Ned que esperasse, pois o convidado ia a caminho. Eu no estava em cena nesse niomento@ andava a travar outras guerras.
At ento nada de especial, s que nenhum dos rapazes de Brock se lembrou de anotar a matrcula do txi, um esquecimento que mais tarde lhes custaria caro. Era a hora de ponta. Uma viagem desde o Strand at Knighstbridge podia demorar sculos. S s sete e trinta Ned desistiu de esperar e, inquieto mas ainda no alarmado, regressou  Casa da Rssia.
Pelas nove horas e visto que ningum conseguia sugerir sadas para o caso, Ned declarou relutantemente um alerta interno, o qual, por definio, exclua os americanos. Como de costume, Ned mostrou-se friamente operacional. Talvez inconscientemente se tivesse defendido em relao quela situao de crise, j que, segundo Broc: optara por seguir um esquema rotineiro, normalmente aplicado e
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casos idnticos. No informou Clive. Explicou-me mais tarde que, numa atmosfera to envenenada como a que se vivia nesse momento, informar Clive equivaleria a enviar um telegrama circunstaciado aos homens de Langley.
Ned seguiu em primeiro lugar para Bloonisbury, onde os servios de escutas dispunham 4e uma srie de caves sob a Russell Square. Usou um dos carros dos Servios e deve ter sido mais rpido que o vento. A chefe das escutas era Mary, uma bulimia de quarenta anos    ' de faces rosadas e decididamente solteirona. Os nicos amores que lhe conhecamos eram vozes longnquas. Ned mstrou-lhe uma lista dos contactos de Barley, compilada pelo saudoso Walter a partir de intercepes e relatrios de informadores. Seria possvel cobri-los imediatamente? J?
Claro que Mary no podia fazer uma coisas daquelas. "Esticar os regulamentos at onde  possvel  uma uma coisa, Ned. Uma dzia de escutas ilegais  outra coisa.  completamente diferente. Ser que voc no percebe, Ned?"
Ned poderia ter argumentado que os telefones em questo estavam abrangidos pela autorizao do Ministrio do Interior, mas no se quis dar ao trabalho. Telefonou-me para Pinifico, no preciso momento em que eu abria a garrafa de Borgonha com que tencionava consolar-me depois de um dia miservel. Como o meu apartamento  minsculo, tinha a janela aberta para que sasse o cheiro a fritos. Lembro-me de que fechei a janela enquanto falvamos.
As autorizaes para escutas, teoricamente so assinadas pelo secretrio do Interior ou, na sua ausncia, pelo ministro. S que h um truque para escapar a este esquema. De facto, o secretrio do Interior delega automaticamente a sua autoridade no Conselheiro Legal em casos de emergncia, devendo o mesmo Conselheiro apresentar no prazo de vinte e quatro horas um relatrio escrito acerca do uso que fez dessa autoridade. Por isso, num pice, escrevinhei a minha autorizao, assineia-a, desliguei o gs - as couves de Bruxelas ainda estavam ao lume -, meti-me num txi e vinte minutos depois estava a entregar o documento a Mary. Menos de uma hora depois j os doze contactos de Barley estavam sob escuta.
Em que pensava eu enquanto procedia a todas estas operaes? Terei pensado que Barley se suicidara? No, isso no pensei. Barley estava preocupado, mas com os vivos. A ltima coisa que faria seria abandon-los ao seu destino.
No entanto, considerei a possibilidade de se ter escapado, e suponho que a pior das minhas fantasias foi aquela em que Barley desatava a aplaudir quando o piloto da Aeroflot anunciava que o avio com destino a Moscovo tinha entrado em espao areo sovitico.
Entretanto, por ordem de Ned, Brock tinha convencido a polcia a divulgar um aviso urgente, em que era procurado um motorista de txi londrino que tinha transportado um homem alto com um saxofone desde a esquina da Old Compton Street, por volta das cinco e
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trinta, destino inicial Knightsbridge, provavelmente alterado durante a viagem. Sim, um saxofone tenor - um saxofone bartono tinha o dobro do tamanho. Pelas dez, estava encontrado o motorista. O txi tinha seguido rumo a Knightsbridge, mas por alturas da Trafalgar Square, Barley mudara de facto de ideias e pedira ao motorista que o levasse  Harley Street. A viagem custara trs libras. Barley dera-lhe cinco e dissera-lhe que guardasse o troco.
Por um repentino milagre de associao de ideias, e tambm por obra e graa do trabalho do saudoso Walter, Ned ligou o instrumento jazzstico ao elo que faltava - Andrew George Macready, alis Andy, antigo trompetista de jazz e referido como contacto de Barley, tinha sido admitido no Hospital das Irms da Caridade, Harley Street, h trs semanas, ,ide rascunho de carta a lpis de Mrs. Macready para Hampstead, nmero de srie 47A, e o comentrio lapidar de Walter nas anotaes: Macready  o guru de Barley no que respeita  condio mortal do ser humano.
Lembro-me ainda que me agarrei com as duas mos  ala do passageiro mal Ned arrancou. No hospital, disseram-nos que Macready estava sob sedao. Barley estava. com ele h uma hora e tinham conseguido trocar algumas palavras. A enfermeira-chefe da noite, que tinha acabado de entrar para o seu turno, levara a Barley uma chvena de ch sem leite nem acar. Barley deitara no ch um pouco de whisky do frasquinho de bolso. Oferecera um gole  enfermeira, mas esta recusara. Tinha-lhe pedido que o deixasse "tocar para o Andy alguns dos seus nmeros favoritos". A enfermeira deixou-o tocar mas apenas durante dez minutos e muito, muito baixinho. Algumas das freiras tinham-se juntado no corredor para ouvir, e uma delas reconheceu mesmo o tema: era o Blue and Sentimental de Cotint Basie. Finalmente Barley deixou o seu nmero de telefone e um cheque de cem libras "para o croupier" num pratinho de bronze que havia  entrada. A enfermeira-chefe disse-lhe que podia voltar sempre que quisesse.
"Os senhores no so da polcia, pois no?", perguntou-me ela com um ar triste quando amos a caminho da porta.
"Graas a Deus que no. Porque havamos de ser?" A enfermeira-chefe abanou a cabea e no respondeu, mas pareceu-me entender o que ela tinha visto nele. Um homem em fuga, um homem que se escondia das suas prprias aces.
No regresso  Casa da Rssia, to vertiginoso como a ida ao hospital, Ned telefonou do carro para Brock e ordenou-lhe que fizesse uma lista de todos os clubes, salas de concerto e bares da rea de Londres onde houvesse espectculos de jazz nessa noite. Brock teria de distribuir o maior nmero possvel de informadores por esses locais.
Por precauo meti a colherada legal. Nem Brock nem nenhum dos seus vigilantes poderiam, fosse em que circunstncia fosse, coarctar os movimentos de Barley ou entrar em qualquer tipo de confronto fsico com ele. Barley podia ter renunciado a muitos direitos, mas no
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tinha certamente renunciado ao direito de se defender e alm disso era um homem possante.
Estvamos a preparar-nos para uma longa espera quando Mary, a chefe das escutas, nos telefonou, desta feita toda douras. "Ned, acho que era melhor passar por c. No demore muito. Algumas das suas galinhas j puseram ovo."
A toda a velocidade seguimos para Russell Square, com Ned a fazer curvas apertadas a cem  hora.
Mary recebeu-nos na sua toca, com o sorriso babado que ela reservava para momentos desastrosos. Uma sua assistente, a quem chamavam Pepsi, estava tambm presente, vestida com um macaco verde. Na secretria rodava a fita de um gravador.
"Mas quem  que se atreve a telefonar-me a esta hora?", perguntou uma voz estentrica que identifiquei imediatamente como a voz da magnfica Pandora, a tia de Barley, a Vaca Sagrada com quem tivera um almoo de negcios. Uma pequena pausa enquanto caam moedas na mquina. E a seguir a voz corts de Barley.
"Creio sinceramente que j tenho a minha dose, Pan. Vou mesmo deixar a firma."
"No diga asneiras", retorquiu a tia Pandora. "Ou me engano muito ou anda novamente alguma tonta  sua volta."
"Estou a falar-lhe a srio, Pan. Desta vez  mesmo verdade, tinha de lho dizer. "
"Mas voc fala sempre a srio!  por isso que se sai to mal quando pretende mostrar-se frvolo."
"Amanh de manh vou falar com o Guy." Guy Solomons, soficitador da famlia, referido como contacto de Barley. "Wicklow, o novo editor, tem todas as qualidades para tomar conta do barco.  um rapaz decidido e aprende depressa."
"Localizou a cabina?", perguntou Ned a Mary quando Barley desligou.
"No me deu tempo", disse orgulhosamente Mary. Do gravador veio entretanto o som de mais um telefone a tocar. Era Barley outra vez. "Reggie? Vou tocar esta noite. No quer vir?"
Mary passou-nos um carto em que tinha escrito Cnego Reginald Cowan, batersta e sacerdote.
"No posso", respondeu Reggie. "Tenho crisma." "Descarte-se", disse Barley. "No posso. Os tipos j c esto." "Precisamos de si, Reggie. O nosso velho Andy est a morrer." "Estamos todos. Estamos todos a morrer aos poucos." Com a gravao a terminar, ouviu-se um outro telefonema, desta vez ao vivo e da Casa da Rssia. Era Brock que queria falar urgentemente com Ned. Segundo os seus vigilantes, Barley tinha passado pelo seu bar do Soho uma hora antes, bebera cinco whiskies e seguira depois para o Noah's Arch em King's Cross.
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Noah's Arch? Deve ser Arca'." "Arch.  um arco sob a linha do caminho-de-ferro. O Noali  um antilhano com mais de um metro e oitenta. O Barley est a tocar."
"Sozinho?" "Por enquanto." "Que gnero de stio  esse, o Noah's Arch?" "Comidas e bebidas, sobretudo bebidas. Sessenta mesas, palco, paredes de tijolo, putas, o costume."
Brock achava que todas as raparigas bonitas eram putas. "Est muito cheio?", perguntou Ned. "Dois-teros, mas ameaa encher mais." "O que  que ele est a tocar" "'Lover Man'. Ramirez, David e Serman." "Quantas sadas?" "Uma." "Ponha trs homens numa mesa junto  porta. Se ele sair, detenha-o, mas no lhe toque. Telefone para os Recursos e diga-lhes que quero que o Ben Lugg v imediatamente com o seu txi para o Noah's Arch e que espere l com o sinal de ocupado. Ele sabe o que h-de fazer. " Lugg era o taxista dos Servios. "H telefones pblicos no bar?"
"Dois." "Ocupem-nos at eu chegar. Ele no o viu a si?" "No." "No deixe que ele o veja. Que h do outro lado da rua?" "Uma lavandaria." "Est aberta?" "No." "Espere por mim junto  lavandaria". Virou-se para Mary, que continuava a sorrir. "H dois telefones no Noah's Arch, King's Cross", disse ele, muito lentamente. "Ponha-os sob escuta j. Se a gerncia tiver um telefone, ponha-o tambm sob escuta. J. No me interessa que haja poucos engenheiros, o que me interessa  que os telefones fiquem controlados e j. Se houver cabinas na rua, ponha-as tambm sob escuta. J."
Abandonmos o carro dos Servios e chammos um txi. Brock estava  espera  porta da lavandaria, como lhe tinha sido ordenado. Ben Lugg estacionara na berma. Pagmos cinco libras e noventa e cinco pence para entrarmos. Sem olhar para a mesa dos vigilantes, Ned abriu can-iinho at s mesas da frente.
Ningum estava a danar. A primeira linha da banda fazia uma pausa. Barley encontrava-se no centro do palco frente a uma cadeira dourada, tocando saxofone com o suave pano-de-fundo do contrabaixo e da bateria. Por cima dele um arco de tijolo servia-lhe de cmara de som. Trazia ainda o seu fato de editor e parecia ter-se esquecido de tirar
Noahs Arch, o Arco de No, em vez de Noahs-Ark, a Arca de No. (N. do T.)
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o casaco. Luzes coloridas rotativas volteavam por cima dele, incidindo por vezes sobre a sua cara que escorria suor. Tinha uma expresso sossegada e ausente. Prolongava as notas e eu sabia que essas notas eram um requiem por Andy e-sabe-se l por quem mais, por uma quantidade de rostos que povoavam a sua cabea cercada de confuso. Duas raparigas tinham-se sentado na mesa reservada  banda e olhavam-no fixamente. Uma rodada de cerveja esperava-o. Ao lado dele, com os braos cruzados contra o peito, o imenso Noah escutava-o de cabea baixa. A pea terminou. Deliberadamente com gestos temos, como se estivesse a tratar da ferida de um amigo, Barley limpou o saxofone e meteu-o no estojo. Noah no permitia aplausos, mas o pblico no deixou de manifestar o seu agrado dado estalos com os dedos. Houve ainda alguns gritos de "encore", mas Barley no lhes ligou. Bebeu umas quantas cervejas, despediu-se com um aceno e delicadamente abriu caminho at  porta. Seguimo-lo imediatamente e, ao chegarmos  rua, passava Ben Lugg com o sinal de "fivre" no txi.
"Para o bar Mo's", ordenou Barley enfiando-se no banco de trs e abrindo logo de seguida um frasco de bolso que nunca lhe tinha visto. "Ol, Harry. Que tal vai o amor  distncia?"
"ptimo e recomenda-se, obrigado." "Em que raio de stio  que fica o Mo's?", perguntou Ned enquanto se instalava ao lado dele e eu me sentava no banco da frente.
"Tufnell Park. Descendo Falmouth Arms." "A msica  boa?", perguntou Ned. "A melhor." Mas no foi a falsa jovialidade de Barley que me alarmou. Foi o
seu ar longnquo. Foram os seus olhos mortos, o facto de se ter limitado ao reduto da sua cortesia inglesa.
Mo era uma loura de cinquenta anos. Passou um bocado ao beijos a Barley e s depois se lembrou de ns, deixando-nos sentar  sua mesa. Barley tocou blues e Mo queria que ele ficasse mais tempo, que passasse talvez a noite com ela, mas Barley no conseguia ficar muito tempo em stio nenhum, pelo que dali fomos para uma pizzaria em lslington que tambm tinha msica ao vivo. Barley tocou mais um solo e Ben Lugg entrou connosco para beber um ch e apreciar o espectculo. Ben fora pugilista no seu tempo e ainda dava cartas na arte. Deixmos lslington, passmos o rio e fomos at ao Elephant ouvir um grupo negro tocar sou] numa garagem de autocarros. Eram quatro e um quarto, mas Barley no mostrava sinal de sono; preferiu juntar-se aos msicos e partilhar com eles cacau com um cheirinho a lcool em canecas de loua de meio-litro. Quando por fim o acompanhmos ao txi de Ben, as duas raparigas de Noah's Arch irromperam vindas no se sabe donde e sentaram-se ao lado dele no banco de trs.
"Ento, meninas, o que  isso?", perguntou-lhes Ben, enquanto Ned e eu espervamos no passeio. "Desamparem o txi."
"Fiquem onde esto, se fazem favor", advertiu-as Barley.
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"Este txi no  vosso, minhas queridas,  daquele senhor", disse Ben, apontando para Ned. "V, tenham juzo e ponham-se a andar."
Barley ensaiou um murro na direco da cabea de Ben, que estava adornada com um chapu de feltro, mas Ben aparou o golpe como se estivesse a afastar uma teia de aranha e, com o mesmo movimento. puxou cuidadosamente Barley para fora do carro e entregou-o a Ned, que o recebeu com um abrao igualmente cuidadoso.
Ainda de chapu, Ben desapareceu no banco de trs do txi e saiu com as duas raparigas pela mo.
"Que tal se apanhssemos um bocado de ar fresco?", sugeriu Ned, enquanto Ben dava dez libras a cada uma das raparigas como paga para os deixarem em paz.
"Boa ideia", disse Barley. Atravessmos o rio em lenta procisso, com os vigilantes de Brock na rectaguarda e o txi de Ben Lugg avanando lentamente ao p de ns. O dia raiava escuro e fuliginoso por sobre os cais.
"Lamento o sucedido", disse Barley ao fim de um bocado. "No h problema, pois no Nedsky?"
"Que eu saiba, no", respondeu Ned. "Esteja a pau", avisou Barley. "O Pas Precisa de Gente Que Estej a Pau. No , Nedsky? Acontece que me apetecia tocar um bocado mais", explicou, virando-se para mim. "Voc  um homem musical, Harry? Um amigo meu costumava tocar ao telefone para a namorada. Mas tocava piano e no saxofone. De qualquer modo ele dizia que resultava. No quer experimentar com a sua patroa?"
"Amanh partimos para a Amrica", informou Ned. Barley reagiu  notcia como se nela no houvesse nada de inesperado. "Vai ser ptimo para si, Ned. Nesta altura faz um tempo muito agradvel na Amrica. Diria mesmo que  nesta altura que a Amrica se apresenta mais radiante."
"Mas olhe que para si tambm vai ser bbm", retorquiu Ned. "Achmos que era melhor lev-lo connosco."
"Mas diga-me uma coisa, Ned, que roupa hei-de levar?", perguntou Barley. "Gnero desportivo, frias? Ou ser melhor meter na mala um smoking para o caso de ser preciso?"
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12
Chegmos  ilha ao fim do dia, num pequeno avio que pertencia a uma grande empresa americana. Ningum nos disse a quem pertencia a ilha. Era um bocado de terra estreito e cheio de rvores, com uma cova ao centro e as extremidades elevadas, encimadas por picos cnicos. Vista do ar, fazia lembrar uma tenda de beduno desmonbrando-se no meio do Atlntico. Calculei que teria pouco mais de trs quilmetros de comprimento. Vimos uma manso tpica da Nova Inglaterra com os seus terrenos numa das extremidades e um cais minsculo numa outra. Vim a saber mais tarde que  manso chamavam casa de Vero, porque no Inverno ningum l estava. Tinha sido construda na viragem do sculo por um abastado bostoniano, nos tempos em que tal gente se intitulava rstica. Sentimos as asas do avio a abanar e um cheiro a sal que entrava pelas janelas da cabina, as quais tinham chocalhado durante toda a viagem. Vimos rsteas de sol adejando sobre as ondas como holofotes num toque de recolher, e alcatrazes guerreando ao vento. Vimos um farol ao longe, a oeste, no continente. Pelo meu relgio, h cinquenta e oito minutos que seguamos a costa do Maine. As rvores apareceram ento a rodear-nos, o cu evaporou-se e, de repente, demos connosco aos saltos e s voltas enquanto o avio aterrava numa avenida de relva, no fim da qual nos esperava um jipe com Randy e os seus homens. Randy tinha um aspecto to saudvel como s os americanos privilegiados podem ter. Vinha de anoraque e gravata. Parecia-me conhec-lo h muito.
"Bem-vindos  ilha, meus senhores. Vou ser o vosso anfitrio enquanto desejarem aqui ficar". Cumprimentpu Barley em primeiro lugar. Deviam ter-lhe mostrado fotografias. "Mr. Brown, honra-me muito conhec-lo. Ned? Harry?"
" muito simptico da sua parte", retorquiu Barley.
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Enquanto descamos a colina, os pinheiros perfilavam-se mim pano de fundo negro contra o mar. Os homens de Randy seguiam-nos num
outro carro.
"Com que ento voam britnico, h? No h dvida que Mrs. Thatcher deu a volta  vossa linha area!", disse Randy.
"No admira", retorquiu Barley. "H muito que ela afundou o navio."
Randy riu-se como se o riso fosse uma coisa que tivesse aprendido no curso. Brown era o nome de guerra de Barley enquanto durasse a viagem. At o seu passaporte, que Ned levava, dizia que ele era Brown.
Finalmente metemos por um caminho elevado e acidentado que conduzia  portaria. Os portes abriram-se e logo se fecharam atrs de ns. Estvamos num promontrio, no nosso promontrio. No ponto mais alto ficava a manso, iluminada por lmpadas de arco voltaico escondidas no mato. Extensas zonas de relva e arbustos queimados pelo vento rodeavam a casa. Os pilares de um quebra-mar destrudo enfrentavam precariamente as ondas. Randy estacionou o jipe e, pegando na bagagem de Barley, conduziu-nos ao longo de um caminho iluminado e orlado de hortnsias, at chegarmos a uma casa de marinheiro. Na viagem para Boston, Barley dormitara e bebera e resmungara contra o filme. De Boston at  ilha, protestara contra a paisagem da Nova Inglaterra como se a sua beleza o perturbasse. Mas logo que aterrmos pareceu reentrar no seu prprio mundo.
"Mr. Brown, as ordens que tenho so para o acomodar na suite nupcial", disse Randy.
"So certamente os melhores aposentos, velho rapaz'", retorquiu polidamente Barley.
"H um contra-senso nessa expresso, Mr. Brown. No faz sentdo dizer-se velho rapaz."
Randy conduziu-nos atravs de uma sala de entrada com cho de tijoleira at uma cabina de capito. O estilo era rural. A um canto, uma rplica de uma cama de ferro antiga, junto  janela uma escrivaninha feita com madeira de segunda e nas paredes duvidosos apetrechos martimos. No recanto onde fora instalada uma cozinha tipicamente americana, Barley identificou de imediato o frigorfico, abriu-o e examinou o seu contedo, animado da maior expectativa.
"Mr. Brown gosta de uma garrafa de Scotch todas as noites no seu quarto, Randy. Ficar-lhe-ia muito grato se lhe trouxesse umas quantas do seu paiol. "
A casa de Vero era um museu de infncias douradas. No alpendre, maos de croquetI cor-de-mel jaziam encostados a um carrinho
1 Old boy, no original: tratamento informal com o sigrifficado de "amigo", "meu velho", etc. Traduziu-se literalmente por causa da observao seguinte de Randy. (N. do T.)
1 Croquet, jogo disputado em relvado e no qual os jogadores tentam fazer pasar bolas de madeira atravs de pequenos arcos metlicos, usando para isso maos de madeira com cabos compridos. (N. do T.)
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de jardinagem coberto de p e cheio de covos lagosteiros trazidos da praia. Havia no ar cheiros a cera e a couro. Na sala de entrada, as paredes estavam cheias de retratos de jovens de ambos os sexos, todos eles com chapus de aba larga na cabea, lado a lado com pinturas primitivas representado baleeiros. Subimos com Randy uma vasta escadaria primorosamente encerada. Barley arrastaVa-se atrs de ns. Em cada patamar, janelas arqueadas debruadas com vitrais abriam-se para o mar como que engrinaldadas por jias. Avanmos por um corredor de quartos azuis. O maior fora reservado para Clive. Das nossas varandas via-se a casa de marinheiro para l dos jardins e o continente, para l do mar. O crepsculo volvia j noite.
Numa sala de jantar com as vigas do tecto brancas, uma vestal de Langley esforava-se por no olhar para ns enquanto servia lagosta do Maine e vinho branco.
Enquanto comamos, Randy explicou as normas da casa. "Em primeiro lugar, meus senhores, nada de confraternizaes com a equipa, apenas bom-dia e ol. Se precisarem de lhes dizer qualquer coisa, informem-me, eu falo com eles. Em segundo lugar, os guardas so para vossa convenincia e segurana, mas gostaramos que permanecessem nos limites da propriedade. Obrigado."
Terminados o jantar e os discursos, Randy levou Ned  sala de comunicaes e eu acompanhei Barley at  casa que lhe tinha sido destinada. Um vento forte varria o jardim. Sob os cones de luz que iluminavam o jardim, Barley parecia sorrir abertamente. Guardas com walkie-tWkies observavam-nos.
"Que tal uma partidinha de xadrez?", perguntei-lhe ao chegarmos  porta.
Naquele momento gostaria de ter entendido melhor a sua expresso, mas j no ia a tempo, como j no ia a tempo de adivinhar a su2r disposio. Senti uma palmadinha no brao enquanto ele me desejava boa-noite. A porta abriu-se e fechou-se num segundo, o tempo de eu ver na escurido a figura espectral de uma sentinela a menos de dois metros de ns.
"Um brilhante advogado, um ptimo funcionrio", assim me anunciou Russel Sheriton na manh seguinte, num mrinurio reverente, sabendo perfeitamente que eu no era nem uma coisa nem outra, enquanto as suas palmas fortes e cheias envolviam literalmente a minha mo. "Um dos grandes, dos verdadeiros grandes, Harry, como tem passado?"
Pouco mudara o seu aspecto desde a ltima viagem de trabalho que o levara a Londres: os anis sob os olhos estavam agora um pouco mais inchados, um pouco mais tristes, o fato azul um ou dois tamanhos acima, a mesma barriga sob a camisa branca. O mesmo after-shave de agente funerrio, seis anos depois, ungia o mais recente chefe das operaes soviticas da Agncia.
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Um grupo dos seus rapazes mantinha-se respeitosamente a alguma distncia dele, carregando as malas com um ar de passageiros encalhados num aeroporto. Clive e Bob tinham-se instalado ao seu lado como se fossem cmplices. Bob parecia ter envelhecido dez anos. Um sorriso contrito tinha substitudo a antiga segurana  americana. Saudou-nos de forma demasiado efusiva, como se o tivessem avisado de que devia afastar-se de ns.
A Conferncia da Ilha, como eufemisticamente se tornou conhecida, estava prestes a comear.
Ao descrever os acontecimentos dos dias seguintes, corro o risco de esquecer a amenidade que aparentemente caracterizou as relaes entre toda aquela gente, a atmosfera de reunio de homens honestos e esforados tratando dos seus negcios.
 esse lado "simptico" do encontro na ilha que mais me repugna descrever. No entanto foi o prprio Barley que me levou a dar-lhe algum relevo, j que nunca o vi ir contra os nossos anfitries - de facto, nunca os censurou por nada do que lhe aconteceu, nesses dias na ilha ou mais tarde.  certo que Barley contestava os americanos em geral. Porm, bastavam-lhe os contactos individuais com cidados americanos para os considerar a todos criaturas perfeitamente decentes. No havia entre os americanos presentes na ilha um nico com quem no desejasse partilhar uns copos numa noite qualquer, num qualquer local - local de que obviamente no dispunhamos naquelas circunstncias. E, como seria de esperar, Barley entendeu sempre a justeza das crticas que lhe foram feitas, tal como sempre se sentiu extremamente impressionado com o carcter diligente e zeloso dos americanos.
E que diligentes e zelosos eles eram! Se os nmeros, o dinheiro e o mero empenho bastassem para produzir inteligncia, a Agncia t-la-ia s carradas - s que, para mal dos seus pecados, a cabea humana no se resume, longe disso, a tal terceto, alm do que no produz apenas inteligncia, mas tambm o seu contrrio.
E com que ansiedade desejavam o amor dos outros! - e Barley percebia perfeitamente esse desejo e tratava de o satisfazer. Mesmo quando o massacravam com palavras, era amor que pediam. E tambm o amor de Barley! Tal como sempre precisaram e continuam a precisar de ser amados por todos os complots que tramaram, por toda a desestabilizao que provocaram, por todas as aventuras em que se lanaram contra o terrvel Inimigo Externo.
No entanto, foi precisamente este mistrio de coraes bondosos que no deixavam de ter o seu reverso que explicou o terror que tambm se viveu - subterraneamente, como tudo o mais - naquela semana na ilha.
H alguns anos, falei com um homem que tinha sido chicoteado, um mercenrio ingls que nos fazia alguns favores em frica e que
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queramos recompensar. Do que ele melhor se lembrava, no era das chicotadas, mas sim do sumo de laranja que lhe deram depois da tortura. Lembrava-se de que o tinham ajudado a regressar  sua cabana, de que o tinham deitado de costas sobre a palha. Mas aquilo de que realmente se lembrava bem era do copo de sumo de laranja acabado de espremer que um guarda lhe ps a um palmo da cara, o mesmo guarda que depois se agachou ao seu lado, esperando pacientemente at que ele tivesse foras bastantes para beber um pouco. E no entanto fora esse mesmo guarda que o tinha aoitado.
Tambm ns tivmos os nossos sumos de laranja. E tivmos tambm guardas decentes, ainda que disfarados com walkie-talkes e uma animosidade superficial que depressa se derreteu ao calor das efuses de Barley. Um dia depois da nossa chegada, j esses guardas com quem estvamos proibidos de confraternizar andavam num corropio a caminha da casa de Barley, subtraindo coca-cola e whsky do seu frigorfico e regressando depois apressadamente aos seus postos. Os guardas tinham pressentido que Barley era o tipo de homem com quem podiam dar-se ao luxo de uma tal proximidade. E, como bons americanos que eram, tinha ficado fascinados com a sua celebridade.
Havia um velho guarda chamado Edgar, um antigo Maribe, que se revelou um ptimo xadrezista, capaz de ombrear com Barley. Vim a saber mais tarde que Barley, contrariando todas as regras, ficara com o seu nome e morada, para que pudessem disputar um torneio pelo correio "quando aquilo acabasse."
Mas estes fenmenos no se passaram apenas com os guardas. No coro de jovens de Sheriton, e no prprio Sheriton, havia uma moderao que marcava como que um ritmo regular de sanidade, em oposio aos altos e baixos histricos daqueles a quem o prprio Sheritou atribua o epteto de egomanacos.
Mas tudo o que acabo de expor , segundo creio, a tragdia das grandes naes. Tanto talento ansiando por se manifestar, tanta generosidade  espera de um destinatrio. E no entanto tudo isso era to miseravelmente expresso que por vezes nem parecia que era a Amrica, a grande, a enorme Amrica, que estava a falar connosco.
Mas era mesmo a Amrica. O chicote era verdade.
Os interrogatrios decorreram na sala de bilhar. O soalho tinha sido pintado de vermelho escuro porque a sala era agora para bailes e em vez da mesa de bilhar havia um anel de cadeiras. Mas na parede havia ainda um marcador de marfim e uma srie de estojos com tacos de bilhar marcados com iniciais, e a luz era a mesma que noutros tempos incidia sobre a mesa de bilhar. Era no centro dessa luz que Barley tinha de sentar-se. Ned fora busc-lo  casa onde estava instalado.
"Mr. Brown,  com orgulho que o cumprimento. Acabo de decidir que, enquanto durar o nosso relacionamento, o meu nome ser Hag-
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gerty", declarou Sheriton. "Mal olhei para si, senti-me irlands, no me pergunte porqu. " Sheriton conduzia Barley pela sala num passo decidido. "Em primeiro lugar, quero felicit-lo. Voc tem todas as virtudes: memria, observao, a determinao britnica, o saxofone. "
Tudo isto disse-o Sheriton de um s flego, exibindo uma fluncia perfeitamente hipntica, enquanto Barley arreganhava um sorriso tmido e deixava que o instalassem no lugar de honra.
Nesse momento j Ned estava sentado, com um ar rgido, os braos cruzados contra o peito, e Clive, apesar de pertencer ao crculo, tinha conseguido ficar fora da fotografia. Sentara-se entre os jovens de Shenton e puxara a sua cadeira para trs, de maneira a ficar escondido.
Sheriton ficou de p em frente a Barley. Dirigia-se apenas a ele, mesmo quando as suas palavras visavam outras pessoas presentes. "Clive, permite-me que bombardeie Mr. Brown com algumas questes impertinentes? Ned, importa-se de dizer a Mr. Brown que est nos Estados Unidos da Amrica e que se no responder a alguma coisa, o seu silncio ser considerado como uma prova evidente da sua culpa?"
"Mr. Brown  capaz de tratar de si mesmo", retorquiu Barley, mas ainda com um sorriso estranho, como se no conseguisse acreditar naquela tenso.
" capaz, Mr. Brown? ptimo! Fazemos votos para que saiba tratar de si nos prximos dias."
Sheriton foi at ao aparador, serviu-se de caf e regressou com a chvena. A sua voz tinha agora o tom mais calmo do senso comum. "Mr. Brown, estamos a comprar um Picasso, certo? Toda a gente que aqui est pretende comprar o mesmo Picasso. Azul, sangrento, um grande trabalho, enfim, um Picasso. H talvez umas trs pessoas em todo o mundo que o entendem. Porm, depois do quadro bem estudado, h uma questo que se levanta. Foi mesmo Picasso que o pintou, ou ter sido um qualquer J. P. Pateta Jr. de South Bend, Indiana, ou de Omsk, Rssia, que fez muito simplesmente um pastiche de Picasso no seu armazm de batatas? Porque, Mr. Brown, no se esquea de uma coisa. " Sheriton batia com uma mo no peito enquanto segurava na chvena com a outra. "Nada de enganos. Isto aqui no  Londres.  Washington. E, para Washington, a inteligncia tem de ser uma coisa til, e isso quer dizer que tem de ser usada, e no contemplada com socrtico desprendimento. " Baixou a voz num tom de reverente comiserao. "E voc, Mr. Brown, voc  o indivduo que nos est a vender o Picasso. Quer queira quer no, o senhor  aquele que nos aproxima da fonte, at ao dia em que consigamos convencer o homem a que chama Goethe a mudar de processos e a falar connosco directamente. Se  que alguma vez vamos conseguir.  duvidoso. Muito, muito duvidoso."
Sheriton virou-lhe as costas e foi at  ponta do anel. "Voc  a cavilha essencial em todo este mecanismo, Mr. Brown. Voc  o ho@
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mem.  isso que voc . Mas at que ponto? Que quantidade? Um pouco apenas? Metade? Ou tudo?  o argumentista, o actor, o produtor e o realizador do filme? Ou o seu papel  apenas uma ponta, como diz que ? Ser voc apenas o espectador inocente que proclama ser, mas que no convence nenhum de ns?"
Sheriton suspirou, como se tanta dureza fosse demais para um homem da sua sensibilidade. "Mr. Brown, diga-me uma coisa, voc tem por acaso uma namorada regular ou anda aos cados?"
Ned j estava meio-levantado, mas Barley antecipou-se-lhe e respondeu. No entanto, a sua voz no mostrava qualquer irritao ou hostilidade. Era como se no quisesse perturbar a atmosfera simptica de que todos desfrutvamos.
"E voc, meu caro, como  que tem passado? Mrs. Haggarty ainda est para isso ou obriga-o a recorrer a prticas da nossa juventude?"
Sheriton pareceu no o ouvir sequer. "Mr. Brown,  o seu Picasso e no o meu que queremos comprar. Washington no gosta que os seus pees andem ao engate em bares para solteiros. Temos de jogar este jogo de uma maneira muito franca, muito honesta. Nada de reticncias inglesas, nada de conversas de chacha  moda antiga. J nos aconteceu cairmos nessa esparreIa e nunca mais, nunca mais voltaremos a cair."
Esta observao pareceu-me dirigida a Bob, uma vez mais de cabea baixa, fitando as mos.
"Mr. Brown no anda ao engate em bares para solteiros", interrompeu Ned furioso. "E o material no  dele.  de Goethe. No me parece que a sua vida privada seja para aqui chamada."
Guarde para si os seus pensamentos, dissera-me Clive. Era essa a mensagem que os seus olhos transmitiam a Ned naquele momento.
"Ora, Ned, francamente!", protestou Sheriton. "Da forma como est Washington actualmente, at para se entrar no raio de um autocarro  preciso uma pessoa casar e nascer de novo. O que o leva a visitar a Rssia to frequentemente, Mr. Brown? Anda a comprar propriedades por l?"
Barley continuava a sorrir, mas j sem muito agrado. Sheriton estava a minar-lhe as defesas, e era precisamente isso que Sheriton queria.
"Para lhe dizer a verdade, meu velho, esse  um papel que me coube de herana. O meu pai sempre preferiu a Unio Sovitica aos Estados Unidos, e teve de enfrentar muitos problemas por publicar livros soviticos. O meu pai era um Fabiano'. Uma espcie de New Dealerl. Se fosse americano, iria parar  lista negra."
"Se fosse americano, o seu pai teria sido denunciado, emboscado,
' Membro da Sociedade Fabian, movimento socialista criado em fins do sculo passado. (N do T.) ' Adepto da New Deal, aco poltica de Franidirt D. Roosevelt na dcada de 30. (N. do T.)
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frito e imortalizado. Li o processo dele.  horrvel. Conte-nos mais qualquer coisa acerca dele, Mr. Brown. Que mais herdou dele?"
"Mas que raio  que isso interessa?", perguntou Ned. E tinha razo. A questo da excentricidade do pai de Barley fora j h muito tempo considerada irrelevante pelo dcimo segundo andar. Mas tal no acontecia com a Agncia, pelo menos aparentemente. Ou j no acontecia.
"E nos anos trinta, como sem dvida tambm sabe", continuou Barley no seu tom perfeitamente sereno, "o meu pai lanou um Clube do Livro Russo. No durou muito tempo mas teve algum xito. E durante a guerra, sempre que arranjava papel, publicava propaganda pr-sovitica, a maior parte da qual glorificando Estaline."
"E depois da guerra o que  que ele fez? Foi ajud-los a construir o muro de Berlim aos fins-de-semana?"
"Ao princpio ainda teve esperanas, depois perdeu-as", replicou Barley aps breve reflexo. A sua parte contemplativa comeava a domin-lo. "Podia ter perdoado aos russos muitas coisas, mas nunca o Terror, nunca os campos e as deportaes. Despedaaram-lhe o corao."
"Se os soviticos tivessem usado mtodos menos musculados, o corao do seu pai teria sido igualmente despedaado?"
"No me parece. Creio que teria morrido feliz." Sheriton limpou as palmas das mos a um leno e, como um Oliver Twist demasiado pesado, segurou com ambas as mos a sua chvena de caf at chegar ao aparador, onde, depois de ter aberto o termo e de ter espreitado pesarosamente para o seu contedo, encheu de novo a chvena.
"Bolotas", queixou-se. "Juntam a bolota, moem-na e sai caf.  assim que se faz caf por estas bandas." Havia uma cadeira vazia ao lado de Bob. Sheriton sentou-se com um suspiro. "Mr, Brown, permite-me que seja eu a contar a histria? J no h nas nossas vidas tempo e espao para julgarmos cada humilde membro da famlia humana pelas suas qualidades, certo? De maneira que toda a gente que  algum tem a sua vida discriminada num processo. Vou resumir-lhe o seu. O seu pai foi um simpatizante comunista, posteriormente desiludido. Nos oito anos que passaram aps a sua morte, voc fez nada mais nada menos do que seis visitas  Unio Sovitica. Vendeu-lhes exactamente quatro livros execrveis do seu catlogo e comprou-lhes exactamente trs. Dois romances modernos horrorosos que no venderam nada, uma porcaria sobre acupunctura que vendeu dezoito cpias na edio comercial. Embora esteja a um passo da bancarrota, calculamos que tenha gasto com essas viagens doze mil libras e que tenha tido uma receita de nl e novecentas libras.  divorciado, no assume compromissos, estudou numa Public Schoo11. Bebe como se estivesse a regar o deserto sozinho e escolhe amigos do jazz que fazem o Benedict Arnold parecer uma Shirley Temple. Visto de
' Escolas privadas em regime de internato na Gr-Bretanha. (N. do T.)
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Washington, voc  um extravagante. Visto daqui, no h dvida que  uma criatura simptica, mas diga-me como hei-de explicar isso  prxima sub-comisso do Congresso cujos membros, uns macacos doidos pela verdade e nada mais que a verdade, meteram na cabea que ho-de condenar  forca o material de Goethe porque pe em perigo a Fortaleza Amrica?"
"Porque  que acham isso?", perguntou Barley. Creio que todos ficmos surpreendidos com a sua calma. Sheriton ficou sem dvida espantado. At ento tinha olhado de alto para Barley, pondo um ar ligeiramente desdenhoso enquanto lhe explicava o seu dilema. Agora, porm, olhava-o de frente, muito direito, num jeito alarmado e trocista.
"Desculpe, Mr. Brown?" _"Porque  que o material de Goethe lhes mete medo? Se os russos no conseguem acertar no alvo, a Fortaleza Amrica devia estar a dar pulos de contente."
"Mas, estamos, Mr. Brown, estamos a dar pulos de contentes. Estamos perfeitamente extasiados. Pouco importa que todo o poder militar americano assente na crena de que os armamentos soviticos so de uma preciso extraordinria. Pouco importa que a nossa percepo da capacidade de preciso sovitica seja tudo neste jbgo. Pou- co importa que, com armamentos de grande preciso, seja possvel atacar furtivamente o inimigo enquanto ele est calmamente a jogar uma partidinha de golfe, que seja possvel destruir os seus ICBM num abrir e fechar de olhos e deix-lo absolutamente incapaz de dar uma resposta  altura. Ao passo que, sem essa preciso, o melhor  nem tentar, porque o inimigo d mea-volta e num instante reduz a cinzas as vinte cidades favoritas do agressor. Pouco importa que zifies de dlares dos contribuintes e toneladas de esterco de retrica poltica tenham sido esbanjados no to acalentado pesadelo de um primeiro ataque sovitico e da barreira de vulnerabilidade americana. Pouco importa que ainda hoje a ideia da supremacia sovitica continue a ser o principal argumento a favor da Guerra das Estrelas e o principal tema das piadas sobre estratgia que se ouvem nos cocktas de Washington. "
Para minha surpresa, Sheriton. mudou repentinamente de sotaque: era agora um perfeito campons do mais profundo Sul. " tempo de a gente rebentar com esses sacanas antes que eles nos faam o mesmo, Mr. Brown.  que o nosso velho planeta  demasiado pequeno para albergar duas super-potncias, Mr. Brown. Qual das duas vai voc apoiar, Mr. Brown, quando a coisa der para o torto?"
Nesse momento fez uma pausa, enquanto o seu rosto bochechudo retomava a contemplao das muitas injustias da vida.
"E eu acredto em Goethe", prosseguiu de sbito. " pblico e notrio que eu acreditei inteiramente em Goethe desde o dia em que ele decidiu dar um ar da sua graa. Nem uma dvida me passou pela cabea. Em minha opinio, Goethe  uma fonte que brotou no momento certo. E sabe voc o que isto me leva a pensar? Leva-me a
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pensar que tenho tambm de acreditar neste Mr. Brown que est aqui  minha frente e que Mr. Brown tem de ser muito franco comigo, pois caso contrrio sou um homem morto." Num jeito reverente, levou uma mo ao peito esquerdo. "Eu acredito em Mr. Brown, acredito em Goethe, acredito no material. Portanto estou  rasca."
H pessoas que mudam de ideias, pensava eu nesse instante. Outras mudam de amores. A Russell Sheriton d-lhe para anunciar que viu a luz ao fundo do tnel. Ned fitava-o com um ar rigorosamente descrente. Clive preferia admirar os estojos dos tacos de bilhar. Mas Sheriton continuava a olhar amuado para o caf, reflectindo acerca da sua pouca sorte. Dos seus jovens, um examinava a ponta do seu sapato Harvard, com o queixo assente no punho fechado. Outro espritava para o mar atravs da janela como se a verdade estivesse ao largo.
Mas ningum olhava para Barley, parecia que ningum tinha a coragem de olhar para ele. Estava calmo, quieto, com um ar mais j.ovem. Tinhamo-lo prevenido, mas no o suficiente. E sobretudo no lhe tnhamos dito que o material da Ave Azul tinha j posto  bulha as diversas faces da indstria militar e provocado berros de ultraje por parte dos lobbies de Washington menos comedidos.
Foi ento que o velho Palfrey falou pela primeira vez. Enquanto falava, tive a sensao de estar a fazer uma qualquer cena do teatro do absurdo. Era como se o mundo real se estivesse esvaindo sob os nossos ps.
"O que Haggarty lhe est a perguntar  o seguinte", disse eu. "Submete-se voluntariamente a um interrogatrio feito pelos americanos para que eles possam ter uma ideia exacta da fonte de uma vez por todas? Pode recusar-se. A escolha  sua. No  assim, Clive?"
Clive no gostou que eu lhe fizesse tal pergunta, mas l acabou por dar o seu assentimento antes de desaparecer uma vez mais de cena.
Os rostos  volta do anel tinham-se virado para Barley como flores sedentas de sol.
"Oual  a sua resposta?", perguntei-lhe. Por um momento Barley manteve-se em silncio. Espreguiowse, passou com as costas do pulso pela boca, parecia vagamente embaraado. Encolheu os ombros. Olhou para Ned mas no encontrou os seus olhos, por isso virou-se para mim, com um ar absolutamente desorientado. Em que pensava, se  que pensava nalguma coisa? Pensaria que dizer "no" equivaleria a dizer adeus a Goethe para sempre? A Goethe ou a Katya? A sua percepo teria chegado assim to longe? No consegui at hoje perceber o que se passaria na sua cabea. Limitava-se a um sorriso estranho, aparentemente confuso.
"E que  que voc acha, Harry? Vamos at ao fim? Que diz o meu porta-voz?"
"O que est em causa  sobretudo o que o cliente diz", respondi-lhe brilhantemente, retribuindo-lhe o sorriso.
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"Sem experimentarmos  que no sabemos, no ?" "Parece que sim", retorqui. A sua aceitao resumiu-se quela pergunta. No o ouvimos dizer "aceito" ou "concordo" ou "est bem", mas apenas: "Sem expenmentarmos  que no sabemos, no ?"
"Yale  que tem essas sociedades secretas, no sei se est a ver, Flarry", explicou-me Bob. "Quer dizer, est mesmo enxameada delas. Se voc ouvir falar dos Scull and Bones e dos Scroll and Key, ento s ouviu falar da ponta do icebergue. E estas sociedades servem para dar relevo  ideia de equipa. Quando a Harvard,  completamente diferente. Harvard pe o acento no brilhantismo individual.  por isso que a Agncia, quando procura recrutas nessas guas, manda os de Yale para trabalhos de equipa e os de Harvard para as operaes individuais. Claro que no vou ao ponto de dizer que qualquer homem de Harvard  uma prima donna ou que qualquer homem de Yale segue cegamente a causa. Mas de uma maneira geral  essa a tradio. Voc  um homem de Yale, Mr. Quinn?"
"De West Point", respondeu Quinn. Era o fim do dia e a primeira delegao tinha acabado de entrar. Sentmo-nos na mesma sala, a sala do soalho vermelho com a luz do bilhar,  espera de Barley. Quinn sentou-se na cabeceira, Todd e Larry foram sentar-se depois a seu lado. Todd e Larry eram os homens de Quinn. Eram dois homens perfeitos, de fsico bem proporcionado, e, para um homem da minha idade, absurdamente jovens.
"O Quinn vem de cima", dissera-nos Sheriton. "Fala com a Defesa, com as grandes empresas, fala com Deus."
"Mas quem  que o contrata?", perguntara Ned. Sheriton pareceu sinceramente espantado com a questo. Sorriu-lhe como que perdoando um solecismo num estrangeiro.
"Ora, ora, Ned. Parece que o contratamos todos", retorquiu. Quinn tinha um metro e oitenta e cinco de altura, ombros largos e orelhas enormes. Usava o seu fato corno se fosse uma armadura. No ostentava medalhas nem distintivos de posto. O seu posto lia-se-lhe no rosto, no rictus inflexvel, nos olhos vazios e sombrios, e no sorriso de enraivecida inferioridade que se apossava dele sempre que estava na presena de civis.
Ned entrou em primeiro lugar, s depois veio Barley. Ningum se levantou. Do seu lugar defiberadamente humilde no meio dos americanos, Sheriton fez mansamente as apresentaes.
Quirm gosta deles brutos e estpidos, avisara Sheriton. Digam ao vosso homem que no se arme em inteligente. Sheriton estava a seguir o seu prprio conselho.
Era de esperar que fosse Larry a abrir o interrogatrio j que era ele o mais extrovertido. Todd tinha um ar virginal, longnquo. Larry,
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em contrapartida, usava um enorme anel de casamento e uma gravata berrante e ria pelos dois.
"Mr. Brown, vamos ver toda esta histria doponto de vista dos seus detractores", explicou com estudada insinceridade. "Para. ns, h dois tipos de espionagem: a verificada e a no-verificada. Gostaramos de verificar a sua espionagem.  esse o nosso trabalho,  para isso que nos pagam. Por favor no pense que existe qualquer suspeita da nossa parte. Mr. Brown. A anlise  uma cincia que nada tem a
ver com suspeitas. Temos de respeitar as leis."
"Temos de imaginar que estamos perante uma amlgama orgamzada", interrompeu beligerantemente Todd do outro lado. "Fumo."
Uma pausa divertida, at que Larry, ainda a rir, explicou a Barley que Todd no lhe tinha oferecido um cigarro': "fumo" era o jargo que usavam para fraude.
"Diga-me uma coisa, Mr. Brown, de quem partiu a ideia de irem a Peredelkino naquele dia de Outono, h dois anos?", perguntou Larry.
"De mim, provavelmente." "Tem a certeza?" "Estvamos bbedos quando decidimos ir a Peredelkino, mas tenho a certeza absoluta de que a proposta foi minha."
"O senhor bebe muito, no bebe, Mr. Brown?", disse Larry. As mos enormes de Quinn agarravam num lpis como se o quisessem estrangular.
"Razoavelmente." "E a bebida f-lo esquecer coisas9" "Por vezes. "
"Outras vezes no. No fim de contas, at dispomos de longas descries dos seus dilogos com Goethe e estavam ambos completamente embriagados. J tinha estado em Peredelkino antes desse dia?"
"j." "Quantas vezes?" "Duas ou trs vezes. Talvez quatro." "Vsitou amigos dessas vezes?" "Sim, visitei amigos", retorquiu Barley, apoucando automaticamente o americaniSM02.
"Amigos soviticos?" "Claro." Larry fez uma pausa to longa que "amigos soviticos" quase soou a confisso.
' No original, "Smoke" tanto pode ser simplesmente o substantivo "Fumo" como um convite para fumar. (N. do T.) ' O americanismo de Larry. De facto, Larry usa a forma "visit with" e Barley corrige-o: "I visited friends, yes." (N. do T.)
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"Importa-se de identificar esses amigos?" Barley identificou os amigos. Um escritor. Uma poetisa. Um burocrata da literatura. Larry tomou nota dos nomes, movendo lentamente o lpis para impressionar. Sorrindo enquanto escrevia, enquanto os olhos sombrios de Quinn continuavam a fitar fixamente Barley do outro lado da mesa.
"Portanto, no dia do seu passeio a Peredelkino", recomeou Larry, "nesse Dia Um, como lhe podemos chamar, no lhe ocorreu tocar s campainhas de alguns dos seus velhos conhecidos, ver se estavam ou no estavam, cumpriment-los?", perguntou Larry.
Barley parecia no saber se isso lhe tinha ou no ocorrido. Encolheu os ombros, cedeu ao tique de passar com as costas da mo pela boca, enfim, gestos que normalmente indiciariam uma testemunha insincera.
"No queria sobrecarreg-los com o Jumbo, creio. ramos demais. Realmente no me ocorreu."
"Certo", disse Larry. Trs explicaes, lamentei. Trs, onde uma teria bastado. Olhei para Ned e verifiquei que estava a pensar o mesmo que eu. Sheriton estava ocupado em no pensar nada. Bob estava ocupado com o seu papel de assistente de Sheriton. Todd murmurava qualquer coisa ao ouvido de Quinn.
"Ento tambm foi sua a ideia de visitar o tmulo de Pasternak, Mr. Brown?", inquiriu Lrry, como se fosse uma ideia capaz de orgulhar qualquer um.
"Campa", corrigiu-o Barley irritado. "Sim, foi minha. No creio que os outros soubessem onde estava sepultado Pastemak."
"E a ideia de visitar a dacha de Pasternak tambm foi sua, creio." Larry consultou as suas notas. "'Se os sacanas ainda no a deitaram abaixo'. " Deu  palavras sacanas um acento especialmente ofensivo.
" verdade, tambm fui eu que me lembrei da dacha." "Mas no visitaram a dacha, pois no? Nem sequer viram se a dacha ainda existia. A dacha de Pasternak desapareceu por completo do programa. "
"Estava a chover", disse Barley. "Mas tinham carro. E motorista, Mr. Brown. Ainda que um tanto mal-cheiroso."
Larry sorriu de novo e abriu a boca o suficiente para que a ponta da lngua acariciasse o lbio superior. Depois fechou a boca e permitiu-se uma nova pausa para pensamentos decerto perturbantes.
"Portanto, Mr. Brown, foi voc organizou a festa, foi voc que definiu os objectivos da jornada", prosseguiu Larry num tom comicamente triste. "Conduziu a viagem, conduziu o grupo at ao tmulo. Campa, desculpe. Foi consigo, e no com qualquer outro, que Mr. Nezhdanov falou quando desciam a colina. Perguntou-lhe se era americano. Voc respondeu-lhe, "No, graas a Deus sou britnico".
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Ningum se riu. Nem Larry sorriu sequer. Quimi tinha um ar de quem estava a dissimular um ferimento abdominal.
"Foi tambm voc, Mr. Brown, que, por mero acaso, foi capaz de citar o poeta e de falar por todos os outros durante uma discusso sobre os seus mritos e que, quase por mgica, se isolou dos seus companheiros e se viu sentado durante o almoo ao lado do homem a quem chamamos Goethe. "Apresentamos-lhe Goethe, o nosso distinto escritor." Mr. Brown, temos um relatrio de campo proveniente de Londres, envolvendo a funcionria dos Penguin Books, Magda. Sabemos que foi obtido discretamente, em circuntncias sociais no-suspeitas, por um terceiro no-americano. Magda ficou com a impresso de que voc quis ficar com Nezhdanov s para si.  capaz de nos explicar isso?"
Barley desaparecera uma vez mais. No da sala mas da minha compreenso. Deixara as suspeitas para quem as quisesse imaginar e entrara nos seus prprios domnios da realidade. Foi Ned, e no Barley, que, incapaz de se conter perante a revelao daquela velhacaria da Agncia, produziu a desejada exploso.
"Ora vejamos, Larry, ela no ia dizer ao seu informador que estava desejosa de passar a tarde com o namorado na cama, pois no?"
De novo essa resposta bastaria se Barley no tivesse acrescentado a sua. "Talvez eu os tivesse mesmo despachado", concedeu Barley numa voz longnqua, mas perfeitamente amistosa. "Ao fim de uma semana de feira do livro, qualquer criatura normal fica farta de editores para toda a vida."
No sorriso de Larry havia uma inclinao de dvida. "Muito bem, muito bem", disse, e abanou a sua bonita cabea antes de passar a testemunha a Todd.
Ainda no, visto que foi Quinn quem usou da palavra. No falava para Barley, nem para Sheriton, nem to pouco para Clive. De facto no falava para ningum. Falava. A boquinha at ento subjugada pelo silncio contorcia-se agora como enguia presa ao anzol.
"Este homem foi  batedeira?" "Temos problemas de protocolo, sip>, explicou Larry, olhando de relance para mim.
Ao princpio, e muito honestamente, no compreendi. Larry tinha de explicar.
" aquilo a que costumvamos chamar detector de mentiras. Um polgrafo. Batedeira no nosso jargo. Creio que vocs no usam essas mquinas."
"Usamos em certos casos", emendou Clive afavelmente atrs de mim, antes de eu ter tempo de responder. "Em casos em que  absolutamente necessrio. Esto a tornar-se moda."
S ento  que o perturbado e introspectivo Todd deu incio  sua interveno. Todd no era um homem prolixo;  primeira vista, alis, no era coisa nenhuma. Mas eu j tinha conhecido uns quantos advogados como ele: homens que fazem uma cruzada da sua falta de
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charme e que aprendem a usar a inabilidade verbal como um autntico cacete.
"Descreva a sua relao com Niki Landau, Mr. Brown." "No tenho relao nenhuma com ele", retorquiu Barley. "Fomos declarados dois estranhos at ao dia do Juzo Final. Tive de assinar um papel dizendo que nunca falaria com ele. Pergunte ao Harry."
"Antes desse papel". "Partilhvamos uns jarros." "Partilhavam o qu?" "Bebiamos uns copos juntos. Ele  um tipo simptico." "Mas no  da sua classe social, pois no? No esteve em Cambridge e Harrow, quer-me parecer."
"E que diferena  que isso faz?" "Reprova a estrutura social britnica, Mr. Brown?" "Sempre me-pareceu, meu velho, que a estrutura social britnica era um dos desastres mais gritantes do mundo moderno."
"Ele  um tipo simptico. Isso significa que gosta dele?" "Sim, o Niki  um camaradinha particularmente irritante, mas mesmo assim gosto dele. Ainda gosto."
"Nunca fez negcios com ele? Qualquer negcio?" "Ele trabalhava para outras casas, eu era patro de mim mesmo. Que negcios poderamos fazer?"
"Nunca lhe comprou nada?" "Porque haveria de comprar?" "Gostaria de saber, por favor, de que falavam voc e Niki Landau nas ocasies em que se encontravam sozinhos, frequentemente em capitais comunistas. "
"Ele vangloriava-se das suas conquistas. Gostava de boa msica. Clssica."
"E nunca lhe falou da irm dele? Da inn que ainda vive na Polnia?"
"No". "E nas vossas conversas, ele nunca manifestou o seu ressentimento em relao  forma alegadamente errada como as autoridades britnicas trataram o pai dele?"
"No. "
"Quando foi a sua ltima conversa ntima com Niki Landau, por favor?"
Barley pern-tiu-se finalmente exprimir uma certa irritao. "Quem, o ouvir, h-de dizer que eu e Nffi somos um casal de bichas", queixou-se.
O rosto de Quinn permaneceu impassvel. Provavelmente tinha concludo o mesmo antes de Barley.
"A questo foi quando, Mr. Brown", disse Todd, num tom que sugeria que j no dispunha de muita pacincia.
"Frankfurt, creio. O ano passado. Com umas raparigas no Hessischer Hof."
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"Isso foi na feira do livro de Frankfurt?" "Meu velho, a gente no vai a Frankfurt para se divertir." "Desde ento no falou com jLandau?" "Que me lembre, no." "No ter falado com ele por acaso na feira do livro de Londres na Primavera passada?"
Barley pareceu mergulhar em profunda reflexo. "Ah, pois claro! Stella! Tem razo!"
"Como?" "O Niki tinha conhecido uma rapariga que trabalhava para mim a Stelia. Decidiu que gostava dela. Na realidade ele gostava de todas. Gostava de mostrar que era um garanho. E queria que eu os apresentasse."
"E voc apresentou-os?" "Tentei." "Quer dizer, voc engatou para ele.  como se fosse o chulo de Stella, no  verdade?"
"Precisamente, meu velho." "E em que  que isso deu?" "Eu convidei-a para um copo no Roebuck s seis horas. O Roebuck  um bar que fica a dois passos do escritrio. O Niki apareceu, ela no."
"De maneira que voc ficou sozinho com o Landau, no 9 Frente a frente?"
"Exacto. Frente a frente." "De que falaram?" "Da Stella, creio. Do tempo. De tudo e de nada, suponho." "Mr. Brown, tem ou teve algum relacionamento com antigos cidados soviticos que se encontrem no Reino Unido?"
"Encontro-me com o adido cultural de vez em quando. Quando ele se d ao luxo de responder, o que no sucede muitas vezes. E se algum escritor sovitico nos visita e a Embaixada d uma festa, normalmente apareo. "
"Sabemos que gosta de jogar xadrez num certo caf da zona de Cainden Town, Londres."
"E ento?" "Esse caf no  frequentado por exilados russos, Mr. Brown?" Barley levantou a voz mas manteve-se calmo. "Ora, conheo o Leo, que  um tipo que gosta sempre de partir de uma posio fraca. No xadrez, claro. E o Josef, que  o contrrio do Leo, pois ataca tudo o que mexa. No vou para a cama com eles e no negoceio segredos com eles."
"Voc tem uma memria muito selectiva, no tem, Mr. Brown? Tendo em conta as descries extremamente pormenorizadas de ou-
tros episdios e pessoas, parece que tem."
Barley no reagiu logo, o que tornou a sua resposta ainda mais devastadora. Por um momento pareceu mesmo que nem ia respon-
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der; a tolerncia de que estava agora to profundamente animado parecia dizer-lhe que era melhor no se dar ao incmodo de uma reaco. Mas tal no aconteceu.
"Meu velho, eu lembro-me do que  importante para mim. Se no tenho uma cabea to porca como a sua, o problema  seu. "
Todd corou. E continuou corado por muito tempo. O sorriso de Larry abriu-se, ia quase de uma orelha  outra. Quinn tinha posto uma carranca de sentinela. Clive no tinha ouvido nada.
Mas Ned gozava que nem um preto e mesmo Russel Sheriton, mergulhado num sono de crocodilo, parecia estar a lembrar-se naquele momento de algo vagamente belo, no meio de tantos desapontamentos.
Nessa mesma noite, enquanto passeava pela praia, dei com Barley e dois dos seus guardas, longe dos olhos da manso, atirando seixos para ver qual deles conseguia dar mais saltos sobre as guas...
"Ganhei! Ganhei!", ouvi-o gritar, endireitando-se e lanando os braos para as nuvens.
"Os muls acham que anda heresia no ar", declarou Sheriton, oferecendo-nos o ltimo ponto da situao. Barley no estava presente: alegara uma dor de cabea e pedira que lhe levassem um omeleta. "A maior parte destes tipos apostaram e muito na necessidade de uma margem de segurana. Isso implica um aumento das despesas militares e o desenvolvimento de um qualquer novo sistema, por muito louco que ele seja, de maneira a que a indstria de armamentos possa viver em paz e prosperidade nos prximos cinquenta anos. Se eles no dormem com os fabricantes de armas, pelo menos comem  mesma mesa, disso no tenho dvida. A Ave Azul veio contar-lhes uma histria muito triste."
"E se essa histria for a verdade?", perguntei. Sheriton, com um ar pesaroso, serviu-se de mais uma poro de tarte de noz-pec. "A verdade? Que os soviticos no esto  altura? Que eles esto fartos de cortar nos custos e que os bufes em Moscovo no sabem metade das ms notcias porque os cientistas bufes os enganam para ganharem os seus relgios de ouro e terem caviar de graa? Acha que  essa a verdade?" Meteu  boca um bocado enorme de tarte que no lhe alterou minimamente a forma do rosto. "Acha que no tm sido feitas comparaes desagradveis?" Serviu-se do caf e prosseguiu. "Sabe qual  a pior coisa para os nossos neanderthais democraticamente eleitos? A pior de todas? So as implicaes que tudo isto tem contra ns. Moribundo do lado sovitico significa moribundo do nosso lado. Os muls odeiam isso. E os fabricantes tambrn." Abanou a cabea num jeito reprovativo. "Claro que no gostam de ouvir dizer que os soviticos no sabem fazer fuel slido a partir de merda, que os motores dos seus msseis no funcionam: que os erros de aviso rpido dos soviticos so piores
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do que os nossos, ou que a sua artilharia pesada nem consegue sair do canil, ou que os clculos da nossa espionagem so ridiculamente exagerados. Tudo isso so para os nossos muls vibraes muito negativas.>; Por um momento, pareceu reflectir acerca da inconstncia dos muls. "Como  que podemos vencer a corrida aos armamentos, se o nico sacana que a disputa somos ns mesmos? A Ave Azul significa uma ameaa permanente. Imensos privilegiados extremamente bem pagos correm o srio risco de ficar sem o seu ganha-po e tudo por causa da Ave Azul. Voc quer a verdade, pois a verdade  esta."
"Ento porqu arriscar?", objectei. "Se a coisa no  popular, porqu insistir nela?"
E de repente fiquei sem saber onde me meter. No,  muito frequente o velho Palfrey conseguir parar uma conversa e levar todas as cabeas a virarem-se para ele espantadas. E no era essa a minha inteno nesse momento. No entanto, Ned e Bob e Clive fitavam-me como se eu tivesse perdido a razo, e os jovens de Sheriton - eram dois, se bem me lembro - puseram os garfos no prato e comearam a limpar os dedos aos guardanapos, sem se darem conta de que estavam a fazer exactamente os mesmos gestos.
Apenas Sheriton parecia no ter ouvido. Tinha decidido que, no fim de contas, uma pequena dose de queijo no lhe faria mal. Puxara o carrinho para si e examinava atentamente os produtos em exposio. Mas nenhum de ns acreditou que era no queijo que estava a pensar. Para mim, era evidente que estava a ganhar tempo enquanto pensava se me havia de responder e como.
"Harry", comeou com todo o cuidado, dirigindo-se no a mim mas a uma dose de Danish Blue. "Harry, juro-lhe por Deus que tem  sua frente um homem que ama a paz e a fraternidade. Com isto quero dizer que a minha grande ambio  malhar nos falces do Pentgono tanto e to pouco que eles nunca mais possam dizer ao Presidente dos Estados-Unidos que vinte coelhos fazem um tigre ou que qualquer pescador de sardinha a trs milhas do seu porto  um submarino nuclear sovitico disfarado. Tambm no me apetece ouvir mais conversa de chacha acerca de cavarmos buraquinhos no cho para sobrevivermos  guerra nuclear. Eu sou um adepto da glasnost, Harry. Fiz algumas descobertas acerca de mim mesmo. Nasci adepto da glasnost, os meus pais so glasnsticos h muito tempo. Para mim, o glasnosticismo  uma forma de vida. Eu quero que os meus filhos vivam. Cite-me e que lhe faa bom proveito."
"No sabia que tinha filhos", disse Ned. "Em sentido figurado", retorquiu Sheriton. Mas no havia dvida que, l no fundo, Sheriton estava mesmo a contar-nos uma verso verdadeira do seu novo eu. Ned apercebeu-se disso, eu tambm. E se Clive no se apercebeu, era apenas porque abreviava deliberadamente o seu poder de percepo. Era uma verdade que no residia tanto nas suas palavras, que por vezes escon-
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diam mais do que expressavam os seus sentimentos, mas sobretudo numa nova e irreprimvel humildade que no existia no homem desapiedado que conhecramos em Londres. Aos cinquenta anos, aps um quarto de sculo de defesa da Guerra Fria, Russel Sheriton, para usar a expresso de Walter, fazia o balano de meia vida e punha-a em causa. Nunca me tinha passado pela cabea que poderia gostar daquele homem, mas a verdade  que nessa noite comecei a gostar dele.
"O Brady  muito bom", avisou-nos Sheriton com um bocejo ao retirar-se para o seu quarto. "At a relva a crescer ele  capaz de ouvir. "
E Brady era de facto muito bom, era de facto brilhante a todos os nveis.
Isso notava-se imediatamente no seu rosto inteligente, na imobilidade tranquila de um corpo habituado  cortesia. O antigo casaco desportivo que trazia vestido era mais velho do que ele. Quando o vi entrar na sala, percebi que lhe dava muito prazer no ser uma criatura espectacular. O seu jovem assistente usava tambm um casaco desportivo e, tal como o mestre, exibia um desalinho verdadeiramente chique.
"Parece que voc fez um bom trabalho, Barley", disse afavelmente Brady numa cadncia sulista, colocando a sua pasta sobre a mesa. "A propsito, j algum lhe agradeceu? Mas deixe-me apresentar primeiro. Chamo-me Brady e j sou demasiado velho para andar a inventar nomes. Apresento-lhe o Skelton, o meu assistente. Obrigado, Barley."
Estvamos de novo na sala de bilhar, mas sem a mesa e as cadeiras de costas muito direitas de Quinn. Em vez disso, pudemos sentar-nos comodamente em fofas almofadas. Havia no ar ameaas de ternpestade. As vestais de Randy tinham baixado os estores e acendido as luzes. O vento comeou a soprar mais forte e a manso desatou a tilintar como garrafas tremendo numa prateleira. Brady abriu a sua pasta, uma jia dos tempos em que as pastas eram pastas. Como professor universitrio que ocasionalmente era, usava uma gravata azul s pintinhas.
"Barley, terei lido algures, ou terei sonhado, que voc em tempos tocou saxofone na banda do grande Ray Noble?"
"Era um rapaz imberbe nesses tempos, Brady." "O Ray no foi mesmo o homem mais simptico e terno que voc alguma vez conheceu? E a melhor msica de todos os tempos no foi a dele?, perguntou Brady como s os sulistas sabem.
"O Ray era um princpe", retorquiu Barley, cantorolando depois alguns compassos de "Cherokee."
"Pena ter aquelas ideias polticas", disse Brady, sorrindo. "Tentmos todos tirar-lhes aqueles disparates da cabea, mas o Ray seguia sempre em frente. Alguma vez jogou xadrez com ele?"
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"Sim, na realidade joguei." "Quem ganhou?" "Ganhei eu, creio. No tenho a certeza. Sim, fui eu." Brady sorriu. "Eu tambm lhe ganhei." Skelton sorriu tambm. Puseram-se depois a falar de Londres e da parte de Hampstead onde Barley vivia. "Barley, eu adoro essa zona. Hampstead corresponde perfeitamente  minha ideia de civilizao." Depois, falaram dos grupos em que Barley tinha tocado. "Meu Deus, no me diga que esse tipo ainda mexe! Se eu tivesse a idade dele, nem me atrevia a comprar bananas verdes!" Falaram por fim de poltica britnica e Brady tinha mensa curiosidade em saber o que  que Barley achava de to mau em Mrs. T.
Barley parecia ter de reflectir sobre o assunto e de incio no foi capaz de sugerir fosse o que fosse. Talvez tivesse reparado nos olhos de Ned, que o avisavam claramente.
"Ora, Barley, no  culpa dela que a oposio no preste, ou ?" "Essa mulher  uma maldita duma Vermelha", rosnou Barley, para grande, e naturalmente secreto, alarme do lado britnico.
Brady no se riu, apenas ergueu as sobrancelhas e aguardou, como todos ns.
" uma ditadura aprovada por eleies", prosseguiu Barley, reunindo calmamente foras. "Mil pernas  bom, duas pernas no presta. Deus abenoe a grande empresa e que se lixe o indivduo."
Barley parecia estar com vontade de dissertar sobre esta tese, mas de repente mudou de ideias e, para nosso alvio, refreou-se.
No entanto aquele era um comeo perfeitamente agradvel e, ao fim de dez minutos, Barley devia sentir-se completamente  vontade. At que, no seu jeito lnguido, Brady decidiu abordar "esta coisa em que voc se meteu, Barley" e props-lhe que contasse com as suas prprias palavras tudo o que se passara, "mas concentrando-se especialmente naquele histrico face-a-face que vocs os dois tiveram em Leninegrado."
Barley fez o que Brady lhe pediu, e embora me parea que o ouvi to atentamente como Brady, a verdade  que no encontrei na narrativa nada de contraditrio ou de particularmente revelador em relao ao que tinha sido gravado.
E,  primeira vista, Brady pareceu tambm no ter ouvido nada de surpreendente, j que quando Barley acabou, lhe retorquiu com um sorriso tranquilizador e um "muito bem, Barley, obrigado", numa voz de de aparente aprovao. Os seus dedos magros puseram-se ento a vasculhar nos papis da pasta. "A pior coisa que h no trabalho de espio sempre me pareceu que era a espera, o fazer tempo, as voltas que se tem de dar para fazer tempo. Deve ser um bocado como o que acontece com os pilotos de avies na guerra", disse, seleccionando uma folha e examinando-a. "Num momento estamos muito sossegados em casa a comer a galinha do jantar e no momento seguinte
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temos de enfrentar todos os medos do mundo a oitocentas milhas  hora. E logo a seguir voltamos a casa mesmo mesmo a tempo de lavar a loua." Parecia ter encontrado o que procurava. "Foi assim que voc se sentiu, Barley, perdido e abandonado na enorme Moscvia?"
"Em parte. " "s voltas  espera de Katya? s voltas  espera de Goethe? Parece quem voc se fartou de dar voltas depois da sua mini-conferncia com Goethe."
Empoleirando os culos na ponta do nariz, Brady estudou o papel antes de o passar a Skelton. Sabia que a pausa era propositada, mas mesmo assim assustei-me, e creio que Ned tambm se assustou, j que deu uma olhadela para as bandas de Sheriton e depois lanou um olhar ansioso para Barley. "De acordo com os nossos relatrios obtidos in loco, voc e Goethe separaram-se por volta das catorze horas e trinta e trs minutos, hora de Leninegrado. J viu a fotografia? Skelton, mostre-lhe a fotografia, se faz favor."
Todos ns a tnhamos visto. Todos, excepto Barley. Mostrava os dois homens no jardim de Smolny logo aps a despedida. Goethe estava de costas. As mos de Barley surgiam ainda suspensas depois do abrao de despedida. No canto superior podia ler-se a hora electronicamente determinada: catorze horas, trinta e trs minutos e vinte segundos.
"Lembra-se das ltimas palavras que lhe disse?, perguntou Brady, com ar de quem evocava doces recordaes.
"Disse-lhe que o publicava." "Lembra-se das ltimas palavras que ele lhe disse?" "Goethe queria saber se deveria procurar um outro ser humano decente. "
"Que raio de despedida", comentou Brady tranquilamente, enquanto Barley continuava a olhar para a fotografia, e Brady e Skelton para ele. "Que fez depois disso, Barley?"
"Regressei ao Europa. Para entregar o material." "Por que ruas seguiu? Lembra-se? "Segui pelo mesmo caminho. Apanhei o elctrico para a cidade, depois andei um bocado."
"Esperou muito tempo pelo elctrico?", perguntou Brady, enquanto o seu acento sulista, pelo menos aos meus ouvidos, se transformava em algo que se aparentava mais com uma imitao do que com um desvio lingustico regional.
"Que me lembre, no." "Quanto tempo?" "Cinco minutos. Talvez mais." Parecia ser a primeira vez que Barley alegava deficincias de memria.
"Estava muita gente  espera do elctrico?" "Nem por isso. Algumas. No as contei." "H elctricos de dez em dez minutos. A viagem at  cidade de-
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mora outros dez. A caminhada at ao Europa, no seu passo, demora outros dez. O nosso pessoal fez e cronometrou todas essas viagens. Dez  o nmero. Porm, de acordo com Mr. e Mrs. Henziger, voc s apareceu no hotel s quinze e cinquenta e cinco. Pelo meio fica um grande buraco, Barley, um buraco no tempo.  capaz de me dizer como vamos preencher esse buraco? Espero que no tenha ido para nenhuma farra. A mercadoria que transportava era demasiado valiosa. Era de esperar que quisesse ver-se livre dela o mais depressa possvel. "
Barley estava a ficar desconfiado e Brady deve ter percebido isso, porque o seu hospitaleiro sorriso sulista oferecia-lhe agora um novo tipo de encorajamento, um tipo de encorajamento que dizia "desembuche. "
Quanto a Ned, estava perfeitamente paralisado, com os dois ps colados ao cho, e os olhos fixos no rosto conturbado de Barley.
Apenas Clive e Sheriton pareciam ter jurado que no exibiriam qualquer emoo.
"O que  que andou a fazer esse tempo todo, Barley?", disse Brady.
"Vagueei", respondeu Barley, mentindo muito mal. "Com o caderno de Goethe no saco? O caderno que ele lhe tinha confiado com a sua vida? Vagueou? Mas que raio de tarde que voc escolheu para vaguear, Barley. Onde  que foi."
"Voltei para trs, dei um passeio junto ao rio, onde ns tnhamos estado. Paddy tinha-me dito que no me apressasse, que fizesse horas. Que no fosse a correr para o hotel, que andasse a um ritmo de turista."
" verdade", murmurou Ned. "Foram essas as minhas instrues. comunicadas pelos nossos homens em Moscovo."
"E demorou cinquenta minutos?", teimou Brady, ignorando a interveno de Ned.
"No sei quanto tempo demorei. No olhei para o relgio. Disseram-me para eu no me apressar e eu no me apressei. "
"E no lhe passou pela cabea que, com um gravador e uma bateria nas calas, e um caderno cheio de material secreto provavelmente de um valor inestimvel metido no saco de plstico, a distncia mais curta entre os dois pontos s poderia ser uma recta?"
Barley estava a ficar perigosamente irritado mas s ele corria perigo. Se nesse momento tivesse olhado para Ned, e creio que para mim tambm, teria percebido isso mesmo.
"Brady, voc no me est a ouvir, pois no?", retorquiu rudemente. "J lhe disse. Paddy aconselhou-me a no ter pressa. Foi para isso que me treinaram em Londres, quando andei a dar aquelas voltinhas estpidas ao quarteiro. V devagar, faa horas. Se levar alguma coisa consigo, no se apresse, nunca se apresse. Pelo contrrio, faa um esforo para ir devagar."
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Uma vez mais o corajoso Ned fez o que lhe era possvel. "Foi isso que lhe ensinaram, de facto", comentou.
Mas enquanto falava era para Barley que continuava a olhar. Brady olhava tambm para Barley. "De maneira que voc andou a vaguear desde a paragem do elctrico, na direco da sede do Partido Comunista no Instituto Smolny - isto para no falar do Komsomol e de uma srie de outros santurios do Partido - e com o caderno de Goethe no saco? Porque  que fez uma coisa dessas, Barley? H pessoal operacional que faz as coisas mais estranhas, eu sei muito bem que  assim, mas o que voc fez surpreende-me, parece-me perfeitamente suicida."
"Mas eu estava a obedecer-a ordens, Brady! Que raio! Estava a fazer tempo! Quantas vezes tenho de lho dizer?"
Esta sbita exploso fez-me concluir que Barley se debatia mais com um dilema do que com uma mentira. Havia demasiada honestidade no seu apelo, demasiada solido nos seus olhos acossados. E Brady, honra lhe seja feita, pareceu entender isso mesmo, j que no exibia qualquer sinal de triunfo face ao desnimo de Barley, preferindo ajud-lo a espica-lo.
"Barley, pense um pouco. Repare que um buraco destes levanta imensas suspeitas na cabea de muita gente", disse Brady. "Comeam. logo a v-lo no gabinete ou no carro de algum, e depois imaginam que esse algum fotografou o caderno de Goethe e lhe deu ordens. Fez alguma coisa dessas? Parece que este  o momento adequado para voc responder, caso tenha feito uma coisa dessas realmente.  o melhor momento que se pode arranjar, no haver outro to bom. "
"No. "
"No, como? No vai responder?" "No foi isso que aconteceu." "Ento sempre aconteceu qualquer coisa. Lembra-se do que  que lhe passou pela cabea enquanto vagueava?"
"Goethe. Pensava na hiptese de o publicar. Deitar abaixo o templo, j que ele tinha de o deitar abaixo."
"Que templo, mais exactamente? Deixemos a metafsica de lado um pouco, est bem?"
"Katya. Os filhos dela. Se ele fosse apanhado, arrast-los-ia com ele. No sei se algum tem o direito de fazer uma coisa dessas. No encontro uma resposta." Portanto enquanto vagueava tentava encontrar uma resposta."
Talvez Barley tivesse mesmo vagueado pelas ruas de Leninegrado, talvez no tivesse mesmo vagueado nada. Naquele momento estava fechado que nem uma concha.
"No teria sido mais normal entregar o caderno primeiro e tentar encontrar uma resposta para essas questes ticas mais tarde? Surpreende-me que tenha sido capaz de raciocinar claramente, quando levava uma bomba no saco. No quero sugerir que as pessoas se com-
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portem muito logicamente nessas situaes, mas mesmo segundo as leis do ilgico, parece-me que a sua opo o condenava a uma situao extremamente desconfortvel. Quer-me parecer que, para alm de vaguear, fez mais qualquer coisa. E quer-me parecer que a si tambm lhe parece."
"Comprei um chapu." "Que gnero de chapu?" "Um chapu de pele. De mulher." "Para quem?" "Para Miss Coad." " sua namorada?" " a governanta do nosso refgio em Knightsbridge", interrompeu Ned antes que Barley pudesse responder.
"Onde  que o comprou?" "No caminho entre a paragem dos elctricos e o hotel. No sei onde  que foi. Numa loja."
"No comprou mais nada?" "S o chapu. Um chapu." "Quanto tempo demorou nas compras?" "Tive de ir para a bicha. "
"Durante quanto tempo?" "No sei. "
,"E que mais fez voc?" "Nada mais. Comprei s o chapu." "Est a mentir, Barley. No  uma mentira grave, mas  uma mentira. Que mais fez, alm de comprar o chapu?"
"Telefonei-lhe." "A Miss Coad?" "A Katya." "De onde?" "De um posto dos Correios." "Qual?" Ned tinha encostado uma mo  testa como se quisesse proteger os olhos do sol. Mas a tempestade estava para durar e para l da janela tanto o mar como o cu eram um negrume.
"No sei. Era um stio grande. Com cabines telefnicas debaixo de uma espcie de galeria em ferro."
"Telefonou-lhe para o escritrio ou para casa?" "Para o escritrio. quela hora ainda ela estava a trabalhar." "E porque  que no ouvimos esse episdio nas gravaes?" "Porque eu desliguei o gravador." "Qual foi o objectivo da chamada?" "Quis certifcar-me de que ela estava bem." "Como  que foi a conversa?" "Eu disse est, ela respondeu. Disse-lhe que estava em Leninegrado, que me tinha encontrado com o meu contacto, que os negcios
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estavam a correr bem. Quem ouvisse pensaria que eu estava a falar de Henziger. Katya sabia que eu estava a falar de Goethe."
"Sim, isso faz sentido", retorquiu Brady com um sorriso de perdo. "Depois eu disse, ento adeus, at  prxima feira do livro de Moscovo. Cuide de si, acrescentei. Ela respondeu que sim, que iria cuidar de si. E disse-lhe adeus."
"Nada mais?" "Disse-lhe tambm que deitasse foras as obras de Jane Austen que eu lhe tinha dado. Expliquei que no era a edio que ela queria. Depois levava-lhe a edio correcta."
"Porque  que fez isso?" "Os livros tinham perguntas destinadas a Goethe impressas no texto. Questes idnticas s do livro que ele recusou. A Jane Austen era para o caso de eu no me encontrar com ele. Para ela era um perigo. Como ele de qualquer modo no ia responder a essas perguntas, era prefervel que ela no ficasse com os livros em casa."
Nada mexia na sala. Ouvia-se apenas o vento que vinha do mar assolando as persianas e bufando nos beirais.
"Quanto tempo demorou a sua chamada, Barley?" "No sei." "Quanto pagou?" "No sei. Paguei no guichet. Dois rublos e qualquer coisa. Falei muito da feira do livro e ela tambm. Queria ouvir a voz dela."
Desta feita era Brady quem se calava. "Tinha a sensao de que enquanto falasse tudo estaria normal. De que ela estaria bem."
Brady fez uma pausa e depois, contra todas as expectativas, deu por encerrado o espectculo: "portanto foi uma conversa sem importncia", sugeriu, enquanto ia devolvendo os seus papis  pasta do av.
"Foi isso mesmo", concordou Barley. "Uma conversa sem importncia. Ninharias."
"Como uma conversa entre amigos", sugeriu Brady, fechando a pasta. "Obrigado, Barley. Pode crer que o admiro."
Sentmo-nos na enorme sala de estar, com Brady no meio, depois de Barley nos ter deixado.
"Trate de ser ver livre dele, Clive", aconselhou Brady, numa voz ainda impregnada de cortesia. " um tipo fraco, pode ser um perigo. E alm disso pensa demais. A Ave Azul est a fazer umas ondas que voc nem acredita. Os senhores feudais esto em p de guerra, os generais da Fora Area esto com um ataque de nervos, a Defesa diz que com ele ainda damos a loja de graa, o Pentgono acusa a Agncia de promover mercadoria falsificada. A vossa nica esperana  verem-se livres deste homem e arranjarem um profissional, um dos nossos."
"A Ave Azul no querer contactos com um profissional", replicou Ned. A raiva fervia-lhe na voz, prestes a transbordar.
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Skelton tambm tinha uma sugesto a fazer. Era a primeira vez que o ouvia falar, e tive de fazer um esforo para entender o seu culto discurso.
"Que se lixe a Ave Azul", disse. "A Ave. Azul no tem de querer ou deixar de querer.  um traidor e alm disso  um maluco atacado de culpabilidade e sabe-se l o que ele  mais! Ponham-no entre a espada e a parede. Digam-lhe que se ele deixar de produzir, o vendemos  gente dele e que a rapariga vai atrs."
"Se ele se portar bem, de certeza que ganha o jackpot, prometeu Brady. "Um milho no  problema. Dez milhes  melhor. Se o assustarem o suficiente e lhe pagarem o suficiente, pode ser que os neanderthais acreditem que ele  um homem honesto. RusselI, os meus cumprimentos. Clive, foi um prazer. Harry. Ned."
Com Skelton ao lado, encaminhou-se para a porta. Mas Ned no se tinha ainda despedido. No ergueu a voz nem deu um murro na mesa. Mas tambm no calou o brilho soturno nos seus olhos, nem o ultraje na sua voz.
"Brady!" "Teve alguma ideia, Ned?" "A Ave Azul no pode ser maltratada. Nem por eles, nem por vocs. A chantagem at pode parecer uma coisa engraada nas vossas discusses de gabinete, mas no terreno no vai resultar. Escutem as gravaes se no acreditam no que eu digo. O que a Ave Azul busca  o martrio. No se ameaam mrtires."
"Ento que havemos de fazer com mrtires, Ned?" "Barley mentiu-lhe?" "S dentro do normal." "O Barley  um tipo recto, um tipo honesto. Este caso  meramente de honestidade, de sinceridade, que  uma coisa de que ns estamos arredados. Enquanto voc se embrenha em meandros, a Ave Azul corre directa para o seu objectivo. E escolheu'Barley como companheiro de aventura. Barley  a nica hiptese de que dispornos."
"Ele est apaixonado pela rapariga", disse Brady. " um tipo complicado.  um risco."
"Ele est apaixonado por centenas de raparigas. Faz propostas a todas. Ele  assim mesmo. No  ele que pensa demais, vocs  que pensam demais."
Brady mostrava-se interessado. No nas suas convices, se  que as tinha, mas nas de Ned.
"J me passaram casos de todo o gnero pelas mos", prosseguiu Ned. "Pelas suas tambm. H casos que nunca so claros, mesmo depois de acabarem. Este  um caso lmpido desde o primeiro dia, e se algum o est a ensombrar, somos ns." Nunca o tinha ouvido falar com tanto fervor. Nem Sheriton, que olhava a cena petrificado. Talvez por isso Clive se tenha sentido na obrigao de se interpor com uma charanga de despedida, num linguajar prprio de funcionrio pblico. "Bom, parece que temos ma-
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tria para ampla reflexo, Brady. RusselI, temos de discutir isto. Talvez haja um meio-termo. Sinceramente acho que deve haver. Porque no analisamos melhor o caso? Podamos rever todo o processo, discuti-lo uma vez mais."
Mas ningum se tinha ido embora. Brady, apesar de todas as trivialidades que Clive dissera em jeito de despedida, tinha ficado exactamente como estava, e detectei nos seus traos uma generosidade pura que era como que o seu rosto real por detrs da mscara.
"Ningum nos contratou pelo nosso amor  humanidade, Ned. No  por isso que ns, os fantasmas', c andamos. Sabamos que era assim quando nos contrataram." Sorriu e prosseguiu. "Suponho que se a decncia pura e simples fosse a regra do jogo, era voc que dirigia a coisa em vez do Chefe Clive."
Clive no gostou desta sugesto, mas isso no o impediu de escoltar Brady at ao jipe.
Por um momento pensei que estava sozinho com Ned e Sheriton, at que vi Randy, o nosso anfitrio, parado  porta, com uma expresso de sobranceira incredulidade. "Mas aquele era mesmo o Brady?", perguntou, ofegante. "O Brady que gostava de tudo?"
"No, era a Greta Garbo", retorquiu Sheriton. "V-se embora, Randy. Por favor."
Poderia descrever-vos o ramerro de conversas que se seguiu, todas elas idnticas s anteriores, numa espcie de preldio ao novo acto marcado para o dia seguinte, enquanto os jovens de Sheriton pegavam de novo em Barley para irem dar um passeio ,praia, e aps muita conversa e anedotas e piadas lhe apresentavam o mapa de Leninegrado, e aps muitos esforos localizavam a loja onde o chapu de Miss Coat fora comprado, e descobriam quanto  que ele teria gasto e discutiam onde  que o recibo teria ido parar se  que houvera algum recibo, e se Barley tinha ou no declarado o chapu na alfndega em Gatwick, e finalmente identificavam o posto dos Correios onde tinha telefonado a Katya.
Poderia descrever-vos o ramerro das horas que Ned e eu passmos na casa da pesca, tentando ingloriamente encontrar formas de o furtar aos impulsos introspectivos.
Mas no era esse ramerro de incidentes menores que importava.
O facto essencial era que o afastamento de Barley em relao a ns
- senti-o mesmo naqueles circunstncias - no parava de se acentuar desde o momento em que concordara com os interrogatrios. Tinha-se tornado um peregrino solitrio. Mas qual era o seu destino? E de onde vinha? E a quem dedicava a peregrinao?
Mas passemos ao acto seguinte,  manh seguinte - uma manh
' No original, @spooks", literalmente fantasma, espectro; na gria da espionagem, significa "espio". (N. do T.)
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radiante de sol, creio que ter sido na quinta-feira -, ao preciso momento em que o pequeno avio vindo do aeroporto de Logan nos trouve Merv e Stafiley, mesmo mesmo a tempo de deglutirem o seu pequeno-almoo favorito: panquecas mais bacon mais xarope puro de bordo.
A cozinha de Randy conhecia perfeitamente os seus gostos.
Eram homens rudes, afveis homens do campo, com rostos de pedra-pomes e mos enormes, e  chegada mais pareciam um duo de vaudeville, com os seus chapus de feltro escuros e as suas malas de caixeiros-viaj antes que nem a comer largavam e que depois instalaram com todo o cuidado no soalho pintado de vermelho da sala de bilhar.
A profisso tinha dado aos seus rostos os traos da estupidez, mas eram homens do tipo que os nossos prprios Servios preferiam e preferem - soldados rasos francos e directos, leais, sem complicaes na cabea, com um trabalho para cumprir e filhos para alimentar, que amavam o pas sem alardes nem rebulios.
O cabelo de Merv estava reduzido a uma penugem cor de algodo. Stanley tinha as pernas arqueadas e na lapela usava uma espcie de distintivo de lealdade ao pas.
"Tanto faz que voc seja Jesus Cristo ou uma dactilgrafa com um salrio mensal de mil e quinhentos dlares, Mr. Brown", dissera Sheriton enquanto espervamos na casa de Barley, concluindo assim um rosrio de splicas matreiras. "Pode ser que aquilo seja vodu, ou alquimia, ou coisa de mediums ou leitura de folhas de ch. O que eu sei  que se voc no aceita, est feito."
Clive falou a seguir. Ele conseguia achar razes fosse para o que fosse. "Se ele no tem nada a esconder qual  o problema?", argumentou. "Aquilo  a verso deles da nossa lei dos Segredos de Estado. "
"O que  que o Ned acha?", perguntou Barley. Ned j no era Nedsky. J s era Ned. Havia um tom de derrota na resposta - e nos olhos - de Ned que nunca poderei esquecer. O interrogatrio de Brady tinha abalado a sua confiana em si mesmo, bem como no seu recruta.
" a si que cabe escolher", retorquiu sem convico. E, como se falasse consigo mesmo, acrescentou. " uma escolha muito, mas mesmo muito desagradvel, se quer saber o que eu acho."
Barley virou-se para mim, exactamente como tinha feito quando lhe perguntei se aceitava os interrogatrios dos americanos.
"Harry? O que  que eu fao?" Porque insistia ele na minha opinio? No era justo. Creio que o meu ar se assemelhava ao do Ned em constrangimento. Foi o que eu senti naquele momento, embora conseguisse produzir um despreocupado encolher de ombros. "Ou lhes faz a
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vontade e vai para a frente ou ento manda-os para o diabo que os carregue. A escolha  sua", respondi eu, quase como da primeira vez.
Ou seja, cumpria o eterno papel de advogado. De novo o silncio de Barley. A sua indeciso transformando-se lentamente em resignao. Longe de ns enquanto olha pela janela  procura do mar. "Bom, faamos votos para que no me apanhem a dizer a verdade", diz.
Levanta-se e abana os pulsos, relaxando os ombros, enquanto ns, feitos mordomos, confirmamos com olhares e acenos furtivos que o patro aceitou.
Em funes, Merv e Stariley exibiam a presteza respeitosa dos algozes.  hora certa apareceram com um trono que no lado esquerdo tinha um brao ornado com recortes: ou o tinham trazido com eles ou ento o trono encontrava-se permanentemente na ilha  sua disposio. Merv instalou-o perto da tomada enquanto Stanley falava com Barley como se fosse seu av.
"Mr. Brown, numa situao com esta no deve recear qualquer tipo de hostifidade.  nosso desejo que o nosso relacionamento consigo no o perturbe. O examinador no  um adversrio,  um funcionrio imparcial. Quem faz o trabalho  a mquina. Agradecia agora que tirasse o seu casaco, no precisa de subir as mangas nem de desabotoar a camisa. Obrigado. Prontinho, agora esteja calmo, relaxe-se, isso. "
Entretanto, com a maior delicadeza possvel, Merv enfiou no brao esquerdo de Barley uma faixa para a medio da tenso, ajustando-a cuidadosamente  veia. Depois, encheu de ar a faixa at o mostrador marcar cinquenta milmetros, enquanto Stanley, com a devoo de um subalterno diligente, ajustou ao peito de Barley um tubo revestido de borracha com uma polegada de dimetro, tendo o cuidado de evitar os mamilos para no provocar atrito. De seguida, Stanley colocou-lhe um segundo tubo  volta do abdmen, enquanto Merv enfiou uma dedeira dupla nos dois dedos do meio da mo esquerda de Barley, dedeira com um elctrodo dentro para determinar o funcionamento das glndulas sudorferas e a resposta galavanizada da pele e as mudanas da temperatura da pele, sobre as quais um indivduo, desde que tenha conscincia, no tem qualquer controlo - pelo menos era isto que pregavam os adeptos da mquina, e o que me pregou antecipadamente Stanley, e assim fiquei elucidado, depois de muitos rogos meus, como se eu fosse um familiar chegado desejoso de saber os pormenores da operao a que um ente querido ia ser submetido. Alguns poligrafistas, Harry, gostam de pr uma faixa suplementar  volta da cabea, como se fosse um encefalgrafo. No  o caso de Stanley. Alguns poligrafistas gostam de gritar e barafustar com as pessoas. O Stanley, no. Stanley reconhecia que
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muitas pessoas ficavam perturbadas com questes acusatrias, fossem ou no culpadas.
"Mr. Brown, agradecamos que no fizesse nenhum movimento, rpido ou lento", disse Merv. "Se fizer algum movimento,  possvel que todo o sistema se ressinta fortemente, o que implicar a realizao de novos testes e a repetio das questes. Obrigado. Em primeiro lugar, gostaramos de estabelecer uma norma. Por norma entendemos um nvel de voz, um nvel de resposta fsica, imagine um sismgrafo, voc  a terra,  voc que faz tremer a agulha. Obrigado. Responda apenas ou "sim" ou "no", e, por favor, responda sempre a verdade. Paramos sempre ao fim de oito questes, a fim de esvaziarmos um pouco a faixa da tenso arterial, que provoca algum desconforto. Enquanto esvaziamos a faixa, poderemos ter uma conversa normal, mas, por favor, sem graas nem excitaes exageradas, sejam de que tipo forem. O seu nome  Brown?"
"No." "Tem um nome diferente daquele que usa?" "Sim." " britnico por nascimento, Mr. Brown?" "Sim." "Foi de avio que veio para a ilha, Mr. Brown?" "Sim." "Veio para a ilha de barco, Mr. Brown?" "No." "Respondeu com a verdade s perguntas que at agora lhe fiz, Mr. Brown?"
"Sim." "Tenciona responder com a verdade a todas as perguntas que restam, Mr. Brown?"
"Sim." "Obrigado", disse Merv, com um sorriso afvel, enquanto Stanley esvaziava a faixa. "Estas so as perguntas que consideramos irrelevantes. Casado?"
"Actualmente no. " "Filhos?" "De facto tenho dois." "Rapazes ou raparigas?" "Um rapaz e uma rapariga." "Enfim, um homem sensato. Tudo bem?" Comeou a encher de novo a faixa. "Agora vamos passar s relevantes. Esteja calmo. Isso. Isso mesmo."
Na mala aberta, as quatro garras metlicas espectrais descreviam os seus quatro perfis cor de malva ao longo do papel milimtrico, enquanto as quatro agulhas pretas se agitavam dentro dos seus mostradores. Merv pegara numa pilha de cartes com perguntas e instalara-se a uma mesinha ao lado de Barley. Nem Russel Sheriton tinha
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sido autorizado a ler as perguntas que inquisidores sem rosto tinham seleccionado em Langley. Nada de intromisses. Os companheiros de aventura de Barley no estavam autorizados a perturbar os poderes msticos da mquina.
Merv falava sem qualquer inflexo. Estou certo de que se orgulhava da imparcialidade da sua voz. Ele era a Marcha do Tempo. Ele era o Controlo de Houston.
"Estou conscientemente envolvido numa conspirao para fornecer informaes falsas aos servios de espionagem da Gr-Bretanha e dos Estados Unidos da Amrica. Sim, estou envolvido. No, no estou envolvido."
"No." "O meu objectivo  promover a paz entre as naes. Sim ou no?" "No." "Actuo em concluio com a espionagem sovitica." "No." "Orgulho-me da minha misso a favor do comunismo intemacional."
"No." "Actuo em concluio com Niki Landau." "No." "Niki Landau.  meu amante." "No." "Foi meu amante." "No." "Sou homossexual. " "No." Uma pausa, enquanto Stariley esvaziava uma vez mais a faixa. "Que tal vai isso, Mr. Brown? No lhe faz doer?"
"Nunca di o bastante, meu velho. Estou-me a dar bem." Reparei que durante as pausas no olhvamos para ele. Olhvamos para o cho e para as nossas mos, ou ento para as rvores que l fora o vento agitava. Agora era a vez de Stariley. Um tom mais simptico, mas a mesma insipidez mecnica.
"Actuo em concluio com Katya Orlova e o amante dela." "No." "Tenho conhecimento de que o homem a quem chamo Goethe  um espio sovitico."
"No." "O material que ele me passou foi preparado pela espionagem sovitica."
"No." "Sou vtima de uma armadilha sexual." "No." "Sou vtima de chantagem." "No." "Sou vtima de coaco."
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"Sim." "Coaco sovitica?" "No." "Ameaam-me de runa financeira se no colaborar com os soviti-
cos. "
"No." Nova pausa. Era o terceiro assalto e era a vez de Merv. "Menti quando disse que tinha telefonado a Katya Orlova de Leninegrado."
"No." "De Leninegrado telefonei ao meu controlador sovitico e contei-lhe a minha discusso com Goethe."
"No." "Sou amante de Katya Orlova." "No." "J fui amante de Katya Orlova." "No." "Estou a ser vtima de chantagem em consequncia da minha relao com Katya Orlova."
"No." "At agora respondi sempre a verdade." "Sim." "Sou um inimigo dos Estados Unidos da Amrica." "No." "O meu objectivo  minar a capacidade de resposta militar dos Estados Unidos."
"Importa-se de me repetir essa, meu velho?" "Pra", disse Merv, e Stanley, de servio  mala, parou, enquanto Merv anotava qualquer coisa a lpis'no papel milimtrico. "No quebre o ritmo, Mr. Brown, por favor. H pessoas que fazem isso de propsito quando querem evitar uma pergunta que no lhes agrada. "
Quarto assalto, de novo Stanley. As perguntas sucediam-se montonas e era evidente que s acabariam quando atingissem o nadir da vulgaridade. Os "nos" de Barley tinham-se tornado um ramerro de fundo, tinham ganho uma passividade escarninha. Barley continuava sentado na mesma posio em que o tinham colocado. Nunca o vira to quieto durante tanto tempo.
Fizeram nova pausa mas Barley j no descansava entre os assa -
tos. A sua calma estava a tornar-se insuportvel. Tinha o queixo erguido, os olhos fechados e parecia sorrir, s Deus sabia de qu. Por vezes o seu "no" no deixava acabar a pergunta. Por vezes aguardava tanto tempo que os dois homens paravam e olhavam para ele, um junto dos mostradores, o outro de cartes na mo; parecia-me que, nesses momentos, o que eles sentiam era a ansiedade do torturador, o medo de que tivessem abusado da vtima. At que o "no" voltava a cair, nem mais alto nem mais baixo que os outros, apenas uma carta que se atrasara nos correios.
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De onde lhe vem o estoicismo? No, no, no a tudo. Porque se senta ali como um homem que se prepara para suportar as indignidades da velhice, mansamente repetindo "no"? Que significa essa mansido, no, sim, no, no, at  hora do almoo, quando o tirarem da mquina?
Intimamente, numa outra zona de mim mesmo, creio que conhecia a resposta a estas perguntas, ainda que naquele momento no a conseguisse traduzir em palavras. E a resposta era que Barley no estava pura e simplesmente l. O seu cenrio no era a mquina: eram outras paragens.
Espiar  esperar. Espermos trs dias, tantas horas quantos os meus cabelos brancos. Tnhamo-nos distribudo de acordo com as nossas posies hierrquicas: Sheriton fora com Bob e Clive para Langley; Ned ficara com o seu homem na ilha, e Palfrey permaneceria com eles,  espera no se sabia do qu, excepto que era um mistrio. Nessa altura j eu odiava a ilha e suspeitava que Ned e Barley tambm a odiavam, embora Ned estivesse j to esquivo quanto Barley. Ganhara uma expresso ausente, um ar abatido. Algo mexera com o seu orgulho.
Portanto, espermos. E jogmos xadrez sem convico, raro foi o jogo que conclumos. E escutmos as dissertaes de Randy acerca do seu iate. E ansimos pelo toque do telefone. E escutmos os gritos dos pssaros e a pulsao do mar.
Foi um tempo de loucos este tempo de espera e toda a estranheza daquele local isolado, com os seus cus furiosos e as suas tempestades e os seus recantos de idlica beleza, contribuiu ainda mais para a loucura desses dias. Uma "masmorra, de nevoeiro", como Randy lhe chamava, caiu sobre a ilha e com ela um medo irracional de que de facto fosse uma masmorra, de que nunca mais consegussemos sair dali. O nevoeiro levantou mas ns continumos na ilha. A intimidade a que ramos obrigados deveria ter-nos aproximado, mas tanto Ned como Barley se refugiavam nos seus reinos: Ned, no seu quarto, Barley, fora de casa. Mesmo que chovesse a cntaros sobre a ilha, era certo que, se chegasse  j anela, o veria s voltas no penhasco, com o impermevel vestido, levantando os joelhos como que em luta com sapatos demasiado desconfortveis. Certa vez dei com ele jogando um cricket solitrio na praia, com Edgar, o guarda. O taco era um bocado de madeira que dera  costa, a bola era uma bola de tnis. Quando fazia sol, punha um velho bon azul de marinheiro, um bon que tinha encontrado num ba da casa. Usava-o com uma expresso severa, os olhos sonhando colnias por conquistar. Certa vez, Edgar apareceu com um velho co rafeiro que tinha descoberto no sei onde e o cao serviu-lhes de parceiro em correrias. Num outro dia disputava-se uma regata junto  costa: ao longe, um anel de um sem nmero de barcos  vela fazia lembrar uma dentadura minscula e muito
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branca. Barley no desprendia os olhos dos barcos, aparentemente deliciado com aquela festa branca, enquanto Edgar, a pouca distn- cia, o observava.
Est a pensar em Harmah, pensei. Est  espera que a vida lhe traga o momento da escolha. S muito mais tarde me ocorreu que h pessoas que seguem vias completamente diferentes para tomar uma deciso.
A minha ltima imagem da ilha tem os traos distorcidos de um sonho. Tinha falado ao telefone com Clive apenas duas vezes, e duas vezes, para ele, eram praticamente nada. Numa dessas vezes, quis saber "como  que os seus arriigos se esto a portar"; soube depois que tinha feito exactamente a mesma pergunta a Ned. Da outra vez, pediu-me que lhe descrevesse os arranjos a que tinha chegado tendo em vista a indemnizao a pagar a Barley, incluindo o cheque a pagar  editora. Queria saber atrida se o dinheiro viria dos nossos prprios fundos ou se seria necessrio recorrer a verbas extra-oramento. Como tinha algumas notas comigo, pude esclarec-lo convenientemente.
 meio-dia e o New York Times e o Washington Pst acabam de chegar  mesa do jardim de Inverno. Enquanto os leio, oio Randy aos gritos, pedindo aos guardas que vo avisar Ned porque h uma chamada para ele. Viro-me e vejo Ned entrando pela porta do jardim e correndo pela sala de entrada na direco da sala das comunicaes. Olho para o patamar do primeiro andar e vejo Barley, uma silhueta sem vida. H nesse patamar algumas estantes velhas e ele acabara de persuadir Randy a abri-Ias, pois queria dar uma vista de olhos pelos livros.  o patamar com a janela semi-circular, aquela que d para as hortnsias e para o mar.
Est de p, de costas, um livro caindo de uma longa mo, perscruta o Atlntico. Tem os ps afastados, a outra mo erguida - nele, um gesto habitual - a um palmo da cabea, como que protegendo-se de um possvel ataque. Deve ter ouvido tudo - os gritos de Randy, os passos apressados de Ned, o estrondo da porta da sala de comunicaes a fechar-se. O patamar  de tijoleira e nele os passos ressoam como sinos da igreja rangendo de velhos. Oio-os agora e vejo Ned sair da sala de comunicaes, dar alguns passos e parar.
"Harry! O Barley onde est?" "Aqui", responde calmamente Barley, agarrado ao corrimo "Est aprovado, Barley!", grita Ned, com o jbilo de uma criana. "Pedem desculpa. Falei com o Bob, com o Clive, com o Haggarty. Goethe  o caso mais importante com que eles deparam desde h muitos anos. Oficial. Apostam nele a cem por cento. J no se olha mais para trs. Voc venceu todo o aparato deles."
Ned j estava habituado s reaces impassveis de Barley, e por isso no deve ter ficado surpreendido perante a aparente apatia daquele a quem anunciara as boas novas. Barley continuava a mirar o Atlntico. Julgaria ver algum barco minsculo a afundar-se? Toda a gente v, toda a gente cr ver. Basta olhar para os mares do Maine
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durante algum tempo e logo os vemos por todo o lado, uma vela, um casco, um gro no horizonte que  afinal a cabea ou a mo de um sobrevivente, e que logo se esbate sob as ondas para nunca mais emergir. S ao fim de muito tempo nos damos conta de que os barquinhos,longnquos so afinal guias-pescadoras e alcatrazes na sua rapina rotineira.
Mas quando as emoes o envolvem, Ned  um homem to susceptvel como qualquer outro.  capaz de se sentir magoadoi.  um daqueles raros momentos em que o profissional deixa cair a mscara e revela o homem precrio.
"Vai voltar a Moscovo, Barley! No era isso o que queria? Voltar?"
E Barley apercebe-se finalmente de que magoou Ned e apieda-se. D meia-volta para que Ned possa ver o seu sorriso. "Pois era, meu velho. Claro que era. Era precisamente isso que eu queria."
Entretanto  a minha vez de entrar na sala de comunicaes. Randy acena-me para que entre.
"Palfrey?  voc?" Sou eu, Palfrey. "Langley vai tomar conta do caso", diz Clive, como se essa fosse a outra parte das boas novas. "Consideram-no como um caso que exige inteira disponibilidade.  o mximo que poderiam fazer", acrescenta num tom definitivo.
"Ah, sim? Parabns", digo eu e, afastando o auscultador do ouvido, ponho-me a olhar incrdulo para aquele objecto, enquanto a fala arrastada de Clive continua a gotejar os seus sons, como uma torneira que nada nem ningum consegue fechar. "Quero que elabore imediatamente o texto de um acordo e que prepare um documento global para cobrir as contingncias habituais. Consegui--mos domestic-los, portanto mostre-se firme. Firme mas justo. Estamos a lidar com gente muito realista, Palfrey. Gente pragmtica."
O pingo ontinua a cair. No pra. No parar. Langley compromete-se a pagar a penso e todos os reajustamentos que Barley ter de introduzir na sua vida, como penhor do seu controlo total sobre as operaes. Langley partilhar a explorao da fonte, mas ter direito a voto de qualidade em caso de divergncia.
"Eles esto a preparar uma lista de compras enorme. Palfrey, uma jogada em grande. Vo apresent-la ao Departamento de Estado,  Defesa, ao Pentgono e aos organismos cientficos. Vo debater todas as grandes questes do momento e elaborar uma lista a que a Ave Azul dever responder. Sabem que h riscos mas isso no os detm. Quem no arrisca, no petisca,  isso que eles pensam.  uma posio que exige coragem."
 a sua voz de burocrata-chefe. Clive tem finalmente a sua ndia. "No grande equilbrio ataque-defesa, Palfrey, nada existe num vcuo", explica arrogante, _citando, disso no tenho dvida, algo que
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ouviu uma hora antes. " um assunto extremamente sensvel. Qualquer questo  to importante como qualquer resposta. Eles sabem isso. Sabem-no muito claramente. O maior tributo que poderiam prestar  fonte reside precisamente no facto de terem elaborado um questionrio que no envolve qualquer coaco.  uma coisa que eles no fazem h muitos, muitos anos. Esto a abrir um precedente. Pelo menos em relao aos ltimos tempos."
"O Ned sabe disso?", perguntei-lhe quando consegui falar. "No pode saber. Nenhum de ns pode. Trata-se de assuntos da maior importncia estratgica."
"O que eu perguntei foi se o Ned sabia que voc lhes deu de presente precisamente o homem dele."
"Quero que venha imediatamente para Langley, a fim de negociar as nossas condies com os seus colegas americanos. O Randy trata do transporte. Palfrey?"
"O Ned sabe?", repito. Clive faz um dos seus silncios telefnicos, silncios durante os quais o interlocutor  implicitamente convidado a descobrir todos os erros que ter cometido.
"Ned ficar ao corrente de tudo quando regressar a Londres.
O que no demorar muito. At l espero que no lhe diga nada.
O papel da Casa da Rssia ser respeitado. Sheriton reconhece o nosso valor. A nossa posio ser mesmo reforada a certos niveis, talvez permanentemente. O Ned s pode ficar grato."
A imprensa econmica britnica foi a que recebeu a novidade com maior jbilo. Casamento com Futuro, intitulava a Booknews algumas semanas depois, num artigo acerca da Feira do Livro de Moscovo. Confirma-se finalmente o acordo entre a Abercrombie & Blair da Norfolk Strect, Strand, e a Potomac Traders, Inc. of Boston, Mass.! Jack Henziger, um empresiio de peso, associou-se finalmente a Barley Scott Blair da A. & B., formando uma nova sociedade annima, a Potomac & Blair, que projecta lanar uma campanha agressiva nos mercados do bloco de Leste, cada vez mais receptivos. "A Potomac & Blair  uma janela virada para o futuro", declara confiantemente Henziger. Muita ateno, pois,  Feira do Livro de Moscovo!
A notcia era acompanhada por uma fotografia enternecedora de Barley e Jack Heriziger cumprimentando-se frente a uma jarra de flores. A fotografia fora tirada elo fotgrafo dos Servios no nosso
p refgio de Knigtsbridge. Flores de Miss Coad.
Encontrei-me com Hannah um dia depois do meu regresso da ilha. Imaginei que faramos amor. Parecia-me alta e radiante:  assim que os meus olhos a vem sempre que passo algum tempo longe dela. Era uma quinta-feira, e por isso ia levar o filho a um charlato qualquer
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com consultrio nas traseiras da Harley Street. Nunca gostei muito de Giles, talvez por saber que ele fora concebido no rescaldo do nosso fracasso, logo a seguir a Harmah ter voltado para Derek. Sentmo-nos no maldito caf do costume, bebendo um ch bafiento, enquanto ela esperava que a consulta acabasse, e fumava, coisa que odeio. Mas desejava-a e ela sabia.
"Em que local da Amrica?", perguntou ela, como se isso interessasse.
"No sei. Numa ilha qualquer, cheia de guias-pescadoras e mau tempo."
"Aposto que no eram guias-pescadoras." "Eram, de facto eram. So muito comuns naquelas paragens." Pela tenso que lhe li nos olhos, soube que tambm me desejava. "Bom, acontece que tenho de levar o Giles  casa", disse ela, depois de termos lido e relido os pensamentos um do outro.
"Mete-o num txi", sugeri. Nesse momento comeava mais uma das nossas discusses e, com ela, o mtuo esmorecimento.
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Katya passaria s dez da manh de domingo pelo imenso Mezhdunarodnaya, o hotel onde Henziger tinha insistido para que ficassem. Barley esper-la-ia na rua, junto  entrada. Tanto Wicklow como Henziger, sentados no hall disparatadamente grande do "Mezh", como lhe chamavam os ocidentais, tencionavam assistir ao feliz encontro e  partida para o passeio.
Estava um belo dia e no ar pairavam aromas pronunciadamente outonais. Barley fora para a entrada do hotel demasiado cedo. Enquanto esperava, deambulou no meio das inexpugnveis limousnes que a todo o momento carregavam e descarregavam lderes do Terceiro Mundo. At que surgiu o Lada vermelho de Katya, uma exploso de alegria no meio de todo aquele funeral. A mozinha branca de Anna ondeava  janela como um leno. Sergey, sentado ao lado da irm, mais direito que um comissrio, segurava na sua rede de pesca.
Para Barley era importante que reparasse nas crianas em primeiro lugar. Tinha pensado nesse pormenor e conclura que era isso que tinha a fazer, porque j no havia pormenores insignificantes, nada podia ser deixado ao acaso. S depois de ter saudado entusiasticamente as crianas e de ter feito uma careta a Anna, se permitiu espreitar para os bancos da frente, para o tio Matvey, afundado no assento, com o seu rosto trigueiro reluzente que nem uma castanha e os olhos de marinheiro cintilando sob a pala do bon axadrezado. Fizesse sol ou a maior tempestade, Matvey vestiria sempre as suas melhores roupas porque era preciso honrar aquela visita, aquele distinto ingls: por isso trazia o casaco de sarja e o lacinho e evidentemente as suas melhores botas. Na sua lapela, um alfinete exibia os smbolos da Revoluo. Matvey baixou a janela, Barley curvou-se e cumprimentou-o, repetindo incontveis "ols". S ento se aven-
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turou a olhar para Katya. E nesse momento houve uma espcie de hiato na sua actuao, como se j no soubesse qual era a sua fala ou em que pea estava, ou se de repente se tivesse lembrado de que ela era de facto muito bela. S ao fim de um momento conseguiu fabricar um sorriso.
Katya, no momento, no mostrou tais reticncias. Num pice saiu do carro. Trazia umas calas largas que, apesar de mal cortadas, lhe ficavam lindamente. Num passo rpido deu a volta ao carro, radiante de felicidade e confiana. "Barley!", exclamou, de braos to abertos que o seu corpo logo se entregou alegre e despreocupadamente ao abrao dele - abrao que, como qualquer rapariga russa bem-comportada, logo tratou de refrear, afastando-se um pouco, mas continuando agarrada a ele, examinando o rosto, o cabelo, o velho traje de passeio de Barley, enquanto tagarelava sem cessar, numa torrente de espontnea camaradagem.
"Que bom. Barley! Que bom v-lo de novo!", exclamou. "Bem-Vindo  feira do livro, bem-vindo a Moscovo outra vez. Matvey nem queria acreditar no seu telefonema de Londres? "Os ingleses sempre foram nosso amigos", dizia ele. "Ensinaram o Pedro a navegar, e se no fosse isso hoje no teramos Marinha". O Pedro de que ele fala  Pedro, o Grande. Matvey vive ainda em Leninegrado. No gosta do belo carro de Volodya? Ainda bem que ele se voltou a apaixonar.
Katya libertou-o e Barley, com ar de idiota feliz que tinha nesse momento, soltou uma exclamao inesperada: "Meu Deus! Quase me esquecia!". Era aos sacos que se referia. Tinha-os deixado encostados a uma parede, junto  porta de entrada. No instante em que reapareceu com os sacos, Matvey fazia um esforo desesperado para sair do carro, pois era sua inteno dar o lugar da frente a Barley. Este, no entanto, no o permitiria.
"No, no e no! Eu fico perfeitamente bem com os gmeos! Mesmo assim muito obrigado, Matvey". Dito isto, enfiou-se no carro e moldou o seu longo corpo ao banco de trs, como se estivesse a estacionar um camio articulado, enquanto distribua as suas prendas e os gmeos olhavam para ele trocando risinhos temerosos: este gigante vindo do Ocidente, com um corpo to grande que nem cabe aqui dentro, que nos trouxe chocolates ingleses, e lpis de cera suios, e livros para colorir, um para cada, e as obras de Beatrix Potter em ingls para os dois, e um belssimo cachimbo para o tio Matvey que, diz Katya, vai ficar louco de contente, e uma bolsa de tabaco ingls.
E para Katya, tudo aquilo que ela poderia desejar para o resto da sua vida - btons; e um pullover e perfumes e uma charpe de seda francesa, demasiado bela para ser usada.
Entretanto, Katya tinha deixado as cercanias do hotel e metera por uma estrada cheia de buracos. Enquanto conversava sobre a feira do livro que abriria no dia seguinte, avanava sem grande destreza entre as crateras alagadas.
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Dirigiam-se vagamente para leste, sob um sol dourado, o sol acolhedor de Setembro que conseguia mesmo pr alguma beleza nos subrbios da capital. Entraram na triste plancie das cercanias de Moscovo, com os seus campos sem dono, igrejas desoladas e transformadores de electricidade com muros  volta. Ao longo da estrada, espalhavam-se cachos de velhas dachas que se assemelhavam a antigas cabanas de praia. Ao ver as suas empenas esculpidas e os pequenos jardins separados por cercas, Barley lembrava-se sempre das estaes ferrovirias inglesas de provncia que tinham povoado a sua juventude. Matvey entretanto envenenava-os a todos com o cachimbo e proclamava o seu xtase no meio das nuvens de fumo. Mas estava demasiado ocupada com as funes de guia para poder prestar ateno ao tio.
"Para l daquele monte fica a fundio de tal-e-tal, Barley. Aquele edifcio de cimento arruinado  esquerda  de uma quinta colectiva." "Sim senhor!", disse Barley. "Sensacional! Apesar de tudo, temos um belo dia  nossa frente!"
Anna tinha espalhado os lpis pelo colo e descobrira j que se molhasse as pontas eles deixavam rastos hmidos de tinta. Sergey ordenava-lhe que metesse os lpis na lata e Barley procurava instaurar a paz desenhando animais para ela colorir, mas a verdade  que as estradas de Moscovo no so nada generosas para com os artistas.
" Verde? Verde, no, sua patetinha", disse-lhe Barley. "Alguma vez se viu uma vaca verde? Katya, por amor de Deus, a sua filha pensa que as vacas so verdes."
"Ah, a Anna  a pessoa menos prtica que eu conheo!", gritou Katya, rindo-se. Depois virou-se e traduziu para Anna, que se ps a olhar e a rir para Barley.
E tudo isto tinha de ser ouvido com o pano de fundo constitudo pelo monlogo constante de Matvey, pela inesgotvel hilariedade de Anna e pelas interjeies nervosas de Sergey, isto para no falar do ribombar angustiado do pequeno motor, at que cada um deixou de ouvir fosse o que fosse a no ser a sua prpria voz. De repente saram da estrada e meteram por um campo relvado, aps o que comearam a subir uma colina onde no existia qualquer caminho, o que acicatou ainda mais as gargalhadas das crianas e as de Katya tambm, enquanto Matvey segurava o chapu com uma mo e o cachimbo com a outra.
"Est a ver?", perguntou Katya a Barley, vencendo por uma vez a algazarra, como se tivesse encerrado a seu favor uma antiga teima entre amantes, "Na Rssia podemos perfeitamente ir para onde a nossa imaginao nos leva, desde que no invadamos as propriedades dos nossos milionrios ou dos funcionrios governamentais. "
Subiram a colina com gargalhadas ainda mais turbulentas e mergulharam depois numa cova cheia de relva, aps o que subiram uma vez mais, como um barquito corajoso enfrentando as ondas, at chegarem a um caminho que acompanhava um riacho. O riacho passava
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por um bosque de btulas e a o caminho desviava-se um pouco do riacho, rodeando o bosque. Katya conseguiu travar ento o carro, manobrando o travo de mo como se estivesse a parar um tren. Estavam sozinhos no Paraso com o riacho para brincarem ao diques e um belo local para fazerem o piquenique, e muito espao para jogarem ]apta com o basto e a bola de Sergey que vinham no porta-bagagens, e o ]apta exigia muito espao porque era preciso que todos ficassem numa grande roda e depois um deles atirava a bola e outro apanhava-a e disparava-a com o basto.
Depressa se verificou que Anna no tinha grande empenho em jogar lapta. A sua ambio era divertir-se o mais possvel com o jogo e depois instalar-se na relva para almoar e namoriscar com Barley. Mas Sergey, o soldado, era um adepto, e Matvey, o marinheiro, um entusiasta. Enquanto preparava o piquenique, Katya explicou a Barley a sublime importncia que o ]apta teve na evoluo da cultura ocidental.
"Matvey garante que o ]apta est na origem do basebol americano e do cricket ingls. Cr que emigrantes russos o levaram para Inglaterra. Estou certa de que tambm acha que foi Pedro, o Grande, quem inventou o lapta."
"Se isso  verdade,  a morte do Imprio", comentou Barley com um ar muito srio.
Deitado sobre a relva, Matvey continua a tagarelar enquanto fuma com o seu novo cachimbo. Os generosos olhos azuis, devolvidos ao seu glorioso passado em Lenigrado, enchem-se de uma luz herica. Mas Katya ouve-o como se ouvisse um rdio que no se pode desligar. Apanha uma ou outra coisa, as mais invulgares, mas est surda para tudo o mais. Caminha pela relva, entra no carro, fecha a porta e reaparece de cales, com um saco de oleado na mo, no saco vm as sanduches, embrulhadas em papel de jornal. Preparou kotlet frias e galinha fria e pastis de carne. Salgou pepino e ovos cozidos. Trouxe garrafas de cerveja Zhiguli, Barley trouxe Scotch, com o qual Matvey brinda fervorosamente a algum monarca ausente, talvez o prprio Pedro.
Sergey fica na margem, esquadrinhando as guas com a sua rede.
O sonho dele, explica Katya,  apanhar um peixe e cozinh-lo para todos os que deles dependem. Anna desenha. Num jeito ostensivo, afasta-se do seu trabalho para que os outros possam admir-lo. Quer dar a Barley um auto-retrato. Para que ele o pendure no seu quarto em Londres.
"Ela quer saber se voc  casado", diz Katya, rendendo-se s perguntas importunas da filha.
"No, actualmente no, mas sou sempre um homem disponvel." Anna faz outra pergunta, mas Katya cora e repreende-a. Cumpridos os seus deveres de lealdade, Matvey descansa sobre a relva, o bon sobre os olhos, tagarelando sabe-se l o qu, excepto que, seja o que for, para ele  a delcia das delcias.
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"Daqui a pouco est a descrever o cerco de Leninegrado", diz Katya com um sorriso terno.
Uma pausa. Olha para Barley. "Agora podemos falar",  o que os seus olhos dizem.
O camio cinzento foi-se embora. A festa tinha acabado. Durante uns bons minutos Barley espreitou inquieto para o camio sem que Katya se apercebesse, fazendo votos -para que fosse um camio amigo, mas desejando de todo o coraao que os deixasse sozinhos. As janelas da cabina estavam pretas de p. Foi com alvio que o viu arrastar-se pesadamente na direco da estrada e desaparecer depois de vista e da sua cabea.
"Ah, ele est muito bem", dizia Katya. "Escreveu-me uma carta enorme. Tudo lhe corre o melhor possvel. Esteve doente mas j est completamente recuperado, disso estou certa. Tem imensos assuntos para discutir e por isso vai fazer uma visita especial a Moscovo durante a feira, a fim de se encontrar consigo. Quer saber como  que est o livro. Gostaria mesmo de ver o manuscrito j preparado, talvez apenas uma pgina. Em minha opinio isso seria perigoso, mas o problema  que ele est extremamente impaciente. Quer propostas quanto ao ttulo, quanto s tradues, talvez mesmo quan@o a ilustraes. Parece-me que se est a transformar no tpico escritor ditatorial. Confirmar tudo muito em breve e arranjar tambm um apartamento onde se podero encontrar. Veja l que quer ser s ele a tratar de todos os pormenores. Parece-me que voc tem representado para ele uma influncia muito positiva."
Katya procurava qualquer coisa na mala. Um carro vermelho estacionara do outro lado do bosque de btulas, mas ela parecia ignorar tudo excepto a sua boa disposio. "Pessoalmente, acho que este trabalho ser considerado redundante dentro de algum tempo. Com as conversaes sobre desarmamento a avanarem to rapidamente e a nova atmosfera de cooperao internacional, todas estas coisas terriveis em breve pertencero ao passado. Claro que os americanos - ---
peitam de ns, tal como ns suspeitamos deles. Mas quando juntarmos as nossas foras, poderemos chegar ao desarmamento total prevenir todos os conflitos no mundo." Esta era a sua voz didctica, avessa a qualquer contestao.
"Como poderemos prevenir todos os conflitos do mundo se no tivermos armas para os prevenir?", objectou Barley e a sua temeridade valeu-lhe um olhar friamente agressivo.
"Barley, quer-me parecer que essa  uma resposta tipicamente ocidental e negativa", retorquiu ela, retirando o envelope da mala. "Foi voc, no eu, quem disse a Yakov que aquilo de que precisvamos eram experincias com a natureza humana."
No tinha selo, reparou Barley. Nem carimbo dos correios. Apenas "Katya" em Cirlico. Parecia a letra de Goethe, mas como sab-
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-lo? De repente sentiu corno que um calor na cabea e nos ombros,
como uma peonha, ou uma alergia que comeava a atacar.
"De que est ele a recuperar?", perguntou. "Ele estava nervoso quando se encontraram em Lenirregrado?" "Estvamos os dois. Era do tempo", replicou Barley, esperando ainda por uma resposta. Sentia-se tambm ligeiramente bbado. Devia ser qualquer coisa que tinha comido.
"Ele estava nervoso porque estava doente. Muito pouco tempo depois do vosso encontro, teve um colapso, to sbito e grave que nem os seus colegas sabiam onde  que ele se tinha metido. Chegaram a termer o pior. Um amigo de confiana disse-me que chegaram a pensar que tinha morrido."
"No sabia que ele tinha amigos de confiana para alm de voc." "Ele escolheu-me para o representar junto de si. Mas claro que tem outros amigos para outras coisas." Retirou a carta do envelope mas no lha deu.
"No foi isso que voc me disse. Bem pelo contrrio", disse Barley com uma voz dbil, enquanto continuava s voltas com os seus mltiplos sintomas dedesconfiana.
Katya no ficou nada perturbada com a objeco dele. "Porque havemos de dizer tudo num primeiro encontro? Uma pessoa tem de proteger-se.  normal."
"Sim, creio que sim", concordou Barley. Anna tinha acabado o auto-retrato e queria que o apreciassem imeditamente. Era uma Anna apanhando flores num telhado.
"Magnfico!", exclamou Barley. "Diga-lhe que vou p-lo por cima da lareira. Sei exactamente o stio onde o vou pr. H uma fotografia de Anthea esquiando, dum lado, e uma de Hal num navio, do outro. A Anna fica no meio. "
"Ela quer saber que idade tem o Hal", disse Katya. Uma pergunta daquelas obrigava-o a uma srie de clculos. Primeiro teve de se lembrar em que ano nascera Hal@ depois em que ano estava; finalmente, procedeu  difcil subtraco entre as duas datas, enquanto lutava com um zumbido que no lhe largava os ouvidos. "Pronto, j est. Tem vinte e quatro anos. Mas receio bem que tenha feito um casamento perfeitamente disparatado."
Anna estava desapontada. Ps-se a olh-los com um ar acusador enquanto Katya reatava a conversa.
"Logo que soube que ele tinha desaparecido, tentei contact-lo pelos meios habituais, mas sem xito. Fiquei extremamente deprimida. " Passou-lhe finalmente a carta; nos seus olhos havia uma luz de prazer e alvio. Ao receber a carta, Barley pousou distraidamente a sua mo sobre a dela. Katya no afastou a mo. "Ento, h oito dias, fez ontem, sbado, uma semana, ou seja, dois dias depois de voc me ter telefonado de Londres, Igor ligou-me para casa. "Tenho uns remdios para si. Venha beber um caf comigo que eu dou-lhos." Remdios  o nosso cdigo para carta. Era uma carta de Yakov. Fiquei
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espantada e muito feliz. H anos e anos que Yakov no me mandava uma carta. E que carta!"
"Quem  o Igor?", perguntou Barley, falando muito alto para abafar o tumulto que lhe ia na cabea.
A carta eram cinco folhas de um bom - e difcil de obter - papel branco, escritas numa letra bonita e regular. Barley no tinha imaginado Goethe capaz de produzir um documento aparentemente to convencional: Katya s ento afastou a mo, mas suavemente.
"O Igor  um amigo do Yakov, de Leninegrado. Estudaram juntos. "
"Muito bem. E que faz ele agora?" Katya ficou irritada com a pergunta e estava impaciente por ouvir a reaco dele  carta, ainda que ele no percebesse nada do que estava escrito. "Ele  um cientista, no sei de que ramo, trabalha para um ministrio. Que lhe interessa a si saber o que faz o Igor? Quer que eu traduza a carta ou no?"
"Qual  o apelido dele?" Katya disse-lhe o apelido e Barley, no meio da sua confuso, sentiu-se feliz com a irritao dela. Devamos ter anos e no apenas horas, pensou. Devamos ter puxado o cabelo um ao outro em midos. Devamos ter feito tudo o que nunca fizemos, pois em breve ser demasiado tarde. Barley segurou na carta para que Katya lesse e ela ajoelhou-se despreocupadamente atrs dele, pondo uma mo em cima do seu ombro para se equilibrar, enquanto com a outra ia apontando as lin has  medida que traduzia. Barley sentia os seios dela roando-lhe nas costas. Sentia o seu mundo ntimo caindo numa calma profunda, e a monstruosidade das suas primeiras suspeitas dava lugar a sentimentos mais racionais.
"Isto  a morada, apenas um nmero postal, o que  normal", disse ela, apontando para o canto superior direito. "Encontra-se num hospital especial, talvez numa cidade especial. Escreveu a carta na cama
- est a ver que bem qe ele escreve quando est sbrio? -, deu-a a um amigo que seguia para Moscovo. O amigo deu-a a Igor.  normal. 'Minha querida Katya' - no  exactamente assim que ele comea, quer dizer, a palavra no  bem 'querida', mas isso no interessa. 'Fui subitamente acometido de uma variedade de hepatite, mas a doena  um estado muito instrutivo e alm disso estou vivo'. Isto  mesmo tpico dele, tira uma concluso moral logo  primeira. " Katya apontava novamente para o texto. "Esta palavra torna a hepatite pior.  'irritada'."
"Agravada", emendou calmamente Barley. A mo que tinha sobre o ombro deu-lhe um belisco reprovador. "Que importncia tem a palavra exacta? Quer que v buscar um dicionrio? 'Tive febre alta e muitas fantasias...'"
"Alucinaes", emendou Barley. "A palavra  gaflutsinatya ... ", retorquiu ela, furiosa. "Est bem, prossigamos."
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"' ... mas agora j me sinto bem e dentro de dois dias vou para uma unidade de convalescena junto ao mar, vou l ficar uma semana'. Ele no diz de que mar se trata, mas porque haveria de dizer? Toderei voltar a todas as minhas actividades excepto beber vodka, mas essa  uma limitao burocrtica que, como bom cientista que sou, depressa ignorarei.' Aqui est outra coisa tpica dele. Vencida a hepatite, pensa logo em vodka."
"Inteiramente de acordo", disse Barley, sorrindo para lhe ser agradvel e talvez tambm para se tranquilizar.
As linhas apresentavam-se to direitas que pareciam ter sido escritas em papel pautado. No havia uma nica emenda.
"'Se todos os russos pudessem ter hospitais como este, que nao saudvel que ns ramos.' Mesmo doente, permanece um idealista. 'As enfermeiras so to bonitas e os mdicos to jovens e bem parecidos que isto mais parece uma casa de amor do que uma casa de doenas.' Ele diz isto para me fazer cimes. Mas sabe uma coisa?  extremamente raro ele fazer comentrios felizes. Yakov  um trgico.  mesmo um cptico. Creio que, alm da hepatite, tambm lhe curaram o mau humor. 'Ontem fiz exerccio pela primeira vez, mas depressa me senti to cansado como uma criana. Depois fui descan sar para a varanda e apanhei um bom banho de sol antes de dormir que nem um anjo, sem nada na minha conscincia a no ser o facto de te ter tratado muito mal, de te ter sempre explorado.' Agora  conversa de namorados, no traduzo."
"Isso  frequente nele?" Katya riu-se. "J lhe disse. Nem sequer  normal ele escrever-me, e h muitos meses, ou mesmo anos, que ele no me fala do nosso amor, que  agora inteiramente espiritual. Creio que a doena o deixou um tanto ou quanto sentimental, por isso o melhor  perdoarmos-lhe." Virou a pgina e as suas mos voltaram a encontrar-se, mas a mo de Barley estava mais fria que um dia de Inverno. Para sua surpresa, Katya no comentou esse facto. "Bom, agora passamos para Mr. Barley. Voc mesmo. Claro que ele se mostra muito cauteloso. No menciona o seu nome. A doena pelo menos no lhe afectou a discrio. 'Diz por favor ao nosso bom amigo que vou fazer o possvel por me encontrar com ele durante a sua visita. O que  preciso  que a recuperao prossiga. Ele que traga o seu material, eu vou tentar fazer o mesmo. Durante essa semana tenho uma conferncia em Saratov'- o Igor diz que  na Academia Militar, o Yakov d sempre uma conferncia na Academia Militar, em Setembro, as coisas que ficamos a saber quando uma pessoa est doente - 'e de Saratov seguirei para Moscovo logo que possa. Se falares com ele antes de mim, diz-lhe por favor o seguinte. Diz-lhe que me traga todas as questes que me querem pr, porque, depois disto, no quero responder a mais nenhuma pergunta dos homens cinzentos. Diz-lhe que a lista de questes ter de ser exaustiva e definitiva'."
Barley escutou em silncio as instrues de Goethe, to enfticas
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como as que lhe ouvira em Leninegrado. E enquanto as escutava, as sombras negras da sua desconfiana transformaram-se num secreto temor, e a nusea voltou a incomod-lo.
Uma pgina da traduo, uma pgina ao acaso, mas impressa,p?r favor, a letra impressa  incomparavelmente mais reveladora, zia Goethe, pela voz dela.
Gostaria que o livro tivesse uma introduo do Professor Killian de Estocolmo, contacte-o por favor logo que possvel, lia ela.
Houve novas reaces por parte da vossa intelligentsia? Se as houve, agradecia que me avisasse.
Datas de publicao. Goethe tinha ouvido dizer que o Outono era a melhor poca, mas ser mesmo preciso esperar um ano inteiro?, perguntava ela, em representao do seu amante.
De novo o ttulo. Que tal A Maior Mentira do Mundo? Quanto  publicidade, agradecia que me mostrasse um rascunho. E logo que o livro esteja pronto, mande por favor um exemplar ao Dr. Dagmar Qualquer-Coisa em Stanford e ao Professor Herman Qualquer-Coisa do MIT...
Barley escreveu esmeradamente tudo no seu caderno, numa pgina a que pusera o ttulo de FEIRA DO LIVRO.
"Que diz o resto da carta?", perguntou. Mas Katya j estava a met-la no envelope. "J lhe disse. Conversa de namorados. Ele est bem consigo mesmo e deseja reatar uma relao plena."
"Consigo." Uma pausa enquanto os olhos dela o estudavam. "Barley, acho que est a ser um bocadinho infantil."
"Portanto sero amantes?", insistiu Barley. "Vivero felizes para o resto da vida.  isso, no ?"
"No passado, Yakov teve medo da responsabilidade. Agora j no tem.  isso que ele escreve, s que naturalmente a questo j no se pe. O que passou, passou. No se pode voltar atrs."
"Ento por que razo lhe escreve ele essas coisas?", teimou Barley. "No sei. "
"Acredita no que ele lhe diz?" Katya ameaava ficar seriamente irritada quando detectou algo na expresso dele que no era cime nem hostilidade, mas sim uma inquietao intensa, quase assustadora, em relao  segurana dela.
"Estar doente no  razo para ele lhe fazer propostas, pois no? Ele no  pessoa para brincar com as emoes dos outros, pois no? Goethe orgulha-se de dizef a verdade, apenas a verdade."
Nem mesmo o olhar penetrante de Barley conseguiria demov-la ou alterar o sentido da carta.
"Ele est sozinho", respondeu ela, numa atitude protectora. "Ele tem saudades minhas,  por isso que exagera.  normal. Barley, acho que est a ser um bocadinho ... "
Ou no encontrara a palavra ou reconsiderara e decidira no a
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pronunciar. Mas Barley disse-a por ela. "Ciumento" era a palavra. E ento fez aquilo que sabia que ela queria: sorriu-lhe, ps um sorriso bom, um sorriso sincero de amizade desinteressada e apertou-lhe a mo e com algum esforo levantou-se. "Ele parece estar ptimo", disse. "Estou muito contente por ele. Pela sua recuperao."
E estava a ser sincero. Inteiramente sincero. Era com convico que o dizia, o tom da sua voz no podia ser mais verdadeiro. Mas nesse momento j os seus olhos procuravam o carro vermelho estacionado para l das btulas.
Ento, para satisfao de todos, Barley entrega-se decididamente ao papel de pai de fim-de-semana, um papel para que a sua muito agitada vida o preparou convenientemente. Sergey quer que ele tente a sua sorte nas pescarias. Anna quer saber porque  que ele no trouxe o calo de banho. Matvey, esse, dorme, dorme com um sorriso que  um produto tanto do whisky como das suas recordaes. Katya entrou na gua  procura de pedras. Parece-lhe mais bela - e longnqua - do que nunca. Mesmo a apanhar pedras para construir uma represa, Katya  a mais bela mulher que ele alguma vez viu.
No entanto ningum trabalhou mais do que Barley na construo daquela represa, ningum tinha uma ideia to clara como ele de
como as guas deviam ser contidas. Puxa at dos joelhos as suas estpidas calas de flanela cinzentas e molha-as at s virilhas. Recolhe paus e pedras at ficar exausto, enquanto Anna, s suas cavalitas, dirige as operaes. Encanta Sergey com as suas vises prticas de comerciante e Katya com floreios romnticos. Um carro branco substitui o vermelho. H l dentro um casal, tm as portas abertas, comem. Barley sugere s crianas que vo at ao cimo da colina dizer adeus ao casal. As crianas vo, mas o casal no lhes responde.
A noite aproxima-se e um cheiro penetrante a queimadas de Outono irrompe entre as folhas amarelecidas das btulas. Moscovo volta a ser uma cidade de casas de madeira, e arde. Enquanto arrumam as coisas no porta-bagagens, um par de gansos selvagens sobrevoa o riacho, so os dois ltimos gansos no mundo.
No regresso ao hotel, Anna adormece ao colo de Barley, enquanto Matvey papagueia e Sergey folheia desconfiado as pginas do Squirrel Nutkin, como se se tratasse do Manifesto do Partido.
"Quando volta a falar com ele?", pergunta Barley. "J est combinado", diz ela, enigmaticamente. "Foi Igor que tratou disso?" "O Igor no trata de nada. Ele  o mensageiro. " "O novo mensageiro", emenda ele. "Igor  um velho amigo e um novo mensageiro. Porque no?" Katya olha para ele e percebe as suas intenes. "Voc no pode ir ao hospital comigo, Barley. No  seguro para si."
"Para si tambm no  propriamente um divertimento", responde ele.
Ela sabe, pensou Barley nesse momento. Ela sabe, mas no sabe
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que sabe. Tem os sintomas, uma parte dela fez o diagnstico. Mas a outra parte recusa-se a admitir que h qualquer coisa que no bate certo.
A sala de controlo anglo-americana j no se situava numa miservel cave em Victoria, mas sim nas radiantes guas-furtadas de um arranha-cus novinho em folha perto de Grosvenor Square. Auto-denominava-se Grupo de Conciliao Inter-Aliado e era guardada por turnos de maiines americanos perfeitamente conciliadores, trajados  paisana militar. Uma atmosfera de excitada conspirao impregnava a sala quando todos aqueles jovens irrepreensivelmente vestidos esvoaavam entre secretrias irrepreensivelmente limpas, respondiam a telefones que no paravam de piscar luzinhas, falavam com Langley usando linhas absolutamente seguras, passavam papis uns aos outros, batiam documentos em teclados rigorosamente silenciosos ou recostavam-se em poses nervosamente descontradas em frente dos mltiplos monitores de televiso que tinham substitudo os relgios gmeos da velha Casa da Rssia.
Era um convs de dois pisos, e Ned e Sheriton estavam sentados lado a lado na ponte coberta, enquanto no piso de baixo, do outro lado do vidro  prova de som, as respectivas tripulaes, to pouco parecidas entre si, cumpriam os respectivos deveres. Brock e Emma tinham uma divisria, Bob, Johnny e os seus homens tinham a outra mais a galerial central. Mas todos viajavam na mesma direco. Todos exibiam as mesmas expresses obedientemente diligentes, todos atentavam nas mesmas filas de ecrs que rolavam e tremulavam como quadros das cotaes da Bolsa,  medida que a descodificao automtica ia chegando.
"O camio regressou sem problemas  doca", disse Sheriton quando os ecrs dispararam subitamente a palavra de cdigo BARCAA.
Aquele camio era um milagre de penetrao.
O nosso camio! Em Moscovo! E fomos ns que o pusemos l! Em ingls deveramos chamar-lhe Iony, mas, por deferncia para com o proprietrio americano, chamvamos-lhe truck1. Uma operaao enorme, separada de tudo o mais, envolvera a sua aquisio e a viagem. Era um Karnaz, gigantesco e negro de sujo, um dos muitos camies da frota da SOVTRANSAVTO, cuja abreviatura, em letras romanas, surgia pintada - ou antes, borrada - nos fiancos imundos. Tinha sido recrutado, e com ele o motorista, pela enorme sucursal da Agncia em Munique, durante uma das suas muitas incurses  Alemanha Ocidental, destinadas  compra de artigos de luxo para os raros privilegiados moscovitas que tinham acesso a uma rede de distribuio especial. Uma imensido de coisas - desde sapatos ociden-
' Lony e truck, variantes inglesa e americana para "camio". (N. do T.)
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tais a tampes ocidentais, passando por peas sobressalentes para carros ocidentais - passara j pelas suas entranhas. Quanto ao motorista, era um dos Caadores de Longa Distncia, nome por que so conhecidas essas infelizes criaturas na Unio Sovitica - empregados do Estado, miseravelmente pagos, sem seguro mdico ou contra' acidentes que os proteja de qualquer infortnio no Ocidente, e que, mesmo no pino do Inverno, aguentam estoicamente nos seus abrigos, devorando salsichas antes de partilharem mais uma noite de sono em cabinas sem nenhum conforto - mas que, em contrapartida, aproveitam as viagens ao Ocidente para fazerem fortunas que, no contexto da Rssia, so mais que razoveis.
E agora, em troca de uma recompensa ihcomparavelmente mais atraente, este Caador de Longa Distncia, tinha concordado em "emprestar" o seu camio a um "comerciante ocidental", aps negociaes realizadas no corao de Moscovo. E este mesmo comerciante, que era um dos toptuny de Cy, emprestou-o a Cy, o qual, por sua vez, o encheu de todo o tipo de equipamento audio e de vigilncia, todo ele engenhosamente porttil, equipamento que recolheria s suas bases antes de o camio retornar ao seu condutor legal, naturalmente atravs de intermedirios.
Era a primeira vez que uma coisa destas sucedia. Dispunhamos pela primeirssima vez de uma fortaleza mvel dentro da prpria cidade de Moscovo!
S Ned achou a ideia temerria. Os Caadores de Longa Distncia trabalhavam aos pares, como Ned sabia melhor do que ningum. Por ordens do KG13, estes pares eram deliberadamente incompatveis, e, em muitos casos, cada homem era responsvel perante o outro. Mas quando Ned quis ler o processo relativo a esta operao, isso foi-lhe negado. E para justificar tal recusa, foram invocadas precisamente as leis de segurana que ele prprio tanto valorizava.
No entanto, a pea mais impressionante do novo arsen1 de Langley estava ainda para vir e, uma vez mais, a fora de Ned no chegou para a combater. A partir desse momento, as fitas dos gravado~ res em Moscovo seriam submetidas a uma codificao aleatria e transmitidas atravs de impulsos digitais, demorando esta transmisso um milsimo do tempo que gastaramos a ouvir as gravaes normais. No entanto, insistiam os feiticeiros de Langley, quando os impulsos digitais eram transformados em som pela estao receptor, nem se sonhava que as fitas tinham passado por tantas aventuras.
A palavra ESPERAR ia formando lindas pirmides. Espiar  esperar.
A palavra SOM substituiu-a. Espiar  escutar. Ned e Sheriton puseram os auscultadores e Clive e eu fizmos o mesmo, depois de nos sentarmos nas cadeiras vagas que havia atrs deles.
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Katya estava sentada na cama. Com um ar pensativo olhava para o telefone: no queria que ele voltasse a tocar.
Porque revela voc o seu nome se nenhum de ns o faz?, perguntava-lhe ela mentalmente.
E porque revela o meu? Est? Katya? Como vai? Fala Igor.  para lhe dizer que no tive mais nenhuma notcia dele.
Ento porque me telefona? Para no me dizer nada?  hora do costume, certo? O stio do costume. No h problema.
O mesmo de sempre.
Porque repete voc aquilo que no precisa de ser repetido, depois de eu lhe ter dito que estaria no hospital  hora combinada?
Nessa altura j ele sabe qual  a sua situao, que avio pode apanhar, tudo. Portanto, no se preocupe, certo? Ento, e o editor? Sempre apareceu?
"Igor, no sei a que editor se refere. "
E desligou antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Estou a ser ingrata, pensou Katya. Quando estamos doentes  normal que os velhos amigos nos ajudem. E se, de um dia para o outro, se promovem de conhecidos a velhos amigos, e se de repente nos rodeiam de atenes aps anos e anos em que quase no nos falaram, isso pode, mesmo assim, ser um sinal de lealdade, no h nada de sinistro numa histria dessas, ainda que h apenas seis meses Yakov tenha declarado Igor um caso irrecupervel - "Igor prossegue no caminho que eu j deixei", comentara Yakov depois de um encontro casual na rua. "Ele faz demasiadas perguntas."
E, no entanto, aqui tnhamos Igor agindo como o amigo mais chegado de Yakov, correndo riscos por ele, prestando-lhe uma ajuda inestimvel. "Se quer mandar alguma carta para o Yakov, basta dar-ma. Estabeleci uma excelente linha de comunicao'com o sanatrio. Conheo algum que l vai quase todas as semanas", dissera-lhe Igor no seu ltimo encontro.
"Sanatrio?", exclamara ela inquieta. "Ento  a que ele est? Onde  que fica esse sanatrio?"
Mas era como se Igor ainda no tivesse pensado na resposta a dar a essa pergunta, j que se limitou a franzir a testa e a argumentar com o segredo de Estado com um ar particularmente constrangido. Segredos de Estado?! Mas se ns prprios andamos a espalh-los! No faz sentido.
Estou a ser injusta com ele, pensou Katya. Comeo a ver falsidade por todo o lado. Em Igor, at mesmo em Barley.
Barley. Fez uma cara de poucos amigos. No tinha nada que criticar a declarao amorosa de Yakov, no era da sua conta. Quem
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pensa ele que , esse ocidental de modos afectuosos e suspeitas cnicas? Envolvendo-se comigo tanto e to depressa, armando-se em benfeitor com Matvey e os meus filhos?
Nunca confiarei num homem que foi educado sem um dogma, disse severamente para si mesma.
Posso amar um crente, posso amar um hertico, mas no posso amar um ingls.
Ligou o rdio porttil e ps-se a percorrer a onda curta, depois de ter posto o receptor no ouvido, pois no queria perturbar o sono dos gmeos. Mas enquanto escutava as diferentes vozes que clamavam pela sua alma - a Deutsche Welle, a Voice of America, Radio Liberty, Voice of Israel, mais a Voz s Deus sabia de quem, todas elas to simpticas, to superiores, to atraentes -, uma revolta confusa ia crescendo nela. Mas eu sou russa!, era o que lhes queria gritar, quelas vozes todas. Mesmo no meio da tragdia, sonho com um mundo melhor do que o vosso!
Mas que tragdia?
O telefone estava a tocar. Katya pegou no auscultador. Mas era apenas Nasayan, que nos ltimos dias parecia outro, confirmando os planos para o dia seguinte.
"Oia, eu telefonei para confirmar se realmente quer ir para o stand da Outubro amanh. Acontece que temos de comear muito cedo, no sei se est a ver. Se voc tem de levar os seus filhos  escola ou qualquer outra coisa do gnero, no h problema em dizer  Yelizavyeta Alexeyevna para a substituir. Apenas tem de me dizer se quer ou no."
" muito simptico da sua parte, Grigory Tigranovich, e agradeo-lhe a chamada. Mas passei a maior parte da semana passada a ajudar a montar a exposio, de maneira que gostaria de estar presente na abertura oficial. O Matvey leva as crianas para a escola, no h qualquer problema. "
Com um ar absorto, Katya ps o auscultador no descanso. Nasayan, meu Deus - porque falamos um com o outro como se fssemos personagens num palco? Quem pensamos ns que nos est a ouvir? Por causa de quem vigiamos tanto as nossas palavras? Se posso falar com um estrangeiro, com um ingls, como se ele fosse meu amante, porque no posso falar normalmente com um arrnnio que  meu colega?
O telefone tocou de novo e ela soube nesse mesmo instante que era aquela a chamada por que esperava h j algum tempo, porque foi com um sorriso que atendeu. Ao contrrio de Igor, ele no disse o seu nome nem o dela.
"Fuja comigo", disse ele. "Esta noite?" "Os cavalos esto arreados, temos comida para trs dias." "Mas voc est suficientemente sbrio para fugir?"
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" espantoso, mas estou." Uma pausa. "No  que no tenha tentado, mas a verdade  que no bebi um nico copo. Deve ser da idade."
E de facto parecia sbrio. Sbrio e ntimo. "Ento e a feira do livro? Vai abandon-la como fez com a feira udio?"
"Que se lixe a feira do livro. Temos de o fazer agora ou nunca. Depois estarei demasiado cansado. Como  que voc est?"
"Ah, estou furiosa consigo. Voc enfeitiou por completo a minha famlia, e agora no pram de me perguntar quando  que volta com mais tabaco e mais lpis."
Outra pausa. Ele no costumava mostrar-se to pensativo quando gracejava.
" isso o que eu fao. Enfeitio as pessoas e a partir desse momento deixo de sentir seja o que for em relao a elas."
"Mas isso  horrfvel!", exclamou ela, profundamente chocada. "Barley, que histria  essa?"
"Limito-me a repetir as sbias palavras de uma ex-mulher minha. Ela dizia que eu tinha impulsos mas que no tinha sentimentos e que no devia usar uma canadiana em Londres. Se algum nos diz uma coisa destas, uma pessoa fica a acreditar para toda a vida. Desde ento nunca mais voltei a vestir uma canadiana."
"Barley, essa mulher... Barley, essa mulher disse-lhe uma coisa perfeitamente cruel e irresponsvel. Lamento, mas ela est completamente enganada. Tenho a certeza que disse isso no meio de uma discusso. Mas a verdade  que est enganada."
"Est? Est mesmo enganada? Ento, o que  que eu sinto? Esclarea-me."
Katya desatou a rir, percebendo que tinha cado redondamente na armadilha.
"Barley, voc  mesmo muito mau. No quero nada consigo." "Porqu? Porque no sinto nada?" "Uma das razes  porque voc protege as pessoas. Todos ns reparmos nisso hoje, e estamos-lhe gratos."
"Mais." "Outra  porque voc tem um sentimento de honra intacto, digamos assim. Claro que voc  uma criatura decadente, no admira       , sendo ocidental.  normal. Mas a honra, esse sentimento de honra, redime-o."
"Ainda h pastis de carne?" "No me diga que tambm sente fome?!" "Quero ir a sua casa comer os que restam. " "Agora?" "Agora." "Mas isso  completamente impossvel! J estamos todos na cama,  quase meia-noite."
"Amanh." "Barley, isto  perfeitamente ridculo. Estamos prestes a comear a
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feira do livro, qualquer um de ns tem pelo menos uma dzia de convites."
"A que horas?" Um belo silncio instalou-se entre os dois. "Pode vir por volta das sete e meia." "Sou capaz de chegar antes." Durante um longo momento nenhum deles falou. Mas o silncio aproximou-os mais do que as palavras alguma vez poderiam ter feito. Nesse longo momento de silncio, Katya e Barley transformaram-se repentinamente em duas cabeas numa nica almofada, ouvido contra ouvido. E quando ele desligou, no foram as suas piadas nem o seu discurso auto-irnico que ela guardou, mas o tom de sinceridade, uma sinceridade feliz - sinceridade ou mesmo solenidade, hesitava Katya - que ele no fora capaz de refrear na sua voz.
Barley cantava. Dentro da sua cabea, e fora tambm. No seu corao e por todo o seu corpo, Barley Blair finalmente cantava.
Estava no seu quarto enorme e cinzento do sombrio Mezh, na vspera da feira do livro de Moscovo, e cantava. Cantava "Bless This House", ao jeito inconfundvel de Malialia Jackson, enquanto danava piruetas  volta do quarto com um copo de gua mineral na mo, espreitando para a sua imagem reflectida no enorme ecr de televiso que constitua a nica glria daquele quarto.
Sbrio. Completamente sbrio. Barley Blair. Sozinho. No tinha bebido nada. Durante o interrogatrio no camio, e apesar de ter suado que nem um cavalo, no bebera nada. Nem um copo de gua bebera, enquanto regalava Paddy e Cy com uma verso adocicada e despreocupada do seu dia.
Na festa dos editores franceses, no Rossiya, com Wicklow, onde averbou uma actuao brilhante, irradiando confiana: a tambm nada bebeu.
Na festa dos suecos no Nacional, com Henziger, onde brilhou ainda mais do que na outra, tinha pegado num copo de shampanskoyc da Gergia, s porque Zapadny estava arreiampado por no o ver beber. Mas conseguira no beber nada, deixando o copo atrs de um vaso de flores. Portanto: nada.
E na festa conjunta, no Ukraina, de novo com Henziger, agora brilhando quase tanto como a Estrela do Norte, agarrara-se a um copo de gua mineral com uma rodela de limo flutuando l dentro para dar a impresso de que era gin-tnico.
De maneira que nada. Nem um s copo. Mas a sua abstinncia no adivinha de qualquer reviravolta nos seus princpios. Barley no es-
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tava curado, graas a Deus. No tinha prometido abstinncia nenhuma, no tinha virado pgina nenhuma na sua vida. No bebia, muito simplesmente porque no queria que coisa alguma perturbasse o xtase lcido e racional que a pouco e pouco se ia apoderando dele, esse sentimento to estranho de quem corre um risco terrvel e sabe que  capaz de o enfrentar, e sabe que est preparado seja para o que for que acontea, e se nada acontecer tambm est preparado para isso, porque essa sua preparao  um crculo de defesa girando em tomo de uma certeza sagrada.
Agora sou uma daquelas poucas pessoas que sabem o que faro em primeiro lugar se o navio se incendiar a meio da noite, pensou; e o que faro em ltimo lugar, se  que faro alguma coisa. Fizera uma lista pormenorizada do que valia a pena salvar e do que para ele no tinha qualquer importncia. E de tudo o que era preciso afastar, ignorar ou dar como perdido.
A sua cabea tinha levado uma limpeza geral, compreendendo tanto pormenores perfeitamente modestos como grandes temas. Por@ que, como Barley observara recentemente, o facto de os grandes temas provocarem a sua prpria destruio era tambm um pormenor perfeitamente modesto.
A clareza da sua viso surpreendia-o. Examinava tudo  sua volta, dava uma volta ou duas, cantava uns quantos compassos. Regressava ao ponto de partida, e sabia que nada tinha sido esquecido.
No tinha esquecido o momentneo tom de incerteza na voz dela. Ou a sombra de uma dvida pairando no poo escuro dos seus olhos.
Ou a caligrafia perfeita de Goethe, em vez dos rabiscos indecifrveis.
Ou as piadas de Goethe, to desajeitadas e to pouco tpicas dele, acerca de burocratas e de vodka.
Ou a choradeira culpabilizada de Goethe acerca da forma como a tinha tratado, quando h vinte anos que a tratava como muito bem entendia, e a usava de todas as maneiras e feitios, incluindo como paquete para usar e deitar fora.
Ou a imatura promessa de Goethe de que a recompensaria no futuro, desde que ela no abandonasse o jogo, quando  um artigo da f de Goethe que o futuro j no lhe interessa, que a sua nica obsesso  com o momento presente. "S o agora existe!"
No entanto, a partir destas teorias pouco consistentes que, provavelmente, no eram outra coisa seno teorias, a mente de Barley voava sem qualquer esforo para o principal galardo da sua percepao recm-clarificada: a saber, que no contexto da ideia que Goethe tinha do que estava a realizar, Goethe estava certo, e que, durante a maior parte da sua vida, Goethe se tinha mantido num dos lados de uma equao corrupta e anacrnica, ao passo que Barley, na sua ignorncia, se tinha mantido no outro.
E que se Barley alguma vez tivesse de escolher, escolheria certamente o caminho de Goethe e no o de Ned ou de qualquer outro,
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porque a sua presena seria urgentemente atrada pelo extremo pas central de que se elegera cidado.
E que tudo o que acontecera a Barley desde Peredeikino tinha provado isso mesmo. Os velhos ismos estamos mortos, a competio entre o comunismo e o capitalismo tinha acabado numa lamria sentimentalide. A retrica dessa competio ficara enterrada nas cmaras secretas dos homens cinzentos, que continuavam a danar apesar de a msica ter acabado h muito.
Quanto  lealdade ao seu pas, Barley resumia-a  questo de saber que Inglaterra escolher servir. Estavam mortos os elos que ainda o poderiam lipr  fantasia imperial. Revoltava-o o rufar de tambores chauvinista. Preferia que a marcha dos tambores o atropelasse a seguir com ela. Conhecia uma Inglaterra decididamente melhor, uma Inglaterra que estava dentro de si.
Deixou-se ficar quieto na cama,  espera que o medo se apoderasse dele. Mas o medo no veio. Em vez disso, deu consigo a jogar uma espcie de xadrez mental, porque o xadrez era um jogo sobre probabilidades, e parecia-lhe melhor contempl-las tranquilamente do que orden-las e separ-las quando o tecto lhe estivesse a cair em cima.
Porque se Armagedo no atacasse, nada se perdia. Mas se Armagedo atacasse, havia muito a salvar.
E assim Barley comeou a pensar. E comeou a fazer os seus preparativo@ com a cabea fria, exactamente como Ned o teria aconselhado, se Ned segurasse ainda as rdeas da operao.
Pensou at s primeiras horas da manh e dormitou um pouco e quando acordou continuou a pensar, e na altura em que alegremente se encaminhou para a sala dos pequenos-almoos, com os olhos j atentos s diverses da feira, havia toda uma parte da sua cabea que se dedicava por completo  tarefa de pensar aquilo que os loucos que o fazem descrevem como o impensvel.
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"Francamente, Ned", disse despreocupadamente Clive, ainda alvoroado com a magia da transmisso. "No  a primeira vez que a Ave Azul est doente. J esteve doente uma srie de vezes."
"Eu sei", retorquiu Ned com um ar ausente. "Eu sei. " De repente, virou-se para Oive e acrescentou: "Mas no  o facto de ele estar doente que me preocupa. O que me preocupa  que ele tenha escrito."
Sheriton escutava a conversa de queixo na mo, a mesma posio em que que ouvira a gravao. Entre Ned e Sheriton tinha-se desenvolvido uma afinidade que s poderia ser benfica para a operao. Estavam a reagir  transferncia de poderes como se ela tivesse acontecido h muito.
"Mas, meu caro Ned,  precisamente isso o que todos ns fazemos quanto estamos doentes", exclamou Clive, exibindo um falso eritendimento de natureza humana. "Quando estamos doentes, escrevemos para toda a gente!"
Nunca me tinha ocorrido que Clive fosse uma criatura susceptvel de contrair doenas, ou que tivesse amigos a quem escrever.
"Preocupa-me que ele passe cartas to reveladoras a intermedirios misteriosos. E preocupa-me que ele diga que vai tentar trazer mais material para Barley", disse Ned. "Sabemos que normalmente ele no escreve a Katya. Sabemos tambm que tem um cuidado extremo no que toca  segurana. E agora, sem mais nem menos, adoece e escreve-lhe uma carta de amor perfeitamente arrebatada com cinco pginas, cinco, e manda-a atravs de uma criatura chamada Igor. Igor qu? E quando lhe deu a carta? E como lha deu?"
"Ele devia ter fotografado a carta", disse Clive, censurando Barley. "Ou ento tinha ficado com ela. Uma coisa ou outra."
Ned estava demasiado concentrado nos seus pensamentos para contemplar tal sugesto com o desdm que ela merecia.
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"Como  que ele podia? Katya conhece-o como editor.  tudo o que ela sabe dele."
"A menos que a Ave Azul lhe tenha contado", disse Clive. "No contou", retorquiu Ned, e logo retornou aos seus pensamentos. "Havia um carro", disse. "Um carro vermelho e depois um carro branco. Vocs viram o relatrio dos informadores. O carro vermelho apareceu pruneiro, depois o carro branco substituiu-o."
"Isso  pura especulao. Num domingo quente, toda a cidade de Moscovo vai para o campo", disse Clive com um ar de entendido.
Por um momento Clive aguardou uma reaco, mas em vo, pelo que retornou ao assunto da carta. "Katya no teve qualquer problema com a carta", objectou. "Katya no desatou a chorar, pelo contrrio, deu saltos de contente. Se ela no viu tramia nenhuma naquilo tudo, se Scott Blair tambm no viu, por que carga de gua havamos ns de nos preocuparmos por eles, ns que, afinal, estamos aqui em Londres e no no terreno de operaes?"
"Ele pede a lista das compras", disse Ned, como se ainda estivesse a ouvir msica distante. "Uma lista de questes exaustivas e definitiva. Porqu? Por que razo?"
Sheriton tinha-se finalmente mexido. Com a sua mo enorme acenava a Ned para que se acalmasse. "Ned, Ned, Ned, Ned. Bom, estamos outra vez a voltar ao Dia Um, no admira que estejamos nervosos. Vamos dormir um pouco."
Levantou-se, tal como eu e Clve. Mas Clive ficou teimosamente quieto no seu lugar, as mos juntas sobre a secretria.
Sheriton insistiu. Com afecto, mas tambm com determinao. "Ned,  capaz de me ouvir s por um momento? Ned?"
"Eu no sou surdo." "No  surdo, mas est cansado. Ned, se comeamos a dizer mal e a desconfiar desta operao, ento  que ela no se endireita. Esta  uma operao realizada pelo vosso homem, aquele que vocs levaram  ilha com o intuito de nos convencerem. Movemos cu e terra para chegarmos a este ponto. Temos a fonte. Temos a verba. Temos a audincia influente. Estamos a um passo de obter informaes que nenhuma mquina sofisticada, que nenhuma criatura electrnica, que nenhum jesuta do Pentgono poderia obter nos sculos mais prximos. Se nos mantivermos calmos, ns, Barley e a Ave Azul, ficaremos com uma mina que ultrapassar em muito os sonhos dos mais consumados fantasistas. Mas para isso precisamos de manter-nos calmos."
Mas Sheriton estava a falar com demasiada convico e o seu rosto, apesar de indecifrvel, de to rechonchudo que era, traa uma insegurana quase desesperada.
"Ned?" "Estou a ouvi-lo, Russel. Estou a ouvi-lo perfeitamente. "
"Ned, por amor de Deus, isto j no  uma empresa familiar. Apostmos, investimos forte, portanto agora temos de pensar nos
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mesmos termos. No era possvel conseguir melhor. As decises presidenciais no so um convite para que duvidemos dos nossos prprios pontos de vista. Decises presidenciais so ordens. Ned, francamente acho que devia ir dormir."
"No acho que esteja cansado", retorquiu Ned. "Pois eu acho que est. Acho que qualquer pessoa dir o mesmo que eu. E talvez digam mesmo que Ned deixou de apostar em cheio nesta operao a partir do momento em que o lobo mau americano lhe levou o seu homem. Ento, de repente, a Ave Azul passou a ser uma fonte muito problemtica. Acho que as pessoas vo dizer que voc est mesmo muito cansado."
Nesse momento olhei.para Clive. Clive fitava tambm Ned, mas nos seus olhos havia tamanha frieza que no pude deixar de ficar inquieto.  tempo de correr contigo, era o que os seus olhos diziam.  tempo de te dar o pontap.
Nesse dia, tanto Henziger como Wicklow acompanharam atentamente Barley e enviaram informaes frequentes acerca dos seus movimentos. Henziger via Cy, atravs de meios que s eles conheciam. Wicklow via Paddy, atravs de um irregular. Ambos referiram a sua boa disposio, os seus modos descontrados e, usando linguagens diversas, a sua independncia. Ambos descreveram como ele soube encantar um casal de editores finlandeses que se mostravam interessados no projecto do Caminho-de-Ferro Transiberiano.
"Ele dominou-os por completo", disse Wicklow, fornecendo uma imagem inconscientemente cmica' daquele pequeno-almoo, mas a verdade  que no Mezh tudo era possvel.
Ambos se referiram divertidamente  determinao de Barley em actuar como guia turstico dos dois antes de chegarem  feira, e o facto de ele ter obrigado o txi a deix-los no fim da grande avenida, para que pudessem fazer o caminho a p, quais peregrinos acabando de deixar o mundo do capitalismo.
Assim, os dois espies profissionais deram um alegre passeio, sob um hmido sol de Outono, com os casacos pelas costas, com o seu homem, o novato Barley, no meio. Barley que os obsequiava com uma excntrica - ou muito sua - viagem guiada, exaltando a arquitectura do "ltimo perodo Essoldo" e os jardins "revolucionrios rococs". Fez depois o elogio do imenso tanque ornamental, com os seus peixes dourados vomitando jactos de gua para os rabos de quinze ninfas nuas e igualmente douradas, cada uma das quais representando uma das quinze repblicas socialistas. Insistiu para que
' No original, a frase "they were cating out of his hand" (literalmente, "eles iam-lhe comer a mo", em sentido figurado, "ele dominou-os por completo"), explica o cmico da imagem. (N. do T.)
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parassem um pouco frente aos retiros do amor, aos templos das delcias com os seus enormes pilares brancos, e cujos portais eram dedicados no a Vnus nem a Baco, mas sim s precrias deusas da economia sovitica - o carvo, o ao e at a energia atmica, vejam s!
"Estava bem-humorado, espirituoso, mas no estava bbedo", referiu Henziger, que j em Leninegrado tinha ficado a gostar de Barley. "Foi divertidssimo. "
E depois dos templos, Barley conduziu-os pela triunfal avenida, o Passeio do Imperador, talvez uma milha de comprimento e sabe-se l quanto de largura, celebrando as Realizaes do Povo ao Servio da Humanidade. Decerto nunca a viso do poder popular deu origem a imagens to despticas como estas!, proclamou. Decerto nenhuma Revoluo acabou por venerar tanto como esta tudo o que tinha demolido! Mas nesse momento j Barley tinha de berrar as suas irreverncias por causa do alarido dos altifalantes, que despejavam durante todo o dia torrentes de mensagens autocongratulatrias para cima das cabeas das multides ignorantes.
At que chegaram - e alguma vez tinham de chegar - aos dois pavilhes que albergavam a feira.
" minha direita, os editores da Paz, do Progresso e da Boa-Vontade", anunciou Barley, fazendo o papel de rbitro num combate de boxe. " minha esquerda, os distribuidores das mentiras fascistas e imperialistas, os porngrafos, os envenenadores da verdade. Saiam os treinadores. Podem comear!"
Mostraram os passes e entraram.
O stand da muito recente e geograficamente confusa Potomac & Blair constitua a sensao da feira, uma pequena sensao,  certo, mas inteiramente satisfatria. O smbolo P & B, que Langley, com tanto amor, criara, resplandecia entre as exposies desmazeladas da Astral Press e da Purbeck Media. A concepo e a decorao do interior do stand, sem grande aparato mas denotando um bom gosto incontestvel, segundo as palavras dos arquitectos de Langley, eram de molde a provocar um impacte imediato. Os objectos expostos -
muitos deles, como era costume, rplicas de livros que ainda no tinham entrado na linha de produo - haviam sido tratados com toda a ateno ao pormenor que os servios de espionagem tradicionalmente concedem s falsificaes. Alm disso, o nico caf em condies da feira borbulhava numa engenhosa mquina, no cubculo das traseiras da P & B. E l estava Mary Lou, directamente vinda de Langley, para o servir. Para os poucos privilegiados, havia mesmo um cheirinho proibido de Scotch para os ajudar na labuta diria -
proibido, evidentemente, por especial decreto da organizao, para a qual at a reconstruo literria deveria ser obra de homens sbrios.
E Mary Lou, com o seu sorriso simples de rapariguinha e a sua saia de balo de tweed, era um verdadeiro produto natural da parte mais
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simptica da Madison Avenue. Ningum adivinharia, por certo, que tambm ela tinha um flozinho de Langley debaixo da saia.
E Wicklow, com a sua conversa, to polida quanto fiada, passava perfeitamente por um daqueles jovens editores de olho rpido e ascenso ainda mais rpida que agora h aos centos.
Quanto ao honesto Jack Henziger, ele era o arqutipo do aventureiro instalado do moderno negcio do livro americano. No escondia os seus antecedentes, longe disso. Oleodutos no Mdio Oriente, humanidade no Afeganisto, feijo vermelho para as tribos do pio na Tailndia - tudo isso Henziger vendera; s faltava saber o que vendera, em nome de Langley, nas suas horas vagas. Mas o seu corao estava com os livros, e ali estava ele para o provar.
E Barley parecia divertir-se com o artifcio. Entregou-se-lhe de alma e corao, como se o artifcio fosse para ele uma realidade h muito perdida, trocando cumprimentos, recebendo os parabns de competidores e colegas, at que, por volta das onze, se confessou impaciente e props a Wicklow que desse uma volta s trincheiras para confortarem as tropas.
E assim fizeram. Barley levava consigo um mao de envelopes brancos, que ia distribuindo por mos antecipadamente seleccionadas, enquanto gritava saudaes e abria alas por entre o engarrafamento de visitantes e expositores.
"Macacos me mordam se no  o sacaria do Barley Blair!", exclamou uma voz familiar no meio de uma exposio multilingue de Bblias ilustradas. "Lembra-se de mim? Eu era o terceiro a contar da esquerda com o calo de Wson, mas est claro que tudo isso se passou quando ramos todos pobrezinhos ... "
"Spikey! Com que ento deixaram-no entrar outra vez!", comentou Barley com evidente satisfao, e entregou-lhe o respectivo envelope.
"O que me preocupa no  se me deixam entrar, mas sim se me deixam sair. No me apresenta o seu paizinho?"
Barley apresentou-lhe o distinto editor Wicklow, e Spikey Morgan de imediato lhe concedeu a sua bno sacerdotal com uns dedos manchados de nicotina.
Seguiram em frente mas logo tropearam em Dan Zeppelin. Dan no falava. Dan conspirava num murmrio de coveiro, debruado sobre o balco com os braos cruzados.
"Diga-me uma coisa, Barley, s uma coisa. O que  que ns somos, somos pioneiros ou os estupores das irms Mitfrd? Quer dizer, h uns quantos livros que no eram livros mas que so livros este ano. H uns quantos escritores que no eram escritores que saram da priso. Enfim, um grande negcio. Mas hoje de manh entro eu no meu stand e no  que dou com um sacaria qualquer a tirar-me livros das minhas estantes? Tosso fazer-lhe uma pergunta pessoal?', disse-lhe eu. 'Que raio  que voc est ai a fazer com os meus livros?' 'So ordens', respondeu ele. Seis livros, confiscou-me seis livros. Mary G. Ambleside, A Conscin-
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ca Negra nas Canes e nas Palavras. Ordens! Quer dizer, mas afinal quem somos ns, Barley? E quem so eles? O que  que eles pensam que esto a reestruturar, quando nunca houve sequer uma estrutura? Como  que se reestrutura um cadver?"
Na Lupus Books, mandaram-nos para o caf, onde o nosso Presidente em pessoa, o recentssimo cavaleiro Sir Peter Olipliant, tinha reservado uma mesa, conseguindo desviar para si muitas das atenes em princpio reservadas para os russos. Um aviso bilingue escrito  mo confirmava o seu triunfo. As bandeiras da Gr-Bretanha e da Unio Sovitica tiravam qualquer dvida aos cpticos. Rodeado de intrpretes e altos funcionrios, Sr Peterperorava sobre as muitas vantagens que os soviticos teriam, se subsidiassem as generosas compras que pretendia fazer-lhes.
"Mas  o Conde!", exclamou Barley, entregando-lhe um envelope. "S lhe falta o diadema!"
Quase sem pestanejar, o grande homem continuou a sua dissertao. No stand israelita reinava uma paz armada. Algumas pessoas faziam bicha, soturnas, ordenadas e mudas. Rapazes de jeans e tnis esperavam encostados  parede. Lev Abramovitz era urfi homem de cabelo totalmente branco e extremamente alto. Tinha servido nos Msh Guards.
"Lev. Que tal vai o Sio?" "Talvez estejamos a vencer, talvez seja o princpio dum fim feliz", retorquiu Lev, metendo no bolso o envelope de Barley.
Vencida a etapa israelita, e com Barley conduzindo as operaes a meio-galope, abriram caminho entre a multido que se acumulava no trio, e entraram no Pavilho da Paz, do Progresso e da Boa-Vontade, onde j no podia haver dvidas de que se estava a assistir
a uma gigantesca reviravolta histrica. Sobre quem eram os seus autores, tambm j no estava qualquer dvida.
Todas as bandeirolas e todos os bocadinhos de parede berravam o novo Evangelho. Em todos os stands de todas as Repblicas, os pensamentoS e os escritos do novo profeta que j no era assim to novo, com o sinal de nascena censurado e um sorriso de orelha a orelha, surgiam engalanados ao lado dos do seu descolorido mestre, Lenine. No Stand da VAAP, onde Barley e Wicklow apertaram umas quantas mos e Barley derramou uma fornada de envelopes, os discursos do Chefe, embrulhados em capas brilhantes e traduzidos para ingls, francs, espanhol e alemo, produziam um apelo perfeitamente resistvel.
"Quanta mais merda desta teremos de engolir, Barley?", perguntou-lhe no caminho, em voz quase sumida, um editor de Moscovo, muito louro e branco. "Quando  que eles comeam a reprimir-nos outra vez para ns ficarmos sossegados? Se o nosso passado  uma mentira, quem  que nos garante que o nosso futuro no ser tambm uma mentira?"
Prosseguiram a sua caminhada ao longo dos stands. Barley sempre  frente, Barley saudando, Wicklow seguindo-o.
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"Joseph!  um prazer voltar a v-lo! Aqui tem um envelope para si. No o coma todo j."
"Barley! Meu amigo! No lhe deram a minha mensagem? Se calhar no deixei mensagem nenhuma."
"Yuri, como est? Que bom que  voltar a v-lo! Aqui tem o seu envelope."
"Aparea esta noite para bebermos uns copos, Barley! Vem o Sasha e a Rosa. O Rudi d um concerto amanh, por isso quer ficar sbrio. Ouviu falar dos escritores que eles libertaram? Oia, isto so coisas da aldeia Potenikin. Deixam-nos sair, do-lhes umas quantas refeies, mostram-nos ao pblico e metem-nos outra vez dentro at ao prximo ano. Venha c, tenho de lhe vender uns livros para chatear o Zapadny."
De incio, Wicklow nem se apercebeu de que tinham chegado ao seu destino. Viu um estandarte romano coberto com umas quan as bandeiras desbotadas e umas letras douradas cosidas numa estamenha vermelha. Ouviu Barley gritando, "Katya, onde  que voc est?" Mas nada indicava de quem era o stand e provavelmente aquilo queele via era apenas parte da exposio, pois o resto ainda no teria chegado. Viu os livros do costume, absolutamente ilegiveis, acerca do desenvolvimento agrcola na Ucrnia e das danas tradicionais da Gergia, expirando nas prateleiras dos muitos maus tratos das anteriores exposies e feiras. Viu a habitual meia dzia de mulheres de ancas largas s voltas por ali como se estivessem  espera de um comboio, e um tipo pequenino com a barba por fazer agaando no cigarro como se fosse uma vara mgica, olhando com cara de poucos amigos para o distintivo de Barley.
Nasayan, leu Wicklow, Giigory Tigranovich. Primeiro Editor, Publicaes Outubro.
"Est  procura de Miss Katya Orlova, no  verdade?", perguntou Nasayan a Barley em ingls, segurando ainda mais alto o cigarro, como se quisesse iluminar o outro para o ver melhor.
"Quer-me parecer que sim!", retorquiu bem disposto Barley, e duas das mulheres sorriram.
Um aterrador esgar de cortesia colara-se ao rosto de Nasayan. Dando ao cigarro um movimento floreado, Nasayan afastou-se e Wicklow logo reconheceu Katya pelas costas. Estava a falar com dois asiticos de muito baixa estatura, que lhe pareceram birmaneses. Ento, instintivamente, Katya virou-se e viu Barley primeiro, depois Wicklow, e de novo olhou para Barley, com um sorriso esplndido que lhe iluminava todo o rosto.
"Katya! Bestial", disse arley timidamente. "Como esto os midos? Sobreviveram?"
"Ah, obrigado, esto muito bem!" Sob os olhares de Nasayan e das suas damas, bem como de Wicklow, Barley entregou-lhe um convite para a grande e glasnstica festa da Potomac & Blair.
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"Ah, a propsito,  muito possvel que eu tenha de esquivar-me a algumas das festanas desta noite", observou Barley, no caminho de regresso ao pavilho ocidental. "Voc e o Jack e a Mary Lou tero de se aguentar sozinhos. Vou jantar com uma bela dama."
"E algum que conhecemos?", perguntou Wicklow e ambos desataram a rir. Era um dia de sol radiante.
Ela est bem, pensava satisfeito Barley. Se alguma coisa est a acontecer, ainda no a atingiu a ela.
No sei at que ponto algum de ns entendeu ou adivinhou os sentimentos de Barley em relao a Katya. Num caso to escrupulosamente dirigido e controlado, a questo do amor era muito simplesmente desvalorizada.
Wicklow, conhecido por levar uma vida activamente promscua, adoptava em relao a Barley uma atitude puritana. Talvez o facto de
ser um jovem o impedisse de levar muito a srio uma paixo serdia. Para Wicklow, aquele episdio no passava de mais um desvario entre os inmeros desvarios da vida de Barley. Para ele, as pessoas com a idade de Barley- no se apaixonavam.
Henziger, que no andava longe da idade de Barley, considerava o
sexo como uma prerrogativa da vida secreta, to vulgar quanto inofensiva. Para ele, era bvio que uma pessoa honesta e leal como Barley saberia acomodar o corpo ao dever. Tal como Wicklow, embora por razes diferentes, no via nada de excepcional nos ternos sentimentos de Barley em relao a Katya e operacionalmente achava-os mesmo muito recomendveis.
E em Londres? Em Londres no havia um ponto de vista nico, um ponto de vista rigorosamente definido. Na ilha, Brady tinha dito tudo o que era preciso dizer sobre o caso, mas a sua interveno fora rejeitada e, com ela, a sua opinio de que Barley estava apaixonado.
E Ned? Ned tinha uma esposa com uma mente to de caserna quanto a dele, e igualmente pouco atenta aos meandros do amor. Mostrem-me um s tipo que seja que, num pas hostil, no fique de amores com uma cara bonita, se ela estiver do seu lado contra o mundo - costumava ele dizer com um sorriso pesaroso.
E Bob, Sheriton e Johnny pareciam todos ter concludo, por diferentes vias, que a vida privada e os apetites de Barley eram de uma complexidade to decadente, que o melhor seria ignor-los pura e simplesmente.
E que pensava Palfrey, o velho Palfrey, que a todo o momento coma para Grosvenor Square e que, se no podia l ir, telefonava para Ned a perguntar "pelo nosso homem"?
Palfrey pensava em Hannah. A Hannah que amara e continua a amar, como s os cobardes sabem amar. A Hannah cujo sorriso fora em tempos to quente e intenso quanto o de Katya. "s um bom
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tipo, Palfrey", diz ela, controlando-se a todo o custo, nos dias em que tenta entender-me. "Hs-de achar um caminho. Talvez no agora, mas um dia, um dia hs-de achar." E Palfrey encontrou de facto um caminho! Alegou a norma - essa norma to conveniente que diz que um jovem advogado apanhado em flagrante delito de adultrio fica ipso facto sem sada possvel. Alegou os filhos, dela e dele -  uma questo que envolve tanta gente, minha querida. Alegou o casamento, o grande sacana - como  que eles se vo ver sem ns, minha querida, o Derek nem cozer um ovo sabe. Alegou a sociedade, e quando a sociedade se dissolveu, enterrou a sua estpida cabea nas areias do deserto secreto, onde nenhuma Hannah conseguiria voltar a encontr-lo. E teve mesmo a desfaatez de alegar o dever - mas, minha querida, os Servios nunca me perdoariam um divrcio sujo -
no, nunca aceitariam que o seu conselheiro legal fizesse uma coisa dessas.
Pensava tambm na ilha. Na noite em que eu e Barley demos uma volta pela praia dos seixos e ficmos a ver o banco de nevoeiro avanando na nossa direco por sobre as ondas cinzentas do Atlntico.
"Nunca a deixariam sair, pois no?", perguntou Barley. "Quer dizer, se as coisas correrem mal,  evidente que no deixam."
No respondi e no creio que Barley esperasse uma resposta minha, mas no havia dvida que ele tinha razo. Ela era uma cidad cem por cento sovitica e cometera um crime cem por cento sovitico. No havia para o seu caso qualquer possibilidade de negociao.
"De qualquer modo, ela nunca deixaria os filhos", disse ele, confirmando as suas prprias dvidas.
Por um momento contemplou o mar, os seus olhos fitando Katya, os meus fitando Hannah, Hannah que tambm nunca deixaria os seus filhos, mas que queria traz-los com ela, e que queria transformar num homem honesto um advogado rotineiro e obcecado com a carreira, que ia para a cama com a mulher do seu scio mais velho.
"Raymond ChandIer!", gritou o tio Matvey da sua cadeira, vencendo o clamor das televises dos vizinhos.
"Bestial", disse Barley. "Agatha Christie!" "Ah, pois, Agatha." "Dashiel Hammett! Dorothy Sayers. Josephine Tey." Barley sentou-se no sof para onde Katya o conduzira. A sala de estar era minscula. Os seus braos abertos quase a abarcariam. Um armrio de canto com portas de vidro continha os tesouros da famlia. Katya tinha-os j apresentado ao visitante. As canecas de cermica, feitas por um amigo quando ela se casara, com medalhes retratando o noivo e a noiva. O servio de caf de Leninegrado, a que j faltavam peas e que tinha pertencido  senhora da fotografia emoldurada
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da prateleira de cima. A velha fotografia spia de um casal toIstoiano, o homem, de barba, um rosto resoluto sobre os colarinhos brancos engomados, a jovem com o seu gorro e o seu regalo de pele.
"O Matvey adora policiais ingleses", gritou Katya da cozinha, onde ainda tinha algumas coisas a fazer.
"Tambm eu", retorquiu Barley, ainda que mentisse. "Ele est a dizer que os policiais no eram permitidos no tempo dos czares. Nunca teriam tolerado uma tal intromisso no seu sistema policial. J se serviu de vodka? No d mais ao Matvey, por favor. Mas tem de comer qualquer coisa. Ns no somos alcolicos como vocs, ocidentais. No bebemos sem comer."
Sob o pretexto de examinar os livros dela, Barley instalou-se no estreito corredor, de onde podia v-Ia perfeitamente. Jack London, Hemingway e Joyce, Dreiser e John FowIes. Heine, Remarque e Rilke. Os gmeos estavam na casa de banho, em alegre conversa. Observou-a atravs da porta aberta da cozinha. Havia nos seus gestos uma demora deliberada, um jeito esquivo a qualquer pressa. Voltou a ser a Katya russa, pensou. Quando as coisas funcionam, ainda bem. Quando no funcionam,  a vida, que se h-de fazer. Na sala de estar, Matvey continuava a tagarelar alegremente.
"Que diz ele agora?", perguntou Barley. "Est a falar do cerco. " "Amo-a." "Os habitantes de Leninegrado recusaram-se a aceitar a derrota". Katya estava a preparar croquetes de fgado com arroz. As suas mos pararam por um momento, aps o que regressaram ao trabalho. "Shostakovich continuou a compor apesar de a tinta gelar no seu tinteiro. Os romancistas continuaram a escrever, bastava ir s celas certas para se ouvir todas as semanas um captulo de um novo romance".
"Amo-a", repetiu. "Todos os meus fracassos foram apenas etapas para chegar a si.  um facto. Indiscutvel."
Katya soltou um suspiro profundo e ambos ficaram em silncio, surdos por um momento ao animado monlogo de Matvey e ao rudo de ps chapinhando que vinha- da casa de banho.
"O que  que ele est a dizer agora?", perguntou Barley. "Barley ... ", protestou ela. "Por favor. Traduza o que ele est a dizer." "Os alemes estavam a quatro quilmetros da cidade, na parte sul. Cobriram os arredores com fogo de metralhadora e bombardearam o centro com artilharia." Katya passou-lhe as toalhas de mesa individuais e as facas e os garfos e seguiu-o at  sala de estar. "Duzentos e cinquenta gramas de po para um operrio, para os outros cento e vinte e cinco. Barley voc est mesmo fascinado pelo Matvey, ou o seu interesse  motivado apenas pela cortesia, como  costume?"
" um amor maduro, um amor absoluto, arrebatador, um amor de
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que todo o egosmo est ausente. Nunca senti nada que se assemelhasse a isto. Achei que voc devia ser a primeira a sab-lo."
Matvey sorria radiante para Barley, numa expresso de pura adorao. O seu novo cachimbo ingls brilhava no bolso de cima. Katya olhou para Barley, por um momento suportou o seu olhar fixo, depois desatou a rir e abanou a cabea, no porque quisesse negar fosse o que fosse, mas porque se sentia aturdida. Os gmeos irrom_ peram pela sala numa correria, j com os roupes vestidos e Barley pegou neles, fazendo-os baloiar nas suas mos. Katya conduziu-os para a mesa e pediu a Matvey que se sentasse  cabeceira. Barley sentou-se ao lado dela, enquanto ela servia a sopa de couves. Com um prodigiosa exibio de fora, Sergey tirou a rolha de uma garrafa de vinho, mas Katya beberia apenas meio copo e a Matvey s era permitida a vodka. Anna levantou-se para ir buscar um desenho que tinha feito depois de uma visita  Academia Timiryasev: cavalos, um trigal de verdade, plantas que sobreviviam  neve. Matvey contava a histria do velho da oficina em frente, e uma vez mais Barley insistiu em no perder palavra.
"Era um velho que o Matvey conhecia, um amigo do meu pai", disse Katya. "Tinha uma oficina. Passou tanta fome e estava to fraco que decidiu atar-se a uma mquina para no cair. Foi assim que Matvey e o meu pai o encontraram, mas j estava morto. Atado  mquina. Gelado. Matvey tambm quer que voc saiba que usava um distintivo luminoso no casaco" - e Matvey indicava com orgulho o stio onde usava o distintivo - "para no chocar com os seus amigos na escurido, quando iam com um balde buscar gua ao Neva. Pronto. J chega de Leninegrado", disse ela firmemente. "Tem-se mostrado muito generoso, Barley, alis como  seu hbito. Espero que, alm de generoso, seja sincero".
"Nunca. fui to sincero em toda a minha vida." Barley ia a meio de um brinde  sade de Matvey quando o telefone comeou a tocar ao lado do sof. Katya ergueu-se num pice, mas Sergey adiantou-se-lhe. Levantou os auscultador, escutou, mas logo de seguida desligou, abanando a cabea.
"H sempre imensos enganos", disse Katya, e comeou a distribuir os pratos para os croquetes.
Havia apenas o quarto dela. Havia apenas a cama dela. As crianas tinha ido para a cama e Barley podia ouvir a sua respirao ruidosa. Matvey deitara-se no seu saco-cama do exrcito na sala de estar, e sonhava j com Leninegrado. Katya estava sentada numa cadeira, muito direita, e Barley, ao seu lado, segurava-lhe na mo, enquanto fitava o seu rosto emoldurado pela janela sem cortinados.
"Tambm amo o Matvey", disse ele.
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Katya aquiesceu e soltou um risinho. Ele encostou os ns dos dedos ao seu rosto e descobriu que ela estava a chorar.
"Claro que no gosto dele da mesma maneira que gosto de si", explicou. "Gosto de crianas, de tios, de gatos, de ces e de msicos. A Arca, toda a Arca,  inteiramente da minha responsabilidade. Mas a si amo-a to profundamente que tenho mesmo vergonha de lho dizer. Ficaria muito grato se encontrssemos um processo qualquer capaz de me silenciar. Olho para si e fico perfeitamente nauseado com o som da minha voz. Quer que lhe escreva?"
Ento, com ambas as mos, Barley virou o rosto dela para si e beijou-a. Depois, conduziu-a at  cabeceira da cama, ps-lhe a cabea sobre a almofada e beijou-a de novo, primeiro nos lbios e depois nos olhos fechados e molhados, enquanto os braos dela lhe prendiam as costas e o colavam a ela. Ento, de repente, ela afastou-o, saltou da cama e num instante correu ao quarto dos gmeos. Num instante voltou e, lentamente, fechou a porta  chave.
"Se as crianas aparecerem, voc veste-se e pomos o ar mais srio do mundo", avisou ela, beijando-o.
"Posso dizer-lhes que a amo?" "Pode, mas eu no traduzo." "E a si, posso dizer?" "Muito baixinho." "Assim. j traduz?" Ela no chorava j, j no sorria. Olhos negros, determinados, procurando, prescrutando como os dele. Um abrao sem reservas, nenhuma clusula escondida, nenhum aditamento em letra mida ao acordo que se firmava.
Nunca vira Ned naquela disposio. Tinha-se transformado no Jonas da sua prpria operao e o seu severo estoicismo tornava ainda mais insuportveis os maus pressgios que resolvera propalar. Na sala de controlo, sentava-se  sua secretria como se estivesse a presidir a um tribunal marcial, enquanto Sheriton se refastelava na cadeira ao lado como um ursinho de pelcia inteligente. E quando eu saa com ele para jantar no Connaught, onde por vezes levava Hannali, e o acompanhava rua abaixo  velocidade louca do seu passo e lhe proporcionava um jantar magnfico, capaz de compensar qualquer espera, a sua mscara ausente permanecia impenetrvel.
A verdade  que o seu pessimismo estava a afectar seriamente a minha prpria disposio. Sentia-me num balanc. Clive e Sheriton estavam numa das pontas. Ned era o contrapeso. E como eu no sou propriamente um especialista em tomar decises, mais perturbado ficava ao ver um homem normalmente to incisivo resignar-se por completo ao ostracismo.
"Voc est a ver fantasmas, Ned", disse-lhe eu com um pouco da convico de Sheriton. "Voc meteu-se a pensar em coisas que no
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passaram pela cabea de mais ningum. Est bem, pronto, o caso j no  seu, j no se trata do seu caso. Mas isso no significa que estejamos perante um malogro. Bom, e entretanto a sua credibilidade vai, digamos, decaindo." "Uma lista definitiva e exaustiva", repetiu Ned, como se um hipnotizador lhe tivesse metido a frase na cabea. "Definitiva porqu? Exaustiva porqu? So capazes de me responder? Quando eles se encontraram em Leninegrado, Goethe nem o nosso questionrio preliminar aceitou. Atirou-o positivamente  cara de Barley. A&ora, pelo contrrio, pede a lista de compras toda e de uma s vez. E ele que pede. A lista definitiva. As vazas todas. E temos de ter a lista pronta no fim-de-semana. Depois disso a Ave Azul no responde a mais nenhuma pergunta dos homens cinzentos. 'Esta  a vossa ltima oportunidade':  isso que ele nos est a dizer. Porqu?"
"Tente ver o caso com os olhos dele por um minuto", supliquei-lhe eu num murmrio desesperado, depois de o criado dos vinhos nos ter trazido uma segunda garrafa de um clarete to notvel que nenhum dinheiro o pagaria. "Muito bem. Os soviticos deram-lhe a volta. Ele agora est do lado errado. Os soviticos controlam-no. Mas se o controlam, por que carga de gua  que vo encerrar o caso precisamente agora? Porque no aguentam e aproveitam para nos trapacearem? Voc no pararia neste momento se estivesse no lugar deles. No nos poria um ultimato, no nos imporia prazos. Ou estou enganado?"
A resposta dele arruinou por completo o melhor e mais caro jantar que eu alguma vez oferecera a um camarada de ofcio.
"Talvez me visse obrigado a fazer tudo isso", disse ele. "Se fosse russo".
"Porqu?"
O brutal desapgo da sua voz tornou ainda mais glidas as suas palavras.
"Porque  muito possvel que ele j no esteja em condies de se mostrar seja a quem for. Porque talvez j no esteja em condies de falar. Ou de pegar no talher. Ou de pr sal no frango.  muito possvel que tenha feito algumas declaraes voluntrias acerca da sua encantadora amada de Moscovo, a qual no fazia ideia nenhuma, mas rigorosamente nenhuma, da gravidade dos seus actos.  muito possivel que ... "
Voltmos a p para Grosvenor Square. Barley tinha deixado o apartamento de Katya  meia-noite, hora de Moscovo, e regressara aos Mezh, onde Henziger esperara por ele sentado no hafl, lendo ostensivamente um manuscrito.
Barley estava extremamente bem disposto mas no trazia qualquer novidade. Tinha passado uma noite em famlia, uma simples noite em famlia, mas apesar de tudo divertida - foi isso o que disse a Henziger. E a visita ao hospital continuava de p, acrescentou.
No dia seguinte, nada. Um espao em branco. Espiar  esperar.
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Espiar  a angstia de assistir ao declnio de Ned. Espiar  levar Harinali para o meu apartamento em Pinifico entre as quatro e as seis, as duas horas de uma suposta lio de alemo, embora no faa sentido nenhum que ela tenha lies de alemo. Espiar  imitar o amor, e estar atento s horas, no v ela chegar atrasada para dar o jantar ao seu querido Derek.
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Iam no carro de Volodya. Ela pedira-o emprestado para a noite. Barley tinha de esperar por ela  sada do metro do Aeroporto, s nove horas, e s nove em ponto o Lada encostou precariamente para ele entrar.
"Voc no devia ter insistido", disse ela. Os blocos de torres reluziam nas alturas, mas nas ruas caa j a atmosfera ameaadora do despovoamento. Odores de Outono percorriam o ar hmido da noite. Uma meia-lua, envolta num manto de nvoa, acompanhava-os na viagem. De vez em quando as suas mos tocavam-se. De vez em quando as suas mos prendiam-se num abrao violento. Barley olhava atentamente para o retrovisor. Estava partido e faltavam alguns bocadinhos, mas mesmo assim conseguia ver os carros que os seguiam sempre a alguma distncia. Katya virou  esquerda, mas nenhum dos carros os ultrapassou.
Katya no falava, Barley imitava-a. Como sabia ela onde era ou no era seguro falar?, interrogava-se Barley. Onde teria aprendido as regras do ofcio? Na escola? As raparigas mais velhas ensinariam as mais novas? Ou teria sido o mdico da famlia, naquela conversazinha muito sria por volta do segundo ano de puberdade? "Minha filha, chegou a hora de aprenderes que os carros e as paredes tambm tm ouvidos. Tal e qual como as pessoas ... "
Meteram depois por uma estrada secundria cheia de buracos, at estacionarem num parque inacabado.
"Faa de conta que  um mdico", avisou ela por cima do tejadilho. "Tem de parecer exactamente um mdico."
"Eu sou um mdico", retorquiu Barley. Nenhum deles brincava. Avanaram por um labirinto de charcos que a lua iluminava, at chegarem a uma entrada coberta com um toldo de amianto, a qual
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conduzia s portas duplas e a um balco de recepo vazio. Barley sentiu os primeiros cheiros a hospital, os odores penetrantes de qualquer hospital: desinfectante, cera do cho, fluidos cirrgicos. Com um passo firme, Katya, conduziu-o por uma entrada circular de cimento sarapintado e por um corredor revestido a linleo. Passaram depois um balco de mrmore,  guarda de umas quantas mulheres de ar taciturno. Um relgio marcava as dez e vinte e cinco. Com o ar intencionalmente compenetrado de quem tinha responsabilidades, Barley comparou-o com o seu relgio. O do hospital estava atrasado dez minutos. O corredor seguinte estava cheio de vultos afundados em cadeiras de cozinha.
A sala de espera era uma catacumba sombria suportada por rotundos pilares, com um estrado numa das extremidades. Na outra, portas giratrias davam para os lavabos. Algum tinha improvisado uma luz temporria para indicar o caminho. A essa luz tnue, Barley conseguiu descortinar uns quantos cabides atrs de um balco de madeira, macas da sala de operaes estacionadas e, encostado ao pilar mais prximo, um telefone antigo. Junto  parede, havia um banco. Katya, sentou-se nele, Barley sentou-se ao lado dela.
"Ele faz sempre por ser pontual. s vezes atrasa-se por causa da ligao", disse ela.
"Posso falar com ele?" "Ele ficaria furioso." "Porqu?" "Se eles ouvem falar ingls numa chamada interurbana,  bvio que ficam logo alerta."
Junto s portas giratrias um homem com a cabea ligada, fazendo lembrar um soldado cego acabado de chegar da frente, encaminhava-se para os lavabos das senhoras no momento em que duas mulheres saam. As mulheres agarraram-no pelos braos e conduziram-no  porta certa. Katya abriu a mala de mo e tirou um caderno e uma caneta.
Ele vai tentar s dez e quarenta, dissera ela. s dez e quarenta tentar a primeira ligao. No falar muito tempo, dissera ela.  imprudente falar demasiado tempo, mesmo quando os telefones so seguros.
Katya, levantou-se e encaminhou-se para o telefone, afocinhando, como um soldado, sob o balco do bengaleiro.
Talvez ele lhe diga que a ama, pensou Barley. "Amo-te tanto que arrisco a tua vida por mim." Talvez lhe diga isso. Ou limitar-se-  conversa fiada da carta? Ou dir-lhe- que ela  um preo aceitvel para lavar a sua alma inquieta?
Katya estava de lado para ele, fitando atentamente as portas giratrias. Teria entrevisto algum perigo? Teria ouvido alguma coisa? Ou a sua mente estava j longe, com Yakov?
 assim que ela fica quando est  espera dele, pensou Barley
- como algum que est pronto a esperar o dia inteiro.
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O telefone soltou um toque rouco, como se tivesse poeira na laringe. Um sexto sentido tinha-a j guiado na direco ao telefone, que por isso no grasnou segunda vez. Barley estava perto, mas mal situado para poder ouvir a voz dela no meio do tumulto de fundo do hospital. Katya tinha-lhe virado as costas, provavelmente por um desejo de privacidade, e tapava o ouvido esquerdo para ouvir melhor o amante. Barley s conseguia ouvi-Ia dizer "sim", "sim", "sim", subinissamente.
Deixe-a em paz!, pensou furioso. J lho disse e vou voltar a dizer-lho este fim-de-semana. Deixe-a em paz, no a meta nisto. Trate disto com os homens cinzentos ou comigo!
O caderno aguardava aberto em cima de uma prateleira precria pregada ao pilar. Em cima do caderno, a caneta. Katya no tinha tocado em nenhum deles. Sim. Sim. Sim. Era isso que eu respondia na ilha. Sim. Sm. Sim. Viu os ombros dela erguerem-se e o pescoo afundar-se entre os ombros e assim permanecer e as costas esticarem-se como se ela tivesse respirado muito fundo ou como se um fio de prazer lhe tivesse abalado o corpo. O cotovelo ergueu-se para que a mo colasse ainda mais o auscultador ao ouvido, para que o som penetrasse mais fundo na sua cabea. Sim. Sim. E que tal um no, para variar? No, eu no me vou imolar por ti!
A mo que estava livre tinha encontrado o pilar e Barley viu os dedos separarem-se e retesarem-se e enclavinharem-se no estuque escuro. Viu a mo muito branca e perfeitamente imvel e de repente aquela mo alarmou-o. Tinha encontrado um ponto de apoio e colava-se-lhe como se ele fosse o ltimo elo que a ligava  vida. Katya colava-se  face do penhasco e o estuque do pilar era tudo o que a prendia entre o amante e o abismo.
Voltou-se, o auscultador ainda pegado ao ouvido, e Barley viu-lhe finalmente o rosto. Quem era aquela mulher? Em que se tinha tornado? Pela primeira vez via aquele rosto sem expresso nenhuma, e o telefone esmagado contra a tmpora era o revlver que algum lhe apontava, ali, naquele instante.
O seu olhar era o olhar de um refm. Ento o seu corpo comeou a deslizar pelo pilar abaixo como se nada mais pudesse mant-lo direito. De incio foram apenas os joelhos que cederam, mas a cintura logo se esvaiu. Porm, nesse momento, j Barley a agarrava. Com um brao prendeu-a pela cintura, com o outro arrancou-lhe o telefone. Encostou-o ao ouvido e gritou "Goethe!", mas nada mais ouviu seno o sinal e desligou.
Era estranho, mas a verdade  que Barley se tinha esquecido at esse momento de que era afinal um homem possante. Comearam a andar, mas de sbito Katya tentou libertar-se, convulsionada por uma violenta revolta contra aquele homem que a prendia. Silenciosamente, disparou o punho fechado contra o maxilar de Barley, com tanta fora que, por um momento, ele no viu outra coisa  sua frente seno uma luz estonteante. A reaco de Barley foi rpid. Prendeu-
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-lhe as mos junto ao corpo e puxou-a por debaixo do balco e assim a conduziu ao longo do hospital e do parque de estacionamento. " uma doente perturbada", explicava para si mesmo. "Uma doente perturbada ao cuidado do seu mdico."
Agarrando-a ainda, Barley despejou o contedo da malinha de mo sobre o tejadilho do carro, encontrou a chave, abriu a porta do lado do passageiro e empurrou-a para dentro. Depois, num pice, deu a volta ao carro, abriu a outra porta e sentou-se no lugar do motorista, no fosse ela tentar de novo a fuga e arrancar subitamente.
"Quero ir para casa", disse ela. "No sei o caminho." "Leve-me para casa", repetiu ela. "Mas eu no sei o caminho, Katya! Vai ter de me dizer por onde devo ir! Katya, est a ouvir-me?" Agarrou-a pelos ombros. "Sente-se direita. Deixe de olhar para a janela. Onde  que esta porcaria tem a marcha atrs?"
Barley comeou a experimentar as mudanas mas ela interrompeu-o. Pegou na alavanca e brutalmente p-la na marcha atrs, fazendo a caixa de mudanas guinchar.
"As luzes", disse ele. Barley j as tinha localizado, mas mesmo assim obrigou-a a lig-Ias, na esperana de que a sua raiva a fizesse reagir. Avanou pelo macadame esburacado do parque, mas a meio teve de desviar-se subitamente para evitar uma ambulncia que seguia a toda a velocidade. Lama e gua saltaram para o pra-brisas, mas no havia limpadores porque no estava a chover. Parou novamente o carro, saiu num instante, pegou no leno e procedeu a uma limpeza rpida que deixou o pra-brisas embaado. Voltou para o carro.
"Esquerda", ordenou ela. "Mas rpido, por favor." "No foi por a que viemos, foi pela estrada  direita." "Essa s tem um sentido. Acelere." A voz dela era um murmrio longnquo, mas ele nada podia fazer para a devolver  vida. Ofereceu-lhe o frasco de whisky. Ela repeliu-o. Barley avanava lentamente, ignorando os apelos dela. Faris dianteiros reluziam no espelho, sempre  mesma distncia.  Wicklow, pensou.  Paddy, Cy, Henziger, Zapadny, o batalho todo. Os candeeiros de sdio iluminavam intermitentemente o rosto dela, mas era um rosto sem vida. Os olhos dela perdiam-se nas imagens aterradoras que lhe passavam pela cabea. O punho fechado procurara a boca. Os dentes cravavam-se nas juntas dos dedos.
"Viro aqui?", perguntou ele asperamente. Mas teve de lhe gritar uma vez mais. "Tenho de virar aqui, Katya?"
Ela respondeu-lhe primeiro em russo, depois em ingls. "Agora.  direita. V mais depressa."
Aquele era para ele um territrio absolutamente desconhecido. Cada rua vazia era igual  rua seguinte e  rua anterior.
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"Vire agora. " "Esquerda ou direita?" "Esquerda!" Katya gritou a palavra com toda a fora que tinha, uma, duas vezes. Depois do grito vieram as lgrimas, lgrimas como um rio, entre soluos desesperados, sufocantes. Ento, gradualmente, os soluos foram-se esbatendo e, quando chegaram ao prdio onde ela morava, j tinham cessado. Barley puxou o travo de mo mas estava partido. Katya no esperou que o carro parasse para abrir a porta. Ele ainda tentou det-la mas no foi a tempo. Numa corrida, Katya atravessou o passeio e o trio do prdio, vasculhando na mala  procura das chaves. Encostado  porta, um rapaz com um bluso de cabedal parecia querer barrar-lhe o caminho. Mas nesse momento j Barley a tinha alcanado e o rapaz desviou-se num pice para que eles passassem. Katya no esperou pelo elevador ou talvez se tivesse esquecido de que havia um elevador no prdio. Subiu as escadas a correr, seguida de perto por Barley. Passaram por um casal que se abraava no escuro. No primeiro andar, sentado a um canto, estava um velho completamente embriagado. Subiram mais um lano, e outro, e outro. Agora era uma velha que estava bbeda, depois um rapaz. Subiram tantos lanos que Barley chegou a temer que ela se tivesse esquecido do andar em que morava. At que, de sbito, a viu abrir a porta. Mal entraram, Katya correu para o quarto dos gmeos, ajoelhou-se junto  cama com a cabea pairando inquisitiva sobre os filhos, arquejante como um nadador desesperado, um brao arremessado sobre os dois corpos que dormiam.
Uma vez mais s havia o quarto dela. Barley conduziu-a at l, porque nem mesmo ali, naquele espao minsculo, ela sabia o caminho. Katya sentou-se na cama a medo, como se no soubesse a altura que a cama tinha. Barley sentou-se ao lado dela, fitando o seu rosto aptico, os olhos fechados que por um momento se entreabriram para logo se voltarem a fechar, no se aventurando a tocar-lhe porque aquele era um corpo rgido, um corpo em pnico, um corpo longe ele. Katya agarrava um pulso como se ele estivesse partido. Suspirou, um suspiro profundo. Barley pronunciou o nome dela, mas Katya pareceu no o ouvir; depois, ps-se a pesquisar o quarto, minuciosamente. Fixa a uma das paredes havia uma bancada minscula que fazia as vezes de toucador e de escrivaninha. No meio de um monte de cartas velhas via-se um caderno idntico aos que Goethe usava. Uma reproduo de Renoir emoldurada por cima da cama. Barley tirou-a da parede e p-la sobre o seu colo. O espio experiente rasgou uma folha do caderno, colocou-a sobre o vidro do quadro, tirou uma caneta do bolso e escreveu:
Conte-me. Barley ps o papel  frente dela, ela leu-o com indiferena, sem
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largar o pulso. Encolheu os ombros, sem fora. O ombro dela apoiava-se no dele, mas Katya no se dava conta disso. Tinha a blusa aberta e o abundante cabelo negro ficara desgrenhado por causa da corrida. Barley escreveu de novo Conte-me, depois agarrou-a pelos ombros enquanto os seus olhos lhe imploravam com um amor desesperado. Bateu com o indicador na folha. Pegou no quadro e comprimiu-o contra o colo dela para que ela respondesse. Ela fitou o papel e aquele Conte-me, soltou um longo e terrvel suspiro e deixou cair a cabea, de tal modo que Barley deixou de lhe ver o rosto, inteiramente coberto pela catica cortina do seu cabelo.
Apanharam o Ykov, escreveu ela. Barley pegou na caneta. Quem lhe disse? Ykov, retorquiu ela. Que lhe disse ele exactamente? Vem a Moscovo na sexta-feira. Encontra-se consigo no apartamento de Igor s vinte e trs horas. Traz-lhe mais material e responder s suas perguntas. Leve uma lista com questes precisas. Ser a ltima vez. Deve levar-lhe notcias sobre a publicao, datas, pormenores. E leve um bom whisky. Ele ama-me.
Barley pegou de novo na caneta. Foi Ykov que falou? Ela acenou que sim. Porque  que diz que o apanharam? Porque ele usou o outro nome. Que outro nome? Damil. Era o combinado. Iliotr, se ele estivesse bem. Danifl, se o apanhassem.
A caneta passava apressadamente de uma mo para a outra. Agora s Barley a usava, escrevendo pergunta atrs de pergunta. Ele cometeu algum erro91 escreveu.
Katya abanou a cabea. Ele esteve doente. Esqueceu-se do cdigo, escreveu Barley. Katya abanou uma vez mais a cabea. Ele nunca se enganou? Katya abanou a cabea, pegou na caneta e escreveu furiosamente: Ele chamou-me Mariya. Perguntou, est? Mariya? Mariya  o meu nome para o caso de haver~. Se no h ~, o meu nome  Alina.
Escreva exactamente o que ele disse. Fala Danifl. Est? Mariya? A minha conferncia foi o maior sucesso de toda a minha carreira. Era mentira.
Porqu? Ele costuma dizer, na Rssia o nico sucesso  no vencer.  uma piada que ns costumamos dizer. O que ele disse ope-se deliberadamente a essa piada. O que ele me estava a dizer  que estamos perdidos.
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Barley foi at  j anela e olhou para o trio do prdio e para a rua l em baixo. Sombras negras povoavam o seu mundo interior, sombras negras e um profundo silncio. Nada mexia, nada respirava. Mas ele estava preparado. Toda a sua vida o preparara para aquilo, ainda que nunca se tivesse apercebido disso. Ela era a mulher de Goethe, portanto se Goethe estava perdido, tambm ela o estava. Ainda no estava, porque at esse momento Goethe a tinha protegido com o ltimo gro de coragem que lhe restava. Mas era apenas uma questo de tempo: bastava-lhe que eles estendessem o seu longo, enorme brao para a colherem da rvore.
Durante cerca de uma hora, Barley permaneceu  janela antes de voltar para a cama. Katya estava deitada, com os olhos abertos e os joelhos erguidos. Barley abraou-a e puxou-a para si e sentiu aquele corpo frio esvair-se entre os seus braos, um corpo que comeou a soluar em ondas silenciosas e convulsivas, como se tivesse medo de que houvesse microfones a captarem o seu choro.
Barley pegou de novo na caneta e escreveu, em letras maisculas, ntidas e decididas: PRESTE ATENO AO QUE EULHE VOU DIZER.
As notcias iam passando nos ecrs com poucos minutos de intervalo. Barley deixou o Mezh. Segue. Chegaram  estao de metro. Segue. Abandonaram o hospital, Katya apoiada em Barley. Segue. Os homens mentem mas o computador  infalvel. Segue.
"Mas porque carga de gua  que ele vai a conduzir?", perguntou alarmado Ned quando apareceu essa informao.
Sheriton estava demasiado concentrado nas suas coisas para lhe poder responder, mas Bob, que se encontrava de p atrs de Ned, ouviu a pergunta e tratou de dar a sua opinio.
"Os homens gostam de conduzir as mulheres, Ned. Ainda estamos na era machista."
"Obrigado", retorquiu educadamente Ned. Clive exibia um sorriso de aprovao. Intervalo. A sequncia pra enquanto Anastasia acompanha o desenrolar dos acontecimentos. Anastasia  uma sexagenria tempestuosa, nascida na Litunia, que est na Casa da Rssia vai para vinte anos. Anastasia tinha forosamente de ser a escolhida para vigiar a sala de espera.
Eis o que diz a lenda: Anastasia passou duas vezes frente ao bengaleiro; a primeira vez, quando foi aos lavabos, a segunda, quando voltou para a sala de espera.
Quando passou pela primeira vez, Barley e Katya estavam sentados num banco  espera do telefonema.
Quando passou pela segunda vez, Barley e Katya estavam de p, junto ao telefone, e pareciam abraar-se. Uma das mos de Barley
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tocava o rosto de Katya, esta tinha tambm uma mo erguida, a outra caa-lhe colada ao corpo.
Nesse momento j teriam atendido a chamada? Anastasia no sabia. Embora se tivesse metido num cubculo dos lavabos e tivesse tentado escutar tudo o que se passara no bengaleiro, a verdade  que no ouvira o telefone tocar. Por isso, ou a chamada no se tinha efectuado ou ento j tinha terminado quando ela passou pela segunda vez frente ao bengaleiro.
"Mas por que raio  que ele a estava a abraar?", perguntou Ned. "Talvez ela tivesse poeira nos olhos", retorquiu azedamente Sheriton, de olhos postos no ecr.
"Foi ele quem conduziu", insistiu Ned. "Ele no pode conduzir carro nenhum em Moscovo, mas a verdade  que quem guiou foi ele. Quem guiou o carro no passeio ao campo foi ela. Foi ela quem conduziu o carro at ao hospital. E de repente, sem mais nem menos,  ele que se senta ao volante. Porqu?"
Sheriton ps o lpis em cima da secretria e com o indicador tentou folgar um pouco o colarinho. "Ento o que  que arrisca, Ned?A Ave Azul fez ou no fez a chamada? V, diga l qual  a sua aposta."
Apesar de tudo, Ned teve a decncia de encarar seriamente a pergunta. "Possivelmente fez. Se no tivesse feito, eles teriam continuado  espera. "
"Talvez ela tivesse ouvido alguma coisa de que no gostou. Ms notcias, por exemplo", sugeriu Sheriton.
Os ecrs tinham-se apagado, deixando a sala envolta numa luz plida.
Sheriton tinha um gabinete  parte, feito de pau-rosa e improviso. Mudmos para l o nosso acampamento, servimo-nos de caf, espermos.
"Que raio  que ele est a fazer no apartamento dela durante tanto tempo?", perguntou-me Ned, num aparte. "Tudo o que ele tem a fazer  obter a informao sobre a hora e. o local do encontro. J deve ter essa informao h duas horas."
"Talvez tenham feito uma pausa para o amor", disse eu. "Quem me dera que assim fosse." "Se calhar foi comprar outro chapu", comentou rispidamente Johnny, que nos tinha ouvido apesar de estarmos a falar muito baixo.
"Ao ataque!", disse Sheriton ao ouvir a campainha, e todo o grupo se encaminhou para a sala de controlo.
Um mapa iluminado das ruas da cidade mostrava-nos o apartamento de Katya assinalado com uma luzinha vermelha. O local de encontro ficava trezentos metros a leste do apartamento, na esquina sueste de duas ruas principais assinaladas a verde. Barley devia estar nesse momento a avanar.pelo passeio sul, caminhando junto  berma. Ao chegar ao ponto de encontro, devia abrandar o passo como se estivesse  procura de um txi. O nosso carro passaria nesse
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momento. Barley tinha sido instrudo para dizer ao condutor o nome do hotel em voz bem alta e negociar o preo atravs de gestos.
Chegando ao segundo largo, o carro meteria por uma rua lateral e entraria num terreno onde estavam a ser construdos prdios. Nesse terreno encontrava-se o nosso camio, com as luzes apagadas; o motorista parecia dormitar na sua cabina. Se a antena estivesse puxada, o carro faria um crculo no sentido da direita e voltaria para junto do camio.
Caso contrrio, o plano abortaria.
O relatrio de Paddy chegou aos ecrs  uma da manh, tempo de Londres. Menos de uma hora depois j ns tnhamos acesso ao contedo das gravaes, disparado pelas antenas da embaixada americana. O relatrio seria mais tarde arrasado e despedaado de todas as maneiras e feitios. Para mim, essas pginas de Paddy permanecem um modelo do relatrio de campo factual.
Naturalmente que o escritor precisa de ser conhecido, j que no h criador neste mundo que no tenha as suas limitaes. Paddy no era propriamente um brilhante psiclogo, mas era uma infinidade de outras coisas, um antigo gurkhal posteriormente membro das foras especiais e finalmente oficial dos servios de espionagem, um linguista, um planeador e um improvisador bem ao gnero de Ned.
Para a sua personagem moscovita, tinha escolhido uma aparncia to ridiculamente inglesa que os no-iniciados o elegiam como tema favorito das suas piadas: os shorts pelo joelho que usava no Vero quando dava longos passeios pelos bosques de Moscovo; as suas longas viagens no Inverno, quando enchia o seu Volvo com esquis velhos e btons de bambu e provises e finalmente com a sua incrvel pessoa, equipada com um gorro de pele que parecia ter vindo directamente dos comboios do rctico. Mas s um homem inteligente sabe fazer de parvo e suportar um tal papel durante muito tempo, e Paddy era um homem inteligente, ainda que mais tarde se tivesse tornado cmodo levar as suas excentricidades  letra.
No que toca ao controlo da sua heterclita coleco de pseudo-estudantes de lnguas, agentes de viagens, pequenos negociantes e cidados de outros pases, Paddy era excelente. O prprio Ned no o poderia superar. Velava por eles como um dedicado proco de aldeia e todos eles, quando entregues aos seus trabalhos solitrios, se revelavam  altura das expectativas do mestre. No era culpa sua que as qualidades que faziam dele um condutor de homens o tornassem tambm vulnervel ao logro.
Mas voltemos ao relatrio de Paddy. Em primeiro lugar, Paddy ficou surpeendido com a preciso da descrio de Barley; a gravao corrobora indubitavelmente a sua surpresa. A voz de Barley denota
' Soldado nepals do exrcito britnico. (N. do T.)
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uma segurana que no encontrmos em qualquer outra gravao. Paddy ficou impressionado com a determinao de Barley e com a sua devoo  misso de que estava incumbido. Comparou o Barley que teve  sua frente no camio com o Barley que tinha interrogado antes da viagem a Leninegrado e a evoluo registada no deixou de o entusiasmar. E tinha razo. Barley era outro homem, um homem que evolura muito.
A descrio de Barley, por outro lado, condizia com todos os factos verificveis  disposio de Paddy, desde o encontro  sada do metro e da viagem ao hospital, at  espera no banco e ao inaudvel toque do telefone. Katya estava ao p do telefone quando ele tocou, disse Barley. Ele quase no o ouvira tocar. No admirava que Anstasia no tivesse ouvido nada, concluiu Paddy. Katya devia ter-se literalmente atirado ao telefone mal o ouviu tocar.
A conversa entre Katya e a Ave Azul tinha sido curta, dois minutos no mximo, disse Barley. O que tambm encaixava perfeitamente. Sabia-se que Goethe tinha medo das conversas longas ao telefone.
Dispondo de tantas garantias e da certeza de que Barley estava a cumprir bem a sua funo, era natural que Paddy no tivesse pensado em levar imediatamente Barley para a embaixada e em mand-lo de volta para Londres, preso e amordaado - no entanto foi isto mesmo que algumas vozes defenderam mais tarde. E no meio deste coro, tnhamos obviamente a voz de Clive.
Por essa altura tambm no faziam muito sentido os trs mistrios que apoquentavam Ned - o abrao, a viagem de volta com Barley ao volante, as duas horas que passaram juntos no apartamento. De facto, tnhamos forosamente de entender as respostas de Barley como Paddy as entendeu, curvado sobre a luz baixa que incidia sobre a mesa no interior do camio, o rosto reluzindo do calor. H o rudo de fundo do ar condicionado. Ambos tm auscultadores, entre eles encontra-se um microfone em circuito fechado. Barley murmura a sua histria, em parte para o microfone, em parte para o seu chefe local. Paddy no teria decerto encontrado uma atmosfera to dramtica em todas as noites de aventura que passou na Fronteira Noroeste.
Oculto, Cy ouve a conversa com um terceiro par de auscultadores.
O camio  de Cy, mas ele tem ordens para deixar Paddy fazer as honras da casa.
"Foi nesse momento que eu reparei que ela estava toda tremeliques", diz Barley, emprestando ao interrogatrio um tom de conversa de homens que, evidentemente, faz sorrir Paddy. "No admira, andou excitada toda a semana com esta chamada e de repente a chamada est feita e ela vai-se abaixo. Provavelmente no a ajudou nada, eu estar ali com ela. Se eu no estivesse com ela, creio que ela se a uentaria at chegar a casa. "
"W provvel", concordou Paddy, compreensivo. "Aquilo foi de mais para ela. Ouvir a voz dele, saber que ele estar em Moscovo dentro de dias, as preocupaes que ela tem por causa
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dos filhos - e por causa dele, e dela tambm -, tudo isso foi de mais para ela. "
Paddy compreendeu perfeitamente. Nos seus tempos conhecera umas quantas mulheres dadas a exploses sentimentais e era um homem traquejado no sortido de razes que as levavam ao pranto.
A partir da tudo fluiu naturalmente. O logro volveu sinfonia. Barley tinha feito tudo o que lhe era possvel para a confortar, mas ela estava to mal que se viu obrigado a abra-la e a arrast-la para o
carro e a guiar o carro.
No carro ela continuou a chorar mas quando chegaram a casafi@ estava melhor. Barley fez-lhe um ch e afagou-lhe as mos e s @   X embora quando a achou em condies de digerir o sucedido.
"Bem feito, sim senhor", disse Paddy. E se, ao dizer isto, Paddy faz lembrar um oficial do Exrcito Indiano do sculo xix felicitando os seus homens depois de uma carga de cavalaria absolutamente intil,  unicamente porque ficou impressionado com o relato e porque a sua boca est demasiado perto do microfone.
H por fim a pergunta de Barley, e  a que Cy entra. Ouvida agora, e passadas que foram muitas guas, no h dvida que tal pergunta trai bvios intentos ilcitos. Mas no foi assim que Cy a ouviu, nem to-pouco Paddy. E em Londres s uma pessoa a ouviu com ouvidos desconfiados - Ned, cuja impotncia desaguava agora num profundo desalento. Ned estava a transformar-se no pria da sala de controlo.
"Ah... j me esquecia... ento e a lista das compras? J est pronta?", diz Barley ao despedir-se. A questo no surge isoladamente, mas integrada numa srie de pequenas preocupaes administrativas. "Quando  que me passam a lista das compras para as mos9 J estou a ficar impaciente ... ", diz ele, num tom de rotina.
"Porqu?", diz Cy, uma voz nas sombras. "Bom, no sei, mas no era melhor eu estud-la um pouco antes de a passar a Goethe?"
"No h nada para estudar", diz Cy. "So questes escritas, respostas de sim ou no, e  da maior importncia que voc no conhea nenhuma das perguntas. Obrigado pelo interesse, mas nada feito."
"Ento quando  que ma passam?" "A lista das compras  um assunto a tratar o mais tarde possvel", diz Cy.
Quanto  opinio de Cy sobre o estado de esprito de Barley, h uma pepita que ficou. Ao que consta, foi este o seu comentrio: "Bom, seja como for, com os britnicos, todo o cuidado  pouco. Nunca se sabe o que se passa naquelas cabeas."
Pelo menos nessa noite, Cy tinha alguma razo do seu lado.
"Nem uma m notcia", insistia Ned, enquanto Brock passava a gravao pela terceira vez ou pela trigsima vez.
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Estvamos de novo na nossa Casa da Rssia. Era o nosso refgio temporrio. Era como se tivssemos voltado ao princpio. Anunciava-se a manh, mas estvamos demasiado despertos para pensar em dormir.
"Nem uma m notcia", repetiu Ned. "S boas notcias. 'Estou bem. Em segurana. Dei uma grande conferncia. Vou apanhar o avio. At sexta-feira. Amo-te.' E ento ela desata a chorar."
"Por que no?" retorqui eu, contra a corrente dos meus pensamentos. "Ned, voc nunca chorou de felicidade?"
"Ela chora tanto ou to pouco que ele se v obrigado a arrast-la pelos corredores do hospital. Ela chora tanto ou to pouco que nem consegue guiar. Quando chegam ao apartamento, ela desata a correr  frente dele como se ele no existisse, porque ela est imensamente feliz, pois a Ave Azul j no demora. E Barley conforta-a. Conforta-a por causa de todas as boas notcias que ela acaba de receber." A voz gravada de Barley tinha-se intrometido de novo. 'E ele est calmo. Perfeitamente calmo. Naquela cabea no h a mnima inquietao. Est tudo a andar sobre rodas, Paddy. Tudo a correr bem.  por isso que ela chora.' Claro,  por isso mesmo que ela chora. "
Ned recostou-se e fechou os olhos, enquanto a fidedigna voz de Barley continuava a entrar-lhe pelos ouvidos, via gravador.
"Aquele homem j no nos pertence", disse Ned. "Zarpou." Tal como Ned tinha zarpado, embora num sentido diferente. Ned tinha desencadeado uma grande operao. Agora julgava-se condenado a assistir ao seu inapelvel desmoronamento. Nunca vi em toda a minha vida um homem to isolado, exceptuando talvez eu mesmo.
Espiar  esperar. Espiar  inquietao. Espiar  sermos ns mesmos, ainda mais ns mesmos. As palavras mgicas do extinto Walter e do vivente Ned ressoavam aos ouvidos de Barley. O aprendiz herdara os feitios dos mestres, mas a sua magia era agora mais poderosa do que a deles alguma vez tinha sido.
Barley chegara a alturas a que nenhum deles ascendera. Barley tinha um objectivo definido, os meios para o atingir e aquilo a que Clive teria chamado a motivao, ou determinao, se traduzido por vozes mais brandas. Tudo o que eles lhe tinham ensinado estava agora a dar os seus frutos, agora que Barley se encaminhava calmamente para uma batalha em que os enganaria. No entanto, no era a eles que intrujava, se  que intrujava algum.
As bandeiras deles nada signficavam para ele. Eram bandeiras que podiam flutuar a qualquer vento. Mas no eram elas que traa, se  que traa algum. Ele no era a causa por que ia lutar. Sabia que batalha tinha de vencer e por quem a tinha de vencer. Sabia
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que sacrifcio ia fazer, e estava preparado. No eram eles que traa. Barley limitava-se a ser ele mesmo.
No precisava das tbias etiquetas e dos dbeis sistemas a que eles recorriam. Era um homem sozinho, mas maior, mais grandioso que a soma de todos aqueles que tinham pensado poder control-lo. Todos aqueles que, para ele, eram a pior de todas as armas de5truidoras, porque a sua existncia justificava os alvos que escolhiam.
Brandamente, ou talvez no to brandamente como isso, Barley descobrira a revolta. E a revolta era um fogo. Sentia j o cheiro dos gravetos, ouvia j os galhos crepitando.
S o agora existia. Goethe tinha razo. No havia amanh, porque amanh era a desculpa. Ou agora ou nada, e Goethe, ainda que transformado em nada, continuava a ter razo. Temos de abater os homens cinzentos que existem dentro de ns, temos de queimar os nossos fatos cinzentos e libertar tudo o que h de bom nos nossos coraes, e esse  o sonho de qualquer alma decente, e mesmo - por muito estranho que parea - de alguns homens cinzentos. Mas como, com qu?
Goethe tinha razo e no era por culpa sua ou de Barley que, por um mero acaso, os dois tivessem acabado por formar uma engrenagem perfeita. Com o fulgor que crescia no seu esprito, Barley sentia que o ligava quele improvvel amigo uma afinidade extraordinria. Transbordava de dedicao ao sonho desvairado que Goethe acalentava, aquele sonho que libertava de todas as amarras as foras da sanidade e que punha a nu todas as imundcies que o mundo escondia.
Mas Barley pouco discorria sobre a agonia de Goethe. Goethe estava no inferno e era muito provvel que Barley fosse ter com ele em breve. Hei-de chor-lo quando tiver tempo, pensava. At l, tinha de cuidar dos vivos a que Goethe, to indignamente, tinha feito correr riscos e que, num derradeiro gesto de coragem, tinha conseguido proteger.
Para as tarefas mais prximas, Barley tem de usar os estratagemas dos homens cinzentos. Tem de ser ele mesmo, ainda mais ele mesmo do que alguma vez foi. Tem de esperar. Tem de enfrentar a sua inquietao. Tem de ser um homem de duas caras, interiormente reconciliado, exteriormente um arremedo de si mesmo. Secretamente, interiormente, tem de caminhar nas pontas dos ps, tem de ser um gato vigilante, um gato pronto a assanhar-se; no palco dos outros, tem de interpretar o Barley Blair que eles querem ver, tem de ser rigorosamente a criatura que eles criaram.
Entretanto, o jogador de xadrez estuda os seus lances. O negociador adormecido, sem que ningum se d conta, comea a despertar.
O editor est prestes a realizar o que nunca realizara, est prestes a tornar-se o sereno e frio intermedirio entre a necessidade e o sonho.
Katya sabe, pensa ele. Ela sabe que Goethe foi apanhado. Mas eles no sabem que ela sabe, porque ela no se desmanchou ao telefone.
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E eles no sabem que eu sei que Katya sabe. Em todo o mundo sou eu a nica pessoa, exceptuando Katya e Goethe, que sabe que Katya sabe.
Katya continua livre. Porqu? Porque no lhe levaram os filhos, porque no lhe revistaram o apartamento, porque no puseram Martvey no manicmio, porque no a brindaram com nenhum dos to corteses tratamentos tradicionalmente reservados a senhoras russas que servem de mensageiro a fisicos da defesa sovitica decididos a confiarem os segredos da nao a um editor ocidental arruinado.
Porqu? Tambm eu por enquanto estou livre. No prenderam o meu pescoo a nenhuma parede.
Porqu? Porque eles no sabem que ns sabemos que eles sabem. Por isso eles querem mais. Querem-nos a ns, mas mais do que ns. Podem esperar por ns, porque querem mais. Mas o que  esse "mais"? At onde vai a pacincia deles? Como sab-lo? Toda a gente fala, dissera Ned: no havia hiptese, era mesmo assim. Com os mtodos de hoje toda a gente fala. Com isto queria dizer a Barley que no resistisse caso fosse apanhado. Mas Barley j no estava a pensar em si. Pensava em Katya.
Em cada noite, em cada dia que se seguiu, Barley foi encaixando as peas do puzzIe na sua cabea, limando arestas ao seu plano enquanto aguardava, como todos ns, o prometido encontro com a Ave Azul, o encontro marcado para sexta-feira.
Ao pequeno-almoo, Barley comparecia pontualmente  parada, editor e espio modelo. E todos os dias, todo o dia, era ele a vida e a alma da feira.
Goethe, no posso fazer nada por ti. Nenhum poder na terra te arrancar s garras deles.
Katya, Katya ainda pode ser salva. Os filhos dela ainda podem ser salvos. Ainda que toda a gente fale, ainda que Goethe no consiga ser excepo.
Quanto a mim, nunca tive grandes possibilidades de salvao. Gocthe deu-me a coragem, pensava, enquanto o seu secreto propsito ia ganhando forma dentro dele, e Katya deu-me o amor.
No. Foi Katya quem me deu a coragem e o amor. E continua a dar-mos.
E a sexta-feira decorre to calma como os dias anteriores. Nos ecras so raras as informaes, e Barley vai-se preparando metodicamente para a grande Festa de Lanamento da Potomac & Blair no Esprito de Boa-Vontade e Glasnost, como rezam os nossos arrebca-
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dos convites, em forma de trptico e com papel no cortado, irhpressos h menos de duas semanas pela tipografia dos Servios.
E intermitentemente, com uma casualidade aparente, Barley certifica-se de que Katya continua bem. Telefona-lhe sempre que pode. Conversa com ela e f-la usar a palavra "conveniente" com o um sinal de segurana. Em troca, inclui a palavra "francamente" na sua descontrada contribuio para aquelas conversas informais. No discutem nada de pesado; no falam de amor, nem de morte, nem de grandes poetas alemes. Apenas:
Que tal vai isso? Diga-me francamente, Katya, a feira no a tem esgotado? Que tal vo os gmeos? E o Matvey? Contnua a deleitar-se com o cachimbo?
O que, traduzido, significa amo-te, amo-te, amo-te, amo-te francamente.
Para se certificar melhor da segurana dela, Barley manda Wicklow espreit-la no pavilho socialista. "Ela est bem", informa Wicklow com um sorriso, indulgente com o nervosismo de Barley. "Perfeitamente norinal."
"Obrigado, meu velho", diz Barley. "Agradeo-lhe imenso a iriaada."
Da segunda vez, de novo por ordem de Barley,  o prprio Heriziger quem vai v-Ia. Talvez Barley se esteja a poupar para a noite. Ou talvez no confie nas suas prprias emoes. Mas ela ainda l est, ainda est viva, ainda respira, e j vestiu mesmo o vestido para a festa.
No entanto, durante todo o tempo, mesmo quando regressa mais cedo que o costume ao hotel a fim de se antecipar aos seus convidados, Barley no pra de convocar o seu exrcito privado de factos alterveis e inalterveis, com uma lucidez que faria inveja ao mais experiente e comprometido dos advogados.
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"Gyorgy! Que maravilha!  fantstico! Onde est Varenka?" "Barley, meu amigo, salve-nos, pelo amor de Deus! Ns no gostamos mais do sculo xx do que vocs, ingleses. Vamos fugir dele juntos! Partimos hoje  noite, est bem? Compra voc os bilhetes?"
"Yuri. Meu Deus, esta  a sua nova esposa? Deixe-o. Ele  um monstro."
"Barley! Oua! Tudo est a correr bem! J no temos problemas! Dantes s podamos suspeitar que era tudo uma grande baguna! Agora basta-nos olhar para os jornais para o confirmarmos!"
"Misha! Como  que vai o seu trabalho? Melhor que bem?" " a guerra, meu Deus, a guerra sem quartel, Barley. Primeiro temos de enforcar a velha guarda, depois temos de travar outra Estalinegrado!"
"Leo! Que bom voltar a v-lo! Como est a Sonya?" "Barley, preste ateno! O comunismo no  uma ameaa!  uma indstria parasita que vive  custa dos erros que as bestas do Ocidente cometem!"
A recepo era na sala de espelhos ao cimo das escadas de um velho hotel do centro da cidade. Havia guardas  paisana fora do edifcio, no passeio e mais alguns pairavam no hall e na escadaria e  entrada da sala.
Uma centena de pessoas tinha sido convidada pela Potomac & Biair. Oito tinham aceite, ningum tinha recusado, mas j ali havia cerca de cento e cinquenta. Contudo, Barley preferiu ficar junto  entrada at Katya chegar.
Um bando de raparigas ocidentais irrompeu, escoltado pelos habituais e duvidosos intrpretes oficiais, todos homens. Um corpulento
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filsofo, tambm clarinetista, entrou de seguida, acompanhado pelo seu mais recente namorado.
"Alexander!  faptstico! Que maravilha!" Um siberiano solitrio de nome Andrey, j bastante bebido, precisou de falar a Barley sobre um assunto de natureza vital. "O socialismo de partido nico  um desastre, Barley. Destroou-nos os coraes. Mantenham o vosso pluralismo britnico. Vai publicar o meu romance?"
"Bem, eu no sei nada sobre esse assunto, Andrey", replicou cautelosamente Barley, dando uma olhadela para a entrada. "O nosso editor russo aprecia o seu trabalho, mas no cr que o mercado ingls esteja muito receptivo. Mas estamos a pensar no seu caso."
"Sabe porque  que eu estou aqui hoje?", perguntou Andrey. "Diga l." Outro divertido grupo entrou nesse momento, sem que Katya dele constasse.
"Eu vim para vos exibir a minha melhor roupa. Ns, russos, conhe_ cemos demasiado bem os truques uns dos outros. Precisamos do vosso espelho ocidental. Vocs chegam, passam aqui uns dias, vo-se embora levando gravada a nossa melhor imagem, e isso faz-nos sentir importantes. Se publicaram o meu primeiro romance, a lgica seria publicarem o segundo. "
"No, Andrey, essa no  a lgica, se o primeiro no tiver dado lucro", retorquiu Barley com uma firmeza pouco comum, no exacto momento em que Wicklow, para seu grande alvio, atravessou a sala na direco dos dois.
"J sabem que Anatoly morreu em Dezembro, na priso, aps uma greve de fome? Dois anos depois da fundao desta Grande Nova Rssia de que hoje desfrutamos?", prosseguiu Andrey, servindo-se de mais uma enorme dose de whisky, fornecido por cortesia da embaixada americana, em sinal de apoio a uma rssia mais sbria.
" claro que j ouvimos falar disso", atalhou Wicklow apaziaguadoramente. "Foi horrvel."
"Ento porque  que no publica o meu romance?" Abandonando Wicklow  sua sorte, Barley estendeu os braos e correu, radiante, para a entrada. Natalie, uma soberba sexagenria de discreta beleza, acabava de chegar. Caram nos braos um do outro.
"Ento qual h-de ser hoje o nosso assunto de conversa, Barley? James Joyce ou Adrian Mole? O que  que lhe aconteceu para ter ficado subitamente com esse ar to inteligente? Ah, j sei,  por se ter transformado num capitalista."
Houve ento uma debandada de metade dos presentes para o canto mais longnquo da sala, o que levou os guardas alarmados a assomarem  porta de entrada. O tumulto das conversas esbateu-se por momentos, mas logo se voltou a impor. O bar acabara de abrir.
Mas no havia ainda sinais de Katya.
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"Hoje, sob a perestroika, tudo  muito mais fcil", dizia Natalie, com o seu irresistvel sorriso. "As viagens ao estrangeiro j no so problema. A nica declarao que temos de fazer aos nossos burocratas resume-se a uma descrio daquilo que pensamos de ns prprios. Para ir  Bulgria, por exemplo: os blgaros, como  natural, precisam de nos conhecer antes da nossa chegada. Devem estar avisados do que os espera. Precisam de saber se somos pessoas inteligentes, medianas ou simplesmente normais. Os blgaros precisam de se preparar com antecedncia, e mesmo de ter tempo para pequenos aperfeioamentos. Precisam de saber se somos calmos ou excitveis, pouco ou muito imaginativos. Depois de respondermos a estas questes simples e a mais um milhar de outras do mesmo gnero, passamos a assuntos mais importantes, tais como o endereo e o nome completo da nossa av materna, a data do seu falecimento, o nmero da sua certido de bito e, caso eles achem conveniente, o nome do mdico que a passou. Como v, os nossos burocratas esto a fazer todos os possveis para introduzir, rapidamente, uma regulamentao nova e moderada, para nos mandarem a todos, mais aos nossos filhos, de frias para o estrangeiro. Barley, de quem  que voc anda  procura de cabea no ar? Ser que eu perdi o meu bom aspecto, ou j est aborrecido com a minha conversa?"
Barley deu uma gargalhada e, esforando-se por manter os olhos nela, perguntou: "E o que  que voc lhes respondeu?"
"Bem, disse-lhes que era muito inteligente, calma, discreta mas divertida e que os blgaros ficariam encantados comigo. O que os burocratas querem  testar a nossa determinao. A esperana deles  que o facto de termos de enfrentar tantos departamentos nos esfrie a coragem e nos decida a ficar por c. Mas as coisas esto a melhorar. Alis, tudo est a melhorar um pouco. Talvez voc no acredite, mas a perestroika funciona para ns, no  apenas fachada para estrangeiro ver. "
"Como est o seu co, Barley?", murmurou uma voz masculina e triste junto a Barley. Era Arkady, imi escultor no oficial, acompanhado por uma bela namorada no oficial.
"Eu no tenho nenhum co, Arkady. Porque  que pergunta?" "Porque a partir deste momento  mais seguro falarmos do nosso co do que dos nossos amigos, se  que me fao entender."
Barley virou a cabea para seguir o trajecto do olhar de Arkady e deu com Alik Zapadny, no extremo oposto da sala, conversando com Katya. Pelo ar dos dois, devia ser conversa sria.
"Ns, os moscovitas, falamos hoje de uma maneira demasiado pengosa", continuou Arkady, de olhos fixos em Zapadny. "A nossa excitao tornou-nos imprudentes. Os informadores vo ter uma boa colheita no prximo Outono, mesmo que mais ningum a tenha. Pergunte-lhe. Dir-se-ia que ele est no auge da carreira."
"Alik, seu velho malandro, com que histrias est a massacrar esta pobre rapariga?", perguntou Barley, enquanto abraava Katya, e,
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logo a seguir, Zapadny. "Eu de l do fundo at a vi enrubescer. Cuidado com ele, Katya. O ingls dele  quase to bom como o seu, mas muito mais fluente. Como est voc, Katya?"
"Ah, obrigada", respondeu calmamente Katya. "Estou muto bem".
Ela trazia o mesmo vestido que tinha usado no encontro no Odessa. Estava retrada, mas segura de si, embora o seu rosto revelasse a ansiedade torturada da perda. Dan Zeppelin e Mary Lou tambm estavam no grupo.
"Na realidade, estvamos a ter uma conversa particularmente interessante acerca de direitos humanos, Barley", explicou Zapadny, fazendo um gesto circular com o copo, como se estivesse a fazer uma colecta. "No  verdade, Mr. Zeppelin? Ns ficamos sempre imensamente agradecidos aos ocidentais, quando eles nos ensinam como devemos comportar-nos com os criminosos, no sei se est a ver! Mas ento qual  a diferena, pergunto eu, entre os pases que encarceram algumas ovelhas ranhosas e aqueles que deixam  solta os seus gangsters? Na verdade, penso que acabei de encontrar uma boa base de negociao para os lderes soviticos. Amanh de manh, vamos anunciar ao chamado Comit de Vigilncia de HeIsnquia que no queremos mais nada com eles, enquanto a Mafia americana no estver atrs das grades. Que acha, Mr. Zeppelin? Ns soltamos os nossos, vocs prendem os vossos.  uni pacto leal, parece-me."
"Quer uma resposta educada ou uma resposta verdadeira?", atirou Dan, sobre o ombro de Mary Lou.
Outro grupo poliglota de convidados irrompeu pelo hotel, seguido, aps breve pausa teatral, por nada mais nada menos do que o grande Sir Peter Oliphant em pessoa, rodeado por um squito de carregadores russos e ingleses. O barulho cresceu, a sala encheu-se. Trs correspondentes ingleses com um ar adoentado, inspeccionaram o bar desfalcado e desandaram. Algum abriu o piano e comeou a tocar uma cano da Ucrnia. Havia uma mulher que cantava bem e algumas outras juntaram-se-lhe num coro.
"No, Barley, eu no sei o que o aterroriza", estava a responder Katya, ante a surpresa de Barley, que julgava no ter perguntado coisa nenhuma. "Estou. certa de que voc  muito corajoso, como, alis, todos os ingleses."
No calor daquela sala e no turbilho do momento, a excitao de Barley tinha-se bruscamente voltado contra ele. Sentia-se embriagado, mas no de lcool, porque durante toda a noite no fizera seno embalar um nico whisky no copo, esquecendo-se de beber aquela coisa j requentada.
"Talvez no haja afinal revelao nenhuma", arriscou, falando, no s para Katya, como tambm para uma srie de caras desconhecidas. "Talvez no haja afinal nenhum talento no fundo dos bas." Toda a gente ficou  espera, Barley tambm. Tentava olhar para todos eles, mas os seus olhos s viam Katya. O que  que ele tinha
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estado a dizer? O que  que eles tinham estado a ouvir? Todos aqueles rostos continuavam a fit-lo, mas no havia neles qualquer luz, nem mesmo no de Katya; o que neles havia era apenas interesse. Prosseguiu. "Todos ns, durante anos e anos, imaginmos que havia grandes artistas russos  espera de serem descobertos". Vacilou. " verdade, no ? Todos ns imaginmos grandes romances picos, grandes peas de teatro. Grandes pintores, banidos, trabalhando em ateliers secretos. Stos abarrotando de coisas belssimas, naturalmente ilegais. E com os msicos, o mesmo, no  verdade? Quer dizer, durante anos e anos, fartmo-nos de falar sobre isso. De falar e de sonhar. O prolongamento secreto do sculo xix. 'E quando o degelo vier, eles surgiro de sob o gelo para nosso deslumbramento', dizamos ns uns aos outros. Pois ento, onde diabo esto todos esses gnios? Tero morrido enregelados? Talvez a represso tenha afinal resultado.  tudo quanto tenho a dizer."
Seguiu-se um silncio de estupefaco antes que Katya viesse em seu auxlio. "O talento russo existe e sempre existiu, Barley, mesmo nas piores crises.  indestrutvel", disse ela como uma rstea da sua antiga firmeza. "Talvez tenha de adequar-se primeiro s novas circunstncias, mas em breve acabar por se exprimir de forma brilhante. Estou certa de que era isto que voc queria dizer."
Henziger entretanto faz o seu discuro.  uma obra-prima de hipocrisia inconsciente. "Que a experincia pioneira da Potornac & Blair constitua um modesto contributo para a nova grande era do entendimento Leste-Oeste!", declara, inchado de convico. A sua voz eleva-se e com ela o seu copo. Ele  o comerciante honesto, ele  todos os americanos decentes com o corao no stio certo. E no h dvida que ele  precisamente aquilo que pensa que , porque o mau actor que h nele  uma capa facilmente detectvel. "Contribuamos para a nossa mtua riqueza!", grita ele, erguendo o copo ainda mais alto. "Liberterno-nos uns aos outros! Faamos juntos os nossos negcios, conversemos e bebamos juntos, tomemos este mundo um lugar melhor. Senhoras e senhores -  vossa sade,  sade da Potomac & Blair,  sade do nosso proveito comum - e  sade da perestroika! Amen!"
Gritam por Barley. Spikey Morgan comea, Yuri e Alik Zapadny apoiam, e todos os velhos habitus, obviamente dentro da jogada, desatam a gritar, "Barley! Barley!" Num instante o salo inteiro est a gritar por Barley, alguns nem sabem porqu mas gritam, e por um momento ningum sabe onde Barley se encontra. Mas, de repente, ei-lo que sobe para cima da mesa do bar, empunhando um saxofone emprestado. Comea a tocar "My Furiny Valentine", o tema que sempre tocara em todas as feiras do livro de Moscovo, enquanto Jack Henziger o acompanha ao piano, no seu estilo inconfundvel de Fats Waller.
Os guardas que estavam  porta da sala e os do lia]] instalam-se nas escadas, enquanto as primeiras notas do canto de cisne de Barley
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procuram o caminho do mais puro som e ganham depois um vigor magnfico.
"Pelo amor de Deus, Barley, vamos comer ao novo restaurante indiano", protesta Henziger, j na rua, sob o olhar enfastiado dos toptuny. "Traga a Katya consigo! Reservmos uma mesa!"
"No posso, Jack. J estamos comprometidos. Temos um encontro marcado h j muito tempo"
Henziger est s a fazer teatro. "Ela precisa de assistncia", acaba de lhe confiar Barley. "Vou lev-la daqui e convid-la para uma ceia sossegada num stio qualquer".
Mas Barley no levou Katya a cear na noite de despedida, como o confirmaram os irregulares antes de serem dispensados. E desta feita foi Katya, e no Barley, quem tomou a iniciativa. Levou-o ao local que todos os rapazes e raparigas das cidades russas conhecem e que fica situado precisamente no topo de qualquer bloco de apartamentos de qualquer dessas metrpoles. No h nenhum russo da gerao de Katya que no inclua esse cenrio nas memrias dos seus primeiros amores. E um tal stio existia tambm ao cimo das escadas do prdio de Katya, entre o ltimo lano e as guas furtadas, embora fosse mais procurado no Inverno do que no Vero, porque inclua o infecto e ressumante depsito das guas quentes bem como as fumegantes canalizaes, consertadas a golpes de fita adesiva preta.
Mas antes de subirem, ela teve de ir inspeccionar Matvey e os gmeos e certificar-se de que estavam bem e em segurana, enquanto Barley esperava no patamar. Ento, conduziu-o pela mo ao longo dos diversos lanos de escada at chegarem ao ltimo, que era de madeira. Ela tinha uma chave que servia na porta enferrujada, a qual ordenava a todos os transgressores que no cassem na tentao. E depois de ter aberto a porta e tornado a fech-la, conduziu-o por entre as vigas at  pequena clareira de cho duro onde tinha preparado uma cama improvisada, com uma vaga vista para as estrelas atravs de uma clarabia imunda e os gorgolejos das canalizaes e o fedor de roupa a secar por companhia.
"A carta que voc deu a Landau foi desviada", disse ele. "Acabou nas mos dos nossos agentes. Foram eles que me mandaram vir ter consigo. Lamento imenso que tenha sido assim."
Mas j no havia tempo para nenhum deles ficar chocado fosse com o que fosse. Ele pouco lhe tinha contado sobre o seu plano e nada acrescentou. Ficou entendido entre os dois que ela j sabia at demais. E, alm disso, eles tinham assuntos mais importantes a tratar, pois foi tambm nessa noite que Katya contou a Barley tudo quanto, mais tarde, restou do conhecimento que ele pde ter dela.
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E ela confessou o seu amor por ele em termos suficientemente simples para que Barley suportasse a separao que ambos sabiam certa e imediata.
No entanto Barley no abusou da hospitalidade dela. No queria semear a ansiedade entre os homens da frente, nem entre os que estavam em Londres. Regressou ao Mezh por volta da meia-noite, a tempo de tomar uma ltima bebida com os rapazes.
"Ah, Jack, o Alik Zapadny convocou-me para a tradicional despedida formal aos velhadas.  amanh  tarde", confidenciou a Henziger enquanto saboreava o ltimo whisky dessa noite no bar do primeiro andar.
"Quer que eu v consigo?", perguntou Henziger.  que, tal e qual como os russos, Henziger no alimentava iluses acerca das lamentveis ligaes de Zapadny.
Barley sorriu tristemente. "Voc anda nisto h pouco tempo, Jack. A despedida  s para as velhas glrias, os que sobram dos dias em que no havia esperana."
"E a que horas  isso?", perguntou Wicklow, sempre prtico. "Acho que ele disse que era s quatro. Mas  uma hora muito estranha para beber um copo. No, foi mesmo s quatro que ele disse. "
Ento, desejou a todos uma noite santa e subiu para o cu no elevador, o qual, no Mezh,  uma gaiola de vidro que lentamente escorrega ao longo de um cabo de ao, para secreta inquietao de muitas almas honestas que o esperam c em baixo.
Era a hora do almoo e, depois de tantas noites em claro e de tantos alvoreceres em sono, era de certo modo indecente que a bomba casse em cheio na hora do almoo. Mas no havia dvida: era mesmo uma bomba. Uma bomba entregue por mo prpria. Uma bomba dentro de um envelope amarelo dentro de uma pasta metlica fechada  chave. O esqueltico Johnny, da sucursal da Agncia em Londres, irrompeu pela sala de controlo com a pasta. Desde a Em- baixada, que ficava do outro lado da praa, at s nossas instalaes, Johnny viera acompanhado por guardas. Atravessou a correr o primeiro piso e a correr subiu a pequena escada que conduzia ao gabinete de comando. S quando l chegou se apercebeu de que estvamos todos no salo em pau-rosa de Sheriton a comer sanduches e a beber caf.
Entregou a pasta a Sheriton e, cumprindo o seu papel de mensageiro, adoptou uma atitude de teatral expectativa, debruando-se sobre Sheriton enquanto este lia em primeiro lugar a nota explicativa, que logo meteu no bolso, e depois a mensagem propriamente dita.
Depois, debruou-se sobre Ned enquanto Ned lia a mensagem. S quando Ned me passou a carta  que Johnny pareceu decidir que j a tinha lido o suficiente: era uma intercepo de um texto em cdigo,
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transmitido pelo Exrcito Sovitico a partir de Leninegrado, interceptado na Finlndia pelos americanos e descodificado na Virgnia por um banco de computadores to poderoso que seria capaz de iluminar Londres durante um ano inteiro.
De Leninegrado para Moscovo, cpia para Saratov.
O professor Ykov Savelycv est autorizado a passar um fim-de-semana de descanso em Moscovo, na sequncia da sua conferncia na Academia Militar de Saratov, a realizar na sexta-feira.  favor tratar dos transportes e de outras formalidades.
"Pois muito obrigado, senhor funcionrio da administrao de Leninegrado", mumurou Sheriton.
Ned pegara uma vez mais na mensagem e relia-a. De todos ns, parecia ser o nico que no tinha ficado impressionado.
"E foi s isto que eles apanharam?", perguntou. "No sei, Ned", retorquiu Johnny, pouco preocupado em esconder a sua hostilidade.
"Aqui diz 'um sobre um'. O que  que isto quer dizer? Pergunte se h mais algumas coisa. Se h, talvez no fosse m ideia voc descobrir o que  que eles pescaram mais, se  que vale a pena". Esperou at Johnny ter abandonado o gabinete. "Perfeito", comentou acidamente. "Que banalidade, meu Deus, at parece que estamos a tratar com os alemes."
E para ali ficmos  espera, debicando com um ar ausente as nossas sanduches. Sheriton tinha enfiado as mos nos bolsos e, de costas para ns, observava o trnsito silencioso para l da janela de vidros fumados. Vestia um casaco preto de l grossa. Atravs da vidraa interior, podamos observar Johnny falando para um dos telefones supostamente seguros. Desligou e vimo-lo atravessar a sala, de regresso ao gabinete de Sheriton.
"Zero", anunciou. "O que  isso de zero?", perguntou Ned. "'Um sobre um' significa um sobre um.  um solo. Um solo sem acompanhamento. "
"Nesse caso trata-se de um bambrrio, no  verdade?", sugeriu Ned.
"Dum solo", repetiu obstinadamente Johnny. Ned contornou Sheriton, que continuava de costas para ns. "RusselI, tente ver o que est por trs disto. Esta intercepo surge completamente isolada sem que se perceba porqu. Caiu do cu sem mais nem menos. Francamente, no me cheira a boa coisa. O que eles esto a ver  se ns mordemos a isca."
Agora era a vez de Sheriton proceder a um segundo exame da folha. Quando finalmente falou, ps um ar profundamente enfastiado: era evidente que atingira os limites da pacincia.
"Ned, os criptgrafos deram-me todas as garantias de que a intercepo proveio de um monte de merda militar de qualidade muito inferior, produzido numa cagadeira do exrcito, colheita 1921. Ned, j
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ningum trapaceia ningum dessa maneira. J ningum procede assim. No  a Ave Azul que se est a despistar, voc  que est. "
"Talvez seja por isso mesmo que eles recorreram a esse processo! No era precisamente isso que voc e eu provavelmente faramos? Atacar de maneira que ningum espera?"
"Pois, talvez fizssemos isso", concedeu Sheriton, como se o assunto lhe interessasse muito pouco. "Voc meteu por esse caminho, no  agora que vai mudar de ideias."
Clive no seu pior. "Ned, ns no vamos pedir ao Sheriton que suspenda a operao com o argumento de que est tudo a correr bem", disse ele com uma vozinha aucarada.
"Com o argumento de que no meio disto tudo h uns duendes a pregarem-nos partidas", corrigiu-o Sheriton, cada vez mais irritado, ao regressar ao gabinete num jeito lento e taciturno. "Com o argumento de que tudo o que nos corre bem esconde uma conjura do Krernlin, e de que sempre que lixamos tudo estamos a provar a nossa integridade. Ned, a minha Agncia esteve quase s portas da morte por causa dessa doena. E vocs tambm. No  por a que ns vmos hoje. Esta operao  minha e quem se lixa sou eu."
"A operao  sua, mas o homem  meu", retorquiu Ned, "Perdemo-lo. Tal como perdemos a Ave Azul."
"Claro, claro", disse Sheriton com uma afabilidade gelada. "Sem dvida."
Olhou sem a mnima simpatia para Clive. "Ento, chefe, o que  que o senhor acha?"
Clive tinha os seus prprios processos para dar uma no cravo e outra na ferradura, todos eles j devidamente testados. "Russell - se me permite que o trate assim -, Ned. Parece-me que ambos esto a ser um tanto ou quanto egotistas. No se esqueam que ns somos um servio. Cada um de ns est integrado numa organizao que nos transcende. Foram os nossos chefes - e no ns prprios isoladamente - que deram a beno a esta operao. H nisto tudo um poder, uma vontade inerentes  organizao, que so mais fortes do que qualquer um de ns."
Uma vez mais te enganas,pe"nsei eu. Esse poder, essa vontade, so menos fortes do que todos ns. O que Clive acabava de dizer era um insulto s capacidades de cada um de ns@ excepto talvez de Clive que, por isso mesmo, precisava de dizer aquilo.
Sheriton voltou  carga, mas mantendo um tom razoavalmente cordial. "Ned, voc faz alguma ideia do que acontecer em Washington e em Langley se eu fizer abortar a operao agora?  capaz de imaginar o coro de risadinhas de hiena que vai ressoar do outro lado do Atlntico, na Defesa, no Pentgono, e entre os neanderthais, se eu fizer uma coisa dessas?  capaz de imaginar com que olhos tem sido visto at agora o material da Ave Azul?" Aparentemente sem qualquer rancor, apontou para Johnny que, sentado numa cadeira, distribua o seu olhar esbugalhado pelos dois contentores    . " capaz de
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imaginar o relatrio que este tipo, este Judas, teria de fazer? Ns temos andado a pregar a moderao, Ned, no sei se se deu conta. E depois de tanto pregarmos a moderao  que voc me vem dizer para atirar. a Ave Azul aos chacais?! "
"O que eu quero dizer, Sheriton,  que no lhe d a lista das compras."
Sheriton inclinou o ouvido como se fosse ligeiramente surdo. "A quem  que no dou a lista, Ned? A Barley ou ao  Ave Azul?"
"A nenhum deles. Aborte." S nesse momento Sheriton ficou realmente fora de si. Tinha estado a preparar-se para um tal momento e ei-lo que chegava. Postou-se frente a Ned, a pouco mais de meio metro dele, e, repentinamente, abriu furiosamente os braos, levando atrs deles as abas do fofo casaco de l, com tanta ou to pouca fora que, por um momento, me fez lembrar um morcego demasiado gordo acometido de uma ira maligna.
"Pois muito bem, Ned! Vejamos qual poderia ser o nosso pior cenrio, cozinhado  sua moda. Certo? Muito bem. Suponhamos que mostramos a lista das compras a Ave Azul e que ele afinal  o trunfo deles e no o nosso. Ser que eu considerei essa possibilidade? Ned, fartei-me de considerar essa possibilidade. Se a Ave Azul  deles e no nossa, se Barley  deles, se a rapariga  deles, se todos ou algum dos jogadores falhar, o mximo que pode acontecer  a lista das compras mostrar muito bem mostrado tudo o que se passa no orifcio anal dos Estados Unidos da Amrica." Ps-se a andar de um lado para o outro. "Mostrar aos soviticos aquilo que nos foi oferecido pelo homem deles. Portanto, eles ficaro a saber o que  que ns sabemos.
O que j  mau. Os soviticos ficaro tambm a saber o que  que ns no sabemos, e os porqus de no o sabermos. O que tambm  mau, mas ainda h pior. Inteligentemente analisada, a lista das compras pode revelar-lhes as lacunas da nossa mquina de obteno de informaes; se a anlise for nvulgarmente inteligente, revelar as lacunas do nosso arsenal, um arsenal grotesco, miseravelmente ridculo, incompetente e caricatamente excedentrio. Porqu? Porque finalmente ns concentramo-nos naquilo de que temos medo, e isso  o que ns no podemos fazer e eles podem. Este  o lado desagradvel desta coisa toda. Ned, eu sei perfeitamente quais so os saldos possveis. Sei quais so os riscos. Sei o que podemos ganhar com a Ave Azul e o que ele nos pode custar se isto der para o torto. Se perco,  uma desiluso. Sei que posso perder. No me impressiona. Se estamos errados,  uma merda completa. J sabamos que assim era quando nos encontrmos na Ilha Fantasma e agora sabemo-lo melhor porque agora  que a guerra comeou. Mas este no  o momento para comearmos a hostilizar-nos uns aos outros, a menos que tenhamos uma razo muito, muito forte!"
Abeirou-se uma vez mais de Ned. A "Ave Azul  sncera, Ned! Lembra-se? As palavras so suas. Essas palavras fizeram-me gostar de si!
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E continuam a fazer-me gostar de si!-A Ave Azul conta-nos a verdade impoluta, a verdade tal e qual como ela a conhece. E os mopes dos meus chefes vo levar com ela no cu ainda que isso lhes custe os tomates. Est a ouvir-me, Ned? Ou ser que j o pus a dormir?"
Mas Ned no se deixava influenciar pela sanha de Sheriton. "No lhe d a lista, Russe11. Ns perdemo-lo. Se lhe der alguma coisa, d-lhe fumo. "
"Fumo? O que  que quer dizer com isso? Pr o Barley  defesa? Admitir que a Ave Azul no presta? Est a brincar comigo? D-me a prova, Ned! No me venha com palptes! D-me a merda da prova! Toda a gente em Washington me diz que a Ave Azul  a Bblia Sagrada, o Taimude e o Coro! E agora vem-me voc dizer para lhe dar fumo! Foi voc que nos meteu nisto, Ned! Agora no fuja do tigre ao primeiro arranho!"
Ned reflectiu por um momento no que Sheriton acabava de lhe dizer. Enquanto isso, Clive reflectia sobre o caso de Ned. Finalmente, Ned encolheu os ombros como que para dizer, talvez, que tanto fazia. Depois, regressou  sua secretria, sentou-se e para ali ficou sozinho, aparentemente lendo papis. De repente pensei se ele tambm no teria uma Hannah, ele ou todos ns, que o man~ agarrado ao leme.
Talvez fosse verdade que a VAAP no tinha salas pequenas ou talvez Alik Zapadny, depois de tantos anos na priso, tivesse uma compreensvel averso a tudo o que fosse divises minsculas.
Fosse como fosse, a sala que ele tinha escolhido para o embate parecia a Barley capaz de albergar o baile de um regimento, e a nica coisa pequena que nela havia era o prprio Zapadny, agachado na extremidade de uma longa mesa como um rato no meio de uma jangada, disparando olhares dardejantes para o seu visitante, enquanto este avanava pelo soalho de tacos na sua direco, os braos enormes balanando junto ao corpo, os cotovelos um pouco erguidos, e uma expresso no rosto que nem Zapadny, nem talvez qualquer outra pessoa, lhe tinha visto alguma vez: uma expresso que no era contrita, nem obscura, nem intencionalmente tola, mas que revelava uma firmeza de intenes quase ameaadora.
Zapadny tinha disposto uns quantos papis  sua frente, e uma pilha de livros ao lado dos papis e um jarro de gua e dois copos. E era evidente que queria dar a impresso de que o visitante o tinha apanhado no cumprimento dos seus afazeres; assim, no teria de o enfrentar a sangue-frio, sem adereos ou a proteco dos seus inmeros assistentes.
"Barley, meu caro amigo, olhe que  muito simptico da sua parte passar por c para despedir-se, deve estar to ocupado como eu, fao ideia", comeou Zapadny, falando a uma velocidade incrvel. "Quer-
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-me parecer que se a nossa indstria editorial continua a expandir-se assim, no temos outra hiptese seno empregar mais uma centena de pessoas e muito provavelmente ver-nos-emos na obrigao de procurar escritrios maiores." Com no pouco espalhafato continuou a mexer a remexer nos seus papis, tendo mesmo assim tempo de puxar uma cadeira para Barley, num gesto que, para ele, seria representativo da antiga cortesia europeia. Mas Barley, como de costume, preferiu ficar de p. " para mim uma honra incalculvel poder oferecer-lhe uma bebida nas nossas instalaes, a uma hora em que o sol ainda nem chegou ao lais da verga, como ns dizemos, mas sente-se, Barley, sente-se, conversemos descontraidamente por uns momentos" - ergueu as sobrancelhas e consultou o relgio -, "meu, Deus, devamos ter um ms disto, e no apenas cinco dias! Ento que tal vai o Caminho-de-Ferro Transiberiano? Quer dizer, no vejo nenhum problema bsico nessa histria, desde que a nossa posio seja respeitada, e as regras do jogo integralmente observadas por todas as partes contraentes. Que tal os finlandeses? Demasiado gananciosos9 Ou o ganancioso  o seu Mr. Henziger? O que no h dvida  que ele  uma criatura obstinada."
Deu de novo com o olhar de Barley e o seu desconforto aumentou. Debruado sobre ele, Barley no tinha nada o ar de quem queria discutir o Caminho-de-Ferro Transiberiano.
"Para lhe dizer a verdade, Barley, parece-me um tanto ou quanto estranho que tenha insistido to peremptoriamente em encontrar-se comigo rigorosamente a ss", prosseguiu Zapadny cada vez mais desesperado. "Afinal este assunto foi j encaminhado sem quaisquer problemas para Mrs. Korneyeva. Ela e a equipa dela so directamente responsveis pelo fotgrafo e por todos os arranjos prticos."
Mas Barley tinha tam- bm um discurso preparado, com a diferena de que o nervosismo de Zapadny no o tinha contagiado. "Alik", disse ele, continuando a rejeitar o convite para se sentar, "esse telefone funciona?"
"Claro que funciona." "Oia. Preciso de trair o meu pas e estou com pressa. E o que eu quero  que voc me ponha em contacto com as autoridades competentes, porque h determinadas coisas que tm de ser analisadas e combinadas previamente. E no me venha dizer que no sabe a quem  que tem de recorrer. Limite-se a fazer o que lhe peo, ou ainda fica muito mal visto pelos porcos que pensam que so os seus donos".
A tarde ia a meio, mas uma obscuridade invernosa pairava sobre Londres. Uma luz crepuscular banhava o pequeno escritrio de Ned na Casa da Rssia. Estava recostado na sua cadeira, com os ps em cima da secretria, os olhos fechados e um sombrio whsky ao alcance
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da mo - e era fcil de ver que aquele no era o primeiro whsky do dia, longe disso.
"Ento? O Clive Sem ndia ainda est enclausurado com os nobres de Whitehall", perguntou-me com uma frivolidade cansada.
"Est na Embaixada Americana a tratar da lista das compras." "Pensei que nenhum britnico estava autorizado a cheirar essa lista."
"Por enquanto esto a discutir questes gerais. Sheriton tem de assinar uma declarao nomeando Barley cidado honorrio americano. E Clive tem de acrescentar uma meno da sua lavra."
"Dizendo o qu?" "Que Barley  um homem honrado, uma pessoa idnea e decente."
"Foi voc que lhe fez o rascunho?" "Claro." "Que parvo que voc ", disse Ned num tom vagamente reprovador. "Acabam por enforc-lo." Recostou-se de novo e fechou os olhos.
"A lista das compras vale assim tanto?", perguntei. Por uma vez, tinha a sensao de encarar alguma coisa com uma viso mais prtica do que a de Ned.
"Oh, a lista das compras vale tudo o que h no mundo", respondeu Ned, indiferente  questo. "Se h nisto tudo algo que valha alguma coisa, s pode ser essa lista."
"Importa-se de me dizer porqu?" Eu no tinha sido autorizado a partilhar dos segredos mais profundos do material a Ave Azul, mas sabia que se os tivesse partilhado no entenderia rigorosamente nada. Porm, Ned, o conscencioso Ned, tinha feito aulas extra. Tinha procurado as explicaes dos nossos mestres, tinha almoado com os nossos maiores cientistas da defesa no Athenaeum, a fim de com eles dissecar bem o caso.
"A confuso total", retorquiu com um ar de desdm. "A confuso mutuamente garantida. Ns espiamos os brinquedos deles. Eles espiam os nossos. Vigiamos as provas de pontaria uns dos outros, mas nenhuma das partes sabe para que alvos a outra aponta. Se eles apontam para Londres, ser que vo acertar em Londres ou acabaro por atingir Birmingham? O que  o erro? O que  que  e no  deliberado? Quem  que est mais perto da probabilidade zero?" Nesse momento, Ned apercebeu-se do meu espanto, o que o deixou perfeitamente inchado. "Ns vigimos os ensaios que eles fizeram com os ICBM, na pennsula de Kamchatka. A os ICBM acertavam no alvo. Mas conseguiro eles acertar num silo Minuteman? Ns no sabemos, eles tambm no. Muito simplesmente porque os armamentos mais poderosos - tanto os de um lado, como os do outro - nunca foram testados em condies de guerra. As trajectrias dos testes no so as que eles ho-de usar quando a festa comear. A terra, Deus a abenoe, no  um globo perfeito. Alis, com a idade que ela tem,
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como poderia s-lo? A densidade da velhota  varivel. Tal como a sua fora de gravitao quando as coisas voam por cima dela, como msseis e ogivas. Por isso  preciso levar em conta os desvios. Os nossos especialistas em balstica tentam compens-los nas suas calibragens. Goethe tambm tentou. Os nossos tm aproveitado os dados dos satlites de observao da terra e talvez tenham mais xito do que Goethe. Ou talvez no. S ficaremos a saber quando o abenoado balo for pelos ares, tal como eles, donde resulta que ningum ficar a saber, porque s se pode fazer a experincia uma vez." Espreguiou-se com um prazer bvio. O assunto parecia agradar-lhe. "De maneira que os campos dividem-se. Os falces gritam, 'Os soviticos atingiram uma preciso extrema! Conseguem enrabar uma mosca a dez mil milhas de distncia!' E as pombas respondem, 'Ns no sabemos o que os soviticos so capazes de fazer, e os soviticos no sabem o que eles prprios so capazes de fazer. E quem no sabe se a sua espingarda funciona, no vai certamente disparar primeiro.  por causa desta incerteza que ns nos portamos bem', dizem as
pombas. Mas este no  um argumento capaz de satisfazer a mentalidade prosaica dos americanos, porque a mentalidade prosaica dos americanos  completamente avessa a conceitos obscuros ou vises grandiosas. E ainda menos ao nvel das muito prosaicas coisas militares. Ora acontece que, o que Goethe diz, constitui uma heresia ainda maior. O que ele diz  que no h outra coisa seno incerteza. E eu concordo inteiramente com ele. Por isso, os falces odiaram-no e as pombas ficaram to contentes que, no meio da festa, at se penduraram dos cadelabros." Bebeu uma vez mais. "Se ao menos Goethe tivesse ajudado o pessoal da balstica... Nesse caso, tudo teria corrido melhor", disse ele num tom de censura.
"E a lista das compras?", repeti. Com um ar bizarro, Ned inspeccionou o contedo do copo. "Meu caro Palfrey, ns estudamos os alvos e a maneira de os atingir, baseando-nos naquilo que cremos saber acerca do outro lado. E vice-versa. Ad infintum. Consolidamos a proteco dos nossos silos? Que interessa isso, se o inimigo no consegue atingi-los? Transformamo-los em fortalezas inexpugnveis - se  que sabemos como - ao preo de bilies? E na realidade j estamos a fazer isso, ainda que pouco se fale no assunto. Ou protegemo-los de uma forma imperfeita com a SDI, a um preo ainda mais alto? A resposta depende de quais so os nossos preconceitos e de quem assina os nossos cheques. A resposta variar conforme formos fabricantes ou meros cidados com os impostos para pagar. Pomos os nossos msseis em comboios e ou em auto-estradas ou estacionamo-los em veredas no meio do campo, que  a ltima moda? Ou defendemos que isso  tudo merda e que o melhor  mand-los para o inferno?"
"Ento estamos no fim ou no princpio?", indaguei. Ned encolheu os ombros. "Mas alguma vez estivemos no fim? Se voc ligar a televiso, o que  que v? Os lderes dos dois lados tro-
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cando abraos muito afectuosos. At choram! Esto cada vez mais parecidos uns com os outros. Hurra, acabou o pesadelo! Tudo tretas. Veja a coisa por dentro que logo se apercebe de que o quadro nem retocado foi. "
"E se eu desligar a televiso? O que  que vejo?" Ned j no sorria. Longe disso. O seu rosto bondoso estava mais srio do que nunca, embora a sua raiva - se  que era raiva -
parecesse dirigir-se unicamente contra si.
"Se desligar a televiso, v-nos a ns. Escondidos atrs das nossas mscaras cinzentas. Dizendo uns aos outros que estamos a defender a paz".
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A nebulosa verdade de que Ned falava foi-se desenhando lentamente e atravs de uma srie de imagens distorcidas, como geralmente acontece no nosso supramundo secreto.
Avisavam repetidamente os nossos ecrs que s seis horas da tarde Barley fora visto a sair dos escritrios da VAAP. Uma rajada de inquietao varreu a sala de controlo, j que era muito possvel que Barley estivesse bbedo, tanto mais que Zapadny era um aficionado dos copos e quem bebia uns vodkas de despedida com ele, arriscava-
-se a despedir-se para sempre de toda a vodka do mundo. Barley apareceu  porta da rua e com ele Zapadny. Abraaram-se com uma afectuosidade teatral na soleira da porta, Zapadny muito afogueado e um tanto ou quanto nervoso nos seus movimentos e Barley bastante rgido, o que explica o receio dos informadores de que Barley estivesse bbedo e a deciso um tanto ou quanto estranha de o fotografarem
- como se, congelando aquele momento, pudessem por artes mgicas devolv-lo  sobriedade. E como esta  a ltima fotografia do seu processo, bem pode o leitor imaginar com que ateno ela foi esquadrinhada. Barley tem Zapadny nos seus braos e h uma fora ntida no abrao que os une, pelo menos da parte de Barley. Na minha imaginao - e talvez s na minha -  como se Barley estivesse
* manter de p o pobre coitado, para lhe dar coragem para cumprir
* sua metade do contrato;  como se Barley estivesse literalmente
* insuflar-lhe coragem. E o cor-de-rosa faz um efeito estranhssimo. A sede da VAAP fica numa antiga escola da Rua Bolshaya Bronnaya, no centro de Moscovo. A escola, creio eu, foi construda na
viragem do sculo, com janelas enormes e fachada de estuque. E esta fachada foi recentemente pintada num tom de rosa claro que, na fotografia, se transformou num laranja flamejante, possivelmente devido aos ltimos raios de um sol de fogo. Os dois homens enlaados surgem por isso envoltos por uma medonha aurola escarlate, como se um clarao vermelho os tivesse iluminado naquele momento. Um dos informa-
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dores conseguiu mesmo entrar no haU do edifcio, sob o pretexto de que queria ir ao caf, e tentou fotograf-lo do lado oposto. No entanto, entre ele e o par enlaado, interps-se um indivduo de elevada estatura que assistia  cena no passeio. Junto  banca dos jornais, um segundo homem, to alto quando o primeiro, bebia qualquer coisa de uma caneca, mas sem muita convico, j que os seus olhos estavam tambm postos nas duas figuras que se abraavam no passeio.
Os informadores no tomaram nota da quantidade de pessoas que entraram ou saram da VAAP durante as duas horas em que Barley l esteve, mas como poderiam t-lo feito? No faziam a mnima ideia se os visitantes iam negociar direitos de autor ou segredos de Estado.
Barley regressou ao seu hotel, onde bebeu um copo com um grupo de camaradas ligados ao negcio dos livros, entre os quais Henziger, que, para grande alvio de Londres, pde confirmar que Barley no estava bbedo - bem pelo contrrio, o homem estava perfeitamente calmo e concentrado.
Barley mencionou de passagem que estava  espera de um telefonema de um dos assistentes de Zapadny. "Estamos a dar os ltimos retoques naquela histria do Transiberiano", disse ele a Henziger. E por volta das sete, confessou-se subitamente faminto, de modo que Henziger e Wicklow decidiram lev-lo ao restaurante japons, convidando para a funo duas animadas jovens da Simon & Schuster, segundo Wicklow um verdadeiro antdoto para qualquer tenso, e portanto as companheiras ideais para quem, como Barley, ia ter um encontro muito srio.
Durante o jantar, Barley teve um desempenho to fulgurante que as jovens tentaram convenc-lo a voltar com elas para o Nacional, onde um grupo de editores americanos oferecia uma festa. Barley respondeu que tinha um encontro, mas que talvez ainda fosse  festa, caso o encontro no demorasse muito.
s oito horas em ponto, segundo o relgio de Wicklow, Barley foi chamado ao telefone e recebeu a chamada no restaurante, a menos de cinco metros da mesa onde o grupo estava. Por uma questo de rotina, Wicklow e Henziger apuraram o ouvido para ver se apanhavam as suas palavras. Wicklow lembra-se de ter ouvido "S isso me importa". Henziger cr ter ouvido "Negcio feito", mas admite que pudesse ser "nada feito" ou mesmo "ainda no  uma realidade"'.
Fosse como fosse, Barley veio mal-humorado do telefone e queixou-se a Henziger de que os sacarias continuavam a exigir demasiado dinheiro. Henziger atribuiu aquele mau-humor ao cansao e  tenso, mais do que a qualquer interesse pelo projecto transiberiano.
Um quarto de hora depois, o telefone voltou a tocar e Barley, d6sa feita, regressou sorridente. "Conseguimos!", disse radiante, para Henziger. "Est selado, assinado e em marcha! Eles nunca voltam
1 No original, respectivamente "we've got a deal", "not a deal" e "not yet real", e da a confuso de Henziger. (N. do T.)
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atrs com a palavra dada." Perante o que Wicklow desatou a bater palmas e Henziger assinalou que "precisvamos de mais uns quantos assim em Moscovo."
Parece no ter ocorrido a nenhum deles que Barley nunca mostrara um entusiasmo to fulgurante perante um acordo editorial. Mas nessa altura Wicklow e Henziger no pensavam noutra coisa seno no grande golpe da noite.
As conversas de Barley ao jantar foram mais tarde reconstitudas com todo o cuidado, mas sem qualquer resultado. Falou muito mas no estava nervoso. O grande tema foi o jazz, o seu dolo Slim Gaillard. Os grandes eram sempre proscritos, defendeu. O que era o jazz seno uma forma de protesto? O jazz tinha regras - acentuou
- mas mesmo essas regras acabavam por ser infringidas pelos improvisadores dignos desse nome.
E toda a gente concordou com ele, claro, claro, viva a diferena, viva a dissidncia! viva o indivduo, abaixo os homens cinzentos! Toda a gente concordou, mas ningum entendeu o verdadeiro significado daquelas palavras. Mas, uma vez mais, porque haveriam de entender?
s nove e dez, com quase duas horas  sua frente, Barley anunciou que ia descansar um bocado para o seu quarto, e alm disso tinha cartas para escrever e uns assuntos para estudar. Tanto Wicklow como Henziger se ofereceram para o ajudarem, j que tinham ordens para no o deixarem sozinho, sempre que uma tal possibilidade se apresentasse. Mas Barley declinou as suas ofertas e nenhum se atreveu a insistir.
- De maneira que Henziger ocupou o seu posto no quarto ao lado e Wicklow instalou-se no hafl, enquanto Barley descansava, embora, na realidade, no lhe tenha sido possvel descansar um segundo que fosse, pois os trabalhos a que se dedicou raiam o herico.
Num breve espao de tempo, ter escrito nada mais nada menos do que cinco cartas, isto para no falar de dois telefonemas para Inglaterra, um para cada um dos seus filhos, ambos escutados em territrio britnico e comunicados depois a Grosvenor Square, ambos sem consequncias operacionais. Barley estava unicamente interessado em saber notcias da famlia e em perguntar pela neta, que tinha quatro anos. Insistiu para que ela fosse ao telefone, mas a criana ou era demasiado tmida ou estava demasiado cansada para poder falar com ele. Quando Anthea, a filha, lhe perguntou corno estava a sua vida amorosa, Barley respondeu "preenchida", resposta que foi considerada invulgar, mas a verdade  que, naquele momento, as circunstncias tambm eram invulgares.
S Ned reparou que Barley nada dissera quanto ao seu regresso a Londres no dia seguinte, mas Ned j era nessa altura uma voz no deserto, e Clive punha seriamente a hiptese de o afastar por completo do caso.
Barley escreveu tambm duas cartas mais breves, uma para Henzi-
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ger e outra para Wicklow. E como ningum as abriu sequer (pelo menos foi isso o que os laboratrios mais tarde concluram) e - o que  ainda mais de realar - o hotel as deixou nos quartos certos s oito horas em ponto da manh seguinte, presumiu-se que tais cartas constituam de algum modo parte do pacote que Barley negociara na VAAP.
As cartas notificavam os dois homens de que, se deixassem calmamente o pas nesse mesmo dia, levando Mary Lou consigo, nada de mal lhes aconteceria. Para alm do aviso, Barley tinha uma palavra de conforto para ambos.
"Wickers, h em si um verdadeiro editor. No o perca de vista!" E para Henziger, "Jack, espero que isto no signifique para si uma
reforma prematura em Salt Lake City. Diga-lhes que a verdade  que nunca teve muita confiana em mim. Se eu prprio no confio em mim, como poderia voc conflar?"
Nada de homilias, nada de citaes a propsito retiradas do seu vasto e desordenado reportrio. Aparentemente, Barley estava a aguentar-se muito bem sem a assistncia da sabedoria alheia.
s dez horas, deixou o hotel acompanhado unicamente por Henziger, e passados minutos estavam nos arrabaldes a norte da cidade, onde Cy e Paddy aguardavam uma vez mais no nosso camio. Desta feita, era Paddy que conduzia. Henziger sentou-se ao seu lado e Barley foi para as traseiras com Cy, despiu o casaco e deixou que Cy lhe colocasse as correias com os microfones e lhe comunicasse as ltimas informaes relativas  operao: a saber, que o avio de Goethe, proveniente de Saratov, tinha chegado a Moscovo  hora prevista; e que uma pessoa correspondendo  descrio de Goethe fora vista a entrar no prdio de Igor quarenta minutos antes.
Pouco depois, as luzes tinham-se acendido no apartamento em questo.
Cy entregou-lhe ento dois livros, o primeiro um paperback de From Here to Eternity, que continha a lista das compras, o segundo, um volume mais gordo, encadernado a couro, o qual dissimulava um sonoflector, activado sempre que se abria a capa do suposto livro. Barley tinha ensaiado com um destes aparelhos em Londres e mostrava-se exmio na sua utilizao. Os microfones que levava consigo estavam sintonizados de molde a anularem os impulsos do aparelho, ao contrrio do que sucedia com os habituais microfones da parede. Barley tambm conhecia os inconvenientes do sonoflector. A sua presena na sala era fcil de detectar. Se o apartamento de Igor estivesse sob escuta, quem ouvisse a conversa aperceber-se-ia imediatamente de que pelo meio havia um sonoflector. Tanto Londres como Langley tinham considerado este risco aceitvel.
O outro risco no tinha sido considerado, e o outro risco era que o aparelho podia cair nas mos dos adversrios. Encontrava-se ainda no estado de prottipo e tinha custado j uma pequena fortuna e vrios anos de investigao.
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s dez e cinquenta e quatro dessa mesma noite, no momento em que abandonava o camio, Barley entregou um envelope a Paddy, dizendo-lhe: "Isto  uma carta pessoal para o Ned, para o caso de me acontecer alguma coisa." Paddy guardou o envelope no bolso interior do bluso. Reparou que o recheio era volumoso e, embora o ambiente de penumbra do camio no o ajudasse muito, apercebeu-se de que no estava endereado.
A descrio mais viva da caminhada de Barley at  porta do bloco de apartamentos no a encontrmos nos relatrios militares de Paddy, e ainda menos no depoimento de Cy perante Haig, mas sim no tom spero do seu bom amigo Jack Henziger, que o escoltou at ao local. Barley no abria a boca, disse ele. Jack tambm no. No lhes dava *eito nenhum que os identificassem como estrangeiros.
" ,
amos lado a lado mas custava-me acompanh-lo", disse Henziger. "O Barley tem uma passada larga, ao contrrio da minha que  curta. Chateava-me que no consegussemos acertar o passo. O prdio era um daqueles monstros de tijolo que eles constroem com uma milha de concreto  volta, de maneira que nos fartmos de andar sem irmos ter a lado nenhum. Bom, pensei eu, isto parece  um daqueles sonhos em que um tipo de farta de correr e vai a ver e no passou do mesmo stio. E ainda por cima estava um ar muito quente. Abrasador. Eu suei imenso, o Barley, no, estava fresqussimo. Estava perfeitamente calmo, disso no h dvida. Estava com um ar porreiro. Finalmente, olhou-me bem nos olhos e desejou-me muita, muita sorte. Estava bem consigo mesmo. Sentia-se que estava."
No entanto, quando lhe apertou a mo, Henziger teve por um momento a sensao de que Barley estava zangado por qualquer razo. Talvez estivesse zangado com ele., pois, na semi-obscuridade da entrada, parecia determinado a evitar o olhar de Henziger.
"Mas depois pensei, se calhar ele est  chateado com a Ave Azul por o tipo o ter metido nisto. E pensei ainda, se calhar o tipo est chateado com ns todos, s no o diz porque  demasiado educado para o fazer. Quer dizer, o que parecia  que ele estava a comportar-se bem  inglesa, muito nas calmas, muito contido, guardando tudo para si mesmo."
Noventa segundos depois e quando se preparavam para partir, Cy e Paddy viram uma silhueta  janela de Igor. Concluram que se tratava de Barley. A mo direita compunha o cortinado, e esse era o sinal combinado para dizer que tudo estava bem. Foram-se ento embora no camio, deixando a vigilncia do apartamento aos irregulares, que se revezaram por turnos durante toda a noite, mas a luz no apartamento manteve-se acesa e Barley no saiu.
Uma teoria entre centenas diz que Barley nunca subiu ao apartamento, e que o levaram imediatamente at s traseiras do edifcio, por onde saiu, e que a figura  janela era um dos homens deles, por exemplo um dos calmeires que aparecem na fotografia tirada essa tarde no foyer da VAAP. Nunca me pareceu que estas teorias expli-
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cativas tivessem algum interesse, ao contrrio do que pensavam os peritos, e l teriam as suas razes. Quando um problema ameaa afogar-nos, no h nada como os pormenores irrelevantes para nos manterem  superfcie.
As especulaes acerca do desaparecimento de Barley comearam lentamente e foram ganhando forma ao longo da noite. Os optimistas como Bob, e durante algum tempo Sheriton, porfiaram at nascer o dia e mesmo depois. Barley e a Ave Azul tinham-se embebedado outra vez, insistiam teimosamente a fim de se animarem uns aos outros. Era a repetio de PeredeIkino, sem dvida, um verdadeiro remake, confiavam-se mutuamente.
Depois, inventaram uma histria de rapto que no durou muito tempo, j que pouco depois das cinco e meia da manh - graas  diferena horria - Henziger e Wicklow receberam as suas cartas e Wicklow, sem excessivo espalhafato, apanhou um txi para a Embaixada Britnica, onde os guardas soviticos o deixaram passar sem quaisquer problemas. Paddy enviou imediatamente um flash em cdigo para Ned, que o leitor facilmente decifrar. Entretanto, Cy enviava idntica mensagem para Langley, Sheriton e toda a gente que ainda quisesse ouvir um homem cuja estada em Moscovo corria o risco de acabar muito em breve.
Sheriton encarou as notcias com a sua fleuma habitual. Leu o telegrama de Cy, olhou  sua volta e apercebeu-se de que toda a equipa tinha os olhos nele - as meninas elegantes, os rapazes engravatados, Bob, o, leal Bob, o ambicioso Johnny com os seus olhos de pistoleiro. E no campo britnico, Ned, eu prprio e Brock, j que Clive,  cautela, descobrira que tinha assuntos urgentes a tratar longe dali. Havia muito de actor em Sheriton, tal como alis em Henziger, e foi com o actor que nos confrontmos nesse momento. Levantou-se, comps a cintura, massajou o rosto como que suspeitando que precisava de barbear-se.
"Muito bem, rapazes.  melhor arrumarmos a loja at  prxima. " Depois, encaminhou-se na direco de Ned, que continuava sentado  sua secretria, estudando o telegrama de Paddy, e ps-lhe uma mo sobre o ombro.
"Ned, um dia destes convido-o para jantar", disse. Seguiu ento na direco da porta, tirou do cabide a sua gabardine nova, vestiu-a, abotoou-a e saiu, seguido pouco depois por Bob e Johnny.
Outros houve que no se retiraram com tamanha elegncia. Especialmente os bares do dcimo segundo andar.
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Uma vez mais foi nomeada uma comisso de inqurito. Apontar responsveis. Nenhum nome poupado. H cabeas que vo rolar.
A Presidente, o Chefe, a Secretrio, este vosso Palfrey. Um outro propsito destas comisses, descobri entretanto, consiste em conferir uma aparncia de solenidade a eventos que nunca tiveram nenhuma. E que solenes que ns ficmos.
Os primeiros a ser ouvidos, como de costume, foram os tericos da conspirao, rapidamente recrutados no Foreign Office, no Ministrio da Defesa e num organismo especialmente antiptico denominado Consultores Informais, formado por cientistas ligados  indstria e s universidades, que se imaginavam espies de fim-de-semana. Estes espiocratas amadores dispunham de enorme influncia nos bazares de Whitehali, e a comisso presenteou-os com uma ateno desmedida. Um professor de Edimburgo, durante o seu depoimento, retribuiu-nos a ateno enchendo por cinco vezes o seu cachimbo e quase nos gaseando a todos, mas ningum foi capaz de lhe pedir para apagar a chamin.
A primeira grande questo consistia em saber o que aconteceria a seguir. Haveria expulses, um escndalo? Que sucederia  nossa sucursal em Moscovo? Tinha havido problemas com os irregulares?
O camio reservado s transmisses, embora propriedade sovitica, era um problema americano, e o seu sbito desaparecimento lanou uma inquietao silenciosa entre as hostes que tinham defendido o seu uso,
A questo de saber quem  expulso e a troco de qu nunca  uma questo simples, j que os chefes de posto em Moscovo, Washington e Londres so actualmente declarados aos respectivos pases anfitries. Ningum no Kreralin tinha quaisquer iluses acerca das actividades de Paddy ou de Cy. As suas actividade de fachada visavam proteg-los, no do adversrio, mas sim da curiosidade do mundo real.
Fosse como fosse, a verdade  que nenhum deles foi expulso. Ningum foi expulso. Ningum foi preso. Quanto aos irregulares, cujos servios foram suspensos indefinidamente, continuaram tranquilamente nos seus empregos oficiais.
Os panditas ocidentais apressaram-se a considerar como extremamente significativa a ausncia de qualquer gesto retaliatrio.
Um lance conciliatrio em tempo de glasnot? Um sinal muito claro de que a Ave Azul era um gambito que tinha por nico fim obter a lista das compras americana?
Ou um sinal menos claro de que o material Ave Azul acertava no alvo, mas era demasiado embaraador para que o reconhecessem?
As linhas da batalha estavam definidas. Pombas e falces de ambos os lados do Atlntico reocupavam com o maior jbilo as suas trincheiras, separadas pela fronteira que Ned definira.
Se os soviticos nos mandam um sinal de que o material  bom, ento  evidente que o material no presta, diziam os falces.
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* vice-versa, diziam as pombas.
* vice-versa outra vez, diziam os falces. Papis escritos, guerras travadas. Promoes, exoneraes, penses, medalhas, transferncias vexatrias, baixas de posto. Mas quanto a consenso, nada. Apenas o costumeiro triunfo dos mais fortes, sob o disfarce da deduo racional.
Na nossa comisso s Ned recusou o jogo. Parecia alegremente decidido a aceitar a crtica. "A Ave Azul foi sincera, Barley foi sincero", no se cansava de repetir, sem nunca perder o bom-humor "Ningum enganou ningum. Ns  que nos enganmos a ns mesmos. Ns  que fomos desonestos. No a Ave Azul".
Poucos dias depois de ter proferido esta opinio, acordou-se que Ned sofria de esgotamento e a sua presena passou a ser menos solicitada.
Ah, e foi tomada nota. Na passiva, j que na activa os verbos tm a desgradvel particularidade de trairem o sujeito. Nota muito sria. E foi tomada por toda a gente.
Foi tomada nota de que Ned no cumprira o dever de avisar o dcimo segundo andar da fuga bbada de Barley aps o seu regresso de Leninegrado.
Foi tornada nota de que Ned tinha requisitado toda a sorte de recursos nessa mesma noite, requisio que nunca explicara, e entre os requisitados figuravam Ben Lugg e os servios da chefe das escutas, Mary, que conseguiu reduzir a p a sua leadade a um camarada para oferecer  comisso uma sinistra descrio do despotismo de Ned. Ento no  que pediu escutas ilegais! Imaginem s! Infraces nas escutas! Que desplante!
Mary foi aposentada pouco tempo depois e vive agora em Malta, para sempre enraivecida. Teme-se que esteja a escrever as memrias.
Foi tambm tomada nota, ainda que com um "lamentamos" atrs, da discutvel conduta do nosso Conselheiro Legal de Palfrey - repare-se que me devolveram o de -, que se tinha eximido a justificar o uso que fizera da autoridade delegada do Secretrio do Interior, embora sabendo que isso estava previsto nas Normas Regulamentadoras das Actividads dos Servios aps as alteraes aprovadas por etcetera e no pragrafo no sei quantos de um contestvel protocolo do Ministrio do Interior.
No meu caso, porm, encontraram uma atenuante: o calor da batalha. O Conselheiro Legalno foi aposentado, to pouc procurou refgio em Malta. Mas tambm no foi exonerado. Na melhor das hipteses, tratava-se de um perdo parcial. Um Conselheiro Legal no devia estar to envolvido numa operao. Um uso inadequado das atribuies do Conselheiro Legal. A palavra imprudente andou de boca em boca.
Foi tambm tomada nota, e igualmente com a devida larnentao,
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que o mesmo Conselheiro Legal redigira, para que Clive assinasse, um documento atestando que Barley era a melhor das criaturas em todo o universo, menos de quarenta e oito horas antes do desaparecimento de Barley, documento que permitiu que Barley ficasse com a listas das compras, embora presumilvelmente por pouco tempo.
Nas minhas horas livres, redigi os termos da exonerao de Ned e imaginei com inquietao o que me aconteceria se fosse exonerado. A vida nos Servios pode ter as suas limitaes, mas s a ideia de uma outra vida, l fora, sem os Servios, deixava-me positivamente aterrado.
A notcia do passamento da Ave Azul constituiu um contratempo temporrio nas deliberaes da nossa comisso, a qual, no entanto, no tardou a recuperar. A desagradvel notcia ocupava seis linhas no Pravda, e fora cuidadosamente elaborada para no parecer nem demasiado grande nem demasiado pequena. Referia a morte aps doena do distinto fsico professor Yakov Savelyev, de Leninegrado, e enumerava as suas vrias condecoraes. Tinha morrido de causa natural - garantia o comunicado - pouco tempo depois de ter pronunciado uma importante conferncia na Academia Militar de Saratov.
Ned meteu folga mal soube da notcia, e a folga transformou-se em trs dias e numa gripe ligeira. Mas os tericos da conspirao gozaram que se fartaram.
Savelyev no tinha morrido. J estava morto h muito tempo e a verso com que ns tnhamos negociado era muito simplesmente um impostor.
Savelyev continuava a fazer aquilo que sempre fizera: dirigia a Seco de Desinformao Cientfica do KGB.
Estava provado que o material era verdadeiro, no estava nada provado.
No valia nada. Era ouro puro. Era fumo. Era uma sincera mensagem de paz que nos fora enviada pelos moderados no seio das classes dirigentes soviticas, apesar dos tremendos riscos que isso representava. O seu objectivo era mostrar-nos que a espada nuclear sovitica enferrujara na bainha e que o escudo nu_ clear sovitico tinham mais buracos do que uma peneira.
Era um plano diablico para convencer os americanos mais timoratos a largarem o gatilho nuclear.
Em suma, o bolo chegava para todos os dentes.
E como na relao simbitica que existe entre estados beligerantes, tudo o que ocorre num deles desencadeia no outro uma reaco automtica e inteiramente dependente do facto que a provocava, depres-
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sa se desenvolveu uma contra-indstria, que reescreveu a histria da participao americana no caso Ave Azul.
Langley sempre soube que a Ave Azul no prestava, dizia a contra-indstria.
Ou que Barley no prestava. Ou que nenhum deles prestava. Sheriton e Brady tinham jogado um jogo duplamente duplo, dizia a contra-indstria. O seu nico objectivo era espalhar o fumo convicentemente e ganhar mais uns quantos pontos aos russos na interminvel luta pela Margem de Segurana.
Sheriton era um gnio. Brady era um gnio. Todos eles eram uns gnios. Todos! Sheriton tinha dado um golpe notvel. Brady tambm. A Agncia estava a abarrotar de estrategas brilhantes, completamente diferentes dos seus homnimos do mundo pblico, que no passavam de umas personagens apagadas. Que Deus proteja a Agnca. Que seria de ns sem ela?
Como se isto no bastasse, novas fiadas de hipteses vieram juntar-se s antigas. Passou a constar, por exemplo, que Sheriton fora um instrumento involuntrio do Pentgono e da Defesa. Estes  que tinham preparado a lista das compras, que no passava de uma falsificao, e tanto o primeiro como a segunda sabiam desde o princpio que a Ave Azul era um espio.
E cada novo boato tinha de ser sucessivamente levado a srio, ainda que o nico mistrio digno desse nome consistisse em saber quem o tinha fabricado ou porqu. A resposta, em muitos casos, parecia ser Russel Sheriton, que naturalmente tratava de defender a sua pele,
Quanto  Ave Azul, se no tinha morrido de causa natural, decerto estava a morrer agora de causa natural.
S Ned, regressado da sua viglia auto~imposta, cometeu de novo o erro crasso de dizer a verdade provvel. "A Ave Azul era um homem sincero e ns matmo-lo", disse ele sem rodeios, na primeira reunio em que participou. Para a seguinte j no foi convidado.
Entretanto as nossas buscas prosseguiam sem afrouxar. Procurvamos Barley por todo o lado, ainda que alguns de ns ficassem contentes por no o encontrarmos. Sorrateiramente aproximmo-nos dele, sorrateiramente andvamos  volta dele, demasiadas vezes estivmos longe dele. Mas ns ramos homens honrados. Homens que nunca afrouxavam. Que nunca deixavam cair os braos.
Mas que teria Barley negociado? E a troco de qu? Que quereriam os russos comprar a um homem que, at ento, precisara apenas de um almoo dspendioso, pago muito provavel-
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i@iente do seu prprio bolso, para se convencer de uma perda irreversivel?
 que afinal ele estava literalmente feito! Feito e desfeito, desfeito e em cacos. J estava feito no momento em que fora ter com eles! E ele sabia-o.
Que tinha ele para lhes oferecer que eles no pudessem obter?  que havia sempre a hiptese de o torturaram, de o submeterem s prticas mais abominveis, a todo um catlago de agonias, das quais por vezes se regressa, mas para um inferno inimaginvel. Os russos podiam estar a retocar a sua imagem, mas ningum acreditava que fossem abandonar, de um dia para o outro, mtodos que lhes tinham sido to teis durante milnios.
A primeira e a mais bvia das respostas era a lista das compras. Barley podia dizer muito simplesmente aos russos que s conseguiria obter a lista da compras depois de dispor das necessrias garantias. E que preferia passar o resto da vida numa panela com azeite a ferver a dar-lhes de mo beijada a lista das compras.
E eles acreditaram nele. Perceberam que ficariam sem a lista das compras se no jogassem o jogo dele. E porque os homens cinzentos, de ambos os lados, ficam to assustados com a abnegao como com o amor, os frgeis sbios do KGB preferiram negociar com o Barley que entendiam, em vez de se confrontarem com o Barley que no podiam compreender.
Sabiam que ele tinha o poder de lhes dizer que no. "No, no vendo a lista das compras. "No, no vou ao apartamento de Igor enquanto no me tiverem dado a vossa mais que solene palavra de honra."
Ao ouvi-lo, eles sabiam que era ele quem tinha o poder. E tal como ns, isso deixava-os um tanto ou quanto embaraados.
E Barley - como ele prprio dissera a Henziger e a Wicklow durante o jantar - nunca tinha encontrado um russo que no cumprisse com a palavra dada. Claro que nesse momento ele no estava a falar de poltica, mas apenas de negcios. E em troca? Que comprou Barley com o que vendeu?
Katya. Matvey. Os gmeos. No foi mau negcio. Pessoas reais em troca de argumentos irreais, E para ele? Para ele, nada. Nada que pudesse perturbar a fora da sua reivindicao. Nada para ele, porque quem estava em causa eram as pessoas que tomara  sua proteco.
E, a pouco e pouco, foi-se tomando claro que Barley, por uma vez na vida, tinha arrancado um contrato de primeira. Se a Ave Azul era uma causa perdida, Katya e os filhos exibiam todos os sinais de serem uma causa salva. Katya permaneceu na Outubro, foi vista ocasionalmente em recepes, era a voz dela que atendia o telefone de casa e do escritrio. Os gmeos continuaram a ir para a escola e a cantar as
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mesmas canes malucas, E Malvey continuou a entregar-se s suas felizes divagaes,
No admira que entretanto uma nova e notvel teoria viesse juntar-se s demais. "Os soviticos lanaram uma operao de encobrimento para consumo interno", constava. "No querem que se espalhem as revelaes de a Ave Azul acerca da incompetncia generalizada. "                                                 1
De maneira que, durante algum tempo, o disco mudou e o material da Ave Azul foi considerado genuno. Mas no por muito tempo.
"Isso  o que eles querem que ns pensemos", gritou uma voz poderosa.
De maneira que voltmos rapidamente ao disco antigo, porque ningum queria passar por parvo.
Mas o negcio de Barley estava a dar os seus frutos. Katya no perdeu os privilgios que tinha, o carto vermelho, o apartamento, o emprego. Nem mesmo o seu belo rosto pareceu muito afectado. De inicio,  certo, os relatrios falavam da palidez da viva, de uma aparncia descuidada, de longas ausncias do trabalho. E alm disso  bvio que ningum prometera a Barley que ela seria dispensada de fazer uma declarao voluntria acerca do seu relacionamento com a falecida Ave Azul.
Porm., gradualmente e aps um apropriado perodo de recolhimento, Katya regressou aos seus antigos cenrios com o mesmo entusiasmo de sempre.
E quanto a Barley? Que foi feito dele? Quente, primeiro, frio, depois, muito, muito frio, por fim: assim evoluram as nossas buscas.
Poucos dias depois da feira do livro, as tias receberam uma carta formal de resignao, carimbo dos correios de Lisboa, carta com todos os traos habituais do estilo de Barley - estava cansado dos livros, a indstria tornara-se demasiado grande, era tempo de ele se dedicar a outras coisas enquanto tinha uns anos  sua frente.
Quanto aos planos imediatos, propunha-se "extraviar-se durante algum tenipo" e explorar locais invulgares. Era portanto bvio que j no se encontrava na Rssia.
Quer dizer, aparentemente bvio. No fim de contas, foi isto mesmo que ele pensou: aparentemente bvio. E o que pensou a bonita empregada da Agncia de Viagens Barry Martin, que tem os seus escritrios no Mezhdunarodnaya. Mr. Scott Blair decidira seguir para Lisboa, em vez de regressar a Londres, disse ela. Um estafeta da VAAP comprou-lhe o bilhete. A empregada fez as necessrias alteraes e marcou-lhe lugar no vo directo da Aerolflot, que partiria s 11 h20 de segunda-feira, chegada a Lisboa s 15 h30, paragem em Praga.
E algum usou esse bilhete. Um homem alto, no falava com nin-
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gum, igualzinho a Barley, ou quase. Talvez to alto como os homens que assistiram  cena  porta da VAAP. De qualquer modo, demo-nos ao trabalho de o controlar. E controlmo-lo em toda a linha, e a linha s parou quando chegou a Tina, a mulher que tratava da casa de Barley em Lisboa. Sim, sim, tivera notcias dele, disse ela a Merridew
- um bonito postal de Moscovo dizendo que viriam passar umas frias a Lisboa, ele e uma amiga que conhecera recentemente.
Merridew ficou profundamente aliviado ao saber que afinal Barley ainda no tinha regressado  sua zona.
Ao longo dos meses seguintes, foi-se esboando uma imagem da vida do desaparecido, imagem que no demorou muito tempo a diluir-se.
Um traficante de droga alemo ocidental, que fora preso na URSS, ouviu dizer que um homem correspondendo  descrio de Barley se encontrava numa priso perto de Kiev, sob interrogatrio. Era um tipo bem-disposto, disse o alemo. Benquisto entre os reclusos. Um tipo livre. At os guardas lhe sorriam, de m vontade mas sorriam.
Um casal francs dado a aventuras, que regressava ao seu pas, foi ajudado por um "ingls alto e muito simptico", quando o seu carro chocou com uma limousine sovitica, devido a uma coliso em cadela perto de Smolensk. Ningum ficou ferido. Um metro e oitenta, cabelo castanho farto, muito educado, com um riso franco, e vigiado por uns russos enormes.
E certo dia, perto do Natal, pouco depois de Ned ter abandonado formalmente a Casa da Rssia, veio uma mensagem de Havana, citando uma fonte cubana segundo a qual havia um ingls em regime de deteno especial numa priso para presos polticos perto de Minsk. Um ingls que se fartava de cantar.
Cantava?, perguntmos ns, indignados. Cantava o qu? Cantava Satchmo, retorquiu Havana. A nossa fonte era um fantico do jazz, como o ingls.
E o texto da carta para Ned? No deixa de ser um mistrio o facto de a carta nunca ter ido parar ao processo, e na histria oficial do caso Ave Azul no encontramos nenhuma referncia  sua existncia. Creio que Ned a conservou muito simplesmente em seu poder. Atribua-lhe demasiada importncia para a passar para outras mos, para lhe dar o destino dos arquivos.
Bom, este deveria ser o fim da histria, ou melhor, a histria no deveria ter fim nenhum. Diziam os entendidos que Barley tinha todas as condies para se juntar aos outros espectros que assombram os atalhos mais negros da sociedade sovitica - os esmagados e apagados desertores e espies, os negociados e os indignos de qualquer confiana, com as suas patticas esposas e os seus emaciados zela-
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dores, partilhando raes minguantes de delcias ocidentais e memrias ocidentais.
Era este de facto o ritual que julgvamos esperar Barley, quando subitamente um telegrama urgente do sucessor de Paddy nos informou de que um ingls alto, de cabelo castanho-alourado, tinha sido visto - e no s visto como tambm ouvido - a tocar saxofone num bar da cidade velha que acabara de abrir, um ano exacto aps o seu desaparecimento.
Clive foi arrancado ao sono, mensagens voaram entre Londres e Langley, pediu-se ao Foreign Office que desse a sua opinio. De facto deu. Uma opinio por uma vez inequvoca - no temos nada a ver com isso e vocs tambm no. Parece que achavam que os russos estavam melhor equipados do que ns para aaimarem Barley. Afinal os russos j tinham dado boas provas.
No dia seguinte chegou um segundo telegrana, desta feita proveniente de Lisboa, do gordo Merridew. A empregada de Barley, Tina, com quem Merridew tinha mantido um relacionamento relutante, recebera instrues para preparar o apartamento para a chegada do patro.
Mas como  que recebeu instrues?, perguntou Merridew. Pelo telefone, respondeu ela, o Senhor' Barley tinha-lhe telefonado.
Mas telefonou-lhe donde, sua parva? Tina no perguntara e Barley no dissera. Por que haveria ela de perguntar onde  que ele estava, se ele chegaria a Lisboa dentro de dias?
Merridew ficou estupefacto. E no foi o nico. Avismos os americanos, mas Langley fora acometida de amnsia colectiva. S faltava perguntarem, quem? Barley qu? Generalizou-se entre o pblico a ideia de que Servios como o nosso infligem violentas represlias a todos aqueles que traem os seus segredos. Bom, por vezes isso corresponde  verdade, mas raramente os visados so pessoas da classe de Barley. Neste caso, porm, ficou imediatamente claro que ningum - e ainda menos Langley - tinha o mnimo desejo de transformar num farol cintilante uma pessoa que dariam tudo para esquecer. O melhor ser suborn-lo, concordaram todos - ah, e no metam os americanos nisso.
Subi a escada apreensivo. Declinara a proteco de Brock e a tbia oferta de ajuda de Merridew. As escadas eram escuras, ngremes e inspitas e desagradavelmente silenciosas. Caa a noite mas ns sabamos que ele estava em casa. Toquei  campainha mas como no a ouvi tocar, bati  porta. Era uma porta pequena e macia, com almofadas compactas. Fez-me lembrar a casa do marinheiro na ilha. Ouvi
' Em portugus, no original. (N. do T.)
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passos l dentro e recuei imediatamente, ainda hoje no sei bem porqu, mas suponho que era como que uma espcie de medo de animais. Como  que ele estaria? Violento, irado ou extremamente efusivo? Atirar-me-ia pelas escadas abaixo ou dar-me-ia um abrao afectuoso? Trazia comigo uma pasta e lembro-me de a ter mudado para a mo esquerda, como se estivesse a preparar-me para me defender. Embora, e Deus  testemunha, eu no seja propriamente um homem dado a lutas. Cheirou-me a pintura recente. A porta no tinha ralo e caa rente ao dintel de ferro. Ele no tinha qualquer hiptese de saber quem batia  porta antes de a abrir. Ouvi o trinco a deslizar na fechadura. A porta abriu-se.
"Ol, Flarry", disse ele. "Ol, Barley", respondi eu. O fato que eu trazia era escuro e leve, mas azul, pois antes azul que cinzento. Disse, "Ol, Barley", e fiquei  espera do seu sorriso.
Estava mais magro e tinha um ar mais vigoroso e desempenado, de onde resultava que parecia muito mais alto e a verdade  que eu dava-lhe pelo ombro. Voc  um viajante cansado, lembro-me de ter pensado enquanto esperava. A expresso era de Harmali. Teremos de aprender a ser viajantes cansados quando chegar a hora, dizia ela noutros tempos. Os velhos gestos espontneos e soltos tinham-no abandonado. A disciplina dos pequenos espaos produzira os seus efeitos. Era agora uma criatura contida, alinhada. Vestia uns jeans e uma camisa de cricket com as mangas arregaadas at ao cotovelo       * Tinha salpicos de tinta branca nos antebraos. A testa tambm no escapara, pois estava besuntada de tinta. Vi um escadote atrs dele e uma parede meio-pintada de branco, e no meio da sala pilhas de livros e discos parcialmente protegidos por um pano branco.
"Ento, Harry, veio jogar uma partinha de xadrez?", perguntou ele, ainda sem sorrir.
"S queria falar consigo, se me deixasse", disse eu, como poderia ter dito a Harmali ou a qualquer outra pessoa a quem quisesse propor a paz das meias tintas.
"Oficialmente?" "Bom ... "
Ele estudava-me como se no me tivesse ouvido, abertamente e sem pressas, j que tempo era coisa que no lhe devia faltar -
e estudava-me como, creio eu, se estudam os companheiros de cela ou os interrogadores num mundo em que as mais vulgares cortesias tendem a ser ignoradas.
Mas no havia no seu olhar atento nenhum abatimento ou vergonha, nenhuma arrogncia ou manha. Pelo contrrio, parecia ainda mais lmpido do que noutros tempos, como se se tivesse instalado para sempre nas regies por onde ocasionalmente vagueara.
"Tenho ali uma zurrapa no frigorfico, no sei se vai gostar", disse ele, e recuou para me deixar passar, sem tirar os olhos de mim. Depois, fechou a porta.
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Mas continuava sem sorrir. O seu estado de esprito constitua um n-strio para mim. Senti que no entenderia minimamente aquele homem, a menos@que ele decidisse abrir-se. Por outras palavras, compreendia tudo o que estava dentro do meu alcance compreender.
O resto, era uma infinidade.
Havia tambm panos brancos sobre as cadeiras, mas ele retirou-os e dobrou-os como se fossem os seus lenis. As pessoas que alguma vez foram presas - conclu ao longo de anos e anos de experincia - demoram muito tempo a libertar-se do seu orgulho.
"Diga-me ento o que pretende", disse ele, servindo vinho de garrafo.
"Pediram-me para pr tudo a limpo", disse eu. "O que eles querem  uma quantas respostas suas.     'Em troca, do-lhe as garantias necessrias." J me sentia perdido. "Queremos saber se podemos ajudar com alguma coisa", acrescentei. "Se precisa de alguma coisa. Se podemos chegar a um acordo quanto ao futuro, etc., etc."
"Tenho todas as garantias de que preciso, obrigado", retorquiu ele afavelmente, pegando na nica palavra que parecia ter captado o seu interesse. "No precisam de acompanhamento. Prometi que no abriria a boca." Finalmente um sorriso. "Segui o seu conselho, Harry. Agora sou um amante  distncia, como voc."
"Estive em Moscovo", disse eu, tentando desesperadamente orientar o nosso dilogo. "Visitei os locais. Estive com as pessoas. E usei o meu prprio nome."
"E qual  esse nome?", perguntou-me com a mesma urbanidade. "O seu nome. Qual ?"
"Palfrey", retorqui, omitindo o de. Sorriu uma vez mais, um sorriso compreensivo ou agradecido. "Os Servios mandaram-me  Rssia para ver o que era feito de si. No foi uma visita oficial, embora ao mesmo tempo o fosse, digamos assim. Perguntei aos russos por si. Tentei esclarecer as coisas. Pensmos que era tempo de sabermos o que lhe tinha acontecido. De sabermos se o poderamos ajudar."
E de sabermos se eles estavam a cumprir com as regras, podia ter acrescentado. De termos a garantia de que ningum em Moscovo ia entornar o caldo. E entornar o caldo significava fugas de informaes mais ou menos idiotas ou golpes publicitrios mais ou menos conseguidos.
"J lhes contei o que me aconteceu", disse ele. "Nas cartas que mandou? Nas cartas para Wicklow, para Henziger e para os outros?"
"Sim." "Bom, claro que ns sabamos que as cartas tinham sido escritas sob coaco, se  que foi voc que as escreveu, Pense por exemplo naquela carta do desgraado do Goethe."
"Tretas", retorquiu. "Escrev-as em inteira liberdade."
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Aproximei-me um pouco mais do cerne da minha mensagem. E da mala, que estava no cho ao meu lado.
"Em nossa opinio, voc comportou-se de forma muito honrosa", disse, retirando da mala um processo e abrindo-o no meu colo. "Toda a gente fala sob coaco e voc no podia ser excepo. Estamos-lhe gratos pelo que fez por ns e temos conscincia do preo que teve de pagar. Profissionalmente e pessoalmente. Sentimo-nos na obrigao de lhe proporcionar uma compensao inteiramente justa. Com condies, claro. Poder ser uma soma avultada."
Onde tinha ele aprendido a observar-me assim? A fechar-se com tanta firmeza? A inculcar tenso nos outros, tenso a que ele parecia imune?
Li-lhe as condies, que pareciam o inverso exacto das de Landau. Viveria fora do Reino Unido e s entraria no pas com o nosso consentimento prvio. E para um acordo completo e definitivo, a condio mais importante - o seu silncio perptuo - expressa ex abundanti cautela e segundo meia dzia de frmulas diferentes. E imenso dinheiro, basta assinar aqui, desde que - condio sine qua non -
no abra a boca.
No entanto, Barley no assinou. J estava farto. Limitou-se a afastar a minha arrogante caneta.
"A propsito, o que  que vocs fizeram ao Walt? Trouxe um chapu para ele. Parece um abafafor de bule com listras de pele de tigre. Mas ainda no conseguir encontrar o raio do chapu."
"Se mo mandar, farei com que lho entreguern", disse eu. Barley entendeu-me nas entrelinhas e lanou-me um sorriso triste. "Coitado do Walt. Correram com ele, no foi?"
"Na nossa profisso chega-se depressa ao topo", retorqui, sem conseguir olh-lo nos olhos. Mudei rapidamente de assunto. "Creio que j sabe que as suas tias venderam a editora  Lupus Books."
Desatou a rir - no era o mesmo riso desenfreado de outros tempos,  certo, mas apesar de tudo era o riso de um homem livre. "Jumbo! Grande sacana! Conseguiu embarretar a Vaca Sagrada! Quem se fia nele est bem arranjado!"
Mas Barley aceitou bem a ideia. A deciso parecia agradar-lhe sinceramente, j que era uma deciso correcta. Como toda a gente do meu ofcio, assustam-me as pessoas de bons instintos. Mas fui capaz de entender a sua tranquilidade. Barley parecia ter desenvolvido uma tolerncia absoluta.
Ela h-de vir um dia, disse-me enquanto contemplava o porto. Prometeram-me que um dia vir.
No ser para j, depende deles, no de mim, acrescentou. Mas h-de vir, disso no tinha dvidas. Talvez este ano, ou para o prximo, disse. Mas o montanhoso ventre dos burocratas russos acabaria por inchar e dar  luz um rato de compaixo. Barley no duvidava. Seria um movimento gradual, mas o rato acabaria por nascer. Tinham-lhe prometido.
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"Eles no faltam ao prometido", garantiu-me e, perante to arreigada confiana, seria grosseria contradiz-lo. Mas havia algo mais que me impedia de exprimir o meu costumeiro cepticismo. Era Hannali, novamente. Senti que ela me implorava que o deixasse viver com a sua humanidade, ainda que eu tivesse destrudo a dela. "Tu achas que as pessoas nunca mudam porque tu nunca mudas", disse-me ela um dia. "S te sentes seguro, quando desiludido."
Convidei-o para jantar, mas ele pareceu no me ouvir. Continuava  janela, fitando as luzes do porto enquanto eu fitava as suas costas. A mesma pose em que ele se pusera quando o entrevistmos pela primeira vez em Lisboa. O mesmo brao segurando o copo. A mesma pose da ilha, quando Ned lhe disse que tinha ganho. Mas mais firme. Falava de novo comigo? Apercebi-me que sim. Estava a ver o navio deles chegando de Leninegrado, disse ele. Estava a v-Ia descendo  pressa o passadio, correndo para ele com os filhos ao lado. Imaginava-se sentado com o tio Matvey sob a rvore enorme do parque em frente, no mesmo banco onde se tinha sentado com Ned e Walter nos tempos em que ainda no era um homem. Ouvia Katya traduzindo as hericas histrias de resignao que Matvey contava. Acreditava em todas as esperanas que enterrei comigo quando escolhi o bastio seguro da infinita descrena em vez do perigoso caminho do amor.
Consegui convenc-lo a jantar comigo e teve a amabilidade de me deixar pagar. Mas nada mais arranquei dele. No assinou, no aceitou nada, no quis nada, no cedeu nada, no se comprometeu a nada. E mandou-nos a todos ns, sem qualquer raiva, para o Diabo.
Mas a sua tranquilidade era magnfica. A sua voz, tudo nele ignorava a estridncia. Mostrou-se atento aos meus sentimentos, ainda que fosse demasiado educado para inquirir sobre eles. Nunca lhe falei de Hannali, e sabia que nunca poderia faz-lo, porque o novo Barley no teria pacincia para me ouvir falar de uma situao que nunca mudava.
Quanto ao resto, pareceu interessado em oferecer-me a sua histria, a fim de que eu pudesse levar alguma coisa para os meus amigos. Conduziu-me de volta ao seu apartamento e insistiu para que bebessemos um ltimo copo e repetiu que eu no tinha culpa de nada.
E falou. Para mim. Para ele mesmo. Falou. Uma infinidade de palavras. Contou-me a histria tal e qual como eu tentei cont-la aqui, do seu ponto de vista mas tambm do nosso. Falou at o dia
nascer e quando me fui embora, s cinco da manh, disse-me que talvez fosse acabar de pintar a parede antes de se deitar. H muita coisa a tratar, explicou. Carpetes. Cortinas. Estantes.
"Vai tudo correr bem, Harry", assegurou-me enquanto me acompanhava  porta. "Diga-lhes isso mesmo."
Espiar  esperar.
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